Figura polémica, algo excêntrica e que se diria uma autêntica "personagem" (mesmo para os padrões africanos), que ficou sobretudo conhecida pelo seu gorro vermelho (um dos elementos identitários da etnia balanta), Kumba Ialá, ex-Presidente da Guiné Bissau, morreu esta Sexta-feira, por motivos de doença cardíaca. Tinha 61 anos.
Embora nunca tenha sido um exemplo de liderança nem um modelo político propriamente saudável para ser seguido, Kumba Ialá foi um participante muito activo na vida democrática (se é que se pode chamar isso) guineense desde os anos 90. Além de ter sido o fundador do Partido da Renovação Social (PRS), Kumba saltou para a arena política com bastante entusiasmo e conseguiu cativar o eleitorado. De tal forma, que meteu fim ao domínio do histórico PAIGC, quando em 2000 foi eleito Presidente.
A morte de Kumba está a ser sentida pelo Diplomata com alguma nostalgia, já que, de certa forma, entre 2000 e 2003, o autor destas linhas muito escreveu e ouviu sobre aquela personalidade. Na altura, estava no Semanário e foram muitos os artigos escritos sobre o que se passava na Guiné Bissau. Muitas entrevistas e conversas com "fontes" bem informadas e colocadas. Uma delas foi Carlos Gomes Júnior, que mais tarde viria a ser primeiro-ministro da Guiné Bissau.
E desde essa altura que Kumba Ialá era uma figura cativante do ponto de vista jornalístico. Não tanto pelo seu desempenho enquanto político, mas pelo estilo pouco ortodoxo que imprimiu na forma de comunicar com o povo. A acrescentar a isto, havia os inúmeros relatos, alguns inacreditáveis, que iam chegando ao autor destas linhas, sobre os comportamentos de Kumba Ialá para lá dos olhares públicos.
Kumba Ialá era um homem com um sentido político interessante (nem bom nem mau), sustentado com uma ideologia muito própria, em que misturava uma espécie de socialismo (muito característico nas lideranças africanas) com um messianismo de inspiração divina (alguns líderes africanos vincam esta vertente).
Ironicamente, e contrariando o registo que o marcou durante a sua actividade política, Kumba Ialá foi elegante na sua retirada da política. Fê-lo sem confronto e aparentemente sem mágoa em relação aos seus inimigos. Em África, é algo de louvar.
Texto sobre a Guiné Bissau da autoria do Diplomata e publicado originalmente no blogue colectivo Forte Apache foi citado pela SIC N, na Edição da Noite da passada Terça-feira. Ver a partir do 1'20.
Entrevista publicada no Semanário de 13 de Junho de 2003
Noutros tempos de aventuras jornalísticas, o autor destas linhas entrevistou Carlos Gomes Júnior, no Altis, numa das suas visitas a Lisboa, mais como empresário do que propriamente como líder político. Ao recuperar essa entrevista do arquivo, o Diplomata não deixou de achar irónico o título da mesma: "Kumba Ialá está a preparar uma grande fraude eleitoral".
Provavelmente estaria, com vista às eleições previstas para o mês seguinte (e que seriam adiadas). Mas o mais curioso é que aquele título parece não ter perdido actualidade.
Na altura, Carlos Gomes Júnior já era presidente do PAIGC, depois de ter vencido o congresso daquele partido em Fevereiro de 2002, no entanto, era o seu perfil empresarial que mais se evidenciava. Aliás, foi sobretudo através de canais informais que então este jornalista chegou ao contacto com Gomes Júnior, não havendo qualquer máquina política a enquadrar o encontro. Seja como for, a entrevista serviu claramente para Gomes Júnior passar a mensagem em Lisboa de que iria lutar pela liderança do Governo do seu país.
Entre os vários negócios e cargos de gestão que na altura desempenhava, um dos mais relevantes era o de presidente da Comissão Executiva do Banco da África Ocidental. Na Guiné, tal como em Lisboa, Carlos Gomes Júnior ganhou respeito precisamente como homem de negócios.
O seu estilo discreto e algo envergonhado não fazia prever que alguma vez chegasse à chefia do Governo de um país como a Guiné Bissau.
Carlos Gomes Júnior não parecia reunir qualquer requisito para ser governante daquele Estado. Ao contrário de figuras como o falecido Nino Vieira ou Kumba Ialá, Carlos Gomes Júnior era uma pessoa civilizada, educada e com um grau considerável de instrução e de responsabilidade.
