Quinta-feira, 8 de Abril de 2010

No xadrez da geoestratégia Moscovo e Washington jogam interesses no Quirguistão

 

Vyacheslav Oseledko/Agence France-Presse/Getty Images

 

O conflito que eclodiu ontem no Quirguistão e que já provocou mais de 40 mortos coloca no xadrez da geoestratégia um confronto entre Washington e Moscovo. É o palco onde se volta a um jogo de influência e poder, fazendo relembrar a lógica de confrontação de potências no século XIX naquela região entre a Rússia e o então Império Britânico.

 

A oposição, que mais uma vez  se cansou da corrupção, do aumento dos preços e da pobreza (um dos países mais pobres da Ásia Central), espoletou uma revolução em três cidades com o objectivo de derrubar o actual regime e colocar no seu lugar um “Governo popular”.

 

Os efeitos imediatos conduziram à demissão do primeiro-ministro Daniyar Usenov, embora o Presidente Kurmanbek Bakiyev se mantenha no poder, até ao momento com o apoio de Washington e de Moscovo.

 

No entanto, isto não quer dizer que a Casa Branca e o Kremlin partilhem a mesma visão e interesses sobre o enquadramento geoestratégico do Quirguistão. Na verdade, dificilmente os Estados Unidos e a Rússia conseguirão harmonizar interesses estratégicos a longo prazo na Ásia Central e muito menos coabitarem fisicamente naquela zona.

 

O Quirguistão surge assim como um palco estratégico e fundamental para os Estados Unidos e a Rússia jogarem os seus interesses. A BBC News referia que o Quirguistão era uma espécie de “hub” para os planos das superpotências.

 

Caso se efective a queda de Bakiyev, Washington e Moscovo não perderão tempo a mobilizar uma ofensiva diplomática e política para alinhar o rumo da revolta de acordo com os interesses de cada um.

 

Tal como acontece noutros territórios pertencentes ao antigo Império Soviético, qualquer movimentação norte-americana naquelas zonas representa uma relação de forças constante com Moscovo. A problemática do alargamento da NATO aos antigos países do Pacto de Varsóvia e às repúblicas da defunta URSS é o melhor exemplo dessa dinâmica.

 

Mas, também no âmbito da guerra no Afeganistão se foram criando focos de tensão em países mais remotos da Ásia Central, com os quais historicamente os Estados Unidos nunca tiveram qualquer proximidade.

 

Ora, em poucos anos Washington não só se aproxima de alguns países da Ásia Central e do Cáucaso, através de uma diplomacia pública mais agressiva, como consegue literalmente colocar homens no terreno, através de instalações militares de apoio à guerra no Afeganistão.

 

O Quirguistão é um bom exemplo, visto que os Estados Unidos têm a base militar de Manas muito importante nos esforços de guerra no Afeganistão. Base essa que ganhou ainda mais relevância depois do encerramento das instalações militares americanas no Uzbequistão.

 

Assim, no actual quadro político, os Estados Unidos têm muito a ganhar ou, pelo menos, pouco têm a perder com a manutenção do actual chefe de Estado no poder. Embora Bakiyev tivesse ameaçado no ano passado encerrar a base, depois de Moscovo ter prometido um pacote de ajudas significativas em troca da saída dos americanos do país, o Presidente Barack Obama acabou por convencer o seu homólogo do Quirguistão a assegurar a presença daquelas instalações.

 

Perante isto, Washington tem interesse na manutenção do actual “status quo”, não sendo por isso de estranhar as declarações imediatas da Administração de apelo à vigência da lei e à confiança de que o Executivo tinha a situação controlada.

 

Por outro lado, a Rússia tenta o mais possível puxar para a sua esfera de influência o regime de Bishkek, sempre numa lógica expansionista sobre toda a sua área de influência histórica. Uma das formas de fomentar essa proximidade e, por vezes, subjugação tem sido através dos elos com as populações russas que vivem nesses países e regiões. Acontece assim, por exemplo, nas repúblicas do Cáucaso Norte, na Geórgia ou na Ucrânia. A isto acrescenta-se a pressão energética, económica e militar através da qual Moscovo consegue, nalguns casos, manter um grau de influência considerável.

 

Relembre-se que o actual chefe de Estado do Quirguistão é resultado de uma revolta de rua em 2005, conhecida como a Revolução das Túlipas, surgindo Bakiyev na altura como a esperança para a democratização e “limpeza” de um pais que, desde a implosão da URSS em 1991, nunca se libertou dos tiques autoritários da governança política.

 

Tal como em tantas outras revoluções “coloridas” ou “floreadas” que nos últimos anos se têm verificado em países do antigo Império Soviético, o idealismo rapidamente dá lugar à desilusão e à frustração. As reformas ficam pelo caminho e as promessas por cumprir. Bakiyev, que há uns anos era visto como um farol para a democracia, é hoje criticado e é lhe exigido que abandone o poder.

 

Washington e Moscovo estão perfeitamente cientes desta lógica de mobilização de massas espontânea com o objectivo de provocar revoltas e “fabricar” líderes salvadores, mas sabem também que são processos pouco sustentados e que raras são as vezes onde há uma mudança efectiva de paradigma de governação.

 

Assim, numa perspectiva geoestratégica realista (muitos diriam cínica), para Washington e Moscovo o importante é aproveitar estes momentos de ruptura e, por vezes, até de euforia, para fomentarem alinhamentos políticos sólidos com o eventual “senhor que se segue”.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:10
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Washington terá que apoiar líderes corruptos para afastar talibans dos centros de poder

 

Milícias tribais em Kanju, 5 de Outubro de 2009/Foto Alex Rodriguez/Los Angeles Times

 

A propósito da onda de ataques terroristas que têm assolado o Paquistão com particular intensidade neste mês de Outubro e face aos desenvolvimentos militares no Afeganistão, Max Hastings, colunista do Financial Times, questionava num artigo de opinião esta Quinta-feira se os interesses estratégicos do Ocidente na região são vitais.

 

Para Hastings, esta é uma pergunta para a qual a Casa Branca anda à procura de resposta, e que à luz das dificuldades crescentes faz cada vez mais sentido reflectir sobre a mesma.

 

Na opinião do famoso jornalista e escritor paquistanês, Ahmed Rashid, os Estados Unidos devem manter o seu empenho e o seu compromisso militar e político na região. Caso contrário, existe um risco real de “talibanização” de toda a região da Ásia Central, alastrando a países remotos como o Tajiquistão, o Turquemenistão, o Uzbequistão ou Quirguistão.

 

Porque apesar das dificuldades que os soldados americanos têm encontrado no terreno afegão e que as forças da CIA têm enfrentado no Paquistão, todo este envolvimento militar e político serve, de certa forma, como “travão” a uma constante pressão de “talibanização” não só no Afeganistão, mas em várias regiões no Paquistão e noutros países da Ásia Central. O Afeganistão, aliás, é um bom exemplo dessa realidade, quando nos anos 90 se tornou um autêntico “playground” de terroristas, a partir do qual saíram os estrategos e os autores dos atentados de 11 de Setembro.

 

Polícia paquistanês observa refugiados do Waziristão em Paharpur, 22 de Outubro de 2009/Foto B.K.Bangash)

 

É reconhecido por todos que o combate ao movimento taliban está cada vez mais difícil no Afeganistão e no Paquistão, sobretudo nalgumas zonas rurais, sendo que um dos grandes objectivos neste momento passa pelo afastamento dos radicais islâmicos dos grandes centros de poder. 

 

É por isso que o pensamento de Rashid assenta numa lógica algo cruel, mas simples e realista: é preferível ter líderes corruptos nos países da Ásia Central do que governantes fundamentalistas islâmicos, cuja sua missão é impor a sharia da forma mais conservadora possível e combater o estilo de vida ímpio de todos aqueles que não seguem a orientação rigorosa e estrita dos preceitos do Corão.

 

Quanto mais fracos e debilitados forem os governos (e refira-se que naquela região são quase todos, incluindo o de Islamabad), mais tentados pela conquista de poder surgem os movimentos associados aos taliban. Perante este cenário, o apoio político por parte dos Estados Unidos e da Europa a esses mesmos governos assume-se como vital para a sua sobrevivência e resistência aos ataques taliban.

 

Peshawar, 28 de Outubro de 2009/Foto Mohammad Sajjad/Associated Press

 

Para já, e a julgar pelos mais recentes sinais enviados pela liderança de Washington, os Estados Unidos parecem continuar empenhados politicamente no Paquistão, tendo a secretário de Estado norte-americana, Hillary Clinton, manifestado apoio ao Paquistão perante o ataque bombista de Peshawar, na Quarta-feira, que fez mais de 100 mortos.

 

Porém, concomitantemente, Clinton encostou o Governo paquistanês à parede, exigindo explicações pelo falhanço na captura de alguns altos membros da al-Qaeda. Clinton admitiu que desde 2002 que o Paquistão é um “paraíso” para aquela rede.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:35
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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