Terça-feira, 23 de Outubro de 2018

O acto de votar

 

Contrariando a tendência que se tem verificado nas televisões, jornais e redes sociais em Portugal, não me pronunciei até ao momento sobre as eleições presidenciais no Brasil. Não o fiz porque nada ou quase nada tinha para dizer sobre um processo democrático num país soberano, onde os seus cidadãos têm total liberdade para escolher quem querem para liderar os seus desígnios. Até que ponto um cidadão português como eu, sem familiares brasileiros, que nunca viveu naquele país e que só lá esteve uma vez há muitos anos, teria o direito de “julgar” aquilo que um brasileiro, num país livre e democrático, deve ou não deve fazer, naquele que é o acto que considero mais sagrado da vida em sociedade? Nem sequer tenho o direito de julgar o voto de um meu concidadão. Mesmo que não concorde ele, por uma questão de respeito democrático e cívico, devo tentar compreender o seu gesto, mas nunca estigmatizar.

 

É quase como condenar ou criticar publicamente um casamento, a relação de um crente com a sua Igreja, os princípios que norteiam a educação que uns pais dão a um filho, ou seja, “contratos” sociais basilares que sustentam a vida em sociedade e que resultam, única e exclusivamente, da vontade e convicções individuais. Para mim, a relação do cidadão com o voto é igualmente sagrada e merece todo o respeito. Seguramente, todos temos direito à opinião e a proferi-la quando achamos que é oportuno, mas essa é uma escolha de cada um. Tenho uma opinião consolidada sobre o processo eleitoral que se vive no Brasil, mas nunca teria a pretensão de me colocar no papel de um brasileiro à boca de urna e de advogar aquilo que seria melhor para o seu futuro.

 

A democracia num Estado soberano é a liberdade de cada cidadão escolher de forma livre os seus governantes. Mas, como escrevi há umas semanas no Público, por não ser um sistema perfeito, a democracia pode provocar dilemas, pode gerar consequências nefastas para um sistema de Governo e país. E quando assim é, têm de ser as sociedades a reagir, com os seus mecanismos de “checks and balances” e, em último recurso, com a força imparável da vontade popular.

 

Independentemente das “fake news”, de todo o ruído mediático, dos excessos da campanha, das perversidades das redes sociais, os brasileiros têm ao seu dispor toda a informação para exercer um voto livre e consciente. Um voto dotado de todas as condições para que cada eleitor possa exercer o seu direito cívico da forma que bem entende. Ao depositar o boletim na urna, a responsabilidade do voto é apenas sua e só sua.

 

Não me parece que a moralidade e ética de cada cidadão seja um bom argumento para justificar escolhas individuais em democracias livres. De certa maneira, quando alguém critica o voto de um eleitor, pressupõe-se uma certa condescendência e até arrogância moral de quem "julga". Em Portugal, nos últimos tempos, muitos analistas e comentadores (na verdade, activistas) não se têm coibido de fazer esse exercício, debaixo de um pseudo-manto de clarividência espiritual e intelectual que muitos advogam para si próprios. Lendo e ouvindo muitos destes “iluminados”, depreende-se que quem vota em Bolsonaro é imoral e quem vota em Haddad é virtuoso. Será mesmo assim?

 

Não me identifico com este tipo de visão. Identifico-me, sim, com o princípio democrático do voto livre e da consequente responsabilização desse mesmo acto. No “day after” não é apenas o Presidente eleito, seja ele qual for, que terá de prestar contas a “todos” os brasileiros, é também o eleitorado que terá que assumir as suas responsabilidades. Tudo pode correr bem, mas também tudo pode correr mal. E se o processo for doloroso, será o povo brasileiro que sofrerá as consequências das suas próprias escolhas, mas também lhe caberá a obrigação de encontrar as respostas para combater os males da sua sociedade.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:14
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Segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Duas pequenas histórias de excessos

 

Fazendo lembrar os tiques dos Estados autoritários e totalitários de outros tempos, a Rússia embarcou numa aventura de proporções gigantescas, quando se lançou na missão de realizar recentemente os mais ambiciosos Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi. Tudo numa lógica de projecção de "soft power", com o objectivo de mostrar ao mundo uma nova Rússia, reerguida dos escombros soviéticos, supostamente mais poderosa e de cariz global. Ora, não só aquele projecto assumiu custos exorbitantes, tornando-se nos jogos olímpicos mais caros de sempre, como se revelou desastroso para os intentos de Vladimir Putin, pondo a descoberto muitas das fragilidades da Rússia.    

