Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Jogo de espiões no Paquistão

 

 

Um suposto militar das forças de operações especiais americanas no Paquistão/Getty Images

 

Corre na imprensa internacional que existe um autêntico jogo de espiões no Paquistão, opondo a CIA (e forças de operações especiais americanas) e os serviços secretos paquistaneses, a ISI.

 

Já há bastante tempo que as relações políticas e diplomáticas entre Washington e Islamabad têm vindo a degradar-se, atingindo níveis de desconfiança e de crispação inéditos depois da operação militar norte-americana que levou à morte do líder da al Qaeda, Osama Bin Laden, em Abbottabad, no passado dia 2 de Maio.

 

Desde então que a situação tem piorado, ao ponto da Casa Branca ter anunciado no início deste mês que iria suspender a ajuda militar de 800 milhões de dólares ao Paquistão.

 

Mas, por detrás deste conflito mais visível, parece estar a decorrer uma autêntica guerra de espiões no terreno, sobretudo depois de terem surgido notícias de que agentes da CIA teriam forjado um programa de vacinação em Abbottabad para controlar e identificar os ocupantes da casa onde se suspeitava estar Osama Bin Laden.

 

Citada pelo Guardian, a organização Médicins Sans Frontières considera que a operação da CIA foi “um abuso perigoso” que poderá comprometer o

trabalho humanitário no Paquistão.

 

Também àquele jornal, um responsável da ONU disse que este tipo de situação só vem alimentar ainda mais a desconfiança dos serviços secretos paquistaneses em relação às várias ONG’s ocidentais que estão a operar no território, acusadas por Islamabad de fazerem trabalho de espionagem.

 

Como tal, as autoridades paquistanesas têm restringido, cada vez mais, os movimentos dos vários trabalhadores humanitários no país, muitos deles a tentar dar auxílio às milhares de pessoas que ainda sofrem com as consequências devastadoras das cheias do ano passado.

 

De forma propositada, as forças de seguranças paquistanesas, sob a égide da ISI, estão a colocar inúmeras dificuldades burocráticas às ONG’s no terreno, que se reflectem no atraso de atribuição de vistos, na restrição de movimentos ou, até mesmo, na detenção e repatriamento de trabalhadores humanitários.

 

Por exemplo, nesta lógica de “guerra” silenciosa entre a ISI e Washington, ainda na semana passada um comboio humanitário americano que estava a entrar em Peshawar foi obrigado a regressar a Islamabad porque não tinha os documentos necessários.

 

É importante relembrar que já em Abril, Islamabad tinha exigido a Washington que reduzisse o número de agentes da CIA e de homens das forças de operações especiais a actuar no Paquistão, o que deveria perfazer cerca de 330 pessoas, segundo fontes próximas do processo. Embora estes números não tivessem sido confirmados por ninguém, talvez representassem entre 25 a 40 por cento do total dos homens americanos da CIA e das forças de operações especiais estacionados no Paquistão.

 

Respostas da ISI àquilo que considera ser uma ofensiva de espiões da CIA, como aconteceu em Janeiro último, quando o agente secreto americano, Raymond Davis, matou dois paquistaneses em Lahore. Já mais recentemente, em Washington, o FBI deteve o director de um grupo de lobby dedicado à causa de Caxemira que, supostamente, seria uma fachada para a ISI.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:18
link do post | comentar | ver comentários (1)
partilhar
Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Não é só em Lisboa...em Washington também andam a brincar à política, diz Kristof

 

O republicano Paul Ryan, presidente da Comissão do Orçamento do Congresso, tem estado em grande actividade nos últimos dias/Foto:AP

 

"Não se percebe bem por onde andam os adultos, mas em Washington não devem andar. Além da ameaça maliciosa de fechar a administração federal, evitada apenas ao último minuto de Sexta-feira à noite, é doloroso ver a que ponto o discurso político é imbecil e incompetente e os nossos políticos são cobardes. [...] Que significa tudo isto? Que estamos a ser governados por crianças egocêntricas e imprudentes. [...] Um amigo chinês, perplexo com as últimas notícias, perguntava-me como é possível que a maior democracia do mundo seja tão mal administrada que se ponha sequer a hipótese de fechar portas. A guerra orçamental reflecte uma falta de inteligência, uma incompetência e uma cobardia de facto difíceis de explicar."

 

Nicholas Kristof em artigo de opinião no New York Times publicado esta Quarta-feira no jornal i.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:17
link do post | comentar | ver comentários (1)
partilhar
Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Ronald Reagan também teve o seu episódio na saga "Star Wars"

 

 

Strategic Defense Initiative (SDI). Dito assim, poucos se lembrarão o que esta sigla quererá dizer, apesar de ter sido uma das iniciativas políticas mais importantes e polémicas na década de 80. Agora, se se falar em “Star Wars”, então, provavelmente, muitos se lembrarão do famoso e polémico projecto anunciado pelo Presidente Ronald Reagan, numa comunicação ao País através da Casa Branca, a 23 de Março de 1983.

 

Projectado para a construção de um escudo antimíssil balístico contra a ameaça nuclear soviética, o SDI seria composto por uma série de sistemas terrestres e espaciais, que cobriria os Estados Unidos com uma espécie de escudo.

 

Perante a grandeza e a espectacularidade do SDI, rapidamente o projecto adoptou o nome “Star Wars”, numa alusão à célebre saga de George Lucas, cujo primeiro (na realidade o episódio IV) filme tinha sido lançado a 25 de Março de 1977, e contribuído para a "febre" e “descoberta” do Espaço como a nova fronteira da Humanidade.

 

O SDI mereceu as críticas de quase toda a comunidade científica, por considerar o projecto irrealista e tecnicamente impossível de concretizar, além de ter custos astronómicos, pertencendo ao mundo da fantasia e do imaginário, tal como a “Star Wars” de Lucas. Mas, para outros, a referência à saga “Star Wars” era uma forma de perspectivar um futuro real, mas que implicava um investimento prévio.

 

 

Ao contrário da saga de Lucas, a “Star Wars” de Reagan nunca viu a luz do dia, embora tenha permanecido na agenda política norte-americana desde então, com diferentes denominações e mudanças de conceito, estando nos dias hoje em discussão um novo sistema de defesa antimíssil, em parceria com a Rússia.

 

Reagan pretendia que o projecto “Star Wars” viesse assumir-se como uma nova doutrina militar de defesa estratégica, que substituísse a MAD (Mutual Assured Destruction), para se defender do Império do Mal, expressão que usara a 8 de Março de 1983 para caracterizar a União Soviética.

 

Houve também quem dissesse que com este projecto dispendioso Reagan quisesse sobrecarregar os cofres de Moscovo, obrigando o Kremlin a acompanhar o esforço militar, tecnológico e científico americano, à semelhança do que tinha acontecido durante a Guerra Fria, numa lógica de procura constante pela paridade entre as duas Super Potências.

 

*Depois do texto publicado na semana passada, o Diplomata continua a nova rubrica anunciada neste espaço.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:02
link do post | comentar
partilhar
Domingo, 24 de Outubro de 2010

Jimmy Carter, o Presidente que a História conotou como um pacifista ingénuo

 

  

Jimmy Carter, o 39º Presidente dos Estados Unidos, entre 1977 e 1981, continua a ser visto por muitos americanos como um dos homens menos relevantes e entusiasmantes que passaram pela Casa Branca. Não entusiasmou sequer os democratas, apesar de algumas da suas posições serem inovadoras em relação a temas como a dependência energética, o ambiente, a educação, os direitos humanos ou o conflito israelo-palestiniano.

 

Não será arriscado afirmar-se que a História tem sido um pouco injusta na apreciação que faz ao mandato de Carter, já que este foi premonitório nalguns princípios que defendia e conseguiu feitos interessantes, nomeadamente ao nível da política internacional, promovendo a assinatura dos Acordos de Camp David, em 1978, que permitiram normalizar as relações diplomáticas entre Israel e o Egipto.

 

A verdade é que Carter não conseguiu ser eleito para um segundo mandato, e ficou conotado como uma imagem de pacifista ingénuo, numa altura em que o mundo ocidental exigia uma liderança realista na cruzada contra o “império do mal”.

 

Exemplo disso foi o papel “fantoche” desempenhado por Carter na “Operação Livro Aberto”, como mais tarde o seu conselheiro de Segurança Nacional, Zhigniew Brzezinski, viria a constatar nas suas memórias.

 

Como se pode ser no livro a "A Santa Aliança" de Eric Fratitini, quando em 1980 os Estados Unidos e o Vaticano aprofundaram relações ao mais alto nível, no âmbito do apoio ao movimento Solidariedade na Polónia, João Paulo II assumiu a liderança da estratégia anti-comunista a ser implementada do outro lado da Cortina de Ferro.

 

A “Operação Livro Aberto” tinha como objectivo colocar naqueles países milhares de livros e propaganda anticomunista, seria coordenada pela CIA e pela Santa Aliança (serviços secretos do Vaticano) e implementado no terreno por padres que estariam nessas zonas.

 

Em todo o processo negocial e de preparação entre Washington e o Vaticano, João Paulo II demonstrou muito mais empenho e entusiasmo do que Carter, que levantava algumas objecções à “Operação Livro Aberto”. Brzezinski chegou mesmo a escrever nas suas memórias que “era claro que João Paulo II é que devia ter sido eleito Presidente do Estados Unidos e Jimmy Carter escolhido como Sumo Pontífice”.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:11
link do post | comentar
partilhar
Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

No xadrez da geoestratégia todos os votos contam na Assembleia Geral da ONU

 

 

Como é habitual nesta altura do ano por ocasião da sessão de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, viveram-se dias de grande actividade diplomática na sede daquela organização em Nova Iorque. É um acontecimento que reúne líderes de todo o mundo, muitos dos quais aproveitam o momento para realizarem autênticas ofensivas políticas, como foi, mais uma vez, o caso do Presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad.

 

Mas é também o momento em que muitos chefes de Estado aproveitam para fazer “diplomacia de corredor” na defesa dos seus interesses. Aliás, Portugal foi um exemplo, com o primeiro-ministro José Sócrates a ir a Nova Iorque para captar apoios para a candidatura do país ao Conselho de Segurança enquanto um dos dez membros rotativos não permanentes. Além do discurso proferido na Assembleia, Sócrates encetou vários encontros bilaterais com representantes de vários países.

 

Os corredores da ONU nesta altura do ano podem representar oportunidades particularmente importantes para pequenos estados como Portugal.

 

Como alguém dizia há uns anos, apesar de todos os seus males, a Assembleia Geral das Nações Unidas é o único sítio onde todos países podem falar uns com os outros de igual para igual.

 

Efectivamente, a lógica reinante é de um país, um voto, sejam os Estados Unidos ou o Togo. Ao contrário do Conselho de Segurança, onde os cinco membros permanentes têm poder de veto, na Assembleia Geral impera a lógica democrática da igualdade jurídica entre os Estados.

 

É por isso que ao nível das deliberações da Assembleia Geral a posição política veiculada por Estados de quem nunca ninguém ouviu falar pode assumir contornos particularmente importantes na discussão de algumas matérias sensíveis e respectivas votações.

 

Poucas pessoas já deverão ter ouvido falar em países como Nauru ou Tuvalu, já que se tratam de duas das nações mais pequenas do mundo, ilhas situadas no meio do Pacífico, não tendo ambas mais do que 30 mil habitantes.

 

Insignificantes no xadrez da política internacional, assumirá o leitor. Uma assumpção compreensível, mas que não corresponde necessariamente à verdade, pelo menos no que toca ao Nauru e ao Tuvalu.

 

Por mais estranho que pareça, aqueles dois países são suficientemente importantes para despertar a atenção de Washington e Moscovo. Não pela sua posição estratégica, pelas suas riquezas minerais ou por uma eventual parceria de contratos para a venda de material militar, mas sim por causa do seu voto na Assembleia Geral. Um voto que poderá ser muito importante no que toca ao reconhecimento de novas nações independentes ou no apoio de resoluções.

 

Thomas de Waal relembra, num artigo na The National Interest, que o Nauru se tornou em 2009 no quarto país a reconhecer a Abecásia e a Ossétia do Sul como Estados independentes. Aquele autor justifica este estranho apoio por razões meramente financeiras, sugerindo que a bancarrota dos cofres de Nauru levaram o país a transformar o seu assento na Assembleia Geral em dinheiro.

 

Mas isto só é possível aproveitando o jogo geoestratégico entre os Estados Unidos e a Rússia. A independência do Abecásia e da Ossétia do Sul é do interesse de Moscovo no âmbito dos seus objectivos estratégicos na região do Cáucaso, visando o enfraquecimento da Geórgia.

 

Após o reconhecimento de Nauru nas Nações Unidas, Moscovo doou 9 milhões de dólares para a reconstrução do porto daquela ilha.  

 

Tbilisi não se ficou. Thomas de Waal relata que o Governo daquele país utilizou Tuvalu para contra atacar Moscovo. No passado dia 11 de Setembro foi noticiado que a Geórgia iria providenciar apoio financeiro à missão de Tuvalu nas Nações Unidas. Foi ainda revelado que Tbilisi tinha pago um carregamento de medicamentos com destino à população de Tuvalu no valor de 12 mil dólares.

 

Como resultado, aquele país do Pacífico foi um dos 50 países que apoiou uma resolução apresentada pela Geórgia na defesa do direito de retornos de todos os refugiados precisamente para a Abecásia e Ossétia do Sul. Nauru, por seu lado, foi naturalmente um dos 17 países que votou contra.

 

Washington também não está de fora desta estratégia. Por exemplo, numa resolução do ano passado que exortava à resolução pacífica do problema dos colonatos na Palestina, 164 países votaram favoravelmente. Os Estados Unidos votaram contra, integrando um grupo restrito de sete países, entre os quais se encontrava estranhamente (ou talvez não) o Nauru.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:35
link do post | comentar
partilhar
Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

EUA falam em "tentativa desesperada", mas a coordenação dos ataques revela o contrário

 

Atentado suicida em Kut, 160 km a sudeste de Bagdad, provocou 19 mortos

 

Dias depois de Washington ter anunciado a retirada da última brigada de “combate” do Iraque, deixando no terreno cerca de 50 mil soldados com funções de apoio e de formação às forças iraquianas, mas também de contraterrorismo e protecção, a conjuntura naquele País mantém-se violenta, apesar do tom optimista veiculado pela administração americana e altos responsáveis militares sobre a sua evolução.

 

Hoje, vários ataques coordenados em diferentes cidades iraquianas provocaram a morte de mais de 50 pessoas. As suspeitas recaem sobre a al-Qaeda, visto que só uma estrutura organizada conseguiria levar a cabo uma operação deste nível, com atentados em cidades de todo o País, muitos deles suicidas.

 

O porta-voz do Exército americano, o major general Stephen Lanza, classificou estes ataques como uma “tentativa desesperada” da al-Qaeda para minar os esforços das forças de segurança iraquianas. Declarações no mínimo ingénuas e falaciosas, porque a operação da al-Qaeda foi para além de uma mera “tentativa desesperada”.

 

Primeiro, tratou-se da concretização de um ataque que se materializou num elevado número de mortes, abalando claramente a confiança das estruturas de segurança e da sociedade em geral. Ou seja, algo mais do que uma “tentativa”.

 

Por outro lado, o Diplomata não concorda com a interpretação do major general Stephen Lanza quando este diz tratar-se de uma acção “desesperada” por parte da al-Qaeda, já que uma das ilações a retirar dos ataques de hoje é precisamente o seu elevado nível de organização e de amplitude.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:53
link do post | comentar
partilhar
Domingo, 22 de Agosto de 2010

Xe Services obrigada a pagar multa pelas violações dos mercenários da ex-Blackwater

 

Ao ver o filme de The Expendables (Mercenários, na versão portuguesa), o autor destas linhas relembrou algumas das histórias verídicas de mercenários ao serviço de Estados que nos últimos anos têm vindo a público.

 

Blackwater, agora rebaptizada de Xe Services, foi dos primeiros nomes que veio à memória. Empresa de “segurança privada” (leia-se mercenários com ordenados mensais de muitos milhares de euros a actuar no Iraque) que durante anos actuou de forma camuflada até ao momento em que vários dos seus elementos se viram envolvidos numa situação de conflito que resultou na morte de vários iraquianos.

 

A Blackwater, agora Xe Services, notabilizou-se pelos seus serviços no Iraque após a invasão deste pelas forças norte-americanas em 2003. Estes mercenários foram preencher os vazios de segurança que as forças militares dos Estados Unidos e de outros países não podiam preencher nem estavam mandatadas para tal.

 

Protecção de edifícios ou estruturas, de individualidades, de complexos estratégicos, formação paramilitar, foram algumas das funções atribuídas aos homens da então Blackwater. Durante os primeiros anos a sua presença passou praticamente despercebida aos decisores políticos em Washington e à imprensa internacional. No entanto, assim que começaram a surgir os primeiros casos de abusos por parte da Blackwater, a cúpula política, nomeadamente o Pentágono e o Departamento de Estado, começou a ter um problema para resolver.

 

Entre as várias acusações de que a Blackwater foi alvo - tais como de exportação ilegal de armas para o Afeganistão, de propostas não autorizadas para treinar tropas no sul do Sudão, de tentativa de corrupção a funcionários iraquianos - foi o acontecimento de 16 de Setembro de 2007, no qual paramilitares da Blackwater mataram 17 civis e fizeram 27 feridos numa praça em Bagdad.

 

Este foi o momento de viragem na história daquela empresa, que viria a culminar no seu afastamento do Iraque e na sua extinção para dar lugar à Xe Services em 2009 e que, segundo uma informação avançada este Sábado pelo Departamento de Estado, terá de pagar uma multa de mais de 40 milhões de dólares ao Governo americano pela violação de várias leis.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:07
link do post | comentar | ver comentários (1)
partilhar
Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Washington e Islamabad obrigados a admitir uma realidade que há muito conheciam

 

Kevin Frayer/Associated Press

 

Como dizia esta semana o repórter Nic Robertson da CNN, é nas pequenas histórias e nos pormenores dispersos entre os milhares de documentos “classificados”, postos a circular pelo Wikileaks no passado Domingo sobre a guerra no Afeganistão, que se encontra a verdadeira “notícia”.

 

Tal como o Presidente Barack Obama referiu, a ideia genérica retirada da maior parte da informação divulgada já era do conhecimento público, tendo sido amplamente debatida. Uma posição partilhada também pelos analistas e pelas autoridades de Islamabad, que trataram de desvalorizar algumas das informações contidas nos relatórios.

 

Porém, os acontecimentos do quotidiano militar no Afeganistão e os detalhes tácticos que nunca vieram a público e que agora se encontram perdidos entre as milhares de páginas à espera de serem lidas, acentuam os contornos dramáticos do conflito e clarificam as implicações políticas do mesmo.

 

Estes apontamentos são muito importantes porque reflectem de forma crua e objectiva o que se passa no terreno e materializam, de certa maneira, o debate que se tem feito sobre as grandes problemáticas estratégicas inerentes à guerra no Afeganistão.

 

Porque se é verdade que este assunto tem sido amplamente discutido nos gabinetes ministeriais e na imprensa internacional, é também certo que, por vezes, este discurso se abstrai do “terreno” e fica-se pela componente mais estratégica e política, distanciando-se dos factos sangrentos e comprometedores que o suportam.

 

Talvez um dos melhores exemplos prende-se com o “papel” que o Paquistão tem desempenhado no conflito. Muito se tem falado sobre o carácter dúbio da actuação das forças paquistanesas no combate ao terrorismo, um tema que o próprio Diplomata já fez referência por diversas ocasiões.

 

Embora nunca tenha havido um reconhecimento formal por parte de Washington, a verdade é que nos corredores se tem admitido que o Paquistão deveria ser mais convicto nos esforços de guerra. Há quem tenha mesmo adiantado que existe uma certa cumplicidade entre diferentes sectores da estrutura militar e dos serviços de “intelligence” paquistaneses (ISI) com a causa taliban.

 

Ora, para quem conheça minimamente a complexa realidade paquistanesa no que diz respeito às suas forças de segurança e à sua forma destas se relacionarem com o poder político, e para quem tenha acompanhado de perto os desenvolvimentos no terreno nos últimos anos, facilmente chegará à conclusão que a vontade veemente manifestada pela liderança política em Islamabad de apoio a Washington nem sempre se traduziu em actos efectivos por parte de alguns sectores militares ou de “intelligence”.

 

Embora já há muito tempo se constate esta realidade, a “fuga” do Wikileaks parece agora confirmar através de actos concretos o tal papel “dúbio” do Paquistão no combate ao terrorismo. De acordo com os documentos, os serviços secretos militares paquistaneses terão prestado auxílio aos taliban na sua estratégia de insurreição. Também o Exército paquistanês terá agido, por um lado, como aliado dos Estados Unidos, por outro, como inimigo.

 

Os pormenores avançados pelos documentos e que sustentam as suspeições de há muito são a verdadeira “revelação”, tendo causado embaraço e irritação na cúpula política e militar paquistanesa e desconforto nas relações diplomáticas entre Islamabad e Washington. Porque, apesar de ser uma realidade que todos conheciam, só agora foi possível confrontar aqueles dois governos com a realidade crua dos factos no terreno.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 23:02
link do post | comentar
partilhar
Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

O "jogo" de palavras já começou

 

No seguimento do post anterior, relativo aos "jogos de guerra" que os Estados Unidos e a Coreia do Sul vão realizar a partir do próximo Domingo no Mar do Japão, Pyongyang, tal como se esperava, já veio dizer hoje que aquela iniciativa representa uma ameaça à segurança da região.

 

As manobras militares ainda não começaram, mas o "jogo" de palavras já, com a tensão entre as partes a agudizar-se.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:35
link do post | comentar
partilhar
Terça-feira, 20 de Julho de 2010

Jogos de guerra ao largo da Península da Coreia vão deixar o mundo em suspenso

 

Os preparativos para a recepção de Biden e Clinton em Seul/Foto:Truth Leem,Reuters

 

Quando no próximo dia 25 de Julho forem mobilizados para o Mar do Japão 20 navios de guerra e submarinos, 200 aviões militares e 8 mil soldados, o mundo viverá, certamente, um dos dias mais tensos do ano, ou não fosse este um exercício militar conjunto entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul com o objectivo de enviar uma mensagem forte e clara ao regime de Pyongyang.

 

Durante quatro dias, forças daqueles dois países aliados estarão envolvidas em manobras de dissuasão contra a Coreia do Norte e que pretendem ser uma resposta directa ao afundamento da embarcação militar sul coreana, Cheonan, alegadamente atingida no dia 26 de Março por um torpedo norte-coreano e que vitimou 46 marinheiros.

 

Esta versão dos acontecimento foi corroborada por um relatório realizado por uma equipa de peritos internacionais, apesar de Pyongyang o ter considerado uma afronta, rejeitando as acusações de que é alvo. Também as Nações Unidas condenaram o incidente, mas não se pronunciaram quanto à identificação do responsável.

 

Seja como for, Washington está convicto da culpabilidade da Coreia do Norte no afundamento do Cheonan, tendo deste então manifestado total apoio a Seul. De tal forma, que se encontram no país o vice-Presidente americano, Joe Biden, e a Secretária de Estado, Hillary Clinton, que esta Quarta-feira vão visitar a Zona Desmilitarizada (DMZ) que separa as duas Coreias desde o fim da Guerra de 1950-53.

 

Como se já não bastasse ser uma região historicamente tensa e bastante militarizada, porque além dos vectores de lançamento da Coreia do Norte esta tem igualmente um Exército gigantescto (embora pouco equipado e motivado), a partir do próximo dia 25 vão juntar-se ao largo da Península da Coreia, entre outras embarcações, o porta-aviões nuclear americano George Washington, assim como mais três contratorpedeiros.

 

Apesar de ser um exercício militar, as manobras no Mar do Japão durante quatro dias deixarão o mundo em suspenso, numa altura em que as relações entre as duas coreias atravessam um dos piores momentos dos últimos anos.

 

Qualquer incidente ou acto mais provocatório poderá desencadear uma reacção de consequências imprevisíveis. Num comunicado conjunto, Seul e Washington foram peremptórios ao afirmar que este exercício foi concebido para “enviar uma mensagem clara à Coreia do Norte de que o seu comportamento agressivo tem que parar”.

 

Ora, o regime de Pyongyang tem tido ao longo dos últimos anos vários actos provocatórios, nomeadamente ao nível de testes com mísseis, no entanto, tem conseguido gerir as vozes críticas da comunidade internacional, evitando sofrer consequências militares. Mas, depois do afundamento do Cheonan, a paciência de Seul e de Washington parece estar a esgotar-se, sendo quase certo que perante um incidente daquela natureza durante o exercício militar, Pyongyang arriscar-se-á a sofrer uma retaliação militar.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:37
link do post | comentar | ver comentários (1)
partilhar

About

Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos