Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Nick Clegg, o melhor "aliado" da Europa no Reino Unido

 

 

Nick Clegg/Foto:The Guardian - David Levene

 

As ondas de choque da última cimeira europeia continuam a fazer-se sentir com muita intensidade em terras de Sua Majestade. Mas, curiosamente, as consequências estão a ser diferentes daquelas que se poderiam supor à partida.

 

Basta relembrar que poucas horas depois de ter sido conhecido o "veto" do primeiro-ministro britânico, David Cameron, ao acordo celebrado por todos os outros dirigentes europeus, Nick Glegg, líder dos Democratas Liberais e número dois do Governo inglês, dava uma entrevista televisiva para manifestar de forma veemente a discordância com a decisão do seu "chefe".

 

Aquilo que poderiam ser declarações explosivas e fatalistas para o Governo de coligação, estão a servir, antes, para clarificar algumas águas políticas no Reino Unido. 

 

Ao vir a público com tanto estrondo, Clegg obrigou Cameron e as várias fileiras do Labour e dos tories a assumirem sem rodeios as suas posições sobre a Europa.

 

Um das primeiras consequências foi colocar o próprio Cameron à defesa, já que nunca um líder britânico tinha desferido um golpe tão duro contra o projecto europeu. E as coisas, efectivamente, não estão a correr bem ao primeiro-ministro, querendo, por um lado, enviar um sinal conciliatório para a Europa e, por outro, não decepcionar os eurocépticos britânicos.

 

Aqueles, no seu tradicional discurso, fazem-se ouvir cada vez mais alto, contaminando a opinião pública, historicamente pouco entusiasmada com a Europa, mas que nas actuais circunstâncias poderá vir a radicalizar o seu sentimento hostil em relação ao projecto europeu.  

 

Clegg está a aproveitar este momento como uma espécie de hora da verdade. Politicamente, está a jogar a sua cartada. 

 

Ainda esta Sexta-feira, em declarações ao The Guardian, Glegg, num discurso apaziguador e conciliatório, veio apelar à calma entre Paris e Londres e defender o regresso do Reino Unido ao "coração da Europa". Clegg posiciona-se, assim, como um mediador do "conflito".

 

Ao mesmo tempo, aproveitou um telefonema do primeiro-ministro francês, Francois Fillon, esta Sexta-feira, para demonstrar a firmeza que neste momento parece estar a faltar a Cameron.

 

Fillon queria clarificar as declarações inflamatórias proferidas pelo seu ministro das Finanças, Francois Baron, que referiam que a situação económica e financeira do Reino Unido era muito pior do que a da França no âmbito da vigilância das agências de rating. Clegg disse a Fillon que as declarações de Baron eram inaceitáveis, no entanto, referiu que deviam ser dados passos para acalmar a retórica.  

 

O número dois do Governo britânico sabe que por estes dias é o melhor "aliado" da Europa no Reino Unido. Mas, de forma inteligente, tenta também ganhar espaço político a Cameron, ciente de que só o conseguirá através de um discurso firme e que seja visto pelos britânicos como a defesa dos seus interesses. Porém, o grande desafio de Clegg será explicar aos britânicos, sobretudo aos mais eurocépticos, que os seus interesses também se jogam na Europa.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 23:58
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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