Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

A importância das palavras na política internacional

 

A importância das palavras pode adquirir contornos particularmente dramáticos na política internacional. A negociação de um tratado, a celebração de um acordo ou a assinatura de uma declaração de paz são alguns exemplos de momentos que, normalmente, envolvem horas de discussão prévia entre as partes envolvidas.

 

Cada palavra é escolhida cirurgicamente e, se for caso disso, discutida apaixonadamente, muitas das vezes por especialistas ou pessoal altamente técnico.

 

A redacção da Constituição Europeia vai de encontro a esta lógica, tendo sido um processo moroso, com cada palavra a ser escalpelizada ao pormenor. A elaboração do Preâmbulo terá sido o corolário deste projecto que, além de técnico, foi sobretudo político, com cada frase a ter em consideração os interesses de todos os Estados-membro.

 

É um equilíbrio difícil de alcançar, mas vital para se evitar mal entendidos, embaraços diplomáticos ou o possível alheamento de potenciais signatários.

 

A importância das palavras também se pode materializar numa simples declaração política num jornal, numa conferência de imprensa ou num outro qualquer contexto diplomático.

 

Tudo isto para dizer que neste momento o “conflito” diplomático entre a Turquia e Israel, a propósito do raid desastroso levado a cabo por comandos israelitas em Maio último a uma frota de cariz humanitário com bandeira turca e que resultou na morte de nove turcos, parece estar reduzido um jogo de palavras, mas com grandes implicações políticas.

 

Ancara tem ameaçado cortar relações diplomáticas com Israel, embora já tenha anunciado que esta “crise” pode resolver-se com um “pedido de desculpas” por parte do Executivo hebraico. Ora, o Governo turco bem poderá esperar sentado, porque o ministro dos Negócios Estrangeiros isrealita, Avigdor Lieberman, disse que o seu país não tem intenção de fazer qualquer “pedido de desculpa”.

 

Um simples “pedido de desculpa” pode ser um gesto quase inócuo praticado por qualquer líder nas lides da política interna ou cidadão comum, mas poderá ser um gesto de dimensões históricas e dramáticas entre as nações.

 

Ancara e Telavive têm perfeita a noção da importância do que está em causa com o “pedido de desculpas”. É por isso que o Governo turco admite solucionar esta crise diplomática apenas com um “pedido de desculpas” por parte de Israel.

 

Pode parecer pouco, mas tanto a Turquia como Israel sabem que um gesto deste tipo é como que um assumir de culpas por parte do Estado judaico, um acto que simbólica e politicamente tem mais valor do que qualquer outro tipo de compensação.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:16
link do post | comentar
partilhar
Terça-feira, 1 de Junho de 2010

A Turquia fala em punição de Israel. Mas como e por quem?

 

 

Primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan/Umit Bektas/Reuters

 

O assalto das comandos da Marinha israelita à frota turca composta por seis embarcações com fins humanitários em águas internacionais na madrugada de Segunda-feira, e que fez pelos menos 10 mortos e cerca de 30 feridos, é, infelizmente, apenas mais um trágico episódio no âmbito do conflito israelo-palestiniano, a juntar a tantos outros que se perpetuam ao longo dos anos, muitos dos quais em clara violação do Direito Internacional mas que ficaram sem explicações ou qualquer tipo de punição.

 

O Diplomata quase dá como certo que o mesmo vai acontecer neste caso, apesar das manifestações de repúdio por parte da comunidade internacional, com o Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, à cabeça, e das ameaças por parte das autoridades de Ancara. O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse mesmo que a acção militar dos comandos israelitas à frota turca foi um “ataque sangrento” e que Israel devia ser punido.

 

A grande questão é saber quem vai assumir esse acto punitivo. Erdogan diz que Israel não deve testar a paciência turca e, efectivamente, foi bastante duro nas palavras. Mas, apenas com palavras de ameaça e com deliberações inócuas do Conselho de Segurança, Israel tem poucos motivos para se preocupar.

 

Uma atitude bem evidente no comportamento do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que se limitou a pedir desculpas pela morte de alguns inocentes, mas defendendo a acção dos comandos da Marinha hebraica e argumentado que actuaram em auto-defesa.

 

Se é verdade que a Turquia tem ao seu dispor alguns meios de pressão sobre Israel, nomeadamente ao nível de parcerias militares, resta saber até onde é que Ancara está disposta a ir.

 

Por outro lado, já se percebeu que Washington pouco ou nada deverá fazer. Aliás, o silêncio do Presidente Barack Obama sobre esta matéria começa a ser constrangedor. Washington limitou-se a juntar a outras nações no pedido de uma investigação "transparente".

 

Quanto à União Europeia nem vale a pena falar, e o mesmo se aplica ao Quarteto, liderado por Tony Blair.

 

Um papel mais interessante poderá ter a NATO a desempenhar a médio prazo, já que a Turquia é membro da Aliança e um dos principais aliados dos Estados Unidos. O próprio Secretário Geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, já interveio e exortou Israel a libertar os navios e activistas.

 

Perante a escalada de críticas, a situação na Faixa de Gaza poderá tornar-se insustentável para Israel, podendo haver aqui uma janela de oportunidade para a NATO assumir um papel de vigilância naquelas zonas do Mediterrâneo, onde aliás tem uma vasta experiência.

 

Seria uma medida interessante para a comunidade internacional e que poderia igualmente proporcionar uma saída airosa para Ancara que, assim, evitava uma escalada político-diplomática com Telavive e, ao mesmo tempo, contribuía para a resolução de um problema que aflige constantemente Gaza: o direito de navegação nas suas águas e o acesso ao seu porto. Claro está que esta medida seria sempre bem vista pelos palestinianos, mas rejeitada à partida por Israel.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 23:13
link do post | comentar | ver comentários (2)
partilhar

About

Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos