Terça-feira, 15 de Maio de 2018

O (quase) silêncio da Fatah

 

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Palestinianos na Faixa de Gaza protegem-se do gás lacrimogénio lançado pelos israelitas/FOTO:Ibraheem Abu Mustafa/Reuters

 

A Grande Marcha de Retorno esbarrou literalmente na vedação que delimita a Faixa de Gaza do território de Israel. Era uma iniciativa que estava condenada desde o início. A ideia de uma caminhada triunfal de milhares de palestinianos até Jerusalém não seria mais do que uma fantasia, uma tentativa de reabilitar as intifadas de anos anteriores, numa espécie de grito de revolta por parte de quase dois milhões de pessoas desesperadas, que há vários anos estão autenticamente presas num território com cerca de 40 quilómetros de cumprimento e 10 de largura, onde as condições de vida se degradaram para níveis miseráveis, reflectindo-se em indicadores sociais muito preocupantes.

 

É importante sublinhar que, hoje em dia, quando se fala na causa palestiniana e num futuro Estado palestiniano, na verdade, o que está em análise são duas realidades distintas. Não quer isto dizer que ambas não possam vir a coexistir sob um único Governo e estrutura política, mas, actualmente, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza são dois mundos substancialmente diferentes. E se isso já era evidente há uns anos ao nível social e religioso, sendo Gaza uma sociedade claramente mais conservadora do que a Cisjordânia, agora, em 2018, as diferenças são consideráveis no campo político-económico, sobretudo, por duas razões.

 

A primeira razão tem a ver com a morte de Yasser Arafat, em 2004, e a consequente perda de influência da Fatah na Faixa de Gaza. Recordo de ter estado em várias casas de famílias palestinianas na Faixa de Gaza e, quase sempre, numa das divisões havia uma fotografia do histórico líder. Isto, numa altura em que a Fatah já tinha pouca influência naquele território, mas onde Arafat continuava a ser o elemento político unificador. Após o seu desaparecimento, o Hamas rapidamente ascendeu ao poder, ao mesmo tempo que reforçava a sua presença na gestão dos serviços públicos e no apoio social. Ora, com a Cisjordânia historicamente dominada pela Fatah e a Faixa de Gaza nas mãos do Hamas, criou-se uma dualidade política que resultou em duas estruturas de poder diferentes e, por vezes, competitivas naquilo que é a luta pela liderança da causa palestiniana.

 

A outra razão está directamente relacionada com o bloqueio imposto por Israel que, basicamente, já vem dos tempos da intifada de al-Aqsa (2000-2005). Por esta altura, estive por duas vezes naquelas paragens e já então os palestinianos da Cisjordânia não podiam ir visitar os seus familiares à Faixa de Gaza e vice-versa. Era assim e assim continuou. E na altura cheguei a perguntar a muitos palestinianos como eram os tempos anteriores à intifada de al-Aqsa e todos me disseram que nem na primeira intifada (a chamada “revolta das pedras” entre 1987 e 1991) Israel tinha imposto tantas restrições de movimentos. Pois bem, os anos passaram e esse estrangulamento foi-se intensificando na Faixa de Gaza, com a agravante dos bombardeamentos israelitas em 2014 sobre aquele enclave, destruindo, ainda mais, muitas das suas infraestruturas públicas e de saneamento. Ao mesmo tempo, sem aeroporto e porto, e com as fronteiras encerradas com Israel (restando apenas a fronteira de Rafah Crossing com o Egipto, mas que muitas vezes está fechada), a débil economia da Faixa de Gaza foi-se degradando, empurrando a população palestiniana para um caos humanitário.

 

Na Cisjordânia, apesar das dificuldades existentes, tudo é diferente. Há uma estrutura de poder minimamente estável, os serviços públicos funcionam, existe uma economia, as universidades fervilham de actividade, os restaurantes e café estão abertos nas várias cidades palestinianas, digamos que há uma certa dinâmica de sociedade. Além disso, a circulação entre a Cisjordânia e Israel, através de vários postos de controlo ao longo da fronteira, é muito mais facilitada.

 

Este enquadramento talvez seja importante para se perceber a passividade com que a Fatah e os palestinianos na Cisjordânia estão a encarar esta sublevação. Na verdade, dos relatos que chegam da Cisjordânia, registam-se apenas alguns confrontos em Hebron e Nablus, mas pouco significativos e nada comparáveis aos protestos de Gaza. Tudo indicia que a Fatah não está interessada em promover uma nova intifada. A única declaração que se encontra é esta, algo inócua, na qual se apela ao mundo muçulmano para proteger Jerusalém. Ainda esta manhã, a BBC News passava imagens em directo da rotunda Al Manara, em Ramallah, onde, normalmente, se concentram manifestações, e o ambiente era estranhamento calmo para aquilo que costuma ser em momentos de contestação e que eu, pessoalmente, lá vivi em diversas ocasiões.

