Terça-feira, 15 de Maio de 2018

O (quase) silêncio da Fatah

 

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Palestinianos na Faixa de Gaza protegem-se do gás lacrimogénio lançado pelos israelitas/FOTO:Ibraheem Abu Mustafa/Reuters

 

A Grande Marcha de Retorno esbarrou literalmente na vedação que delimita a Faixa de Gaza do território de Israel. Era uma iniciativa que estava condenada desde o início. A ideia de uma caminhada triunfal de milhares de palestinianos até Jerusalém não seria mais do que uma fantasia, uma tentativa de reabilitar as intifadas de anos anteriores, numa espécie de grito de revolta por parte de quase dois milhões de pessoas desesperadas, que há vários anos estão autenticamente presas num território com cerca de 40 quilómetros de cumprimento e 10 de largura, onde as condições de vida se degradaram para níveis miseráveis, reflectindo-se em indicadores sociais muito preocupantes.

 

É importante sublinhar que, hoje em dia, quando se fala na causa palestiniana e num futuro Estado palestiniano, na verdade, o que está em análise são duas realidades distintas. Não quer isto dizer que ambas não possam vir a coexistir sob um único Governo e estrutura política, mas, actualmente, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza são dois mundos substancialmente diferentes. E se isso já era evidente há uns anos ao nível social e religioso, sendo Gaza uma sociedade claramente mais conservadora do que a Cisjordânia, agora, em 2018, as diferenças são consideráveis no campo político-económico, sobretudo, por duas razões.

 

A primeira razão tem a ver com a morte de Yasser Arafat, em 2004, e a consequente perda de influência da Fatah na Faixa de Gaza. Recordo de ter estado em várias casas de famílias palestinianas na Faixa de Gaza e, quase sempre, numa das divisões havia uma fotografia do histórico líder. Isto, numa altura em que a Fatah já tinha pouca influência naquele território, mas onde Arafat continuava a ser o elemento político unificador. Após o seu desaparecimento, o Hamas rapidamente ascendeu ao poder, ao mesmo tempo que reforçava a sua presença na gestão dos serviços públicos e no apoio social. Ora, com a Cisjordânia historicamente dominada pela Fatah e a Faixa de Gaza nas mãos do Hamas, criou-se uma dualidade política que resultou em duas estruturas de poder diferentes e, por vezes, competitivas naquilo que é a luta pela liderança da causa palestiniana.

 

A outra razão está directamente relacionada com o bloqueio imposto por Israel que, basicamente, já vem dos tempos da intifada de al-Aqsa (2000-2005). Por esta altura, estive por duas vezes naquelas paragens e já então os palestinianos da Cisjordânia não podiam ir visitar os seus familiares à Faixa de Gaza e vice-versa. Era assim e assim continuou. E na altura cheguei a perguntar a muitos palestinianos como eram os tempos anteriores à intifada de al-Aqsa e todos me disseram que nem na primeira intifada (a chamada “revolta das pedras” entre 1987 e 1991) Israel tinha imposto tantas restrições de movimentos. Pois bem, os anos passaram e esse estrangulamento foi-se intensificando na Faixa de Gaza, com a agravante dos bombardeamentos israelitas em 2014 sobre aquele enclave, destruindo, ainda mais, muitas das suas infraestruturas públicas e de saneamento. Ao mesmo tempo, sem aeroporto e porto, e com as fronteiras encerradas com Israel (restando apenas a fronteira de Rafah Crossing com o Egipto, mas que muitas vezes está fechada), a débil economia da Faixa de Gaza foi-se degradando, empurrando a população palestiniana para um caos humanitário.

 

Na Cisjordânia, apesar das dificuldades existentes, tudo é diferente. Há uma estrutura de poder minimamente estável, os serviços públicos funcionam, existe uma economia, as universidades fervilham de actividade, os restaurantes e café estão abertos nas várias cidades palestinianas, digamos que há uma certa dinâmica de sociedade. Além disso, a circulação entre a Cisjordânia e Israel, através de vários postos de controlo ao longo da fronteira, é muito mais facilitada.

 

Este enquadramento talvez seja importante para se perceber a passividade com que a Fatah e os palestinianos na Cisjordânia estão a encarar esta sublevação. Na verdade, dos relatos que chegam da Cisjordânia, registam-se apenas alguns confrontos em Hebron e Nablus, mas pouco significativos e nada comparáveis aos protestos de Gaza. Tudo indicia que a Fatah não está interessada em promover uma nova intifada. A única declaração que se encontra é esta, algo inócua, na qual se apela ao mundo muçulmano para proteger Jerusalém. Ainda esta manhã, a BBC News passava imagens em directo da rotunda Al Manara, em Ramallah, onde, normalmente, se concentram manifestações, e o ambiente era estranhamento calmo para aquilo que costuma ser em momentos de contestação e que eu, pessoalmente, lá vivi em diversas ocasiões.

 

A questão é saber se neste momento interessa à Autoridade Palestiniana e à Fatah abraçarem a causa dos seus "irmãos" da Faixa de Gaza, sabendo de antemão que qualquer acto mais agressivo contra Israel terá consequências dramáticas na Cisjordânia, em cidades como Ramalhah, Belém, Hebron ou Nablus. Do que se vai percebendo, a Fatah e o poder instalado em Ramalhah não parecem estar dispostos a sacrificarem a sua condição para dar força a uma terceira intifada. Para já, os palestinianos na Faixa de Faza estão entregues à sua sorte, como aliás, tem acontecido há quase 20 anos.   

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:35
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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015

Banksy na Faixa de Gaza

 

 

Banksy, o anónimo mas conceituado artista de rua, volta a surpreender e, desta vez, entrou na Faixa de Gaza pelos túneis clandestinos que ligam aquele enclave ao Egipto. O resultado do trabalho pode ser visto no seu site oficial e é compilado num vídeo de dois minutos, onde se pode ver a destruição da Faixa de Gaza resultante dos bombardeamentos israelitas. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:59
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Terça-feira, 15 de Julho de 2014

Um conflito, dois Estados

 

Ataque das IDF sobre a Faixa de Gaza/Foto: Haaretz 

 

Vendo bem as coisas, poder-se-á classificar a guerra entre Israel e a Faixa de Gaza como um conflito entre Estados. É certo que não é exactamente nos moldes clássicos, mas nem por isso deixa de ser um conflito que opõe um Estado de jure e de facto (Israel) a uma outra entidade que, na prática, é, de há uns anos a esta parte, um Estado de facto (Faixa de Gaza). 

 

Um Estado que, com as suas autoridades próprias, muito pouco tem a ver com a realidade política da Cisjordânia. Também social e culturalmente existem algumas diferenças consideráveis entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, tornando-as duas realidades cada vez mais distintas. 

 

Gaza é um Estado que, apesar de exíguo, consegue ser substancialmente maior e com mais população que muitos micro-Estados que existem no sistema internacional. Com 40 quilómetros de comprimento e dez de largura, a Faixa de Gaza alberga 1,7 milhões de palestinianos. No entanto, 21 por cento da população vive em pobreza absoluta e a taxa de desemprego está acima dos 40 por cento, um valor superior àquele que se verifica na Cisjordânia.  

 

É um Estado pobre, isolado por mar e por terra, e cuja economia assenta sobretudo no comércio de contrabando com o Egipto, através dos famosos túneis que ligam o enclave ao deserto do Sinai. É uma economia muito débil, mas funciona minimamente, tendo em conta a conjuntura.

 

O poder está formalmente entregue ao Hamas e é exercido, dentro das possibilidades, na gestão dos serviços públicos. Ou seja, o poder não está na rua, embora esteja nas mãos de um partido ou movimento que está claramente associado a actividades terroristas e a uma ideologia radical, que vê na destruição de Israel o seu maior objectivo. É verdade que o Hamas tem uma vertente social na Faixa de Gaza que não pode nem deve ser descurada, mas que em última instância está orientada para uma determinada forma de se ver a realidade do Médio Oriente e, em concreto, a dinâmica israelo-palestiniana.

