Terça-feira, 16 de Outubro de 2018

A importância do segredo

 

Para os saudosos da Guerra Fria, os tempos que se vivem actualmente no sistema internacional são de anarquia total ao nível da comunidade de intelligence militar e paramilitar, mergulhada numa lógica de far west, onde se dispara primeiro e se pergunta depois, mesmo que em plena luz do dia, à vista de todos. A arte do segredo está a perder-se, porque, para se defender os interesses do Estado, já não é preciso fazer o “trabalho sujo” no obscurantismo das relações internacionais. Não se temem as consequências e tudo pode ser feita às claras ou com um grau de displicência que envergonharia qualquer agente da "velha guarda" do KGB ou da CIA. Como referia Ferreira Fernandes na sua última crónica no DN de Domingo, “o mais interessante é a generalização dessa linguagem de mata e esfola”, protagonizada por alguns líderes mundiais, nomeadamente por aqueles que estão à frente da Rússia e dos EUA, as duas super-potências que outrora dividiram os desígnios do mundo.

 

Este tipo de discurso irresponsável e inconsciente, conivente com práticas imorais e ilegais que são concretizadas quase sob os holofotes da opinião pública, contribui para um sentimento de impunidade no seio das comunidades das “secretas” mundiais. Retomando as palavras de Ferreira Fernandes, “peguemos no caso dos dois espiões russos que foram a Inglaterra matar um ex-colega que se passara para o outro lado. Foram a casa dele em Salisbury, envenenaram o que tinham para envenenar e regressaram a casa. Não se importaram de deixar pistas. Suspeitos, aparecem na televisão russa oficial com historietas despudoradas de terem ido a Salisbury invocando dados turísticos que vinham na Wikipédia. Tão descuidados, deixaram que os seus nomes reais aparecessem: são agentes da inteligência militar russa (GRU). Entretanto, outros espiões russos são apanhados em Haia, Holanda. Com sofisticação dos aparelhos faziam pirataria informática a partir de um carro estacionado frente à OIAC, organização que combateu as armas químicas. Fora a OIAC que provara a origem russa do veneno usado em Salisbury. Ora, os espiões russos de Haia eram um livro aberto: até faturas de táxis eles tinham de corridas apanhadas à porta da sede moscovita do GRU”.

 

Esta passagem da crónica de Ferreira Fernandes é elucidativa do que se passa hoje em dia no sistema internacional, onde as “covert operations” deram lugar a acções semi-clandestinas, sem que haja particular preocupação de se evitar embaraços político-diplomáticos. As estas duas histórias, outras tantas podíamos aqui referir que foram identificadas nos últimos tempos, sendo que a mais recente é de tal maneira inverosímil pelo seu grau de descuido e de incompetência, que custa a acreditar que tenha acontecido como tem sido noticiado. Caso se confirmem as notícias que têm vindo a público e a tese avançada pelo Governo de Ancara, o assassinato de Jamal Khashoggi, jornalista crítico do regime de Raide, dentro do consulado árabe na capital turca, sob o ponto de vista realista e maquiavélico, é um dos maiores desastres da história dos serviços de intelligence. Por um lado, além da óbvia questão moral, colocará um problema muito complicado a Washington e, por outro, expõe o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (e líder “de facto”) ao julgamento público de ter “ido longe demais” no silenciamento dos seus opositores.

 

No sistema bipolar de Guerra Fria, as regras vigentes no sistema internacional eram claras e seguidas à risca pelos diferentes actores estatais. Dificilmente haveria espaço para “rogue killers” actuarem por sua conta e risco. Ninguém aprovaria uma operação com impacto sistémico sem que Moscovo ou Washington soubessem. Era impensável que serviços secretos de um qualquer país ousassem dar luz verde a uma “covert operation” sem que estivesse enquadrada nos interesses do “tabuleiro” sistémico bipolar (Israel foi sempre uma excepção na arquitectura da espionagem internacional).

 

Esse secretismo contribuiu para um equilíbrio sistémico que, com mais ou menos desanuviamento, com mais ou menos crise regional, evitou um novo conflito mundial. Na defesa dos seus interesses, Washington e Moscovo agiram, muitas vezes, à margem do quadro legal internacional e dos princípios éticos e morais, refugiando-se no obscuro mundo da espionagem. Essas operações e acções ficaram longe dos olhares da opinião pública, a quem o que interessava mais era a manutenção dos estilos de vida das suas sociedades.

 

Tal como nas relações sociais entre pessoas, também nas dinâmicas entre Estados, se, por um lado, nem tudo deve ficar no secretismo, também não se deve (e pode) meter tudo às claras, correndo-se o risco de se fomentarem crises político-diplomáticas, e até mesmo militares, que comprometam o status quo e, em última instância, a paz e segurança das pessoas. É por isso que a gestão do segredo continua a ser um factor fundamental na estabilidade das relações internacionais, porque, a partir do momento em que se instala nas sociedades a percepção de que tudo vale, de que ninguém respeita uma certa ordem tácita, a sensação de insegurança aumenta, abrindo caminho para a penetração de ideias políticas que sustentem a chegado ao poder de lideranças mais musculadas e autoritárias. Ou seja, será a altura em que os cidadãos das democracias preferirão sacrificar as suas liberdades e garantias em prol da segurança.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:22
link do post | comentar
partilhar
Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015

Como se "vende" uma parceria económica aos americanos

 

 

Ao nível da comunicação política é interessante ver como a Casa Branca tenta "vender" aos trabalhadores americanos as virtudes da nova Parceria Trans-Pacífico.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:00
link do post | comentar
partilhar
Domingo, 28 de Março de 2010

Depois da reforma da saúde, Obama mostra que está empenhado na política externa

 

 

Obama cumprimenta o Major Sargento Eric Johnson este Domingo, na base aérea de Bagram/Stephen Crowley/NYT

 

De surpresa e em tempo relâmpago, foi desta forma que o Presidente Barack Obama se deslocou este Domingo ao Afeganistão, pela primeira vez, desde que assumiu o seu cargo há pouco mais de um ano.

 

Embora os contornos desta visita sejam similares aos das deslocações de outros líderes ao Afeganistão e ao Iraque, em termos políticos, o mais importante da viagem de Obama é a mensagem que pretende passar para a comunidade internacional.

 

Depois de longos e duros meses focado na política interna e descurando a cena internacional, chegando mesmo a ser acusado de ter relegado para segundo plano cenários de conflito como o Médio Oriente e o Iraque, Obama vem agora demonstrar que está comprometido com os assuntos internacionais e, em particular, nos palcos onde os Estados Unidos estão directamente envolvidos.

 

Não é por isso de estranhar as palavras que Obama proferiu na base aérea de Bargam, para uma plateia de militares e civis, ao afirmar que “não houve uma outra visita tão importante como esta” que fez ao Afeganistão.

 

Além do mais, nos últimos dias, o Presidente Obama tem estado empenhado em demonstrar todas as suas capacidades políticas, ao ter conseguido aprovar a tão difícil reforma da saúde, ao ter acordado um novo acordo de redução de armas nucleares estratégicas com Moscovo e, agora, ao ter-se deslocado a território afegão.

 

Uma ideia corroborada por Steve Kingstone, o correspondente da BBC News, em Washington, que escreve que a Casa Branca está claramente interessada em provar que o Presidente consegue lidar com mais de um assunto importante ao mesmo tempo.

  

Publicado por Alexandre Guerra às 22:48
link do post | comentar
partilhar
Sexta-feira, 12 de Março de 2010

Intriga palaciana na West Wing entre os amigos David Axelrod e Rahm Emanuel

 

 

 

De há uns tempos a esta parte têm surgido publicamente algumas “brechas” no seio da Casa Branca, revelando choques de estilos e de opiniões entre dois dos principais homens de confiança do Presidente Barack Obama.

 
A julgar pela informação que tem sido veiculada por alguma imprensa, o chefe de gabinete, Rahm Emanuel, e o principal conselheiro político, David Axelrod, estão a afirmar as suas personalidades como se de feudos políticos tratasse, criando um clima de rivalidade entre ambos.
 
