Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

As razões de Netanyahu e Lieberman

 

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Avigdor Lieberman e Benjamin Netanyahu/Foto: Olivier Fitoussi

 

Não é apenas a Faixa de Gaza e o sul de Israel que estão a viver momentos conturbados, com o ressurgimento da violência nos últimos dias, depois de uma “covert operation” israelita ter sido descoberta no passado Domingo na localidade de Khan Younis no sul daquele enclave palestiniano. Também o sistema político israelita já se está ressentir com as ondas de choque dos violentos acontecimentos no terreno. Normalmente, tem sido sempre assim ao longo dos anos. Desta vez, foi Avigdor Lieberman que não perdeu tempo e se demitiu do cargo de ministro da Defesa de Israel, por não concordar com o cessar-fogo acordado pelo chefe de Governo, Benjamin Netanyahu, e o Hamas. Lieberman, pertencente à direita judaica mais ortodoxa, teceu fortes críticas ao primeiro-ministro, acusando-o de não estar a ser suficientemente “agressivo” contra o Hamas, uma ideia partilhada pela ala mais radical na sociedade hebraica. Aquele político, critica a débil resposta israelita aos cerca de 500 rockets lançados pelo Hamas entre Segunda e Terça-feira e fala numa “cedência ao terror” por parte de Netanyahu.

 

No entanto, numa análise cínica, o falhanço da desastrosa operação secreta israelita e a consequente retaliação militar do Hamas pode ter servido os interesses políticos de Lieberman, líder do partido Yisrael Beiteinu, que aproveitou este momento para se demarcar das políticas de Netanyahu. Ao mesmo tempo, apresenta-se ao seu eleitorado como um autêntico “falcão” e alimenta a possibilidade de gerar uma crise no Executivo e, consequentemente, eleições antecipadas. É importante lembrar que, apesar de tudo, uma parte do eleitorado se identifica com o pensamento de Lieberman em matéria de segurança, nomeadamente, os milhares de judeus ortodoxos que vivem em colonatos na Cisjordânia.

 

Por outro lado, há que compreender a posição mais prudente de Netanyahu, ao não querer escalar o conflito. Embora Israel tenha capacidade militar para destruir o Hamas, uma operação que tivesse verdadeiramente esse objectivo teria implicações quase insuportáveis em termos de danos colaterais junto da população civil da Faixa de Gaza. Portanto, uma guerra aberta e contínua em toda a sua plenitude não interessa a Netanyahu, mas também seria muito prejudicial para o projecto de poder do Hamas. Porque, caso Israel decidisse atacar com tudo e em força a Faixa de Gaza, as já muito difíceis condições de vida naquele enclave iriam degradar-se ainda mais, com a população, muito provavelmente, a insurgir-se contra as autoridades, neste caso o Hamas, que, assegura a gestão de uma série de serviços à população, desde a segurança às escolas e serviços.

 

A Israel também não interessaria, pelo menos para já, destruir o Hamas e criar um vazio de poder na Faixa de Gaza, uma vez que a Autoridade Palestiniana, com a Fatah no Governo, não tem neste momento condições para assegurar o controlo daquele território. Além disso, e como notava Dennis Ross, antigo negociador norte-americano, a decapitação do Hamas na Faixa poderia criar espaço para o surgimento de movimentos ainda mais radicais, como a Jihad Islâmica ou até mesmo o Estado Islâmico. Ao Jerusalem Post, Ross não tem dúvidas que Israel poderia derrotar o Hamas, mas e depois? Para garantir que o enclave não seria tomado por radicais, Israel teria de manter uma presença na Faixa de Gaza e isso a História já demonstrou que foi contrário aos interesses do Estado hebraico.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:20
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Terça-feira, 15 de Maio de 2018

O (quase) silêncio da Fatah

 

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Palestinianos na Faixa de Gaza protegem-se do gás lacrimogénio lançado pelos israelitas/FOTO:Ibraheem Abu Mustafa/Reuters

 

A Grande Marcha de Retorno esbarrou literalmente na vedação que delimita a Faixa de Gaza do território de Israel. Era uma iniciativa que estava condenada desde o início. A ideia de uma caminhada triunfal de milhares de palestinianos até Jerusalém não seria mais do que uma fantasia, uma tentativa de reabilitar as intifadas de anos anteriores, numa espécie de grito de revolta por parte de quase dois milhões de pessoas desesperadas, que há vários anos estão autenticamente presas num território com cerca de 40 quilómetros de cumprimento e 10 de largura, onde as condições de vida se degradaram para níveis miseráveis, reflectindo-se em indicadores sociais muito preocupantes.