 

A questão é saber se neste momento interessa à Autoridade Palestiniana e à Fatah abraçarem a causa dos seus "irmãos" da Faixa de Gaza, sabendo de antemão que qualquer acto mais agressivo contra Israel terá consequências dramáticas na Cisjordânia, em cidades como Ramalhah, Belém, Hebron ou Nablus. Do que se vai percebendo, a Fatah e o poder instalado em Ramalhah não parecem estar dispostos a sacrificarem a sua condição para dar força a uma terceira intifada. Para já, os palestinianos na Faixa de Faza estão entregues à sua sorte, como aliás, tem acontecido há quase 20 anos.   

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:35
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Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

Três questões vitais onde Israel nunca cederá

 

O conflito israelo-palestiniano voltou a escalar nos últimos dias. Já morreram 16 pessoas e ficaram feridas quase trezentas. Tem sido assim nas últimas décadas, na verdade, desde a criação do Estado de Israel a 14 de Maio de 1948. Até aqui, nada de novo e muito menos de surpreendente. O que surpreende verdadeiramente é como que, ao fim destes anos todos, políticos e analistas internacionais ainda olham para isto com algum idealismo e não tenham percebido que há três questões vitais sobre as quais Israel nunca cederá, sabendo que no dia em que o fizer, é o dia em que sobrevivência do seu Estado fica em causa. Aqui fica uma explicação muito simplificada:

 

1.A primeira questão prende-se com o acesso à água doce, um recurso escasso naquela região do planeta e que Israel tratou de assegurar. O controlo israelita dos Montes Golã, mais do que a sua importância estratégica enquanto “zona tampão” com a Síria, é vital pelo facto daqueles aquíferos montanhosos alimentarem o Rio Jordão. Toda aquela zona é muito verde e propícia à agricultura. É importante notar que um terço da água consumida em Israel vem dali. Sobre este assunto, muito há para dizer, mas o importante é ter-se a noção de que Israel nunca abdicará de qualquer controlo sobre as fontes de água doce na Cisjordânia, exercendo uma espécie de “hidro-hegemonia”, impedindo que a Autoridade Palestiniana desenvolva infraestruturas de fornecimento de água, criando-se, assim, um regime discriminatório com efeitos perversos.

 

2.A segunda questão vital tem a ver com o estatuto de Jerusalém (na verdade, o problema coloca-se com a Cidade Velha de Jerusalém). Por mais pretensões (e razões) que os palestinianos possam ter, Israel nunca permitirá que a Cidade Velha de Jerusalém fique sob domínio palestiniano e se torne a capital do Estado Palestiniano. De pouco servem as pressões internacionais, o facto é que são as Forças de Segurança Israelitas (IDF) que controlam todas as entradas e saídas do lado oriental da cidade, assim como o acesso à Esplanada das Mesquitas dentro dos muros da histórica cidade. No que diz respeito à defesa do seu território e da sua capital, Israel já deu provas de lidar bastante bem com a anátema de ser uma potência ocupante. E apesar de existir uma certa opinião pública israelita que contesta a política de ocupação hebraica, pouca força tem quando se trata de mudar o curso da História

 

3. A terceira questão vital está directamente relacionada com o famoso direito de retorno de todos os palestinianos refugiados. Este estatuto tem origem na primeira guerra de 1948, sendo depois aplicado a todos os palestinianos que foram sendo obrigados a sair das suas casas e terras no seguimento da ocupação israelita dos territórios da Cisjordânia ao longo das décadas. Nas vésperas do 70º aniversário da criação do Estado de Israel, ou da Nakba ("catástrofe"), na perspectiva palestiniana, milhares de pessoas da Faixa de Gaza iniciaram a “Grande Marcha do Retorno”, uma marcha que marchou pouco, porque, para todos os efeitos, está parada em vários pontos da vedação fronteiriça que separa aquele enclave de Israel. Realisticamente falando, trata-se de um acto mais simbólico do que consequente, sendo que as únicas consequências se traduzem em mortos e feridos. Por mais apelos internacionais e campanhas de sensibilização, Israel nunca irá contemplar com aquele movimento e a marcha não sairá dali, nem hoje, nem nunca. Ou pelo menos, enquanto o Estado hebraico existir. Se, por um lado, os palestinianos reclamam por um direito histórico válido, a posição de Israel é compreensível, porque, a julgar pelos dados oficiais da UNRWA, devem haver mais de cinco milhões de refugiados espalhados pela Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano, etc. Ora, a partir do momento em que Israel reconhecesse o “direito de retorno”, era o dia em que iniciava uma guerra que nunca iria ganhar: a da demografia.

 

Há uns anos, um ilustre académico palestiniano de Nablus, e que chegou a candidatar-se contra Yasser Arafat nas eleições presidenciais, dizia-me que o grande problema daquele líder histórico foi ter assinado os Acordos de Oslo, porque foram uma armadilha. Explicava-me esse professor e activista que aqueles acordos nunca contemplaram as matérias vitais acima referidas, essenciais para a criação de um verdadeiro Estado palestiniano independente. O problema é que comprometeram a Autoridade Palestiniana num acordo que definia um status quo favorável a Israel.

 

Na altura, achei que poderia seria uma análise algo exagerada, mas hoje não tenho qualquer dúvida de que Israel nunca formalizará um acordo onde tenha que ceder numa destas três questões. Quem acreditar nisso ou apelar a isso não estará seguramente a fazer um favor à paz. Aliás, é de uma ambição desmedida querer alcançar-se paz entre palestinianos e israelitas, quando aquilo que os líderes internacionais deveriam primeiro pensar era na conquista da estabilidade entre dois povos, dois estados, mas isso só se alcança com realismo e algum cinismo, porque, infelizmente, é assim nas relações internacionais e na História das nações.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:22
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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

Israel admite operação secreta sob o manto da "doutrina Begin"

 

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Um dos F-16 israelitas da Esquadra 253, momentos antes de levantar voo na noite de 5 de Setembro de 2007, com destino ao complexo de Al Kibar em Deir Ezzor na Síria/ Foto:IDF

 

Em relação ao programa nuclear iraniano, tive sempre a convicção de que estaria muito longe de representar qualquer ameaça imediata para a região do Médio Oriente. Mesmo quando este tema estava no topo da agenda das preocupações de Washington, poucas dúvidas tinha de que os esforços de Teerão se limitavam a pouco mais do que a instalação de centrifugadoras em cascata. Esta quase certeza não tinha como base qualquer fonte privilegiada de “intelligence” junto do regime dos ayatollahs, mas apenas um facto muito simples, embora revelador: se houvesse o menor indício de ameaça a curto ou a médio prazo por parte do Irão, os caças-bombardeiros israelitas não perderiam tempo na destruição de qualquer alvo suspeito. Porque, a partir do momento em que os serviços de “intelligence” israelitas reunissem informação que colocasse o Irão na iminência de alcançar a bomba atómica, Israel atacaria cirurgicamente as várias instalações nucleares iranianas, sem qualquer aviso prévio, incluindo a Washington, que só deveria ter conhecimento da operação quando aquela já estivesse em curso.

 

Este princípio tanto se aplica ao Irão como a qualquer outro país da região, nomeadamente a Síria e o Iraque. A Mossad está sempre atenta a tudo o que se passa à sua volta, tal como sempre esteve em relação aos programas nucleares da Síria e do Iraque, tendo no passado agido preventiva e militarmente contra estes dois países a partir do momento em que se sentiu, efectivamente, ameaçada. Esta Quarta-feira, como forma de aviso ao Irão, o Governo israelita admitiu uma dessas operações secretas, ocorrida em 2007.

 

Na noite de 5 para 6 de Setembro de 2007, o primeiro-ministro, Ehud Olmert, pôs em prática a “doutrina Begin”, através de uma operação que Israel sempre negou, até hoje. Recordo que há uns anos, o New Yorker explicava como Israel tinha bombardeado secretamente o suposto reactor nuclear de Al Kibar sem que ninguém desse por isso e o assumisse posteriormente. “O ataque resultou de uma operação da Mossad em Viena, em Março de 2007, na qual recolheu 'intel' na casa de Ibrahim Otham, o director da Comissão Síria de Energia Atómica. As provas recolhidas, incluindo fotos do local do reactor, eram conclusivas. Washington foi informado, mas o Presidente George W. Bush não ficou muito convencido. Olmert, por seu lado, tinha poucas dúvidas e a 5 de Setembro, pouco antes da meia-noite, quatro F-15 e quatro F-16 levantaram voo de bases israelitas com destino à Síria.  Através de mecanismos electrónicos, os israelitas “cegaram” o sistema de defesa anti-aéreo sírio, entre as 00:40 e as 00:53, o suficiente para entrarem no espaço aéreo do inimigo sem serem vistos e lançaram várias toneladas de bombas sobre o alvo. Hoje, cinco anos depois, ninguém fala no assunto ou o reconhece, seja Israel ou a Síria”. Escrevi isto em Outubro de 2012, no entanto, este assunto nunca mais foi referido. Hoje, Israel assumiu este ataque, com as IDF a revelaram alguns detalhes, e avisou que nunca permitirá que qualquer país da região obtenha armas nucleares.  

