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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

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Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

A acção dos governantes e a questão política em pandemias anunciadas (2)

Alexandre Guerra, 18.08.09

 

A enfermeira Jacqueline Spaky iniciou a 12 de Outubro de 1976 em Nova Iorque a campanha de vacinação nacional "Roll Up Your Sleeves, America"

 

Apesar dos cenários especulativos sobre os impactos de pandemias, Laurie Garrett é certeira ao referir que quando a comunidade internacional se vê perante o medo de um potencial surto, então volta-se para os Estados Unidos, Canadá, Japão e Europa. O autor destas linhas acrescentaria que em última instância, os Estados viram-se para as farmacêuticas.
 
E é precisamente esta fase que se está a atravessar no âmbito da problemática da Gripe A. A autêntica “corrida” das farmacêuticas para a produção de vacinas até ao final do Verão, início de Outono, tem sido sobretudo alimentada pelos Estados que já garantiram encomendas de milhões.
 
De modo a dar uma resposta aos seus clientes, as farmacêuticas estão a correr contra o tempo, suscitando algumas questões pertinentes quanto à fiabilidade dos processos de testes. Por isso, convém salientar que os exemplos do passado são suficientes para aconselhar prudência nas estimativas lançadas e na eficácia das soluções apresentadas.
 
A propósito, Laurie Garrett relembrou uma história que, mais do que nunca, deve ser tida em conta pelos governantes e pelas autoridades nacionais e internacionais de saúde.
 
Quando em Janeiro de 1976 um soldado de 18 anos, destacado na base de Fort Dix, morre após regressar ao quartel, terminada uma marcha de treino, o Exército Americano e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) descobriram que a causa se ficou a dever ao vírus da Gripe Suína.  
 
Na altura mais nenhum caso foi registado em Fort Dix, mas o pânico instalou-se nas chefias das entidades de saúde, com particular destaque para F. David Matthews, então responsável do Governo pela pasta da Saúde. Foi então que Matthews disse o seguinte: “There is evidence there will be a major flu epidemic this coming fall. The indication is that we will see a return of the 1918 flu virus that is the most virulent form of flu (…) The projections are that this virus will kill one million Americans in 1976.”
 

O Presidente Gerald Ford a ser vacinado contra a Gripe Suína a 14 de Outubro de 1976

 
Apoiado pelo CDC, Matthews conseguiu convencer a Casa Branca de que os Estados Unidos estavam perante uma ameaça de epidemia. A 24 de Março de 1976, o Presidente Gerald Ford vai à televisão para informar os americanos da iminência de uma epidemia no próximo Outono e Inverno. Consequentemente, pediu ao Congresso uma verba extraordinária de 135 milhões de dólares para produzir vacinas para todos os americanos.
 
As farmacêuticas avisaram de imediato que não avançariam com a produção em tão pouco tempo sem terem uma protecção especial em termos de responsabilidade civil. Em Abril, o Congresso aprovou uma “bill” que ilibava as farmacêuticas de qualquer responsabilidade em qualquer problema, transferindo-a para o Governo.
 
Quatro meses após ter-se iniciado o programa de vacinação começaram a surgir os primeiros efeitos secundários, originando processos legais no valor de 3,2 mil milhões de dólares, embora muitos deles tenham sido retirados ou resolvidos. No entanto, o Governo americano ainda teve de pagar 90 milhões em indemnizações.
 
E como a história demonstrou, nunca se veio a verificar uma epidemia de Gripe Suína. O chefe do CDC foi obrigado a demitir-se, o Presidente Gerald Ford ficou altamente fragilizado e, mais importante, o Congresso nunca mais considerou a possibilidade de isentar de qualquer responsabilidade as farmacêuticas em períodos de epidemia.