Além disso, a sua cordialidade aliada à ausência de protagonismo deitavam por terra qualquer previsão quanto a uma carreira política duradoura em Bissau.
Mas a verdade, e apesar destas linhas reflectirem aquilo que este autor pensou no momento da entrevista, Carlos Gomes Júnior foi conseguindo manter-se à frente do PAIGC e do Governo guineense a partir de 2004.
O mais extraordinário foi o facto de Nino Vieira ter exonerado o seu Executivo ao fim de 17 meses, num gesto que este autor considerou ser o fim da experiência governativa de Gomes Júnior. Mais uma vez, tal assumpção estava errada: voltou a ser eleito para o cargo em Novembro de 2008, mantendo-se até Fevereiro último, altura em que se lançou nas presidenciais, depois da morte prematura do antigo chefe de Estado, Malam Bacai Sanhá.
Hoje, o autor destas linhas chega à conclusão de que a sobrevivência política de Carlos Gomes Júnior se deveu, talvez, precisamente ao seu estilo "low profile" que vinha adoptando nos últimos anos, vincando claramente a sua componente empresarial, conseguindo assim obter maior credibilidade junto de alguns sectores da sociedade guineense e da comunidade internacional.
E agora que estava lançado para uma vitória na segunda volta das presidenciais, marcadas para 29 de Abril, os militares (ou pelo menos alguns) vieram para a rua e fizeram mais um golpe de Estado na Guiné Bissau. Dadas as circunstâncias, o Diplomata acredita que desta vez é que é: A política para Gomes Júnior chegou ao fim.
Texto publicado originalmente no Forte Apache.
Este fim de semana está a ser marcado por dois processos eleitorais em países lusófonos, Guiné Bissau e Timor Leste. E, para já, a grande surpresa foi o afastamento de José Ramos Horta, actual Presidente timorense, na primeira volta do processo eleitoral de ontem.
O Prémio Nobel da Paz conseguiu apenas 18 por cento dos votos, um número que o remete para o terceiro lugar, afastando-o da segunda volta. Uma ronda que será disputada a 14 de Abril por Francisco Guterres, da Fretilin, com pouco mais de 28 por cento, e por Taur Matan Ruak, antigo chefe das Forças Armadas, que alcançou ligeiramente acima dos 25 por cento.
Na Guiné Bissau, depois da morte por doença do Presidente Malai Bacam Sanhá, em Janeiro, os eleitores estão hoje a escolher, entre nove candidatos, nomes como Kumba Ialá do Partido de Reinserção Social (PRS), e que já ocupou o cargo da chefia de Estado, Henrique Rosa, independente e que já foi Presidente interino, e Carlos Gomes Júnior, candidato do PAIGC e actual primeiro-ministro.
Gomes Júnior deverá alcançar facilmente a segunda volta e é muito provável que venha a ser o próximo Presidente da Guiné Bissau. Pedro Seabra, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança, explica porquê no jornal Público.
Malam Bacai Sanhá na Assembleia Geral das Nações Unidas, a 25 de Setembro de 2011/Foto: Don Emmert - AFP
A Guiné Bissau perdeu hoje mais uma das suas figuras de Estado (se é que se pode utilizar este termo em relação àquele país africano). O seu Presidente, Malam Bacai Sanhá, morreu esta Segunda-feira com 64 anos num hospital em Paris, onde se encontrava em tratamentos intensivos desde Novembro.
No contexto guineense pode-se dizer que foi uma morte em circunstâncias normais, fruto apenas do infortúnio de Sanhá. Foi a sua doença que o fez tombar e não a acção vil e selvática de um qualquer general revoltoso, de um guarda infiel ou ainda de um rival político sedento de poder. Porque, infelizmente, a história guineense tem sido feita com o derramamento de muito sangue, onde as mais altas figuras do Estado não têm escapado.
Aliás, foi essa mesma violência intestina que abriu o caminho da presidência a Sanhá, em 2009, depois do seu antecessor, “Nino” Vieira, ter sido brutalmente assassinado por soldados amotinados sabe-se lá a mando de quem e com que objectivo.
Também nas últimas semanas, enquanto o chefe de Estado lutava pela sua vida num hospital em Paris, vieram ecos de mais uma tentativa de golpe de Estado ou, pelo menos, de uma insurreição palaciana. Desta vez sem grandes consequências, tendo o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior escapado incólume.