  

A Faixa de Gaza não é nem mais nem menos do que muitos Estados pobres e exíguos, sem recursos, e geridos por um poder legítimo (eleições), mas altamente discutível quanto aos seus padrões. Porque, vendo bem, a Faixa de Gaza tem os três elementos constitutivos de um Estado: território, população e (quase) soberania. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:53
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Domingo, 4 de Novembro de 2012

A asfixiante "tunnel economy" entre a Faixa de Gaza e o Egipto*

 

Um jovem palestiniano descansa dos trabalhos de escavação de mais um túnel/Foto: Eyad Baba/AP

 

Um das questões que se pode colocar perante a existência de “novos milionários” na Faixa de Gaza – actualmente, segundo se sabe, entre 100 a 200, e capazes de fazer dois milhões de dólares de dois em dois meses, como foi referido no segundo de três textos sobre a realidade do enclave palestiniano –, é saber como é possível que isso acontece num território literalmente isolado pelas forças de segurança israelitas (IDF)?

 

A mesma pergunta se pode fazer sobre o facto da economia em Gaza, embora débil, permanecer minimamente activa, quando as IDF apenas permitem a entrada de alguns bens de consumo, estando impedida, por exemplo, a importação de materiais para indústria pesada.  

 

Ou visto que a circulação de pessoas está muito limitada entre a Faixa de Gaza e o exterior, como é que os palestinianos naquele enclave conseguem ir ao Egipto para consultas médicas ou para outro tipo de serviço?

 

Trabalhador a retirar terra durante a escavação de um túnel algures entre a Faixa de Gaza e o Egipto/Foto AP

 

Um das centenas de túneis que saem de Rafah em direcção ao Egipto/Foto Time - Richard Moesse

 

A maior parte destas questões encontra resposta nas centenas de túneis construídos ilegalmente entre a Faixa de Gaza e o Egipto. Embora não haja dados exactos sobre esta “tunnel economy” (como lhe chama as Nações Unidas), estima-se que esta realidade tenha um impacto considerável na economia e na vida dos palestinianos da Faixa de Gaza. E traz sobretudo benefícios “de facto” às autoridades de Gaza e a uma certa elite próxima do Hamas. Quem o diz é a próprio International Labour Organization (ILO).

 

De acordo com um relatório deste ano da ILO, o volume do comércio ilegal feito nos túneis é quatro vezes superior àquele que é registado oficialmente. Já o Peres Center for Peace referia no ano passado que o valor dos bens contrabandeados todos os meses situava-se entre os 50 a 70 milhões de dólares, o que representava cerca de 80 por cento do total de bens importados para a Faixa de Gaza. Uma dimensão apenas possível pela existência de mais de 1000 túneis em 2010, segundo aquela entidade.    

 

Tudo se contrabandeia nos túneis, incluindo animais vivos/Foto: Eyad Baba

 

Também o Peace Research Institute Oslo, num relatório de 2010, referia que cerca de 15 mil trabalhadores (escavadores, etc) e 25 mil negociantes (leia-se contrabandistas) estariam envolvidos na “tunnel economy”. Números que seriam atenuados com o aligeiramento do cerco por parte de Israel no Verão de 2010.

 

A escavação de túneis começou depois do início da intifada de al Aqsa, em Setembro de 2000, na sequência do bloqueio cerrado imposto por Israel à Faixa de Gaza, por mar, terra e ar.

 

Quase todos estes túneis partem de Rafah, cidade no sul da Faixa de Gaza junto à fronteira egípcia, e tudo é contrabandeado por estes canais subterrâneos, como produtos alimentares, artefactos para a casa, electrodomésticos, material de construção e animais vivos, como ovelhas, vacas e burros. Tudo feito sob o comando do Hamas.

 

*Este é o último de uma série de três textos sobre a Faixa de Gaza

Publicado por Alexandre Guerra às 21:17
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Sábado, 20 de Outubro de 2012

Os "novos milionários" da Faixa de Gaza*

 

Desenho da Middle East Children's Alliance 

 

Há anos que as forças de segurança israelitas (IDF) impõem um bloqueio impiedoso à Faixa de Gaza, sendo este o principal factor responsável pela deterioração das condições de vida dos palestinianos que vivem naquele enclave.

 

Um bloqueio que, até ao Verão de 2010, permitia apenas a entrada de alguns alimentos básicos e medicamentos. Nessa altura, devido à pressão internacional no seguimento do incidente que envolveu o assalto militar israelita à flotilha humanitária turca, o Governo hebraico aligeirou o cerco, permitindo a entrada de uma maior variedade de bens de consumo.

 

Mas o controlo continuou a ser muito restrito, impedindo a entrada de materiais essenciais para a reconstrução e recuperação de um enclave totalmente asfixiado e parcialmente destruído, sobretudo a partir do momento em que o conflito israelo-palestiniano voltou a aquecer com o início da intifada de al Aqsa, em Setembro de 2000.

 

As três semanas de bombardeamentos israelitas no Inverno de 2008/2009 (Operação “Cast Lead”) vieram lançar ainda mais caos sobre os principais centros urbanos: a cidade de Gaza, Khan Yunis e Rafah. Mais de seis mil casas foram destruídas, assim como quase duzentas estufas. Contaram-se para cima de 900 crateras em estradas e ruas provocadas pelo impacto das bombas israelitas, 25 milhões de dólares em estragos nas universidades, mais de 35 mil cabeças de gado e um milhão de aves mortas. Dezassete por cento da área cultivável foi destruída.

 

Fonte: Relatório "Gaza in 2020: A liveable place?"/UNRWA

 

O Governo hebraico justificou a sua acção bélica com os mesmos argumentos com que tem sustentado o bloqueio: os lançamentos constantes de morteiros, por parte de militantes do Hamas, sobre zonas israelitas contíguas ao enclave, e a incursão de terroristas suicidas no território judaico.

 

É com base neste receio que o Governo israelita mantém a proibição de entrada e saída de palestinianos de Gaza, apenas em casos específicos ou de emergência médica. O autor destas linhas chegou a ouvir testemunhos de palestinianos na Cisjordânia a lamentarem-se pelo facto de já não visitarem familiares seus na Faixa de Gaza há muito tempo, por causa de não poderem circular em Israel nem entrar no enclave.

 

A verdade é que nestes doze anos, desde o início da intifada de al Aqsa, que entretanto terminou, os palestinianos de Gaza estão praticamente entregues à sua sorte, valendo-lhes o apoio das instituições sociais do Hamas e de algumas ONG.

 

Em Agosto, as Nações Unidas divulgaram um relatório importante, “Gaza in 2020: A liveable place?”, no qual lançaram o alerta: Gaza não será “habitável” em 2020 a não ser que se actue urgentemente em áreas como o saneamento básico, o abastecimento de água potável, o fornecimento de electricidade, a saúde ou o ensino.

 

O documento da agência da ONU de apoio aos refugiados palestinianos (UNRWA) estima que nos próximos oito anos a população da Faixa de Gaza chegue aos 2,1 milhões, mais 500 mil pessoas que actualmente.

 

Apesar da economia ter crescido nos últimos anos, os palestinianos vivem em média pior do que nos anos 90, onde o rendimento per capita era superior ao do ano passado. 

 

Esta aparente contradição explica-se pelo facto desse crescimento estar focado na construção, como foi aliás abordado no primeiro texto desta série, e não em sectores produtivos e sustentáveis da economia.

 

E uma vez que não é a população em geral a ganhar os dividendos do crescimento (pelo contrário), alguém há de estar a fazer dinheiro na Faixa de Gaza. Ou melhor dizendo, alguns homens bastante ricos, próximos do Hamas.

 

Citado pela BBC News, Omar Shabban, economista do think thank Palthink, baseado em Gaza, refere que devem existir actualmente entre 100 a 200 “novos milionários” que juntaram muito dinheiro em pouco tempo e que devem fazer 2 milhões de dólares de dois em dois meses.  

 

Estes homens têm usufruído do “boom” da construção e de toda uma economia paralela que é alimentada pelas centenas de túneis que existem entre a Faixa de Gaza e o Egipto, pelos quais é contrabandeado todo o tipo de materiais provenientes do território egípcio. Um tema a ser analisado no terceiro e último texto desta série.

