Quinta-feira, 20 de Março de 2014

Czares da Rússia, o primeiro e o actual

 

Retrato de Ivan III, conhecido como Ivan, o "Grande" (esq.) e o actual Presidente da Rússia, Vladimir Putin

 

Para entender e compreender o espírito dos líderes russos, ou seja, a forma de como estes vêem a Rússia num contexto hostil e projectam o poder para dominar aquilo que consideram ser o seu “espaço vital” ou a sua área natural de influência, é necessário recuar até aos primórdios da formação daquele Estado enquanto tal.

 

Quando na primeira metade do século XV Moscovo era ainda uma espécie de principado, o grão-príncipe Ivan III (1440-1505) foi o primeiro líder russo a adoptar uma política clara de agregação de vários territórios no sentido de unificar um Estado grande e poderoso. Influenciado pela tradição política mongol, e à semelhança do que iria acontecer com todos os governantes russos até aos dias de hoje, Ivan III impôs um estilo autocrático na prossecução dos seus objectivos.

 

Embora não fosse propriamente um líder sanguinário, nunca deixou de recorrer à violência sempre que não conseguia alcançar os seus objectivos pela via negocial. É através de uma lógica agressiva que vai conquistando alguns territórios para a Rússia que estavam sob o jugo mongol-tártaro.

 

Para aquele líder, Moscovo tinha que se assumir cada vez mais como um pólo imperial. E, para isso, era preciso tornar aquele principado num centro metropolitano da Igreja, ou seja, a “Terceira Roma”. O estilo autocrático dos poderes de Roma e de Constantinopla foram uma inspiração para Ivan, inspiração essa que se tornou uma marca no estilo de liderança russa.

 

Para Ivan III, Moscovo passava a ser o centro da Igreja Ortodoxa e esta assumia-se como um instrumento fundamental para a sua legitimação junto do povo e como correia de transmissão entre o poder e a sociedade feudal. Basta ver a forma como todos os líderes russos, incluindo Vladimir Putin, se relacionam com os patriarcas ortodoxos e percebe-se a proximidade entre a Igreja e o Estado.

 

Quando morreu, Ivan III deixou um Estado russo independente, centralizado e poderoso, tendo Moscovo como capital e um vasto território. Introduziu a cerimónia da coroação e foi o primeiro a denominar-se czar da Rússia. Hoje, e apesar da tal título ter desaparecido do léxico russo com a Revolução de 1917, os líderes russos continuam a personificar o espírito dessa figura autoritária, poderosa e quase semi-divina.  

 

Em muitos aspectos, poucas diferenças há entre Ivan III e Vladimir Putin. Na verdade, ao longo dos séculos, os traços de autoritarismo e, por vezes, de algum totalitarismo aliado a uma violência extrema, estiveram sempre presentes na forma de governar dos líderes russos. Putin não é mais do que um czar dos tempos modernos.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:23
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Domingo, 4 de Agosto de 2013

A afronta de Putin

 

 

A decisão do Governo russo em dar asilo político a Edward Snowden não pode deixar ser vista como um "statement" do Kremlin dirigido a Washington. Não se tratou de uma decisão repentina e muito menos inconsciente. Pelo contrário, Moscovo teve muito tempo para ponderar sobre o que fazer com Snowden, enquanto este vagueava pelos corredores do Aeroporto de Sheremetyevo.

 

O Presidente Vladimir Putin (sim, porque a decisão última foi dele) sabia que ao permitir a entrada de Snowden em território russo estaria a afrontar directamente Washington, que fez daquele antigo consultor da NSA o homem mais procurada da América neste momento. Putin, à boa maneira da Guerra Fria, criou um incidente diplomático que vai ter consequências a médio e a longo prazo, tornando-se num dos "casos" que marcarão as relações entre os dois países nos próximos tempos.

 

Washington não vai esquecer a afronta de Moscovo e as consequências a curto prazo já se fazem sentir. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse que a administração norte-americana estava "extremamente desapontada". Também vozes republicanas e democratas condenaram a atitude da Rússia e exortam o Presidente Barack Obama a tomar medidas retaliatórias contra Moscovo. Por exemplo, além do boicote diplomático a alguns encontros de alto nível e cimeiras, já há quem fale num novo impulso aos programas de defesa antimíssil na Europa e num novo alargamento da NATO a países contíguos à fronteira da Rússia, como é o caso da Geórgia.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 13:28
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Domingo, 13 de Janeiro de 2013

O misterioso desaparecimento da mulher de Vladimir Putin

 

Vladimir e Lyudmila na Catedral da Anunciação, Moscovo, a 7 de Maio de 2012/Government Press Service/AP 

 

Historicamente, as mulheres dos presidentes russos assumem um papel "low profile", distanciando-se do tradicional desempenho de "first lady" que se verifica nalgumas democracias ocidentais. 