 

É importante sublinhar que, hoje em dia, quando se fala na causa palestiniana e num futuro Estado palestiniano, na verdade, o que está em análise são duas realidades distintas. Não quer isto dizer que ambas não possam vir a coexistir sob um único Governo e estrutura política, mas, actualmente, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza são dois mundos substancialmente diferentes. E se isso já era evidente há uns anos ao nível social e religioso, sendo Gaza uma sociedade claramente mais conservadora do que a Cisjordânia, agora, em 2018, as diferenças são consideráveis no campo político-económico, sobretudo, por duas razões.

 

A primeira razão tem a ver com a morte de Yasser Arafat, em 2004, e a consequente perda de influência da Fatah na Faixa de Gaza. Recordo de ter estado em várias casas de famílias palestinianas na Faixa de Gaza e, quase sempre, numa das divisões havia uma fotografia do histórico líder. Isto, numa altura em que a Fatah já tinha pouca influência naquele território, mas onde Arafat continuava a ser o elemento político unificador. Após o seu desaparecimento, o Hamas rapidamente ascendeu ao poder, ao mesmo tempo que reforçava a sua presença na gestão dos serviços públicos e no apoio social. Ora, com a Cisjordânia historicamente dominada pela Fatah e a Faixa de Gaza nas mãos do Hamas, criou-se uma dualidade política que resultou em duas estruturas de poder diferentes e, por vezes, competitivas naquilo que é a luta pela liderança da causa palestiniana.

 

A outra razão está directamente relacionada com o bloqueio imposto por Israel que, basicamente, já vem dos tempos da intifada de al-Aqsa (2000-2005). Por esta altura, estive por duas vezes naquelas paragens e já então os palestinianos da Cisjordânia não podiam ir visitar os seus familiares à Faixa de Gaza e vice-versa. Era assim e assim continuou. E na altura cheguei a perguntar a muitos palestinianos como eram os tempos anteriores à intifada de al-Aqsa e todos me disseram que nem na primeira intifada (a chamada “revolta das pedras” entre 1987 e 1991) Israel tinha imposto tantas restrições de movimentos. Pois bem, os anos passaram e esse estrangulamento foi-se intensificando na Faixa de Gaza, com a agravante dos bombardeamentos israelitas em 2014 sobre aquele enclave, destruindo, ainda mais, muitas das suas infraestruturas públicas e de saneamento. Ao mesmo tempo, sem aeroporto e porto, e com as fronteiras encerradas com Israel (restando apenas a fronteira de Rafah Crossing com o Egipto, mas que muitas vezes está fechada), a débil economia da Faixa de Gaza foi-se degradando, empurrando a população palestiniana para um caos humanitário.

 

Na Cisjordânia, apesar das dificuldades existentes, tudo é diferente. Há uma estrutura de poder minimamente estável, os serviços públicos funcionam, existe uma economia, as universidades fervilham de actividade, os restaurantes e café estão abertos nas várias cidades palestinianas, digamos que há uma certa dinâmica de sociedade. Além disso, a circulação entre a Cisjordânia e Israel, através de vários postos de controlo ao longo da fronteira, é muito mais facilitada.

 

Este enquadramento talvez seja importante para se perceber a passividade com que a Fatah e os palestinianos na Cisjordânia estão a encarar esta sublevação. Na verdade, dos relatos que chegam da Cisjordânia, registam-se apenas alguns confrontos em Hebron e Nablus, mas pouco significativos e nada comparáveis aos protestos de Gaza. Tudo indicia que a Fatah não está interessada em promover uma nova intifada. A única declaração que se encontra é esta, algo inócua, na qual se apela ao mundo muçulmano para proteger Jerusalém. Ainda esta manhã, a BBC News passava imagens em directo da rotunda Al Manara, em Ramallah, onde, normalmente, se concentram manifestações, e o ambiente era estranhamento calmo para aquilo que costuma ser em momentos de contestação e que eu, pessoalmente, lá vivi em diversas ocasiões.

 

A questão é saber se neste momento interessa à Autoridade Palestiniana e à Fatah abraçarem a causa dos seus "irmãos" da Faixa de Gaza, sabendo de antemão que qualquer acto mais agressivo contra Israel terá consequências dramáticas na Cisjordânia, em cidades como Ramalhah, Belém, Hebron ou Nablus. Do que se vai percebendo, a Fatah e o poder instalado em Ramalhah não parecem estar dispostos a sacrificarem a sua condição para dar força a uma terceira intifada. Para já, os palestinianos na Faixa de Faza estão entregues à sua sorte, como aliás, tem acontecido há quase 20 anos.   