 

*Este é o segundo de três textos sobre a Faixa de Gaza

 

O sonho perdido de Arafat (1)

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:21
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2012

O sonho perdido de Arafat*

 

Vista aérea da cidade de Gaza com o Mar Mediterrâneo ao fundo 

 

Ainda Yasser Arafat era vivo quando o autor destas linhas ouviu alguém dizer que o sonho do líder palestiniano era fazer da Faixa de Gaza uma espécie de Miami da Palestina. Um devaneio total do antigo líder palestiniano, dirão os leitores. Porém, talvez nem tanto.

 

Certo dia ao final da tarde, de copo na mão, num terraço estilo árabe virado para o Mediterrâneo, num dos poucos hotéis da marginal da cidade de Gaza, este vosso escriba pensava que ali estava mais um exemplo de um pedaço de terra que tinha condições para florescer e, no entanto, a História ditara outro curso.

 

Em circunstâncias normais a Faixa de Gaza teria requisitos para se tornar numa estância turística de referência, soalheira, banhada pelo azul do Mediterrâneo e com areal. Ou seja, poderia ser uma colónia de férias dos palestinianos (e por que não também dos jordanos?), enquanto a Cisjordânia seria sempre o território para viver e trabalhar, já que é lá que estão as principais cidades, universidades, serviços e Governo. A Faixa de Gaza seria assim como o Algarve é para milhares de portugueses, que se concentram nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

 

Mas a verdade é que as circunstâncias são cada vez menos normais naquele enclave, que mede 41 quilómetros de extensão e nunca mais de 12 quilómetros de largura, e no qual estão literalmente enclausurados cerca de 1,6 milhões de palestinianos, tornando-o num dos territórios com maior densidade populacional do mundo.

 

Com uma população a crescer (e a economia também) o exíguo território está a ficar cada vez mais exíguo e ao mesmo tempo desorganizado e caótico.

 

O preço do terreno tem disparado, sobretudo na cidade de Gaza, entre 40 a 50 por cento anualmente nos últimos anos. Actualmente, o metro quadro na cidade de Gaza pode atingir os 20 mil dólares. Um valor que não fica atrás daquele que é praticado em bairros de luxo em Londres, Nova Iorque ou Paris.

 

Obviamente que este mercado não é acessível para a maioria dos palestinianos da Faixa de Gaza, no entanto, existem muitos homens ricos que conseguem fazer entrar dinheiro vindo do Egipto através dos famosos túneis clandestinos. Convém relembrar que Israel tem imposto há vários anos um bloqueio feroz à Faixa de Gaza, dificultando a mobilidade de pessoas, bens e serviços.

 

Mas com a economia, em geral, e o sector da construção, em particular, dinamizados com os “esquemas” transfronteiriços entre Gaza e o Egipto vai-se construindo um pouco por todo o lado, sem qualquer planeamento e quase sempre sem qualidade, já que os materiais são escassos.

 

Numa reportagem desta semana, a BBC News dizia que os poucos espaços verdes naquele enclave vão ficando cada vez mais cinzentos, com o mercado do imobiliário a tornar-se bastante atractivo perante o aumento de população.

 

Embora a construção desenfreada e desordenada na Faixa de Gaza tenha contribuído para dissipar o sonho de Arafat, a verdade é que há muito que esse mesmo sonho já tinha sido destruído pela guerra e pelo bloqueio. O Sul da Faixa de Gaza está particularmente martirizado, quando comparado com a cidade de Gaza, com muitas poucas casas incólumes às balas e bombas israelitas e com uma pobreza acentuada. 

 

A Faixa de Gaza dos dias de hoje está cada vez mais longe do sonho de Yasser Arafat, mas, apesar de tudo, não deixa de ser um local onde a terra se torna um bem cada vez mais precioso. 

 

*Este é o primeiro de três textos sobre a Faixa de Gaza


Publicado por Alexandre Guerra às 00:20
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

Trocar um soldado por mil prisioneiros é, estranhamente, um bom "negócio" para todos

 

O Presidente Shimon Peres com os pais Gilad Shalit/Foto: AFP

 

Israel rejubila com o anunciado regresso a casa de Gilad Shalit, o soldado das forças de segurança israelitas (IDF), em cativeiro desde 2006, depois de ter sido capturado pelo Hamas na Faixa de Gaza. Desde então, Shalit nunca foi esquecido pelas autoridades israelitas, sabendo-se que seria uma questão de tempo até se promover uma negociação de troca de prisioneiros com o inimigo, uma prática implementada por diversas vezes.

