Segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Duas pequenas histórias de excessos

 

Fazendo lembrar os tiques dos Estados autoritários e totalitários de outros tempos, a Rússia embarcou numa aventura de proporções gigantescas, quando se lançou na missão de realizar recentemente os mais ambiciosos Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi. Tudo numa lógica de projecção de "soft power", com o objectivo de mostrar ao mundo uma nova Rússia, reerguida dos escombros soviéticos, supostamente mais poderosa e de cariz global. Ora, não só aquele projecto assumiu custos exorbitantes, tornando-se nos jogos olímpicos mais caros de sempre, como se revelou desastroso para os intentos de Vladimir Putin, pondo a descoberto muitas das fragilidades da Rússia.    

 

Os Jogos Olímpicos de Sochi tiveram um orçamento quase cinco vezes superior ao do Campeonato do Mundo de Futebol no Brasil. E por falar no Brasil, também os governantes daquele país, numa ânsia de mostrar ao mundo o seu poderio emergente, lançaram-se numa tarefa hercúlea (e quase impossível) de organizar praticamente em simultâneo o Mundial 2014 e os Olímpicos 2016. 

 

Tal como aconteceu na Rússia, também no Brasil os efeitos têm-se revelado perversos para os objectivos dos governantes brasileiros. E dificilmente essa imagem sairá melhorada. Pelo contrário. Com a chegada de milhares de turistas e adeptos às cidades brasileiras da Copa nos próximos dias, os problemas de infraestruturas, de saneamento, de vias de comunicação, de segurança, entre outros, deverão sentir-se de forma mais acentuada.  

 

A questão é saber como o Governo de Dilma Rousseff irá gerir esta crise em plena Copa do Mundo. Ironicamente, o seu grande aliado será a equipa canarinha, que, enquanto ganhar, distrairá os brasileiros do seu quotidiano.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 13:01
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Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2014

As lágrimas (de alegria) vertidas em Moscovo

 

 

No dia em que começam os já muito polémicos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, cidade russa localizada na costa do Mar Negro, a BBC News relembra que em 1975, o então secretário-geral da Partido Comunista Soviético, Leonid Brezhnev, escrevera a um colega no Politburo, alertando para os eventuais avultados custos financeiros e possíveis escândalos que surgiriam caso a União Soviética acolhesse os Olímpicos de 1980. E Brezhnev terá ido ainda mais longe, sugerindo que seria possível à URSS desistir do projecto, submetendo-se apenas a uma pequena multa.

 

Os Jogos Olímpicos de 1980 acabaram por realizar-se em Moscovo, embora sob um dos maiores boicotes de sempre liderado pelos Estados Unidos. Apesar disso, aqueles JO foram marcanres e ficaram simbolizados no Misha, a primeira mascote que se celebrizou à escala global. Para a História e na memória de quem viu, ficaram as lágrimas do Misha vertidas na cerimónia de encerramento.  

 

Publicado por Alexandre Guerra às 13:29
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

A cultura do desporto e o poder dos Estados

 

Zho Lulu, atleta chinesa a bater um recorde mundial/Foto: Oficial/London2012

 

Que ninguém se iluda, em Portugal não existe uma cultura desportiva na sociedade e muito menos uma abordagem política ao desporto enquanto factor de poder de um Estado (tal como também não existe para a língua ou para a cultura).

 

E quando se menciona desporto convém referir que não se está a falar de passeatas de Domingo no paredão da marginal ou de algumas futeboladas entre amigos de semana a semana.

 

O desporto, que aqui interessa, é aquele que se insere numa lógica competitiva, que pressupõe a superação diária de dificuldades, um espírito de autossacrifício e a ambição pela perfeição e pelos resultados. O desporto, assim, glorifica os seus intervenientes e prestigia as suas bandeiras.

 

Muitas das vezes, os Estados tentam reflectir nos feitos desportivos (tal como noutras áreas) um certo modelo de sociedade, evoluída e sofisticada. Na verdade, um pouco à imagem do pensamento “platónico”, a integração do desporto no quotidiano dos cidadãos representa um estádio evolutivo da "cidade".

 

Todas as nações com ambições nas Relações Internacionais utilizam o desporto como forma de prestígio e de ascensão mundial. Muitas das vezes de forma perversa, como aconteceu na Alemanha do III Reich, no regime Soviético durante a Guerra Fria ou na China emergente no início dos anos 90. Nestes casos não se podia falar numa verdadeira cultura social pelo desporto, mas antes numa política autoritária/totalitária governamental de “produção” de campeões. Um modelo que, à semelhança do paradigma que regia as suas sociedades, era insustentável e tendia a desabar, como veio a acontecer. A própria China, em plena globalização, foi obrigada a repensar a sua política desportiva, caso quisesse integrar o “concerto” das nações "respeitadas" no sistema internacional.

 

Entre os países mais desenvolvidos o desporto também foi sempre visto como um factor de poder, altamente valorizado, no entanto, o seu enquadramento na sociedade foi feito de forma “democrática” e sustentável.

 

Os Estados Unidos, goste-se ou não, serão o expoente máximo dessa homenagem ao desporto. Paradoxalmente, é um país que cultiva o sedentarismo e o facilitismo, mas ao mesmo tempo existe um entusiasmo genuíno pelo desporto.

 

Um entusiasmo que nasce nas comunidades familiares ou de bairro e que depois amadurece no âmbito do desporto escolar (levado a sério e não como uma brincadeira como acontece em Portugal). Depois é nas universidades que se fazem os campeões.