 

Esta doutrina teve a sua origem em 1981, quando o primeiro-ministro Menachem Begin deu ordem para que oito caças F-16 destruíssem o reactor nuclear de Osirak, no Iraque, que Israel acreditava produzir plutónio para ogivas. Secretamente e contra a vontade de Washington, Begin não hesitou. Estava lançada a “doutrina Begin”, que assentava no seguinte princípio: “The best defense is forceful preemption." Para Begin, nenhum adversário de Israel deveria adquirir armas nucleares.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:31
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Quarta-feira, 18 de Março de 2015

Sem surpresa

 

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Foto: Tomer Appelbaum/Haaretz

 

É difícil compreender como alguns jornais internacionais classificam de "surpreendente" a vitória do Likud de Benjamin Netanyahu nas eleições legislativas de ontem em Israel. É certo que à luz de algumas sondagens, a vitória, tangencial, estaria entregue à coligação de centro-esquerda. Mas, para quem conhece minimamente aquele país e a sua história política, sabe que tudo é possível no que diz respeito ao seu sistema eleitoral. Surpresas, mesmo, só para quem andasse muito distraído. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:15
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Terça-feira, 15 de Julho de 2014

Um conflito, dois Estados

 

Ataque das IDF sobre a Faixa de Gaza/Foto: Haaretz 

 

Vendo bem as coisas, poder-se-á classificar a guerra entre Israel e a Faixa de Gaza como um conflito entre Estados. É certo que não é exactamente nos moldes clássicos, mas nem por isso deixa de ser um conflito que opõe um Estado de jure e de facto (Israel) a uma outra entidade que, na prática, é, de há uns anos a esta parte, um Estado de facto (Faixa de Gaza). 

 

Um Estado que, com as suas autoridades próprias, muito pouco tem a ver com a realidade política da Cisjordânia. Também social e culturalmente existem algumas diferenças consideráveis entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, tornando-as duas realidades cada vez mais distintas. 

 

Gaza é um Estado que, apesar de exíguo, consegue ser substancialmente maior e com mais população que muitos micro-Estados que existem no sistema internacional. Com 40 quilómetros de comprimento e dez de largura, a Faixa de Gaza alberga 1,7 milhões de palestinianos. No entanto, 21 por cento da população vive em pobreza absoluta e a taxa de desemprego está acima dos 40 por cento, um valor superior àquele que se verifica na Cisjordânia.  

 

É um Estado pobre, isolado por mar e por terra, e cuja economia assenta sobretudo no comércio de contrabando com o Egipto, através dos famosos túneis que ligam o enclave ao deserto do Sinai. É uma economia muito débil, mas funciona minimamente, tendo em conta a conjuntura.

 

O poder está formalmente entregue ao Hamas e é exercido, dentro das possibilidades, na gestão dos serviços públicos. Ou seja, o poder não está na rua, embora esteja nas mãos de um partido ou movimento que está claramente associado a actividades terroristas e a uma ideologia radical, que vê na destruição de Israel o seu maior objectivo. É verdade que o Hamas tem uma vertente social na Faixa de Gaza que não pode nem deve ser descurada, mas que em última instância está orientada para uma determinada forma de se ver a realidade do Médio Oriente e, em concreto, a dinâmica israelo-palestiniana.