 

Era preciso ter paciência e gerir a situação da melhor forma. Nisso os israelitas são exímios (exceptuado alguns disparates feitos nos tempos recentes).

 

Também por isso, o Hamas sabia que o refém que tinha em mãos era bastante valioso e que seria uma moeda de troca excelente no dia em que o Governo hebraico estivesse disponível para negociar.

 

A proposta que Yoram Cohen, chefe do Shin Bet (serviços secretos internos), apresentou ao primeiro-ministro Netanyahu contempla, numa primeira fase, a libertação de cerca de 450 prisioneiros palestinianos, 280 dos quais com penas perpétuas. Num segundo momento, daqui a uns meses, serão libertados à volta de 550 prisioneiros.

 

Não deixa de ser um bom negócio para o Hamas, que consegue 1000 homens em troca de apenas um soldado hebraico, fazendo regressar a casa muitos militantes daquele movimento, mas também da Fatah e de outros partidos.

 

Com esta iniciativa, o Hamas reforça a sua posição junto da opinião pública palestiniana, sobretudo na Cisjordânia, onde está mais fragilizada perante o domínio da Fatah e do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.

 

Também o líder político do Hamas, Khaled Meshaal, está a surgir como um negociador influente, tendo chegado esta Quarta-feira à noite ao Cairo para coordenar no terreno o processo da troca de prisioneiros, que deverá acontecer dentro de uma semana.

 

Do lado israelita, Netanyahu já está a capitalizar dividendos com esta operação, nem que seja pelas manobras de relações públicas. Os pais do soldado têm manifestado publicamente o agradecimento ao chefe do Governo, que, de quase todos os quadrantes, tem recebido elogios pela medida.

 

A este propósito Yossi Verter escrevia no Haaretz que nos próximos dias o povo de Israel vai estar a partilhar a alegria dos pais de Shalit, graças a uma decisão de Netanyahu, que terá sido a mais difícil do seu mandato. Mas como diz Verter, Netanyahu será sempre lembrado para a História como o homem que trouxe para casa um soldado israelita em cativeiro há mais de cinco anos.

 

Além disso, tinha sido o próprio Shin Bet a assumir que a libertação de Shalit através de uma operação militar seria praticamente impossível. Por isso, Netanyahu teve o apoio de todas as chefias militares. Também ao nível do Governo, 26 ministros aprovaram o plano da troca de prisioneiros. No entanto, três votaram contra, entre os quais o dos Negócios Estrangeiros, o ortodoxo Avigdor Lierberman.

 

Conta o jornal Haaretz que a reunião foi muito intensa e dramática, tendo mesmo Uzi Landau, ministro das Infraestruturas Nacionais, e um dos que se opôs ao plano, afirmado que se está perante uma “grande vitória do terrorismo”. Demonstrou ainda a sua ira contra Cohen, por este estar a recomendar um plano deste género.

 

Curiosamente, também em 1997, quando assumia pela primeira vez a chefia do Governo hebraico, Netanyahu promoveu uma troca de prisioneiros, embora na altura com contornos muito diferentes. Sem qualquer escolha, Israel teve que libertar o xeque Ahmed Yassin (seria morto mais tarde) em troca de dois agentes da Mossad, que tinham estado envolvidos numa tentativa de assassinato a Meshaal na Jordânia.

 

Agora, Netanyahu volta a promover uma troca de prisioneiros, mas desta vez massiva, devolvendo a liberdade a alguns terroristas de primeira linha. Um preço elevado, mas que a sociedade israelita parece estar disposta a pagar para ver o seu soldado regressar a casa.

 

Apesar da lista dos libertados incluir importantes terroristas, Cohen já garantiu que nomes como Abdullah Barghouti, Ibrahim Hamed, Abbas Sayed, Ahmed Saadat e, especialmente, Marwan Barghouti não estão contemplados neste negócio.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:17
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

As marcas da violência na Faixa Gaza através das fotografias de Kai Wiedenhofer

 

Kai Wiedenhofer, prestigiado fotógrafo alemão que há mais de duas décadas acompanha o conflito israelo-palestiniano, apresenta agora uma exposição em Londres com o seu mais recente trabalho, The Book of Destruction, revelando as marcas da violência na Faixa de Gaza.