 

Os Jogos Olímpicos de Sochi tiveram um orçamento quase cinco vezes superior ao do Campeonato do Mundo de Futebol no Brasil. E por falar no Brasil, também os governantes daquele país, numa ânsia de mostrar ao mundo o seu poderio emergente, lançaram-se numa tarefa hercúlea (e quase impossível) de organizar praticamente em simultâneo o Mundial 2014 e os Olímpicos 2016. 

 

Tal como aconteceu na Rússia, também no Brasil os efeitos têm-se revelado perversos para os objectivos dos governantes brasileiros. E dificilmente essa imagem sairá melhorada. Pelo contrário. Com a chegada de milhares de turistas e adeptos às cidades brasileiras da Copa nos próximos dias, os problemas de infraestruturas, de saneamento, de vias de comunicação, de segurança, entre outros, deverão sentir-se de forma mais acentuada.  

 

A questão é saber como o Governo de Dilma Rousseff irá gerir esta crise em plena Copa do Mundo. Ironicamente, o seu grande aliado será a equipa canarinha, que, enquanto ganhar, distrairá os brasileiros do seu quotidiano.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 13:01
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Segunda-feira, 22 de Julho de 2013

São Francisco de Assis iria gostar de ver o Papa num Fiat Idea

 

"Tumulto na chegada do papa Francisco no Rio de Janeiro" (Legenda da revista Veja)/Foto: Néstor J. Beremblum/Brazil Photo Press/Folhapress

 

Quem teve a oportunidade de acompanhar em directo pela televisão os primeiros quilómetros percorridos pelo Papa Francisco nas avenidas do Rio de Janeiro viu algo absolutamento inédito na história moderna do chefe máximo da Igreja Católica.

 

O Sumo Pontífice sentado no banco de trás de um modesto Fiat Idea (por imposição do próprio), praticamente sem batedores de polícia, ficando a determinada altura literalmente bloqueado numa faixa estreita de rodagem, com camiões de um lado e gente do outro. Mais parecia que o Papa estava parado no trânsito em plena hora de ponta, com a particularidade de centenas de pessoas se atirarem sobre o seu carro na esperança de o ver ou tocar.  

 

No meio desta confusão toda, os agentes de segurança a pé e rigorosamente vestidos de fato faziam todos os esforços para afastar da viatura todos os devotos, numa missão quase impossível, e num cenário incompreensível para uma operação que as autoridades brasileiras tinham supostamente antecipado com todo o cuidado.

 

Falhas de segurança à parte, a devoção franciscana do Papa à simplicidade é meritória e inspiradora, e o Diplomata tem a certeza que São Francisco de Assis iria gostar de ver o Papa num Fiat Idea, de janela aberta a cumprimentar todos aqueles que iam ter consigo.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:51
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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Do Brasil chega a revista Campaigns & Elections

 

 

 

Do Brasil chega a revista Campaigns & Elections que, na sua edição de estreia, conta com entrevistas aos melhores profissionais da comunicação política brasileira.

 

Este primeiro número da versão brasileira da revista mãe americana, tem ainda a colaboração de Fernando Lima, ex-assessor de imprensa e actual assessor político do Presidente Cavaco Silva.

 

A C&E Brasil pretende abordar temas de estratégia e de comunicação política, através de análise às novas tendências e ao que se passa nos bastidores do poder.

 

O Diplomata recomenda uma leitura ao primeiro número, que tem muita informação para reflectir.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:37
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Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Polvo com ar de "Lula" faz escolha previsível para as presidenciais no Brasil

 

 

Através do It's PR Stupid, o Diplomata constatou que na antevisão das eleições presidenciais no Brasil, este polvo, com mais ar de "Lula", escolheu a candidata do Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff, em preterimento de José Serra, ou não fosse aquela a sucessora do actual Presidente Lula da Silva.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:58
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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