 

Mas, mesmo para os padrões russos, parece que a mulher de Vladimir Putin tem andado desaparecida nos últimos meses, uma situação que já começou a gerar alguns rumores, sobretudo depois de Lyudmila ter celebrado 55 anos há uns dias sem que nenhum responsável oficial se tivesse apercebido de tal facto. Apenas o presidente da Chechénia, Ramzan Kadyrov, deu os parabéns através do Twitter.

 

Perante tudo isto, Anna Nemtsova, correspondente da Newsweek e do Daily Beast em Moscovo, faz a cobertura desta misteriosa história por detrás dos muros do Kremlin.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:03
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Mikhail Prokhorov, o oligarca que se segue à conquista do Kremlin

Mikhail Prokhorov/Foto:Mary Altaffer/AP
Há uma nova figura a emergir na cena política russa. A grande questão é saber se não terá um destino semelhante ao antigo patrão da Yukos, Mikhail Khodorkovsky, a passar uma longa temporada numa prisão da Sibéria.

 

Para já, Mikhail Prokhorov parece estar a ser prudente no lançamento da sua corrida às eleições presidenciais de Março do próximo ano e evitar cometer os mesmos erros de Khodorkovsky quando este começou a demonstrar as suas ambições políticas de forma mais veemente com vista o Kremlin.

 

Prokhorov faz bem em ser cauteloso nos passos que dá, ou não fosse um dos célebres oligarcas que enriqueceu durante os anos 90. Com 46 anos, bem parecido, é o terceiro homem mais rico da Rússia e, entre outras coisas, é dono dos New Jersey Nets, equipa de basquetebol da NBA.  

 

Há dias anunciou a sua candidatura, pouco depois das eleições legislativas de 4 de Dezembro, que foram um duro golpe para o primeiro-ministro Vladimir Putin e para o seu partido Rússia Unida, que viu ser reduzida, consideravelmente, a maioria que detinha na Duma.

 

Prokhorov parece determinado nesta candidatura, que poderá ganhar, inesperadamente, um fôlego nas actuais circunstâncias, de forte contestação ao último processo eleitoral e de desafio ao poder instalado.

 

Além disso, o milionário russo parece representar uma centelha de esperança para os mais jovens, mesmo para aqueles que são próximos de Putin. Exemplo disso é Alena Arshinova, líder da Jovem Guarda, a juventude partidária do Rússia Unida, que confessou à revista Time depositar esperanças em Prokhorov.

 

No entanto, e como escrevia o Washington Post, os milhares de jovens que têm vindo para as ruas da Rússia nos últimos dias defendem uma causa, e não um líder.

 

Nos próximos tempos, Prokhorov terá pela frente o desafio de aglutinar o descontentamento dos muitos jovens e manifestantes numa base de apoio à sua candidatura.

 

Para já, anunciou que a sua candidatura será apartidária, tendo aliás se demitido da liderança do seu partido Causa Justa, em Setembro último, depois de divergências no interior daquela formação.

 

Por outro lado, Prokhorov tem evitado adoptar um tom de confronto directo com Putin ou com o Presidente Dimitri Medvedev, com quem aliás, tem tido alguma relação, pelo menos no campo institucional.

 

Seja como for, uma coisa é certa, Putin já deu provas que não gosta de oligarcas, sobretudo aqueles que começam a mostrar as garras de fora com pretensões políticas.

 

Mas mesmo que Prokhorov endureça o discurso, dificilmente Putin tentará silenciar o seu opositor, já que seria uma medida muito arriscada e que poderia colocar em risco a sua eleição para o Kremlin.

 

É que apesar de Vladimir Putin ter vindo a perder pujança nas sondagens, a verdade é que os seus índices de popularidade continuam bastante altos, perspectivando-se uma vitória sem grandes dificuldades. Porque como escrevia Alexander Boot no seu blogue do Daily Mail, Prokhorov é “o Presidente que nunca será”.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 01:18
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Sábado, 24 de Setembro de 2011

Putin confirma candidatura presidencial há muito prevista

 

 

Aquilo que foi escrito pelo Diplomata em Outubro de 2007 e reforçado em Dezembro de 2009 foi finalmente confirmado pelo próprio Vladimir Putin, que durante o congresso do partido Rússia Unida anunciou ser o candidato presidencial às eleições de Março de 2012. Uma decisão apoiada pelo actual Presidente Dimitri Medvedev.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 13:13
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

A nova "arma" da política externa russa já está operacional

 

Uma das componentes do pipeline a bordo do navio Castoro Sei no Mar Báltico/Foto: Nord Stream

 

No meio de tanto "entusiasmo" no que respeita ao debate sobre a crise dos mercados e das dívidas soberanas e respectivas fórmulas milagrosas de salvação europeia, talvez seja importante sublinhar que a Alemanha e a Rússia acabam de concretizar um dos projectos estratégicos mais importantes para os próximos anos no âmbito da política energética, não apenas daqueles dois países, mas também da Europa. O tão esperado Nord Stream já está operacional, devendo em Outubro começar a fornecer gás natural proveniente da Rússia directamente para a Alemanha, através do gasoduto de pipeline duplo colocado no Mar Báltico.

 

Ainda numa fase técnica inicial, visando o aumento da pressão no pipeline, a cerimónia de arranque foi levada a cabo esta terça-feira pelo primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, um dos mentores deste projecto, que também teve o apoio fervoroso da chanceler alemã, Angela Merkel. A inauguração oficial, no entanto, será só em Novembro com uma visita do Presidente Dimitri Medvedev à Alemanha.

 

 

Atendendo às necessidades energéticas europeias crescentes e às consequentes políticas de conflito daí resultantes, o Nord Stream é mais do que um mero gasoduto. É sobretudo uma arma de política externa da Rússia que se jogará no tabuleiro da geoestratégia e da geopolítica da Europa. Isto não quer dizer que este projecto seja hostil aos interesses da Europa. Na verdade, alguns países da União Europeia serão beneficiados, já que receberão o gás natural russo de uma forma mais segura, rápida e eficaz. Convém não esquecer as várias “crises” energéticas que a Europa tem assistido em invernos recentes, como em 2006 e 2009, provocando nalguns países situações de autêntica ruptura no fornecimento de energia.

 

Mas dentro do espaço comunitário é sem dúvida a Alemanha a principal beneficiária, tendo o privilégio de ter um gasoduto directamente ligado à “fonte”, poupando-se às dores de cabeça provocadas pelas passagens turbulentas em países como a Ucrânia. Há muito que Merkel tinha percebido a importância estratégica deste projecto para a Alemanha, não sendo por isso de estranhar que o mesmo tenha despertado a “realpolitik” pura e dura do Estado alemão.

 

Quando em Outubro de 2008 a chanceler alemã e Dimitri Medvedev se encontraram em São Petersburgo, tinham passado poucas semanas sobre a “invasão” russa na Ossétia do Sul, que tinha gerado a indignação da Europa, incluindo a alemã. Ora, indignação à parte, a ofensiva militar russa e os supostos crimes de guerra cometidos durante os cinco dias de conflito com os soldados da Geórgia não foram suficientes para travar os ímpetos negociais de Merkel em São Petersburgo na defesa dos seus interesses.

 

Na altura, Merkel assegurou para a Alemanha uma importante participação (25 por cento) na exploração do campo de gás natural de Yuzhno-Russkoye na Sibéria. Em troca, o Estado alemão abdicara de metade dos 6,5 por cento que detinha na Gazprom, a empresa russa de gás natural. Com aquele negócio, a E.On, empresa alemã de energia, passou a ter acesso a um vasto campo de gás natural e a Gazprom abdicou das suas pretensões de adquirir uma parte do capital daquela companhia. Como contrapartidas, a Gazprom enfraqueceu a presença alemã no capital da empresa e obteve por parte daquele país um impulso para a construção do projecto Nord Stream.

 

Mas é sem dúvida Moscovo o principal interessado ao ver no Nord Stream uma ferramenta económica poderosa e uma "arma" de política externa eficaz para lidar com alguns Estados vizinhos com quem o relacionamento tem sido mais conturbado. Com este gasoduto a Rússia coloca directamente no mercado europeu (através da Alemanha) o gás natural proveniente das suas imensas reservas, sem que tenha que recorrer a outros gasodutos que transitam por vários países, como a Ucrânia ou a Polónia. Não é por acaso que a Polónia e a Ucrânia foram as vozes mais críticas ao projecto Nord Stream, vendo os seus territórios serem secundarizados no âmbito da estratégia energética europeia.

 

Mas é sobretudo em relação a Kiev que a rota do Nord Stream vai permitir que Moscovo se liberte das tensões e chantagens político-diplomáticas exercidas pelo Governo ucraniano. O  Nord Stream, orçado em 8,8 mil milhões de euros, é composto por um pipeline duplo, estando a primeira linha totalmente construída, com os seus 1224 quilómetros, devendo a segunda linha estar operacional em 2013, tendo até ao momento sido construídos 663 quilómetros.

 

Texto originalmente publicado no Forte Apache.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:34
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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Dimitri Medvedev envia "recado" a Teerão e lança "charme" a Washington

 

 

 

Em declarações raras mas interessantes, o Presidente russo, Dimitir Medvedev, afirmou que o regime de Teerão está “mais próximo” de ter o potencial para desenvolver armas de destruição maciça. Uma afirmação estranha vinda do Kremlin, que raramente se tem pronunciado contra o seu tradicional aliado, tendo esta sido uma das poucas vezes que Moscovo assume uma postura mais agressiva face a Teerão. Medvedev acrescentou ainda que “o Irão não está a agir da melhor maneira”, exortando para que mostrasse mais “cooperação e abertura” com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

 

As sólidas relações diplomáticas e económicas entre a Rússia e o Irão têm sido mais fortes do que as pressões internacionais no âmbito do programa nuclear iraniano, no entanto, nos últimos tempos Moscovo parece ter adoptado um registo mais crítico para com o regime liderado por Mahmoud Ahmadinejad.

 

Relembre-se que no passado dia 10 de Junho o Kremlin apoiou no Conselho de Segurança a quarta ronda de sanções contra o Irão. Agora, foi a vez do Presidente Medvedev, num encontro ontem com embaixadores, lançar o alerta de que o Irão se está a aproximar de ter tecnologia para produzir armas nucleares.

 

Apesar de Medvedev revelar que tal possibilidade não representa qualquer violação do Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), as palavras do Presidente russo estão a ser interpretadas como resultado de alguma preocupação de Moscovo.

 

Na verdade, e que o Diplomata se recorde, esta recente posição do Governo russo é inédita perante a problemática do programa nuclear iraniano. Certamente que algo quererá dizer, sendo que a grande dúvida é saber precisamente o quê.

 

Aparentemente nada mudou no “dossier” nuclear iraniano, porém, a Rússia alterou o seu discurso. Por um lado, tal pode dever-se a uma efectiva preocupação por parte de Moscovo, assente em nova informação, eventualmente recolhida através de canais confidenciais. Por outro lado, as palavras de Medvedev podem ser vistas como um gesto de boa vontade com Washington, dias depois de ter eclodido a “crise” dos espiões.  

 

Nesta lógica, uma fonte da administração americana revelou que as declarações de Medvedev são um passo importante para se conseguir uma unidade internacional relativamente ao programa nuclear iraniano.

 

Fontes do Kremlin revelam ainda que o Presidente Medvedev está cada vez mais desconfortável com a relutância de Teerão em fornecer a informação pedida pela AIEA. Ao mesmo tempo, o Presidente russo terá ficado preocupado com as mais recentes informações fornecidas por Washington de que o Irão já teria suficiente material nuclear para fazer uma bomba atómica.

 

No que diz respeito à política interna russa é importante realçar o facto de que a posição de Medvedev sobre esta matéria começar a divergir substancialmente daquela que é defendida pelo seu antecessor e agora primeiro-ministro, Vladimir Putin.

 

Perante este cenário, será muito interessante perceber qual será a reacção de Putin na eventual necessidade de ter que vir defender o alinhamento histórico da Rússia face ao Irão.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:30
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Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Da história de espiões à teoria da conspiração

 

Barack Obama e Dimitri Medvedev há uns dias em Washington/Foto: AP/RIA Novosti

 

Por detrás de uma boa história de espionagem existe sempre uma teoria da conspiração. Apesar do FBI ter informado hoje que a detenção dos 10 alegados agentes russos no Domingo se ficou a dever à suspeita de que estariam para abandonar os Estados Unidos, Moscovo acusa as autoridades americanas de não estarem a fornecer a informação necessária sobre este assunto.

 

O Governo russo recusa qualquer envolvimento neste caso, acusando as autoridades americanas de tecerem acusações infundadas num tom de regresso à Guerra Fria. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, disse que está a aguardar uma explicação de Washington.

 

O primeiro-ministro Vladimir Putin já manifestou a sua preocupação junto do antigo Presidente americano, Bill Clinton, que se encontrava em Moscovo para uma conferência. Putin receia que este caso possa afectar “as coisas positivas alcançadas nos últimos anos”. Uma fonte da administração americana citada pelo New York Times, revelava que o Presidente Barack Obama também estava desconfortável com o “timing” da operação.

 

Os receios de Putin podem ter algum fundamento, uma vez que, segundo a informação disponibilizada nos documentos da acusação levados a tribunal, os alegados espiões terão sido treinados pelo Russian Foreign Intelligence Service (SVR). O FBI informou ainda que aqueles estariam a actuar em solo americano há vários anos.

 

Moscovo tem questionado também o “timing” desta detenção, já que surge poucos dias após uma visita do Presidente russo, Dmitri Medvedev a Washington, que ocorreu num ambiente amistoso, demonstrando um dos melhores momentos nas relações entre os Estados Unidos e a Rússia desde o fim da Guerra Fria. “O momento em que [a detenção] foi feita foi escolhido com um certo requinte”, disse Lavrov, com algum sarcasmo à mistura.

 

O chefe da diplomacia sugere que existe alguém ou algum grupo poderoso e influente na estrutura de poder americana que tem interesse em “minar” as boas relações entre Moscovo e Washington.

 

Também Gennady Gudkov, antigo agente do KGB e actual vice-presidente do Comité de Segurança da Duma, disse ao The Moscow Times que esta operação do FBI pode ter como objectivo descredibilizar a política de Obama face à Rússia.

 

“Agora, milhões de americanos vão pensar que a Rússia queria apenas ser parceira dos Estados Unidos para que pudesse ir atrás de segredos americanos como na Guerra Fria”, disse Gudkov. “Parece o trabalho de alguém muito poderoso e que está na oposição política a Obama, ou um ‘falcão’ militar ou um grupo de ‘intelligence’ que não vejam com bons olhos o restabelecimento das relações com a Rússia”, acrescentou Gudkov.

     

Publicado por Alexandre Guerra às 21:14
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Sábado, 5 de Dezembro de 2009

Para o homem mais poderoso da Rússia, só a presidência interessa

 

Alexei Druzhinin/RIA-Novosti/AP

 

O que há uns tempos era apenas um exercício prospectivo, que o próprio Diplomata fez assente em factos bastante sólidos, é agora uma certeza: Vladimir Putin quer recuperar o lugar cimeiro dos desígnios da Rússia.

 

O primeiro-ministro Putin parece estar determinado em candidatar-se novamente ao cargo de Presidente do país nas eleições de 2012, depois de constitucionalmente ter sido impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo em 2008.

 

Na altura, acabou por assumir a chefia do Governo, depois do seu partido Rússia Unida ter vencido com uma larga maioria as legislativas de Dezembro de 2007. Apesar desta mudança na cúpula russa, Putin nunca teve a intenção de abdicar do poder conquistado desde 2000, e terá deixado bem claro ao Presidente Dimitri Medvedev quem era o homem que mandava na Rússia.

 

Medvedev parece ter compreendido bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a um papel de representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa.

 

Desde 2000 que Putin é o "homem forte" daquele país, tendo Medvedev surgido como uma solução transitória. Putin continua com uma popularidade bastante elevada, tendo as eleições regionais realizadas em Março último comprovado essa realidade.

 

Embora não o tenha afirmado de forma peremptória, Putin disse na passada Quinta-feira, durante um programa anual televisivo em que lhe foram feitas várias perguntas, que iria analisar a possibilidade de se candidatar em 2012 e que tudo iria depender da evolução da situação económica.

 

Esta resposta diz muito dos propósitos de Putin, já que nos próximos dois anos a economia russa, tal como todas as outras, não deverá dar grandes motivos de alegria.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:56
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Domingo, 9 de Agosto de 2009

Há 10 anos ascendia ao poder um desconhecido chamado Vladimir Putin

 

 

Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin.

 

Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000.

 

Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado. Na altura terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin.

 

Muitos viram na decisão de Yeltsin  o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduziu o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro.

 

Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco."

 

Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembra que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos. 

 

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais.

 

E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política.  

 

É o próprio Nemtsov que reconhece o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam.

 

Características que se encaixaram na perfeição nas explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa. Em Outubro, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

 

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde.

 

Hoje, dez anos volvidos após a sua nomeação para primeiro-ministro, Putin ocupa novamente este cargo, e agora, tal como então, é muito provável que o Kremlin venha a estar novamente na sua rota política.    

 

Publicado por Alexandre Guerra às 08:05
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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