Quinta-feira, 14 de Setembro de 2017

Da admiração à desilusão

 

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Logo pela manhã desta Quinta-feira na CNN, Peter Pophan, biógrafo de Aung San Suu Kyi, demonstrava a sua desilusão com a Nobel da Paz, um prémio atribuído em 1991 pela sua resistência pacífica ao regime militar de Myanmar (ou Birmânia). Acabaria por ser detida pela junta militar em 1989 e não participaria nas eleições de 1990, que deram a vitória ao seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (NLD). Os militares nunca reconheceram estes resultados e Suu Kyi iniciou uma longa e paciente resistência pacífica durante os muitos anos em que esteve sob prisão domiciliária, até 2010. Durante este período, tornou-se numa referência e inspiração na defesa e luta pelos direitos humanos, revelando muitas semelhanças com Nelson Mandela na forma como fez ouvir o seu protesto de forma pacífica.

 

Cativou o mundo político internacional e granjeou a admiração de muitos, e quando foi libertada em 2010, era a figura mais poderosa de Myanmar, levando a NLD à vitória em 2015. Suu Kyi, que constitucionalmente estava impedida de se tornar Presidente, porque o seu último marido e filhos são estrangeiros, acabou por assumir o cargo de Conselheira do Estado, criado exclusivamente para si.

 

O problema é que o papel que assumiu enquanto activista pelos direitos humanos parece ter dado lugar ao da política, ao das conveniências com o poder e com o seu eleitorado, maioritariamente budista. E só assim se percebe a sua conivência e até apoio que tem dado à actuação das forças militares birmanesas na região de Rakhine, onde vive a minoria rohingya.

 

Dizem as Nações Unidas que, no último mês, quase 380 mil pessoas daquela etnia já fugiram de Rakhine, na parte ocidental de Myanmar, em direcção ao Bangladesh, um Estado muçulmano. A causa desse êxodo? A mesma que a História teima em repetir, ou seja, projectos de poder político assentes no preconceito, intolerância e perseguição, e até mesmo aniquilação, do próximo. Neste caso em concreto, do Estado militarizado de Myanmar, com o apoio da polícia local de Rakhine, contra uma minoria muçulmana (mas podia ser de outra religião ou credo) instalada há gerações naquela região, mas cujas pessoas o Governo insiste em chamar de imigrantes ilegais e negar-lhes a cidadania.

 

Aparentemente, esta onda repressiva do Estado é justificada pela necessidade de resposta a ataques de militantes rohingyas no final de Agosto a postos de polícia. Admita-se que isso é verdade (e que é bem possível), mas a questão é que, à semelhança de tantos outros tristes exemplos da História, as forças do Estado parecem estar a aproveitar aquela situação para uma autêntica campanha de erradicação da minoria rohingya de Rakhine. O Governo defende-se e diz que está a apenas a combater os militantes rohingyas, mas a questão é que as várias informações que vão chegando pelos poucos correspondentes que estão no terreno demonstram uma outra realidade: vilas queimadas, violações, violência indiscriminada por parte das forças militares com o apoio de elementos da maioria budista em Rakhine. António Guterres fala numa “catastrófica” situação humanitária e o Alto-Comissário para os Refugiados foi mais longe e referiu-se mesmo a uma “limpeza étnica” que está a acontecer.

 

Quase um terço da população rohingya já abandonou Rakhine. Os relatos dos jornalistas que estão no local contrariam as versões do Governo de Myanmar e mostram o lado humano do sofrimento, com milhares de pessoas a deslocarem-se, da forma que podem, em direcção ao Bangladesh, para aí se instalarem em campos de refugiados sobrelotados. Há uns dias, quando o assunto ainda não estava no topo da agenda mediática, um jornalista do New York Times tinha feito uma reportagem crua, onde se viam pessoas, num estado faminto, com poucos haveres às costas, a caminharem descalças pelas selvas verdejantes daquela região do globo, sem qualquer esperança espelhada no olhar. E ver agora Suu Kyi, outrora uma inspiradora na defesa dos direitos humanos, indiferente a tudo isto, é mais do que desilusão... É uma dor de alma.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:49
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Terça-feira, 8 de Outubro de 2013

Quando os budistas pregam a violência...

 

 

Um homem vê o que resta de uma mesquita incendidada pelos budistas do movimento 969 nos arredores da cidade de Thandwe, na região de Rakhine, /Foto:Reuters/Soe Zeya Tun

 

O autor destas linhas lembra-se de há uns anos ter tido uma ou duas discusões vibrantes com uma amiga que olhava para algumas religiões orientais com bastante ingenuidade e deslumbre. Nelas, via apenas virtudes, portas de acesso ao "nirvana", sem qualquer tipo de mácula ou sementes geradoras de conflitualidade. 

 

O hinduísmo ou o budismo eram, por oposição às religiões que se praticam no Ocidente, o expoente máximo da harmonia, distanciadas das perversidades terrenas.  

 

Ora, como a História está farta de mostrar, já se cometeram as maiores barbaridades em nome de todas as religiões. E que ninguém se deixe enganar pelo aspecto simpático e trascendental dos budistas, como se caminhassem acima do mundo terreno, lá, no "Tecto do Mundo".

 

Pois, são esses mesmo seguidores de Buda que andam a semear a violência nalgumas zonas de Myanmar (Birmânia). Desde Junho do ano passado que um movimento sectário budista desencadeou uma campanha violenta contra a minoria muçulmana Roingya, que representa cerca de 5 por cento da população birmanesa e que reside maioritariamente no estado de Rakhine.

 

Este movimento, chamado 969 [números que simbolizam o Buda] e liderado por monges budistas, assume claramente o seu ódio aos muçulmanos, espelhado nos ataques a mesquitas, boicotes a negócios e actos de extrema violência. Até ao momento já morreram mais de 240 pessoas e foram deslocadas cerca de 140 mil, no entanto, o movimento 969 continua a reunir a simpatia da elite política, nomeadamente do Presidente Thein Sein.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:13
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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