 

Uma exposição polémica que quando esteve em Paris foi perturbada por dois homens com máscaras, que tentaram destruir as fotografias.

  

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:45
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Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

AI divulga relatório sobre a problemática do acesso à água potável no Médio Oriente

 

A Amnistia Internacional divulgou hoje um importante relatório sobre a problemática do acesso à água potável nos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Troubled Water - Palestinians Denied Fair Access to Water é um documento de 112 páginas e revela duas realidades distintas entre Israel e os territórios palestinianos no que diz respeito à gestão e utilização dos recursos hídricos da região.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:39
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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Percepções de quem não acredita na criação de um Estado nos próximos cinco anos

 

 

Mahmud Hams/Agence France-Presse/Getty Images

 

Khalil Shikaki, director do Palestinian Center for Policy and Survey Research, escreveu, em artigo de opinião no New York Times, que o apoio popular na Palestina a ataques armados contra judeus civis em território  israelita tem vindo a aumentar consideravelmente. De tal forma, que os índices de hoje são mais elevados do que em 2005, o que não deixa de ser algo surpreendente, tendo em conta que naquele ano ainda estava a decorrer a intifada de al-Aqsa. 

 

O Diplomata desconhecia estes dados mais recentes, mas tendo em conta o prestígio de Shikaki, talvez o especialista mais credível palestiniano em termos de estudos de opinião e de sondagens, não existem razões para duvidar da informação que agora divulga.

 

Perante aquilo que Shikaki escreveu nas páginas do NYT, o Diplomata foi à descoberta do estudo para tentar compreender as razões que sustentam a opinião dos palestinianos. Uma das explicações poderá estar no facto do inquérito ter sido realizado entre 5 e 7 de Março na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, poucas semanas após o fim dos ataques israelitas naquele enclave.

 

É bastante provável que o conflito de 22 dias na Faixa de Gaza tenha alimentado o sentimento anti-israelita para níveis muito altos. Mas, o estudo de opinião apresenta outras conclusões igualmente bastante preocupantes quanto à percepção da opinião pública palestiniana.

 

O Hamas e o seu líder em Gaza, Ismail Haniyeh, parecem estar a fortalecer a sua popularidade junto dos palestinianos, ao mesmo tempo que a Fatah e o Presidente Mahmoud Abbas estão a perder influência. Também o moderado primeiro-ministro Salam Fayyad, que o Diplomata conheceu e entrevistou há uns anos em Gaza, vê a sua legitimidade a decrescer.

 

Apesar desta tendência na opinião pública, a Fatah continua a verificar valores de popularidade mais elevados que o Hamas, sobretudo devido à forte implantação da primeira na Cisjordânia. Porém, se fossem realizadas neste momento eleições presidenciais, Haniyeh ganharia com 47 por cento dos votos contra os 45 por cento de Mahmoud Abbas.  

 

Curiosamente, Haniyeh, embora sendo do Hamas, é mais popular na Cisjordânia do que Abbas. Este, por sua vez, receberia mais votos na Faixa de Gaza do que o primeiro. Aqui, a explicação poder-se-á encontrar na predisposição mais primária dos eleitores em criticarem os seus líderes mais directos: Abbas na Cisjordânia e Haniyeh na Faixa de Gaza.

 

Sobre o processo de paz as conclusões são igualmente pessimistas. 73 por cento dos palestinianos têm poucas expectativas sobre a possibilidade de nos próximos cinco anos ser criado  um Estado palestiniano independente.

 

Quando se associa a política israelita ao processo de paz, 70 por cento dos palestinianos não vislumbra diferenças entre os partidos da direita, do centro ou da esquerda.

 

O Diplomata vai voltar a este estudo para falar sobre uma outra personagem palestiniana, sem dúvida a mais popular desde que Yasser Arafat morreu, e que entretanto está cumprir pena perpétua numa cadeia israelita: Marwan Barghouti

  

Publicado por Alexandre Guerra às 09:08
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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