Domingo, 6 de Março de 2011

De pouco servem as Public Relations na criação de líderes carismáticos

 

Nestes tempos em que muito se discute a ausência de líderes fortes e carismáticos, que entusiasmem e mobilizem os povos e nações, a comparação com a História é sempre inevitável. Olhar para trás e procurar as referências do passado torna-se um exercício meramente académico e, quanto muito, inspirador.

 

Mas, nem por isso deixa de ser importante para se perceber a lógica comunicacional que permitiu a determinados líderes suscitar emoções junto dos seus povos, mesmo que muitas vezes não houvesse uma concordância entra as duas partes em relação às ideias ou aos projectos políticos.

 

Essa capacidade de gerar emoções e paixões pouco ou nada tem a ver com técnicas de public relations e, na maioria dos exemplos históricos, constata-se que resultou mais das características intrínsecas dos próprios líderes, do que propriamente de nuances comunicacionais.

 

De pouco servem consultores de comunicação ou assessores para “construir” um líder carismático quando não existe uma substância inata que seja reconhecida pelas pessoas como genuína. Porque, de outra maneira, é mais um governante que passa pela História perante a passividade e o desinteresse dos cidadãos. O que de certa maneira é algo que se sente nos dias de hoje, verificando-se uma ausência de lideranças carismáticas que possam entusiasmar e mobilizar.

 

Uma realidade bem evidente na Europa, onde há muito deixou de haver referências para seguir. O antigo Presidente português, Mário Soares, tem chamada a atenção para esse facto, lamentando a ausência de governantes com visão e paixão pela construção europeia. E desenganem-se os senhores das public relations se pensam que conseguem criar líderes deste tipo, como quem formata um gestor ou um CEO de uma empresa, normalmente pessoas desinteressantes e sem grande capacidade de mobilização (voluntária).

 

Não é por isso de estranhar que se fala com admiração de homens como Helmut Kohl, François Mitterrand ou Jacques Delors, líderes que nunca tiveram grandes preocupações na construção de uma imagem. Pelo contrário, no bom e velho estilo do político romântico, tiveram os seus defeitos, pecados, muitas das vezes omitiram e mentiram, alinharam em jogos de traições, mas foram sempre fiéis às suas ideias e a um rumo, apaixonados por um projecto em prol de um ideal comum.

 

Noutro estilo, John F. Kennedy, vivia da imagem, mas curiosamente, era uma imagem que as pessoas viam como genuína. Tudo era carisma e emoção, mesmo sendo um Presidente que tenha cometido alguns dos maiores disparates da diplomacia americana. Pouco interessa, visto que as pessoas sentiam que Kennedy era o seu líder. É por isso que é preciso sempre ter algum cuidado quando se analisa a verdadeira dimensão de um líder e a sua dinâmica comunicacional com os povos.

 

Goste-se ou não, homens como Vladimir Putin (basta ver os estudos de opinião) ou Silvio Berlusconi (o primeiro-ministro há mais tempo à frente do Governo italiano desde a II GM) são mais do que meros governantes, são personagens que geram emoções, e se há quem os deteste, também há quem os adore e esteja disposto a segui-los. E nesta equação, os mecanismos das public relations de pouco ou nada servem.

 

A propósito, o autor destas linhas recorda uma história vivida no Verão de 2001, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em plena intifada de al-Aqsa. Ao ser convidado por uma família local para tomar uma bebida fresca em sua casa, atendendo ao calor abrasador que se fazia sentir, foi interessante constatar que numa das paredes estava uma fotografia do antigo líder palestiniano, Yasser Arafat.

 

Personagem de grande carisma e elemento de agregação de um povo, mas longe de ser um exemplo de bom “aluno” dos dogmas das public relations.

 

Porém, o mais importante aqui é sublinhar que toda a família, que vivia numa casa literalmente esburacada por balas israelitas, se queixava da situação e das autoridades palestinianas, mas, apesar desses lamentos constantes, continuavam a olhar para Arafat com deferência e emoção.

 

Num dos poucos exemplos recentes, Barack Obama venceu, em grande parte, devido à sua genuidade e capacidade de entusiasmar o povo. Aliás, só um homem com carisma conseguiria que uma simples frase como “Yes, We Can!” resultasse tão bem e fosse interiorizada por milhões de americanos. De outra forma, não haveria estratégia de public relations que valesse.

 

Na verdade, foi o homem político que esteve na base de tudo. As ferramentas das public relations, desde a comunicação digital à assessoria mediática, serviram apenas (e já é muito) para amplificar e aproximar o líder do povo.

 

Tal como a Ágora, na Antiguidade Clássica, servia para amplificar o entusiasmo do político grego junto dos cidadãos.

 

*Texto publicado originalmente no PiaR.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:06
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Sábado, 12 de Setembro de 2009

Missiva comprova os receios de Mitterrand e de Thatcher à reunificação alemã

 

 

Em parte, os receios históricos da França e do Reino Unido perante a possibilidade de ressurgimento de uma Alemanha unificada e poderosa após a II Guerra Mundial acabaram por estar na génese do projecto europeu. Esta entidade, segundo a visão de alguns líderes europeus, seria uma espécie de regulador e inibidor de qualquer ímpeto ou tentação germânica.  

 

François Miterrand, antigo Presidente francês entre 1981 e 1995, foi um dos estadistas que assumiu como missão tornar a Europa forte para manter a Alemanha controlada. Na verdade, e ao contrário da visão americana, líderes como Miterrand tinham, apesar de tudo, mais receio de uma Alemanha poderosa do que da ameaça soviética.

 

Preferiam manter, na medida do possível, a Alemanha agrilhoada às condicionantes herdadas da II Guerra Mundial, sendo que a maior delas era a sua divisão territorial. Um país amputado no seu espaço geográfico está sem dúvida mais fragilizado num dos mais importantes factores de poder.

 

Miterrand estava consciente desse facto  e, por isso, o cenário da reunificação alemã era algo que o preocupava e, eventualmente, o assustava. O seu empenho na construção europeia tinha uma componente ideológica, mas também servia os interesses realistas da França. 

 

Documentos agora revelados pelo Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico) revelam como Mitterrand estava preocupado com o processo que estava em curso para a reunificação da Alemanha. O Presidente francês deu o seu apoio à antiga primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, que se opunha com veemência à junção da RDA e da RFA. 

 

Mitterrand terá mesmo dito a Thatcher durante um encontro no Palácio do Eliseu a 20 de Janeiro de 1990, que a "Europa não estava preparada para a reunificação da Alemanha e que isto não poderia tornar-se prioritário sobre tudo o resto".

 

Apesar desta posição, Mitterrand tinha a perfeita consciência de que a reunificação alemã era um processo imparável e que seria apenas uma questão de tempo até isso acontecer.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:10
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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