Não é por isso de estranhar que ainda ontem, o Financial Times titulasse em editorial “Uma equipa de rivais”, referindo-se precisamente ao clima de confrontação entre Emanuel e Axelrod na West Wing.
 
Também o maquiavélico Karl Rove, o principal conselheiro político do ex-Presidente George W. Bush, se referiu ao clima de crispação entre aqueles dois homens, no entanto, fez a ressalva de que muito do que se está a criar é alimentado pela imprensa. É por isso que ao Politico confessou ter alguma simpatia por Emanuel e Axelrod. 
 
Neste registo está Lynn Sweet, jornalista e colunista do Chicago Sun Times, que em declarações ao programa “Top Line” da ABC News, afastou a ideia de “intriga palaciana”, por considerar que não existe qualquer tensão entre os dois e que se está perante uma “não história”. O que existe, sim, é uma grande pressão sobre a administração por causa do plano de reforma de saúde, e que é natural que possam surgir desacordos relativamente a este tema, mas que isso não pode ser visto como um conflito entre Emanuel e Axelrod. Além disso, é preciso lembrar que os dois são amigos e que continuarão a sê-lo depois da era Obama.
 
Seja como for, Emanuel é conhecido por ser uma pessoa muito combativa, mas também intempestiva e bastante ambiciosa. E talvez, por isso, o chefe de gabinete tem sido duramente criticado por alguma imprensa e até mesmo por membros da sua administração por causa do seu comportamento. Como resposta, os apoiantes de Emanuel têm tentado passar a imagem de um homem pragmático e mais modesto nos seus objectivos.
 
Uma coisa parece ser certa, Obama tem confiança em ambos, o que de certa forma poderá estar a contribuir para a “paralisia política” que se fala, já que as opiniões de ambos poderão anular-se. É por isso que o mesmo Financial Times refere que a culpa não está em Emanuel ou em Axelrod, mas sim no próprio Presidente.
 
Publicado por Alexandre Guerra às 12:05
link do post | comentar | ver comentários (1)
partilhar
Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Terão razão aqueles que acusam Obama de ter defraudado as expectativas?

 

Foto: Samantha Appleton/White House

 

Ainda há poucos dias, no balanço do primeiro ano do Presidente Barack Obama na Casa Branca, foram muitas as vozes em todo o mundo que manifestaram o seu descontentamento pelo facto daquele líder ter defraudado as suas expectativas. O mesmo registo já se tinha verificado em Novembro, aquando do aniversário sobre a sua eleição. 
 
As sondagens de popularidade de há um ano são hoje apenas uma recordação para Obama, e reflectem um sentimento de desilusão instalado no seu eleitorado e apoiantes.
 
Perante esta flutuação acentuada da opinião pública face a um líder político num curto espaço de tempo, talvez seja um exercício interessante tentar perceber se essa mesma desilusão assenta em critérios racionais e objectivos ou, por outro lado, se é consequência de uma percepção (legítima, é certo) superficial, muito focada na agenda mediática e imediata.
 
Se se tiver em consideração esta última opção, compreende-se a “desilusão” das pessoas, pelo facto de não terem visto Obama a cumprir as suas promessas num espaço de um ano. Embora legítima, esta percepção resulta de um erro de análise sobre as especificidades do sistema político norte-americano e sobre as dinâmicas do sistema internacional.
 
A verdade é que Obama nunca poderia ter cumprido as suas promessas num espaço do ano. Teria sido materialmente impossível, fossem as que estivessem relacionadas com política interna, fossem as de política externa.
 
O que Obama fez nalgumas matérias foi marcar uma tendência ou quebrar com o paradigma reinante até então, invertendo uma dinâmica que não corresponderia aos interesses dos Estados Unidos e do mundo. Isso verificou-se sobretudo nas áreas do ambiente, financeira e da saúde. Nesta última, Obama terá inclusive superado as expectativas em termos processuais, já que poucos acreditariam que conseguisse chegar tão longe com o projecto da reforma da saúde.
 
Dirão muitos que na prática não se vêem resultados. Em parte é verdade, mas não seria intelectual nem politicamente honesto exigir-se ao chefe de Estado americano que num espaço de um ano conseguisse finalizar todo um projecto de reforma que durante décadas ninguém ousou fazer.
 
