Quando há treze anos, na noite tardia de 23 de Setembro, dois homens desconhecidos bateram à porta do quarto de Naomi Campbell no Palácio Presidencial na Cidade do Cabo para lhe entregarem um saco com umas “pedras sujas”, a supermodelo não recusou tal oferenda, mesmo desconhecendo quem seria o responsável por tão “generoso” gesto.
Segundo declarações da própria Campbell, proferidas esta Quinta-feira, em Haia, durante uma sessão do julgamento do ex-Presidente da Libéria, Charles Taylor, no Tribunal Especial da ONU para a Serra Leoa, apenas na manhã seguinte terá aberto o saco (visto que era normal receber várias ofertas) e confirmado que se tratavam de pequenas “pedras com aspecto sujo”.
Ao pequeno-almoço Campbell partilhou a história com Mia Farrow, já que ambas, assim como outras personalidades, tal como Taylor, acabado de ser eleito Presidente da Libéria, tinham sido convidadas para um jantar de solidariedade na noite anterior. Farrow, mais perspicaz do que Campbell, suspeitou de imediato tratar-se de diamantes oferecidos por Taylor, que na noite anterior tinha ficado rendido à beleza da supermodelo.
Naomi concordou com Farrow. A história terá ficado por aí e não há registo de que a estratégia de conquista de Taylor tenha resultado.
Até que em 2006 Taylor é preso e enviado para Haia, onde começou a ser julgado um ano mais tarde pelo seu papel na guerra civil na vizinha Serra Leoa através do apoio aos rebeldes da Frente Revolucionária Unida (RUF) entre 1991 e 2001. Taylor é acusado de 11 crimes de guerra e crimes contra a humanidade na Serra Leoa, embora ainda não tenha sido indiciado por crimes no seu próprio país.
E foi no âmbito deste processo que veio a lume a história da famosa noite em que Taylor oferece os “diamantes de sangue” a Campbell. A partir do momento em que as autoridades começaram a investigar esta possibilidade, Campbell foi desmentindo por várias vezes o seu envolvimento naquela noite, no entanto, acabou por ser a própria Mia Farrow a revelar aos investigadores a conversa que tinham tido há uns anos ao pequeno-almoço.
Esta Quinta-feira em Haia Campbell acabou por admitir ter recebido os diamantes, embora garantisse que na altura nunca tenha associado aquelas pedras ou Taylor a qualquer situação de conflito em África. Cambpell assumiu mesmo que nunca tinha ouvido falar de um país chamado Libéria, nem de “diamantes de sangue”.
Não querendo aqui o Diplomata fazer de advogado de Campbell, mas parece razoável admitir que em 1997 Campbell desconhecesse efectivamente a Libéria e que nunca tivesse ouvido falar em “diamantes de sangue”, uma vez que esta problemática só apenas alguns anos mais tarde passou a ser notícia na opinião pública internacional. Já menos aceitável, é o facto de ter mentido quanto ao que se passara naquela noite, sobretudo a partir do momento em que Campbell já teria a perfeita noção da importância do seu testemunho no processo de acusação.
Seja como for, a imagem de Campbell, que já não era propriamente a mais positiva, sai bastante afectada com todo este processo, até porque a modelo terá dito que entregou logo na altura os diamantes ao seu amigo Jeremy Ratcliffe, então director do Nelson Mandela Children's Fund, mas esta organização já fez saber que nunca teve em sua posse tais diamantes e que se tal acontecesse seria “impróprio e ilegal”. Ratcliffe, que ainda no ano passado, disse a Campbell que mantinha dos diamantes na sua posse, recusou-se esta Quinta a comentar o caso ao The Guardian.
Por outro lado, o testemunho de Campbell poderá ter sido uma grande ajuda para a procuradora-chefe, Brenda Hollis, para se provar que Taylor fornecia armas para a RUF em troca de diamantes em bruto.
Silas Siakor numa base da ONU em Monróvia
Durante um jantar na Segunda-feira à noite que o autor destas linhas teve com um dos homens que ajudou a derrubar o regime de Charles Taylor na Libéria, foi possível perceber claramente a diferença de conceitos e de perspectivas na abordagem aos diferentes problemas dos Estados.
