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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

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No reino saudita uma andorinha parece estar a fazer a verdadeira "Primavera árabe"

Alexandre Guerra, 24.06.12

 

Rei Abdullah

 

Sem qualquer "Primavera" exuberante, a Arábia Saudita vai muito lentamente, mas de forma mais tranquila, cedendo alguma abertura do regime. Ficou-se a saber este Domingo que Riade vai permitir que atletas femininas sauditas possam participar nos Jogos Olímpicos de Londres, caso tenham os mínimos para se qualificarem.

 

É a primeira vez na história do país que tal acontece, tendo sido anunciado em comunicado pela Embaixada saudita em Londres.

 

Diz a BBC News que este anúncio põe fim à especulação que girava em torno da delegação saudita, ameaçada de desqualificação pelo Comité Olímpico sob o argumento de discriminação de género.

 

Com esta questão arrumada, a Arábia Saudita vai contar, pelo menos, com uma atleta em Londres, a saltadora de obstáculos de cavalos, Dalma Rushdi Malhas.

 

A decisão do regime saudita é de extrema importância, não apenas pelo seu significado desportivo e social, mas pela sua dimensão política, já que implica um revés às pretensões da ala mais conservadora saudita.

 

Conservadores, esses, que deverão estar apreensivos com o rumo que o Rei Abdullah tem tomado no que diz respeito ao papel das mulheres na sociedade. Relembre-se que em Setembro do ano passado Abdullah concedeu o direito de voto às mulheres nas eleições municipais e a possibilidade de se candidatarem àquelas. Anunciou ainda que as mulheres podiam ser nomeadas para o Shura Council, o órgão consultivo do Rei. 

 

E no âmbito deste processo reformista (leia-se no contexto saudita), a BBC News revela que nas últimas seis semanas têm decorridos negociações "behind-the-scenes" lideradas pelo próprio Abdullah, das quais resultou um entendimento entre a casa de Saud e os clérigos mais conservadores para permitir que as atletas sauditas participassem nos Jogos Olímpicos.

 

Apesar do suposto "entendimento", certamente que neste processo "negocial" Abdullah impôs a sua vontade, uma vez que a oposição mais conservadora do regime saudita é totalmente contra as cedências que têm sido promovidas pelo monarca.  


No Dia de São Valentim, Abdullah "rompeu" com waabitas do Governo saudita

Alexandre Guerra, 18.02.09

 

 

Enquanto no passado Sábado corações e mentes se entregavam ao romance do Dia dos Namorados ( ou São Valentim), em Riade estava a acontecer um "massacre" no seio da corrente waabita instalada no Governo saudita.

 

A palavra "massacre" foi utilizada  em sentido figurado por Nina Shea, directora do Centro de Liberdade Religiosa do Hudson Institute, para descrever o ataque feroz que o Rei Abdullah desferiu nos ministros e altos responsáveis políticos mais conservadores do regime.

 

Entre as várias medidas, Abdullah promoveu pessoas da sua confiança, mais tolerantes em termos religiosos e políticos e que se adequam melhor às necessidades do país em pleno século XXI. 

 

O principal sinal de esperança para uma verdadeira reforma e abertura política, social e religiosa terá sido a nomeação de Noura al-Faez como vice-ministra para a pasta da Educação das Mulheres. É a primeira mulher a ocupar um lugar no Executivo.

 

A iniciativa é de tal maneira importante que o correspondente internacional da CNN, Nic Robertson, interrogava-se com o seguinte: O que poderá ser maior do que a nomeação de uma mulher para um lugar ministerial? A resposta foi: "Talvez uma ministra da Justiça."

 

Desde 2005 no poder de facto e de juri, após a morte do seu irmão, o Rei Fahd, este foi o mais importante gesto político levado a cabo por Abdullah, afastando do Governo alguns dos guardiões do waabismo, substituindo-os por mentes mais reformistas e próximas do chefe de Estado.

 

Entre os que saíram encontram-se o ministro da Justiça e o líder da Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício.

 

Nic Robertson diz tratar-se de um novo curso irreversível para a modernização da Arábia Saudita, que já vem sendo preparado por Abdullah há algum tempo.

 

Com 80 anos, o monarca apercebeu-se que o seu país está cada vez mais dominado por uma faixa etária muito jovem, com acesso à TV satélite, a telemóveis, a Blackberry's, a contactos com o exterior... Ou seja, no fundo trata-se de uma parte da população sedenta de mudança e potencialmente muito crítica, caso o Governo não suavizasse os preceitos orientadores da sociedade.

 

Apesar do sentido reformista de Abdullah, tudo tem sido feito com moderação, não sendo de esperar mudanças drásticas. Porém, o Rei tem emitido importantes sinais para a sociedade saudita, demonstrando que pretende atenuar o domínio radical waabita em prol de uma maior influência do ramo sunita.