Segunda-feira, 21 de Maio de 2018

Resist

 

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Os miúdos do Centro Social Comunitário do Bairro da Flamenga com Roger Waters, depois de terem saído do palco, onde fizeram o coro da música Another Brick in The Wall/Foto: Alexandre Guerra

 

A grandiosidade artística só está ao alcance daqueles que a procuram. Quem cria, o verdadeiro artista, tem pela frente um caminho difícil até produzir a sua obra-prima. Quando lá chega, a uma espécie de Olimpo, tem duas opções: ou se acomoda, confortavelmente, no lugar que lhe é devido para a Eternidade, passando a fazer uma evocação constante de um passado glorioso; ou continua, incessantemente, a trabalhar em busca da perfeição, procurando fazer pontes entre as suas criações de outrora e um desejo ardente de intervenção na sociedade actual, metendo o seu talento ao serviço da arte, entretanto transfigurada em mensagem social e política. Nos dias que correm são poucos os artistas que têm essa dimensão gigante, de potenciar, de forma consistente e brilhante, a sua arte em prol da intervenção social e política.  

 

Se a música já foi uma arte privilegiada para essa intervenção, hoje em dia, os nomes da ribalta pouco mais são do que produtos descartáveis ou de consumo imediato, com pouca firmeza nos combates de causas. E os que os fazem, muitas das vezes limitam-se a ir atrás das tendências das redes sociais, com declarações ou posições pífias e inconsequentes, sem qualquer dimensão intelectual. Quanto aos gigantes do passado, aqueles que fizeram obras-primas, lá está, vão fazendo uma evocação do passado sempre espectacular, é certo, mas sem se comprometerem com grandes “causas” do presente. É apenas a arte pela arte que têm para oferecer (o que já é muito, note-se).

 

É por isso que quando somos confrontados com a monumentalidade de Roger Waters, sentimos o peso avassalador da sua música, encorpada não só pela perfeição sonora e cénica, mas pela dimensão intelectual e humana, que a catapulta para a tal dimensão social e política. Mais do que um concerto da tournée Us + Them, o que milhares de pessoas viram no Domingo à noite no Altice Arena (e Segunda) foi um “statement” político poderoso. Hoje, nenhum artista o consegue fazer da forma que Roger Waters o faz, já que poucos têm o talento e dimensão para isso.

 

Aos 74 anos, Roger Waters nunca deixou ficar para trás o que criou, fazendo sempre a evocação do passado, mas teve um talento imenso para adaptar as suas músicas à realidade que o rodeia, fazendo uma espécie de “colagem” com a mensagem social e política que quer passar. Muitas das suas músicas têm décadas, no entanto, tornaram-se nestes tempos conturbados, armas poderosos de crítica à soberba e à arrogância dos “pigs” que controlam os desígnios do mundo. Waters demonstrou este Domingo que, apesar de todo o seu legado materializado nos Pink Floyd, mantém-se focado na perfeição das suas criações, cada vez mais inspiradas nas causas que merecem as suas energias e emoções. Porque, como diz Rogers Waters, num mundo com tantas injustiças e desigualdades, é importante que cada um pense pela sua própria cabeça, não ceda à mediocridade e resista com todas as suas forças e convicções àqueles que tentam impor um pensamento dominante.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:48
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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