Para Siakor termos como "sustentabilidade" ou "corporate social responsability" pouco sentido fazem num país como a Libéria, com estruturas políticas débeis e onde os cidadãos esperam ver satisfeitas as necessidades mais básicas. É por isso que acima de tudo, nações como a Libéria necessitam de "boa governança".
Silas Siakor, activista e defensor dos direitos humanos, é internacionalmente reconhecido pelo trabalho que tem desenvolvido nos últimos anos na defesa dos direitos mais fundamentais das comunidades locais daquele país africano.
Siakor tem centrado parte dos seus esforços na defesa da grande mancha de floresta virgem que atravessa toda a África Ocidental e que ocupa uma considerável parte do território liberiano. A protecção dos recursos naturais e o seu melhor uso em prol da população tem sido a mensagem que Siakor tem tentado passar para os seus conterrâneos.
Obviamente que tal missão implicou inúmeros conflitos com o poder instituído e com as grandes empresas madeireiras que não se coibem de destruir a floresta sem que os autóctones tenham qualquer tipo de possibilidade de gerir tais recursos.
Silas Siakor fotografa madeira ilegal
O seu trabalho começou nos anos 90, em plena guerra civil, que o mesmo descreveu como algo de brutal, onde a morte fazia parte do quotidiano e podia surgir em qualquer esquina. Esta foi a vida de Siakor e de outros milhares de liberianos que, dramaticamente, acabaram por se habituar a uma realidade sangrenta.
Relembre-se que a guerra civil liberiana teve início entre 1989 e 1990 quando a National Patriotic Front of Liberia (NPFL) de Charles Taylor tomou conta de parte do território, acabando por assumir o controlo da capital Monróvia e tirar do poder Sergeant Samuel Doe.
Em 1995, e depois de um acordo de paz firmado entre as partes que se mantiveram em confronto, Charles Taylor foi eleito Presidente, mas nem por isso aquela região encontrou a paz e a estabilidade.
Parte de Monróvia continua sem água e luz públicas
Pelo contrário, este aproveitou-se do seu poder para montar um esquema de fábricas fictícias que empregavam milícias que se dedicavam ao espancamento e roubo de aldeões e à violação de mulheres. Ao mesmo tempo, Taylor exportava ilegalmente madeira para fora do país de modo a que pudesse financiar a guerra.
Silas foi o responsável pela descoberta destes esquemas e expô-los junto da ONU, que acabaram por servir de prova em vários julgamentos no tribunal especial de Haia para os crimes da Libéria e da Serra Leoa. Além disso, a ONU acabou por impor um embargo (entretanto levantado) à exportação de madeira da Libéria.
Actualmente, confessou ao Diplomata, que olha para trás e apercebe-se da loucura que na altura cometeu, arriscando a própria vida, porém era algo que tinha de fazer em prol da sociedade.
Jovens liberianos a jogar à bola
Mas, apesar do país estar a viver um clima mais tranquilo com a eleição em 2005 de Ellen Johnson-Sirleaf, e de haver esperança, a corrupção é endémica, a iliteracia uma praga e a influência de Charles Taylor ainda se faz sentir.
O próprio Silas, que testemunhou em Haia num dos julgamentos de uma das madeireiras internacionais, rejeitou, por exemplo, falar contra Taylor por recear represálias políticas contra o seu irmão, que partilha um dos dois cargos de senador de uma região da Libéria, com a mulher do ex-Presidente, sendo esta uma figura de maior influência e peso.
Silas Siakor recebe o The Goldman Environmental Prize em São Francisco
Seja como for, Silas tem feito inúmeros esforços no desenvolvimento das comunidades locais e na promoçãpo da defesa das terras e dos recursos naturais. Tal actividade valeu-lhe no ano passado a nomeação de "herói do ambiente" pela revista TIME. Já em 2006 tinha ganho o prestigiado prémio The Goldman Environmental Prize.