Também no ambiente, os agora desiludidos com Obama parecem estar já esquecidos do paradigma adoptado pela anterior administração republicana, liderada por George W. Bush. É incontestável que são praticamente inexistentes os resultados práticos, mas é inegável que Obama demonstrou um novo posicionamento dos Estados Unidos em relação à temática ambiental.
 
Mais curioso é que nem mesmo a “cruzada” que Obama tem feito contra o sistema financeiro norte-americano está a produzir frutos nas sondagens. O que é particularmente estranho, já que as mais recentes medidas anunciadas por Barack Obama para aplicar no sistema financeiro é um tipo de discurso que “dá votos”.
 
Por outro lado, e diga-se em abono da verdade, Obama é o único líder das grandes potências que tem estado a envidar esforços efectivos para introduzir medidas que possam, de alguma forma, compensar as perdas massivas de milhares de pessoas provocadas pelos excessos e irregularidades no seio do sistema financeiro e que foram postas a descoberta durante 2008 e 2009.
 
Aliás, neste capítulo, Obama tem sido bastante agressivo nas suas críticas e avisos aos principais actores do sistema financeiro, uma atitude que contrasta com a de quase todos os líderes mundiais, nomeadamente os portugueses, onde, após uma euforia inicial de “revolta” contra os “excessos”, voltaram a “alinhar” no sistema antigo.
 
Contrariando a tendência de opinião reinante nos últimos tempos, o Diplomata considera que ao fim de um ano não existem razões para defraudamentos nem para euforias, porque em Novembro de 2008, quando Obama foi eleito, qualquer interpretação realista do seu programa jamais conduziria a resultados imediatos.
 
Perante isto, ao fim de um ano de mandato Obama está simplesmente a fazer o seu trabalho e, de certa forma, tem sido estranhamente fiel (para um político) ao seu programa eleitoral. Aliás, para os poucos que se lembram, foi precisamente em Janeiro de 2008 que Obama assinou o seu primeiro decreto presidencial com base numa das promessas eleitorais: o levantamento das restrições ao financiamento federal à investigação em células estaminais embrionárias. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:11
link do post | comentar
partilhar
Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Compromisso de Obama para Copenhaga de pouco serve sem o apoio do Congresso

 

 

O Presidente Barack Obama volta a assumir a liderança da agenda política interna do Congresso americano ao revelar compromissos importantes, mesmo sabendo que para cumpri-los é necessário um longo e, por vezes, tortuoso caminho na Câmara dos Representantes e no Congresso.

 

Seja como for,este facto não tem inibido Obama de anunciar importantes medidas, que de certa forma acabam por pressionar o Congresso a legislar sobre as mesmas.

 

Aconteceu com a reforma do sistema de saúde e com as questões ambientais. Obama tem assumido vários objectivos ambiciosos, apesar da maior parte deles ainda nem sequer se ter concretizado em toda a sua plenitude no Congresso, incluindo a tão polémica reforma do sistema de saúde.

 

De acordo com algumas informações que estão a ser veiculadas, a Casa Branca irá anunciar uma meta clara para a redução de emissões de gases com efeito de estufa até à próxima cimeira de Copenhaga. Redução em 17 a 20 por cento até 2020 em relação aos níveis de 2005. Valores que embora estejam contemplados em propostas de lei que circulam pelo Senado, estão longe de ser aceites por todos os senadores ou congressistas.

 

Este compromisso fica politicamente bem a Obama em termos internacionais e surge numa altura particularmente sensível, já que sem uma posição de Washington sobre as emissões de gases de efeito de estufa, dificilmente se conseguiria obter uma declaração minimamente consistente em Copenhaga, que pudesse servir de documento base ao sucessor do protocolo de Quioto.

 

Mas o problema é que este e outros compromissos assumidos por Obama podem ser importantes politicamente, mas carecem de toda a base legal e jurídica para torná-los vinculativos e consequentes. Porque, de outro modo, tratam-se de meras declarações de intenções. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:18
link do post | comentar
partilhar

About

Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos