Domingo, 26 de Maio de 2013

No "day after" ficou tudo na mesma

 

Há uns dias, o Diplomata teve finalmente oportunidade de ver o Margin Call, um filme independente lançado em Janeiro de 2011 no Festival de Sundance, e que retrata o colapso de um banco de investimento de Wall Street, numa clara alusão ao início da hecatombe do sistema financeiro em 2008, com a queda do Lehman Brothers.

 

Um dos aspectos interessantes deste filme prende-se com a humanização de todo o processo que conduziu à implosão do sistema financeiro. Ou seja, a actual crise não teve origem numa falha sistémica, mas sim no "erro (consciente) humano", em acções imputáveis aos (poucos) privilegiados que vivem e usufrem da "cidade do pecado", Wall Street.

 

A ganância, o lucro rápido, a adoração pelo dinheiro, a sacralização da teoria dos "jogos de soma nula" e a crença da infalibilidade do sistema financeiro são algumas das características do que se pode chamar de capitalismo desregulado. Em Margin Call tudo isto é muito bem retratado.

 

Mas a passagem mais bem conseguida deste filme surge no final (em baixo), num diálogo magistral entre Jeremy Irons, no papel de Chairman of the Board do banco de investimento, e Kevin Spacey, no papel de Head of Sales and Trading daquela instituição. 

 

Irons, um implacável crente do sistema financeiro anárquico, e Spacey, um veterano jogador de Wall Street que é confrontado com a sua consciência, estão frente a frente, numa andar alto de uma torre de Wall Street, num ambiente calmo, horas após a noite trágica em que colapsou o seu banco de investimento e que espoletou o turbilhão no sistema financeiro.  

 

Naquele "day after", Irons, a tomar o pequeno almoço, explica calmamente a Spacey a "normalidade" histórica do sucedido, e que depois da "tempestade" nem tudo é assim tão mau, já que, bem vistas as coisas, até é possível retirarem-se dividendos de toda aquela situação. Em suma, aquilo que Irons diz a Spacey é que tudo ficará na mesma, com os mesmos a continuarem a usufruir da "cidade do pecado" e todos os outros a perderem nesse jogo. A reacção amarga mas conformada de Spacey é a confirmação disso mesmo.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 21:21
link do post | comentar
partilhar
Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Welcome to the Machine

 

Um pouco por toda a Europa têm surgido vozes de ruptura com o sistema instituído por tecnocratas e contabilistas. Para estas pessoas que se insurgem contra aquilo que consideram ser uma cegueira sistémica, que tem apenas como objectivo servir os "mercados" e os "interesses" financeiros, a desilusão com os seus líderes é total, dando mesmo lugar, nalguns casos, ao sentimento de revolta, perante governantes que se assemelham a uma "máquina" fiscal, fria e implacável. 

  

 

Welcome to the Machine, música do grandioso álbum Wish You Were Here (1975), escrita pelos Pink Floyd como crítica ao sistema da indústria musical americana nos anos 70, marcado pela ganância e o lucro.

 

O Diplomata considera-a apropriada aos dias de hoje.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:56
link do post | comentar
partilhar
Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

O Cisne Negro (1)

 

 

De tudo o que se tem escrito sobre a crise financeira internacional e as revoluções árabes que nos últimos meses eclodiram no Médio Oriente e no Magrebe, não deixa de ser irónico que um dos artigos mais interessantes que o Diplomata leu sobre esta matéria tenha vindo da pena de um professor em Engenharia de Risco no Instituto Politécnico da Universidade de Nova Iorque, com a colaboração, é certo, de um outro professor em Economia Política da Universidade de Brown.

 

A abordagem que os dois autores fazem àquela problemática é verdadeiramente refrescante e ao ler-se o seu artigo (Foreign Affairs, Maio/Junho) fica se com uma perspectiva sólida e científica relativa ao enquadramento que ajuda a explicar o surgimento de fenómenos repentinos, tais como as revoltas das ruas árabes ou, até mesmo, a emergência inesperada da crise financeira internacional em 2008.

 

Para isso, os autores recorrem sobretudo ao paradigma da engenharia de risco, como forma de antecipar comportamentos de estruturas ou sistemas.

 

Nassim Nicholas Taleb e Mark Blyth evitaram seguir os modelos comuns de análise que têm sido utilizados e optaram por aplicar os princípios da engenharia, partindo do pressuposto que a crise financeira internacional ou as revoltas dos países árabes apresentavam indícios de risco semelhantes àqueles que podem ser detectados antecipadamente em estruturas ou sistemas.

 

Dizem os autores que um dos pontos comuns em ambas as “crises” é a assumpção (errada) à posterior de uma certa impotência perante algo que era desconhecido e imparável.

 

Ora, para os autores do artigo este é um dos maiores mitos que tem estado por detrás de muitas análises feitas a estes casos. A verdade é que em ambas as situações os sinais de fractura estavam lá, embora esbatidos por uma normalidade artificial.

 

A tentação política de suprimir artificialmente a volatilidade de sistemas, com o objecto de forçosamente de se manter um determinado status quo, conduz a situações potencialmente explosivas.

 

O que aconteceu com a crise financeira internacional e agora mais recentemente com as revoltas nas ruas árabes são consequências da contenção em alta pressão feita sobre esses mesmos sistemas.

 

Como escrevem Taleb e Blyth, “sistemas complexos aos quais foram suprimidos artificialmente a volatilidade tendem a tornar-se extremamente frágeis, ao mesmo tempo que não exibem riscos visíveis”.

 

Na realidade, estes sistemas tendem a ter um comportamento calmo e a não exibir variações significativas, à medida que os riscos se vão acumulando silenciosamente.

 

Uma tendência que a médio e a longo prazo pode ter efeitos devastadores, como agora se comprova, mas que o poder político teima em manter, pensando que está a promover uma maior estabilidade nas suas comunidades. Porém, ao interferir-se artificialmente nestes sistemas, o mundo torna-se menos previsível e mais perigoso.

 

Estes sistemas ficam potencialmente propensos àquilo que Taleb chama de “cisnes negros”, acontecimentos de grande escala, que podem ser negativos ou positivos, e que fogem à normalidade estatística, sendo largamente imprevisíveis para o observador. Aliás, Taleb notabilizou-se precisamente pelo desenvolvimento da teoria do "cisne negro", com o livro The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable.  

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:04
link do post | comentar
partilhar

About

Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos