Domingo, 17 de Junho de 2018

Não, os políticos não estão a fazer tudo o que podem

 

Um ano depois da tragédia de Pedrógão, que fez 66 mortos, quase todos carbonizados numa só estrada, e mais de 250 feridos, alguns deles com marcas no corpo e feridas psicológicas para o resto da vida, o Presidente da República disse este Domingo que "os responsáveis políticos estão a fazer o que podem". Daqui a uns meses, mais concretamente a 15 e 16 de Outubro, assinalar-se-á um ano sobre outra tragédia, que matou 50 pessoas e feriu mais de 70. Além dos milhares de hectares ardidos em vários concelhos da região centro e norte, foram destruídas 1500 casas, 500 empresas e o sustento de muitas famílias foi devastado. Provavelmente, quando chegar a altura, o Chefe de Estado voltará a sublinhar que os responsáveis políticos estão a fazer o que podem, no entanto, um Estado que veja "ameaçado" ou "atacado" o seu Território, o seu Povo ou o seu Governo, é um Estado que se vê ameaçado e atacado a si próprio, que vê ameaçada e atacada a sua soberania. E quando os seus líderes não afastam essas ameaças e repelem esses ataques, é porque estão a prestar um mau serviço à governança do bem comum.

 

As nossas terras continuam a ser o palco onde todas as atrocidades acontecem, perante a complacência do Estado. Os rios são invadidos cegamente com barragens e são contaminados por fábricas, os habitats naturais são destruídos sem complacência, o betão invade a costa nacional sem qualquer critério e continua-se a licenciar projectos urbanísticos em zonas que deveriam ser invioláveis. E mesmo nas pequenas coisas, as lideranças não têm a visão para implementarem medidas concretas que seriam condizentes com os seus inconsequentes discursos de perfil ambientalista (apenas para dar um micro exemplo, mas sintomático... Como é possível que em 2018 ainda permitam que circulem tuks tuks altamente poluentes no centro de Lisboa ou nas entranhas da Serra de Sintra???). Ou seja, no Estado e na sua cúpula de poder não se verifica qualquer mudança no paradigma da noção de Território sustentável.

 

É por isso que jamais posso concordar com a declaração proferida este Domingo por Marcelo Rebelo de Sousa em Pedrógão Pequeno. Não, os responsáveis políticos não estão a fazer tudo o que podem. Não o fazem há décadas, não o fizeram no ano passado, não o estão a fazer agora e não se perspectiva que o façam a curto e a médio prazo. Portugal, infelizmente, continuará a ver o seu território dilacerado.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:28
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1 comentário:
De P. P. a 19 de Junho de 2018 às 08:34
Totalmente de acordo, sem esquecer os incêndios de outubro, como referi no meu blogue.
Obrigado por este artigo.

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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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