Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2018

Um jantar no Muito Bey

 

Jantar no Muito Bey, um (recomendado) restaurante libanês próximo da Praça de São Paulo, em Lisboa, acabou por ser mais do que uma experiência gastronómica, porque foi um pretexto para relembrar e contar histórias antigas dos tempos que passei na Palestina. Desde essa altura que não comia Homus, o célebre alimento árabe, que consiste em grão cozido moído, com mais alguns ingredientes e azeite. É comido com pão típico daquela zona do Médio Oriente e faz parte diariamente das refeições dos árabes do Líbano à Faixa de Gaza. No Muito Bey também é possível saborear molho de iogurte enquanto acompanhamento, um hábito enraízado na gastronomia palestiniana. No entanto, na Cisjordânia e Faixa de Gaza usa-se o iogurte simples e natural, sem qualquer ingrediente, para servir de "molho" no arroz branco ou noutros alimentos. Na carta de vinhos, apenas uma única marca libanesa, mas suficiente para o paladar ter uma sensual amostra de Bekaa Valley. Aquele vale fértil fica a poucas dezenas de quilómetros a leste de Beirute, que é a principal zona agrícola do Líbano, influenciada por condições climatéricas específicas, com o tempero dos ares mediterrânicos. É uma zona conhecida pelas suas vinhas milenares, sendo o Domaine des Tourelles, o vinho que bebi no Muito Bey, uma das principais marcas de Bekaa Valley. Nesta zona habitam sobretudo libaneses xiitas, que convivem com as minorias cristã, sunita e drusa. E embora o ambiente daquele vale seja propício ao turismo e aos bons prazeres da gastronomia, nos últimos anos, milhares de sírios xiitas têm ali procurado refúgio, fugindo à guerra no seu país. Neste momento, o Líbano tem cerca de 1,5 milhões de sírios, muitos deles a viver em campos de refugiados em Bekaa Valley. Em Janeiro de 2015, o Governo libanês já tinha imposto restrições à entrada de mais sírios, no entanto, o sentimento contra aquela população tem aumentado. Ainda há dias, a revista The Nation escrevia que os refugiados sírios no Líbano encontram-se entre aqueles que não os querem e o cenário de regresso ao seu país de origem em guerra. Reflexões de um jantar Muito B(om)ey.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:45
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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