  

A Faixa de Gaza não é nem mais nem menos do que muitos Estados pobres e exíguos, sem recursos, e geridos por um poder legítimo (eleições), mas altamente discutível quanto aos seus padrões. Porque, vendo bem, a Faixa de Gaza tem os três elementos constitutivos de um Estado: território, população e (quase) soberania. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:53
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Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Sentido de oportunidade

 

Perante o anúncio da criação de um califado no Iraque e na Síria, por parte do grupo radical sunita do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), Israel parece querer aproveitar a dinâmica de desmembramento das nações inimigos, e ontem o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apelou à criação de um Estado curdo independente, que iria retirar território à Síria, Irão, Iraque e Turquia. É caso para dizer que Netanyahu teve sentido de oportunidade.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:03
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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

UE "abre as portas" à internacionalização do conflito na Síria

 

Forças leais a Bashar al-Assad treinam em local incerto, 22 de Maio de 2013/Foto: Reuters

 

A decisão do último Conselho Europeu dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, reunido durante 12 horas, abriu formalmente as portas à internacionalização e à escalada do conflito na Síria, ao deixar, na prática, a cada Estado-membro o critério de enviar armas para os rebeldes sírios.

 

Apesar dos 27 se terem comprometido a não enviar qualquer material bélico para aquele país até ao dia 1 de Agosto, altura em que será revista esta posição, este gesto não é mais do que uma declaração de princípios, já que formalmente o embargo de exportação de armas que tinha sido imposto pela UE à Síria não foi renovado. 

 

Mais do que internamente -- porque é bastante provável que nenhum dos 27 vá enviar armas para a Síria até Agosto --, esta decisão do Conselho Europeu tem implicações na percepção que algumas potências terceiras com interesses na Síria possam ter. O caso mais imediato é o da Rússia que já reagiu com desagrado à posição da UE.

 

Para o Kremlin, a diplomacia europeia está a enviar sinais claros de que pretende, a curto prazo, começar a fornecer armamento à oposição síria. Uma interpretação que o autor destas linhas considera ser pertinente, atendendo à deterioração que se vai sentido no terreno, com mais de 80 mil mortos e 1,5 milhões de refugiados.

 

Na verdade, a situação está a tornar-se insustentável para as chancelarias ocidentais mais poderosas, que começam a ter muitas dificuldades para explicar a passividade em relação ao que se passa na Síria, ao mesmo tempo que prestam apoio militar noutros cenários de guerra, provavelmente nesta altura bem menos dramáticos e sangrentos.

 

Neste sentido, o chefe da diplomacia britânica, William Hague, fez questão de sublinhar que o dia 1 de Agosto não representa qualquer "deadline", porque o Reino Unido poderá começar a partir de agora a armar os rebeldes sírios, no entanto, não existem planos para tal. Pelo menos até à ronda de negociações de Genebra agendada para meados de Junho.

 

Quem não vai esperar pela próxima ronda de negociações é a Rússia, que reagiu de imediato à decisão do Conselho Europeu com o anúncio do envio do poderoso sistema de míssil terra-ar S-300 comparável ao famoso sistema americano Patriot.

 

A decisão do Kremlin veio dar uma nova dimensão ao conflito sírio, uma vez que Israel já avisou, através do seu ministro da Defesa, Moshe Yaloon, que não tolerará a instalação dos S-300 na Síria. Para já, o Governo hebraico informa que os sistemas S-300 ainda não saíram da Rússia. Por outro lado, surgem notícias de que o Kremlin poderá aproveitar esta situação para negociar com Israel. Ou seja, recua na questão dos S-300 em troca do compromisso israelita de não efectuar raides aéreos sobre território sírio. 

 

Por esta altura em Israel as forças armadas hebraicas (IDF) devem estar em alerta máximo, perante a volatilidade na Síria e o crescente envolvimento de mais actores. Como escrevia o Haaretz, Israel está entre os guerrilheiros do Hezbollah e os mísseis russos, jogando cada vez mais os seus interesses em território sírio.

 

Neste momento, existe a ideia em Israel que uma derrota massiva do Hezbollah na Síria poderia representar um golpe fatal para aquela organização terrorista no Irão e no Líbano. E nesta lógica, Telavive pretendia aproveitar o apoio europeu aos rebeldes sírios para ajudar a combater os  homens do Hezbollah, porém, a movimentação mais recente da Rússia veio alterar esse cenário.

 

Em Washington, bem longe, a administração do Presidente Barack Obama critica a atitude da Rússia ao mesmo tempo que se congratula com a decisão do Conselho Europeu. Mas para já, a Casa Branca não parece muito disposta a enviar armamento para os rebeldes, apesar das pressões de muitos republicanos nesse sentido. 

 

Caso esta escalada se acentue, a Síria poderá tornar-se no palco de um potencial conflito regional. As perspectivas não são animadoras, até porque não se esperam grandes resultados da conferência de Genebra.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 00:05
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Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Os esforços da Liga Árabe para reanimar a iniciativa de paz de 2002

 

Imagem: The Economist


Publicado por Alexandre Guerra às 18:29
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Terça-feira, 12 de Março de 2013

Benjamin Netanyahu "liberta-se" dos ultra-ortodoxos

 

 

Uma das consequências do espinhoso processo de formação de Governo em Israel actualmente em curso é o afastamento das formações partidárias ultra-ortodoxas do espectro político executivo que, de uma maneira ou de outra, têm marcado presença ou influência nos governos de direita desde a fundação do Estado hebraico em 1948.

 

Benjamin Netanyahu, vencedor das últimas eleições, deverá optar por alianças com partidos mais moderados, libertando-se, assim, dos constrangimentos impostos pelos ultra-ortodoxos. Porque, o problema que se tem colocado ao longo dos anos na coabitação com aquelas formações não é apenas político. É sobretudo um choque permanente entre diferentes modelos de sociedade. Nem "falcões" como Netanyahu se identificam com o paradigma apregoado pelos ultra-ortodoxos. 

 

Além disso, a classe política e a opinião pública em geral começam a demonstrar uma insatisfação crescente perante aquilo que consideram ser a imposição moral e religiosa de um grupo privilegiado de pessoas que vivem à margem da sociedade e que, sob o pretexto do ensino dos valores basilares da Torah, vão obtendo regalias. Financiamentos governamentais ou a excusa de serviço militar obrigatório são apenas alguns exemplos dos benefícios da comunidade ultra-ortodoxa.

 

Actualmente, cerca de 10 por cento dos israelitas são ultra-ortodoxos, um número que deverá aumentar para 15 por cento em 2025. É uma questão sensível, já que a lógica de ensino ultra-ortodoxo assenta quase exclusivamente no estudo da Torah, excluindo áreas de saber como Matemática, Inglês ou ciências. A par desta realidade, os mais velhos continuam a estudar a tempo inteiro graças aos apoios estatais. 

 

Com a comunidade ultra-ortodoxa "fechada" ao resto da sociedade e virada para si mesma, a consequência natural é um maior desemprego e uma taxa de pobreza mais elevada comparativamente ao resto da sociedade.

 

Mas, talvez o principal desafio para os governantes nos próximos tempos seja gerir a fricção crescente entre a comunidade ultra-ortodoxa e o resto da sociedade israelita (já para não falar dos palestinianos).

 

Recentemente, os activistas ultra-ortodoxos defenderam algumas medidas consideradas radicais e que estão a gerar desconforto entre os israelitas, nomeadamente a tentativa de incutir alguns costumes restritivos na indumentária das mulheres judaicas.

 

Ainda mais preocupante e polémica é a medida que prevê práticas consideradas segregacionistas, tal como a utilização de autocarros e passeios exclusivamente para ultra-ortodoxos, estando os palestinianos proibidos de coabitarem naqueles espaços.

 

Netanyahu, talvez já com pouca paciência para os ensinamentos dos ultra-ortodoxos e antecipando futuros problemas, está a tentar libertar o seu novo Governo das amarras dos radicais da Torah, o que também poderá ser visto com alguma esperança pela sociedade israelita mais "mainstream".  

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 22:39
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Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Obama não faz "bluff" em relação ao Irão, diz Biden

 

Joe Biden, vice-Presidente dos Estados Unidos/Chip Somodevilla/Getty Images

 

Joe Biden falou esta Segunda-feira na conferência anual da Aipac, o maior lobby pro-israelita nos Estados Unidos, para dizer palavras que certamente agradaram à comunidade judaica naquele país. O vice-Presidente dos Estados disse que a ameaça de uso da força contra o Irão feita por Barack Obama não é um "bluff".

 

Biden deixou bem claro que a opção militar continua "em cima da mesa" perante a intransigência do Irão em cessar o seu programa nuclear, no entanto, sublinhou que Washington privilegiará sempre a via diplomática. 

 

Ora, mas é precisamente esta hesitação e inacção demonstrada pela Casa Branca em relação a Teerão que a comunidade judaica nos Estados Unidos não compreende. Para os sionistas e judeus mais radicais a solução defendida é uma acção militar preventiva, do estilo de um ataque nocturno às principais instalações nucleares iranianas.

 

É por esta solução que a comunidade judaica faz agora lobby junto de Obama. Resta saber até quando irá resistir o Presidente americano às pressões do lobby judaico, sobretudo se, entretanto, o Irão voltar a desafiar a comunidade internacional com o anúncio de mais etapas no seu programa nuclear. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:10
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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