Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018

O "jornalismo de causas" não é jornalismo

 

Uma conversa recente fez-me recordar uma polémica antiga (embora recorrente de tempos a tempos para quem se interessa por estas coisas) sobre a problemática do “jornalismo de causas”. Lembro-me que há uns bons anos a então editora de Internacional do Público, Margarida Santos Lopes, pessoa com quem tive o privilégio de trabalhar sob sua orientação naquela mesma secção do jornal e que, seguramente, é das jornalistas portuguesas mais conhecedoras da realidade do Médio Oriente, em particular do conflito israelo-palestiniano, se envolveu num debate de ideias com Pacheco Pereira a quem, goste-se ou não, concorde-se ou não com as suas opiniões, não se pode negar a sua capacidade intelectual de pensar. A discussão, que teve como pretexto mais imediato as dinâmicas noticiosas registadas em vários países associadas ao polémico “massacre de Jenin” ou à ideia distorcida de uma “França contra Le Pen (pai)”, deu-se nas páginas do Público em Abril de 2002, com Pacheco Pereira a denunciar aquilo que considerava ser um “jornalismo de causas”, no qual os factos e a função primeira do jornalismo, de relatar os acontecimentos com objectividade e equidistância certas, eram preteridos em função das convicções pessoais, morais, sociais e políticas dos jornalistas.

 

Pacheco Pereira lamentava que as “causas” se tivessem sobreposto aos “factos”, conduzindo, muitas vezes, a omissões deliberadas ou a edições mais “convenientes” por parte dos jornalistas, “orientados” para um determinado “resultado” (expressões minhas). Nada de novo, na verdade, e nada que não tenha continuado a verificar-se em Portugal ao longo dos anos, sendo, aliás, uma prática cada vez mais comum. Basta olhar para o ano que agora terminou e analisar com seriedade algumas dinâmicas noticiosas e facilmente se constatam todos esses males, nalguns casos de forma escandalosa, sem que haja qualquer escrutínio ou consequência. Já na altura, Pacheco Pereira explicava o fenómeno: "Há muitas razões para explicar o domínio do 'jornalismo de causas' em Portugal. Ele é favorecido pela relativa homogeneidade política das redacções - muito mais à esquerda do que a sociedade portuguesa -, por uma estrutura de controlo de qualidade, de "edição", muito frágil ou inexistente, pela falta de cultura geral necessária para escrever sobre política, falta de noções de história e de filosofia política básicas. Mas é acima de tudo justificado pela vontade, que se verifica ser muito mais motivadora do que a de se ser, pura e simplesmente, bom jornalista, de substituir as regras do jornalismo pela intervenção política."

 

De todas as razões acima descritas por Pacheco Pereira, prefiro centrar-me na última questão, a de que o jornalista se destitui da sua missão a partir do momento em que “atropela” as regras e conceitos básicos do jornalismo, muitas vezes para contar a “história” que lhe dá mais “jeito” ou, eventualmente, a que lhe dá mais audiência. Aqui, nem sequer se trata de ser bom ou mau jornalista, trata-se apenas de ser jornalista ou não. Pode apresentar-se como tal e achar que os seus trabalhos são reportagens ou notícias, mas, efectivamente, não são mais do que conteúdos, seguramente não jornalísticos, porque, para isso, o crivo tinha que ser outro.

 

Por vezes, as emoções e os interesses subjectivos são de tal maneira gritantes que aos “jornalistas” em causa só lhes falta colocarem a capa de super-heróis para irem em defesa dos fracos e oprimidos. E quando o fazem, fazem-no sempre de acordo com a sua “lente” ou com a sua visão parcial de um determinado assunto. Ora, por mais meritória que essa missão até possa ser, o jornalismo não é isso. O jornalismo tem outro propósito, que é o de informar as pessoas e colocá-las, o mais próximo possível, da realidade de um determinado assunto. Um jornalista não deve escolher qualquer lado da barricada, não deve tomar partidos, não deve ceder perante preconceitos ou ideias pré-concebidas... Não deve ser o super-herói, não deve ser parte da história que está a relatar! Acima de tudo, o compromisso do jornalista é para com a verdade factual, para com os leitores, os telespectadores ou os ouvintes, no dever de lhes fornecer informação devidamente validada, com todos os ângulos de uma problemática, e não apenas uma visão parcial, para que eles, sim, possam fazer os juízos que bem entenderem.

 

Os defensores e mobilizadores de causas devem existir e são fundamentais em democracia na construção de uma sociedade mais justa e solidária, mas não devem ser protagonizados por jornalistas quando estão no exercício da sua profissão. São missões e papéis diferentes, mas o problema é que em Portugal há jornalistas que deixaram de perceber essa diferença, embarcando em causas, por vezes de forma exacerbada e cega, esquecendo-se de que estão a prestar um mau serviço ao jornalismo.

 

Que 2018 traga bom jornalismo, porque, como ainda esta Terça-feira escrevia o filósofo político Daniel Innerarity no El País, para se poder "reinventar" um país ou fazer alguma mudança no mundo, acima de tudo, é preciso saber interpretar bem a realidade.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:33
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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