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:35
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Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

Um erro

 

É um erro o Governo interino do Egipto classificar a Irmandade Muçulmana de organização terrorista. Só contribuirá para criar mais clivagens entre os egípcios. Tal como acontece com o Hamas, é preciso distinguir na Irmandade Muçulmana a esfera política e social das franjas radicais. Claro que ninguém é ingénuo ao ponto de acreditar que estas facções mais extremistas actuam sem qualquer tipo de conhecimento ou de cobertura das lideranças políticas do Hamas ou da Irmandade, no entanto, numa abordagem mais realista, não se pode ignorar a penetração desses movimentos nas suas sociedades enquanto estruturas políticas e sociais devidamente organizadas capazes de dar respostas a vários níveis.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 21:56
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Domingo, 4 de Novembro de 2012

A asfixiante "tunnel economy" entre a Faixa de Gaza e o Egipto*

 

Um jovem palestiniano descansa dos trabalhos de escavação de mais um túnel/Foto: Eyad Baba/AP

 

Um das questões que se pode colocar perante a existência de “novos milionários” na Faixa de Gaza – actualmente, segundo se sabe, entre 100 a 200, e capazes de fazer dois milhões de dólares de dois em dois meses, como foi referido no segundo de três textos sobre a realidade do enclave palestiniano –, é saber como é possível que isso acontece num território literalmente isolado pelas forças de segurança israelitas (IDF)?

 

A mesma pergunta se pode fazer sobre o facto da economia em Gaza, embora débil, permanecer minimamente activa, quando as IDF apenas permitem a entrada de alguns bens de consumo, estando impedida, por exemplo, a importação de materiais para indústria pesada.  

 

Ou visto que a circulação de pessoas está muito limitada entre a Faixa de Gaza e o exterior, como é que os palestinianos naquele enclave conseguem ir ao Egipto para consultas médicas ou para outro tipo de serviço?

 

Trabalhador a retirar terra durante a escavação de um túnel algures entre a Faixa de Gaza e o Egipto/Foto AP

 

Um das centenas de túneis que saem de Rafah em direcção ao Egipto/Foto Time - Richard Moesse

 

A maior parte destas questões encontra resposta nas centenas de túneis construídos ilegalmente entre a Faixa de Gaza e o Egipto. Embora não haja dados exactos sobre esta “tunnel economy” (como lhe chama as Nações Unidas), estima-se que esta realidade tenha um impacto considerável na economia e na vida dos palestinianos da Faixa de Gaza. E traz sobretudo benefícios “de facto” às autoridades de Gaza e a uma certa elite próxima do Hamas. Quem o diz é a próprio International Labour Organization (ILO).

 

De acordo com um relatório deste ano da ILO, o volume do comércio ilegal feito nos túneis é quatro vezes superior àquele que é registado oficialmente. Já o Peres Center for Peace referia no ano passado que o valor dos bens contrabandeados todos os meses situava-se entre os 50 a 70 milhões de dólares, o que representava cerca de 80 por cento do total de bens importados para a Faixa de Gaza. Uma dimensão apenas possível pela existência de mais de 1000 túneis em 2010, segundo aquela entidade.    

 

Tudo se contrabandeia nos túneis, incluindo animais vivos/Foto: Eyad Baba

 

Também o Peace Research Institute Oslo, num relatório de 2010, referia que cerca de 15 mil trabalhadores (escavadores, etc) e 25 mil negociantes (leia-se contrabandistas) estariam envolvidos na “tunnel economy”. Números que seriam atenuados com o aligeiramento do cerco por parte de Israel no Verão de 2010.

 

A escavação de túneis começou depois do início da intifada de al Aqsa, em Setembro de 2000, na sequência do bloqueio cerrado imposto por Israel à Faixa de Gaza, por mar, terra e ar.

 

Quase todos estes túneis partem de Rafah, cidade no sul da Faixa de Gaza junto à fronteira egípcia, e tudo é contrabandeado por estes canais subterrâneos, como produtos alimentares, artefactos para a casa, electrodomésticos, material de construção e animais vivos, como ovelhas, vacas e burros. Tudo feito sob o comando do Hamas.

 

*Este é o último de uma série de três textos sobre a Faixa de Gaza

Publicado por Alexandre Guerra às 21:17
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Sábado, 20 de Outubro de 2012

Os "novos milionários" da Faixa de Gaza*

 

Desenho da Middle East Children's Alliance 

 

Há anos que as forças de segurança israelitas (IDF) impõem um bloqueio impiedoso à Faixa de Gaza, sendo este o principal factor responsável pela deterioração das condições de vida dos palestinianos que vivem naquele enclave.

 

Um bloqueio que, até ao Verão de 2010, permitia apenas a entrada de alguns alimentos básicos e medicamentos. Nessa altura, devido à pressão internacional no seguimento do incidente que envolveu o assalto militar israelita à flotilha humanitária turca, o Governo hebraico aligeirou o cerco, permitindo a entrada de uma maior variedade de bens de consumo.

 

Mas o controlo continuou a ser muito restrito, impedindo a entrada de materiais essenciais para a reconstrução e recuperação de um enclave totalmente asfixiado e parcialmente destruído, sobretudo a partir do momento em que o conflito israelo-palestiniano voltou a aquecer com o início da intifada de al Aqsa, em Setembro de 2000.

 

As três semanas de bombardeamentos israelitas no Inverno de 2008/2009 (Operação “Cast Lead”) vieram lançar ainda mais caos sobre os principais centros urbanos: a cidade de Gaza, Khan Yunis e Rafah. Mais de seis mil casas foram destruídas, assim como quase duzentas estufas. Contaram-se para cima de 900 crateras em estradas e ruas provocadas pelo impacto das bombas israelitas, 25 milhões de dólares em estragos nas universidades, mais de 35 mil cabeças de gado e um milhão de aves mortas. Dezassete por cento da área cultivável foi destruída.

 

Fonte: Relatório "Gaza in 2020: A liveable place?"/UNRWA

 

O Governo hebraico justificou a sua acção bélica com os mesmos argumentos com que tem sustentado o bloqueio: os lançamentos constantes de morteiros, por parte de militantes do Hamas, sobre zonas israelitas contíguas ao enclave, e a incursão de terroristas suicidas no território judaico.

 

É com base neste receio que o Governo israelita mantém a proibição de entrada e saída de palestinianos de Gaza, apenas em casos específicos ou de emergência médica. O autor destas linhas chegou a ouvir testemunhos de palestinianos na Cisjordânia a lamentarem-se pelo facto de já não visitarem familiares seus na Faixa de Gaza há muito tempo, por causa de não poderem circular em Israel nem entrar no enclave.

 

A verdade é que nestes doze anos, desde o início da intifada de al Aqsa, que entretanto terminou, os palestinianos de Gaza estão praticamente entregues à sua sorte, valendo-lhes o apoio das instituições sociais do Hamas e de algumas ONG.

 

Em Agosto, as Nações Unidas divulgaram um relatório importante, “Gaza in 2020: A liveable place?”, no qual lançaram o alerta: Gaza não será “habitável” em 2020 a não ser que se actue urgentemente em áreas como o saneamento básico, o abastecimento de água potável, o fornecimento de electricidade, a saúde ou o ensino.

 

O documento da agência da ONU de apoio aos refugiados palestinianos (UNRWA) estima que nos próximos oito anos a população da Faixa de Gaza chegue aos 2,1 milhões, mais 500 mil pessoas que actualmente.

 

Apesar da economia ter crescido nos últimos anos, os palestinianos vivem em média pior do que nos anos 90, onde o rendimento per capita era superior ao do ano passado. 

 

Esta aparente contradição explica-se pelo facto desse crescimento estar focado na construção, como foi aliás abordado no primeiro texto desta série, e não em sectores produtivos e sustentáveis da economia.

 

E uma vez que não é a população em geral a ganhar os dividendos do crescimento (pelo contrário), alguém há de estar a fazer dinheiro na Faixa de Gaza. Ou melhor dizendo, alguns homens bastante ricos, próximos do Hamas.

 

Citado pela BBC News, Omar Shabban, economista do think thank Palthink, baseado em Gaza, refere que devem existir actualmente entre 100 a 200 “novos milionários” que juntaram muito dinheiro em pouco tempo e que devem fazer 2 milhões de dólares de dois em dois meses.  

 

Estes homens têm usufruído do “boom” da construção e de toda uma economia paralela que é alimentada pelas centenas de túneis que existem entre a Faixa de Gaza e o Egipto, pelos quais é contrabandeado todo o tipo de materiais provenientes do território egípcio. Um tema a ser analisado no terceiro e último texto desta série.

 

*Este é o segundo de três textos sobre a Faixa de Gaza

 

O sonho perdido de Arafat (1)

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:21
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

Trocar um soldado por mil prisioneiros é, estranhamente, um bom "negócio" para todos

 

O Presidente Shimon Peres com os pais Gilad Shalit/Foto: AFP

 

Israel rejubila com o anunciado regresso a casa de Gilad Shalit, o soldado das forças de segurança israelitas (IDF), em cativeiro desde 2006, depois de ter sido capturado pelo Hamas na Faixa de Gaza. Desde então, Shalit nunca foi esquecido pelas autoridades israelitas, sabendo-se que seria uma questão de tempo até se promover uma negociação de troca de prisioneiros com o inimigo, uma prática implementada por diversas vezes.

 

Era preciso ter paciência e gerir a situação da melhor forma. Nisso os israelitas são exímios (exceptuado alguns disparates feitos nos tempos recentes).

 

Também por isso, o Hamas sabia que o refém que tinha em mãos era bastante valioso e que seria uma moeda de troca excelente no dia em que o Governo hebraico estivesse disponível para negociar.

 

A proposta que Yoram Cohen, chefe do Shin Bet (serviços secretos internos), apresentou ao primeiro-ministro Netanyahu contempla, numa primeira fase, a libertação de cerca de 450 prisioneiros palestinianos, 280 dos quais com penas perpétuas. Num segundo momento, daqui a uns meses, serão libertados à volta de 550 prisioneiros.

 

Não deixa de ser um bom negócio para o Hamas, que consegue 1000 homens em troca de apenas um soldado hebraico, fazendo regressar a casa muitos militantes daquele movimento, mas também da Fatah e de outros partidos.

 

Com esta iniciativa, o Hamas reforça a sua posição junto da opinião pública palestiniana, sobretudo na Cisjordânia, onde está mais fragilizada perante o domínio da Fatah e do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.

 

Também o líder político do Hamas, Khaled Meshaal, está a surgir como um negociador influente, tendo chegado esta Quarta-feira à noite ao Cairo para coordenar no terreno o processo da troca de prisioneiros, que deverá acontecer dentro de uma semana.

 

Do lado israelita, Netanyahu já está a capitalizar dividendos com esta operação, nem que seja pelas manobras de relações públicas. Os pais do soldado têm manifestado publicamente o agradecimento ao chefe do Governo, que, de quase todos os quadrantes, tem recebido elogios pela medida.

 

A este propósito Yossi Verter escrevia no Haaretz que nos próximos dias o povo de Israel vai estar a partilhar a alegria dos pais de Shalit, graças a uma decisão de Netanyahu, que terá sido a mais difícil do seu mandato. Mas como diz Verter, Netanyahu será sempre lembrado para a História como o homem que trouxe para casa um soldado israelita em cativeiro há mais de cinco anos.

 

Além disso, tinha sido o próprio Shin Bet a assumir que a libertação de Shalit através de uma operação militar seria praticamente impossível. Por isso, Netanyahu teve o apoio de todas as chefias militares. Também ao nível do Governo, 26 ministros aprovaram o plano da troca de prisioneiros. No entanto, três votaram contra, entre os quais o dos Negócios Estrangeiros, o ortodoxo Avigdor Lierberman.

 

Conta o jornal Haaretz que a reunião foi muito intensa e dramática, tendo mesmo Uzi Landau, ministro das Infraestruturas Nacionais, e um dos que se opôs ao plano, afirmado que se está perante uma “grande vitória do terrorismo”. Demonstrou ainda a sua ira contra Cohen, por este estar a recomendar um plano deste género.

 

Curiosamente, também em 1997, quando assumia pela primeira vez a chefia do Governo hebraico, Netanyahu promoveu uma troca de prisioneiros, embora na altura com contornos muito diferentes. Sem qualquer escolha, Israel teve que libertar o xeque Ahmed Yassin (seria morto mais tarde) em troca de dois agentes da Mossad, que tinham estado envolvidos numa tentativa de assassinato a Meshaal na Jordânia.

 

Agora, Netanyahu volta a promover uma troca de prisioneiros, mas desta vez massiva, devolvendo a liberdade a alguns terroristas de primeira linha. Um preço elevado, mas que a sociedade israelita parece estar disposta a pagar para ver o seu soldado regressar a casa.

 

Apesar da lista dos libertados incluir importantes terroristas, Cohen já garantiu que nomes como Abdullah Barghouti, Ibrahim Hamed, Abbas Sayed, Ahmed Saadat e, especialmente, Marwan Barghouti não estão contemplados neste negócio.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:17
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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