Domingo, 20 de Dezembro de 2009

Diplomata recupera testemunho de jornalista portuguesa sobre encontro com Montazeri

 

Milhares de iranianos choram hoje a morte de ayatollah Hossein Ali Montazeri, aos 87 anos, desaparecendo, assim, uma das figuras religiosas mais proeminentes do Irão. O Diplomata recupera um texto que a jornalista do Expresso Margarida Mota escreveu para este blogue, descrevendo o seu encontro que teve com Montazeri. A Margarida foi uma das poucas jornalistas ocidentais que teve o privilégio de entrevistar aquele ayatollah.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:40
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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Uma relação cada vez mais crispada

 

Mahmoud Ahmadinejad e o ayatollah Ali Khamenei

 

Das entranhas do regime de Teerão veio um sinal interessante, que poderá, ou não, revelar o início de alguma divergência entre as duas principais figuras do Irão. O ayatollah Ali Khamenei revelou publicamente pela primeira vez uma posição diferente daquela que o Presidente Mahmoud Ahmadinejad assumiu.

 

No centro da celeuma está a possibilidade de vários representantes governamentais, jornalistas e académicos serem acusados pela justiça iraniana e com o apoio de Ahmadinejad de colaborarem com o Ocidente na tentativa de derrubar o regime do Irão.

 

Ahmadinejad tem sido um acérrimo dinamizador deste tipo de processos, independentemente da equidade e da justiça dos mesmos. O Presidente do Irão move-se claramente por vectores políticos que podem deturpar o enquadramento em que muitas acusações são feitas.

 

Desta vez, Ahmadinejad parece ter sido "travado" por Ali Khamenei que fez questão de informar que até ao momento não encontrou quaisquer provas que ligassem os acusados a Estados ocidentais, nomeadamente aos Estados Unidos e Reino Unido, com o objectivo de derrubar o regime iraniano. “I don’t accuse the leaders of the recent incidents of being affiliated with foreign countries, including the U.S. and Britain, since the issue has not been proven for me.”

 

Esta posição é bastante interessante, não tanto pelo conteúdo, mas pelo facto de contrariar peremptoriamente uma conclusão assumida por Ahmedinejad, que desde o início dos protestos nas ruas de Teerão após as eleições presidenciais não se coibiu de dizer que os manifestantes estavam a ser orquestrados e em conluio com as potencias ocidentais.

 

Uma das razões que terá levado Ali Khamenei a tomar esta posição está relacionada com a sua necessidade de voltar a ganhar alguma credibilidade e confiança junto de toda a nação iraniana, sobretudo após o conturbado período pós-eleitoral, no qual o ayatollah deu claramente o seu apoio a Ahmadinejad, ostracizando um sector da sociedade mais reformista que há muito que deixou de ser uma minoria.

 

E foi talvez esta constatação que Ali Khamanei terá feito, ao perceber que os críticos do regime são muito mais do que um mero grupo residual de pessoas.

 

Por outro lado, parece ser cada vez mais evidente que Ali Khamenei está a envidar todos os esforços para assegurar o poder enquanto figura máxima do regime. Não é por isso de estranhar que nos últimos tempos Khamenei e Ahmadinejad se tenham envolvido num clima de confrontação a propósito de várias nomeações para o novo Executivo, e agora também por causa de os processos judiciais contra alguns dos membros reformistas.

 

Ao New York Times, Abbas Milani, director de estudos iranianos na Universidade de Stanford, sintetizou a situação: “He [Khamenei] is stuck with Ahmadinejad, and he is stuck with the Revolutionary Guard and their daily demands to arrest [Mir Hussein] Moussavi. He is trying to calm them down.”

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:52
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Quando o ayatollah Montazeri recebeu uma jornalista portuguesa em sua casa...

 

 

 

Por Margarida Mota*

 

Talvez sejam dos cinco mil quilómetros de distância, mas em Portugal – como, na verdade, em grande parte do mundo – tendemos a pensar no Irão como um regime homogéneo, sem espaço para a discordância. De tempos a tempos, os iranianos vão a votos e abrimos, então, uma excepção nessa visão estereotipada, concedendo que, afinal, há candidatos conservadores mas também reformistas. Mas raramente temos consciência que, nos bastidores da Revolução, há cisões nos patamares mais altos da hierarquia religiosa.

 

Apercebi-me disso pela primeira vez, fora dos livros de História, quando me desloquei ao Irão, em meados de 2006, em trabalho para o “Expresso”. Certo dia, quando visitava a cidade santa de Qom, manifestei o desejo de entrevistar o “ayatollah” Montazeri, sem grande esperança, na verdade, que tal fosse possível. Hossein Ali Montazeri é membro do clube exclusivo dos “Grandes ayatollahs” e foi, durante anos, o sucessor designado pelo “imam” Khomeini para ser o Líder Supremo do Irão. Khomeini chegou mesmo a dizer ser Montazeri o “fruto da minha vida”.

 

Montazeri caiu em desgraça quando, ainda com Khomeini vivo, começou a criticar o rumo que a Revolução levava, sobretudo ao nível das restrições políticas e culturais e do tratamento dos prisioneiros políticos e dos opositores ao regime. Em 1997, depois de ter criticado as credenciais teológicas do Líder Supremo Ali Khamenei, foi colocado em prisão domiciliária, até 2003.

 

Com tudo isto em mente, foi grande a minha surpresa quando fui informada que Montazeri tinha-se predisposto a receber-me e ao António Pedro Ferreira, o repórter fotográfico que me acompanhava. Ultrapassados alguns procedimentos de segurança, já no espaço interior da sua casa, acedemos, então, à sala, simples e despojada de decorações e novas tecnologias, onde Montazeri já nos aguardava.

 

Há pormenores desse encontro que nunca esquecerei: “Estamos no Irão pela primeira vez. Tínhamos de o vir visitar”, foram as minhas primeiras palavras. Sem nunca me fixar nos olhos, Montazeri foi passando a sua mensagem: “Com a graça de Deus, espero que vocês, enquanto jornalistas, descrevam as coisas que vêem neste país de forma independente. E não tenham medo se alguém vos questionar sobre aquilo que escreverem. Sejam vós próprios”.

 

Ao fundo da sala, sentado numa cadeira, um jovem guarda assistia, em silêncio, a tudo o que se passava. Ele era os olhos e os ouvidos do regime junto do principal dissidente da Revolução Islâmica. Desde que saíra de prisão domiciliária que Montazeri tinha com o regime uma espécie de acordo de cavalheiros: ele doseava as palavras e as autoridades permitiam-lhe uma vida aparentemente normal.

 

Durante a crise política saída das eleições presidenciais de 12 de Junho, a voz de Montazeri tem-se feito ouvir por diversas vezes. Às primeiras horas da contestação, ele difundiu um comunicado com um alerta: “Se os iranianos não podem falar dos seus direitos legítimos em manifestações pacíficas e são, em vez disso, reprimidos, as frustrações crescerão, o que pode erradicar os alicerces do governo, por muito poderoso que seja”.

 

Há 20 anos, por ocasião do 10º aniversário da Revolução, e numa altura em que a vida de Khomeini se aproximava do fim, Montazeri evidenciara preocupações semelhantes. Mostrara-se crítico em relação ao governo liderado por… Mousavi , advogando uma maior liberdade política, o fim da censura nos meios de comunicação e um sistema de economia liberal com poucas intervenções do Estado. “Devemos arrepender-nos dos erros cometidos no passado”, afirmou então Montazeri. Uma reflexão que, hoje, aos 85 anos, aquele que foi um dos maiores arquitectos da República Islâmica do Irão continua a reafirmar.

 

*Jornalista do Expresso

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:12
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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