O chefe de Armada, José Américo Bubo Na Tchuto, foi detido, alegadamente, por ter sido o cabecilha da movimentação.
Dizem as autoridades americanas que Na Tchuto tem ligações ao tráfico internacional de droga, uma das principais actividades na Guiné Bissau e que parece ter a cobertura e o envolvimento de várias figuras do Estado.
Embora ninguém queira assumir frontalmente, nomeadamente a União Africana (UA) ou a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS), a Guiné Bissau parece ter-se transformado numa autêntica placa giratória na rede internacional de tráfico de droga.
Não é por isso de estranhar que tenham surgido algumas notícias a sustentarem a ideia de que a tentativa de golpe de Estado não foi mais do que uma querela entre duas facções nas forças armadas por causa do controlo do negócio da droga.
Perante este descontrolo e a vigilância mais atenta dos Estados Unidos, o Governo guineense, através do Ministro da Defesa, Bacrio Dja, e do chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o general António Injai, veio rapidamente dizer que a tentativa de golpe pretendia apenas derrubar o Governo (o que é normal na Guiné), afastando a hipótese de guerras entre facções com ligações ao tráfico de droga.
Carlos Gomes Júnior, primeiro-ministro da Guiné Bissau
A recente onda de violência que assolou a Guiné Bissau, que resultou nas mortes do Presidente Nino Vieira e do chefe do Estado Maior das Forças Armadas, serve de pretexto para recuperar aqui neste espaço uma história.
Em tempos, o autor destas linhas entrevistou Carlos Gomes Júnior (talvez no Altis ou no Tivoli), actual chefe do Governo guineense, numa das suas visitas a Lisboa, mais como empresário do que propriamente como líder político.
Na altura, Carlos Gomes Júnior já era presidente do PAIGC, depois de ter vencido o congresso daquele partido em Fevereiro de 2002, no entanto, era o seu perfil empresarial que mais se evidenciava. Aliás, foi sobretudo através de canais informais que este autor chegou ao contacto com Gomes Júnior, não havendo qualquer máquina política a enquadrar o encontro. Seja como for, a entrevista serviu claramente para Gomes Júnior passar a mensagem em Lisboa de que iria lutar pela liderança do Governo do seu país.
Entre os vários negócios e cargos de gestão que na altura desempenhava, um dos mais relevantes era o de presidente da Comissão Executiva do Banco da África Ocidental. Na Guiné, tal como em Lisboa, Carlos Gomes Júnior ganhou respeito precisamente como homem de negócios.
O seu estilo discreto e algo envergonhado não fazia prever que alguma vez chegasse à chefia do Governo de um país como a Guiné Bissau. Carlos Gomes Júnior não parecia reunir qualquer requisito para ser governante daquele Estado. Ao contrário de figuras como Nino Vieira ou Kumba Ialá, Carlos Gomes Júnior era uma pessoa civilizada, educada e com um grau considerável de instrução e de responsabilidade.
Além disso, a sua cordialidade aliada à ausência de protagonismo deitavam por terra qualquer previsão quanto a uma carreira política duradoura em Bissau.
Mas a verdade, e a apesar destas linhas reflectirem aquilo que este autor pensou no momento da entrevista, Carlos Gomes Júnior foi conseguindo manter-se à frente do PAIGC e do Governo guineense a partir de 2004.
O mais extraordinário foi o facto de Nino Vieira ter exonerado o seu Executivo ao fim de 17 meses, num gesto que o Diplomata considerou ser o fim da experiência governativa de Gomes Júnior. Mais uma vez, tal assumpção estava errada: voltou a ser eleito para o cargo em Novembro último.
Hoje, o autor destas linhas chega à conclusão de que a sobrevivência política de Carlos Gomes Júnior se deve, talvez, precisamente ao seu estilo "low profile" que tem adoptado nos últimos anos, vincando claramente a sua componente empresarial, conseguindo assim obter maior credibilidade junto de alguns sectores da sociedade guineense e de Lisboa.
Talvez, por isso, Carlos Gomes Júnior considere agora a possibilidade de se candidatar à presidência do país nas eleições que se realizarão daqui a dois meses, como foi noticiado este fim-de-semana. Caso se venha a confirmar esta candidatura, o líder do PAIGC terá fortes probabilidades de vir a ser o próxima chefe de Estado da Guiné Bissau.