 

Se nos Estados Unidos a valorização do desporto e das suas várias modalidades é uma realidade intrinsecamente ligada às grandes políticas governamentais, também países como o Reino Unido, a Espanha ou a China são sensíveis a esta matéria.

 

Embora com poucas medalhas nestes Jogos Olímpicos, a Espanha é um caso muito interessante pela forma como tem utilizado o desporto (mas também a sua língua e cultura) para se afirmar no mundo. Mas será a China o melhor exemplo dessa relação do desporto com a imagem do Estado, com os actuais Jogos Olímpicos a espelharem fielmente o poderio emergente do Império do Meio no sistema internacional.

 

Outros exemplos há. Veja-se o Cazaquistão. Herdeiro da predisposição soviética para a valorização do desporto, os seus líderes têm procurado potenciar determinadas modalidades como forma de afirmação daquele país, sobretudo num contexto regional. A sua equipa de ciclismo, a Astana (capital), será o expoente máximo dessa estratégia, com Alexandre Vinokurov à cabeça e que venceu a medalha de outro na prova de estrada destes Olímpicos.

 

Também países como o Quénia ou a Etiópia, com os seus inúmeros campeões de atletismo nas disciplinas de fundo e meio fundo, ou ainda a Jamaica, com os seus velocistas, assumem-se com um alto perfil na cena internacional no que diz respeito ao desporto.

 

O mais interessante nestes Estados é que parece haver uma orientação para os resultados nas disciplinas potencialmente vencedoras, numa estratégia em que os Governos e as respectivas federações nacionais desempenham um papel muito importante.

 

Um dos pontos comuns entre estes países menos avançados e nações como os Estados Unidos ou a Espanha é a focagem concertada e estratégica que passa por uma cultura colectiva permanente de respeito e de gosto pelo desporto e pelas modalidades que são mais acarinhadas nas sociedades.

 

Ora, em Portugal, à semelhança do que tem acontecido com a língua e a cultura, não se pensa o desporto como recurso nacional. À falta de cultura desportiva dos cidadãos, associa-se a ausência de um pensamento estratégico sobre a política do desporto.

 

Os portugueses lá despertam para o “desporto” de quatro em quatro anos. Pelo meio, é futebol, futebol e futebol. Na verdade, Portugal é dos poucos países desenvolvidos onde uma modalidade se sobrepõe de forma tão desequilibrada sobre as outras.

 

Os cidadãos, pouco cultos (desportivamente falando, claro está), não têm predisposição para, regularmente, irem acompanhando o mundo do desporto (com excepção do futebol). E muito menos sensibilidade têm para passar e incutir aos seus filhos os valores do desporto.

 

Dos líderes políticos não se ouve uma palavra sobre o assunto e a imprensa só revela ignorância (com uma ou outra excepção). Veja-se a pobreza do discurso no sequência da falta de medalhas da comitiva portuguesa nos Jogos... Lá veio a mais que previsível discussão sobre as bolsas dadas aos atletas. Hoje, infelizmente, tudo se parece resumir a contas de merceeiro.

 

Mas o problema é que o tema dos apoios só faz sentido ser discutido se primeiro forem feitas as perguntas certas, tais como: “Que desporto Portugal quer ter?”; “Faz sentido levar mais de 70 atletas aos Olímpicos, quando alguns deles não têm argumentos competitivos aceitáveis?”; “Quais são os atletas que estiveram em consonância com as suas marcas do ano e aqueles que estiveram muito abaixo?”; “Que tipo de projecto olímpico faz sentido para Portugal?”.

 

Nem uma destas perguntas foi feita pela imprensa ou pelos decisores. Mais, são poucos os que têm tido a perspicácia de analisar os resultados nacionais verdadeiramente inéditos e importantes que se têm estado a alcançar nestes Jogos Olímpicos. Resultados, esses, (nomeadamente, com algumas meias-finais e finais), que são sustentáveis no tempo e que resultam de um esforço continuado ao longo dos últimos anos.

 

O problema é que à nossa sociedade portuguesa falta-lhe a tal cultura do desporto, inviabilizando qualquer debate profícuo e sério sobre o assunto, assim como a criação de bases sólidas para uma abordagem estruturada ao desporto. O que se vê é antes uma psicose contemporânea obsessiva pelo “saudável” (onde impera a lógica dos ginásios, do “light”, das dietas) que nada tem a ver com desporto nem com os seus valores. 

 

Numa declaração de interesses, o autor destas linhas confessa-se um apaixonado e desde sempre um praticante de desporto. Começou cedo e muito jovem já tinha três a quatro treinos por semana. Antigo competidor de judo nos escalões de infantil, juvenil e de júnior, chegou a ser internacional, com um segundo lugar em França. Para um jovem, são momentos que nunca mais se esquecem e que ajudam a moldar o carácter e a forma de estar em sociedade.

 

Desde então que o desporto é parte integrante da vida. Hoje, e de há 15 a 20 anos a esta parte, o prazer de correr ou de pedalar em BTT (seja em Cross Country ou Enduro/Freeride) faz parte do quotidiano.

 

Para este autor, a paixão pelo desporto não surge de quatro em quatro anos, ela está lá diariamente e faz parte da sua vida. De quatro em quatro anos é, sim, a hora da festa olímpica e da glorificação daqueles semideuses. 

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 06:22
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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012

Que os jogos comecem!

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:38
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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