Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

O Irão e as sanções do Ocidente (2)



Iraniano a ouvir música na sua loja, em Janeiro último, na cidade de Chabahar, perto do estreito de Ormuz/Foto: EPA/Abedin Taherkenareh

 

“Por que razão a administração americana não endurece o regime de ‘sanções’ contra o Irão?” Foi com esta pergunta que o autor destas linhas terminou o seu primeiro texto sobre a problemática das sanções impostas pelo Ocidente, sobretudo pelos Estados Unidos e pela União Europeia, ao Irão.

 

A “moeda iraniana caiu 10 por cento depois da UE ter implementado o embargo às importações de petróleo no início de 2012 e as sanções americanas terão custado ao Irão mais de 60 mil milhões em investimentos perdidos na área da energia”, segundo uma reportagem da Al Jazeera desta semana sobre, precisamente, o impacto daquelas medidas na Repúplica dos ayatollahs.

 

Também ao nível das exportações de petróleo, o Irão está a sentir um decréscimo em relação aos seus dois principais clientes, a China e a Índia, mas o “ouro negro” continua a fluir para aqueles países asiáticos, visto que um dos problemas se deve mais à questão do transporte por causa dos seguros das embarcações do que propriamente à proibição para a venda e compra daquele recurso.

 

Apesar desta evidência e da administração americana ter aprovado este mês um outro pacote de sanções, a verdade é que muito mais poderia ser feito no que diz respeito à implementação de medidas duras com vista a pressionar a República Islâmica do Irão.

 

As mais recentes sanções aprovadas por Barack Obama pretendem-se que sejam “smart” e dirigidas a algumas instituições, empresas e entidades bancárias iranianas que estão de alguma forma relacionadas com a indústria da defesa, com o sector da tecnologia e com o programa nuclear.

 

Obama, tal como os líderes em Bruxelas, quer sanções cirúrgicas, por modo a minimizar, na medida do possível, o impacto na população. Sem dúvida que é um argumento válido, mas como escrevia Erin Burnett, jornalista da CNN, na Fortune, Washington é “duro” com Teerão, mas só às vezes.

 

Efectivamente, os Estados Unidos têm revelado alguma inconsistência na forma como têm abordado a política de sanções contra o Irão quando comparada com situações semelhantes envolvendo outros Estados em diferentes períodos da sua história. E para se perceber, em parte, esta realidade é preciso compreender o paradigma do actual sistema internacional, dominado por uma interdependência complexa muito acentuada, na qual os Estados Unidos estão totalmente emaranhados, tal e qual uma mosca numa teia de aranha. Uma análise que fica para um terceiro e último texto.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:54
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

O Irão e as sanções do Ocidente (1)

 

Trabalhadores iranianos junto da central nuclear de Bushehr/Foto: Reuters - Mehr News Agency - Majid Asgaripour

 

Alguém acreditará que o regime iraniano mudará a sua política nuclear por, eventualmente, se sentir pressionado com as “sanções” de que tem sido alvo? Provavelmente, ninguém. Nem mesmo Washington ou Bruxelas, os principais impulsionadores das “sanções” aplicadas a Teerão.

 

Por um lado, e em termos genéricos, é praticamente um dado científico que a política de “sanções” se revela sempre mais penosa para o povo do que propriamente para as lideranças políticas. Em segundo lugar, e no caso concreto do Irão, as “sanções” impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia são relativamente suaves.

 

Citado pelo New York Times, Mark Dubowitz, director executivo da Foundation for Defense of Democracies, disse o seguinte a propósito das recentes medidas anunciadas pela administração americana: “This is really a game of whack-a-mole. These are incremental measures. What are needed now are measures more akin to economic warfare than these targeted, pinpoint measures.”

 

As “sanções” de natureza política e diplomática limitam-se a medidas como a restrição de atribuição de vistos ou de movimentos de algumas figuras do Estado iraniano. Também as de cariz económico circunscrevem-se ao congelamento de contas, à restrição de movimentos financeiros, ao embargo à venda de material militar ou à suspensão da cooperação bilateral nalgumas áreas, como energia ou seguros.

 

Nem mesmo o embargo inédito à importação de petróleo que a União Europeia decretou no Conselho Europeu dos Ministros dos Negócios Estrangeiros do passado 23 de Janeiro para começar a ser aplicado faseadamente a partir de 1 de Julho se revela muito prejudicial para o Irão, já que o grosso das exportações deste país são para a Ásia, com a China à cabeça, representando cerca de 22 por cento (dados do primeiro semestre de 2011). A seguir vem o Japão com 14 por cento e a Índia com cerca de 13 por cento. A Coreia do Sul representa 10 por cento das exportações.

 

Quanto aos 18 por cento de petróleo e de crude que o Irão exporta para a União Europeia, o problema coloca-se basicamente ao nível de dois ou três países, já que só a Itália e a Espanha, juntas, representam 13 por cento do total dessas exportações.

 

É verdade que, tal como Bruxelas e Washington referem, estas “sanções” em particular são dirigidas, sobretudo, aos elementos da cúpula iraniana, admitindo-se, no entanto, que possam “beliscar” um pouco a economia daquele país. Mas nada de muito significativo, para bem da população.

 

E quanto aos efeitos dessas “sanções” na acção da liderança iraniana, os resultados são aqueles que toda a gente vê: o presidente Mahmoud Ahmadinejad continua a desafiar Washington com o seu programa nuclear.

 

Perante isto, outra pergunta se impõe: “Por que razão a administração americana não endurece o regime de ‘sanções’ contra o Irão?”

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 15:03
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Domingo, 17 de Junho de 2012

"1999", o protesto de Prince contra a política nuclear de Ronald Reagan

 

Música "1999" do álbum homónimo de Outubro de 1982

 

Quando em Outubro de 1982 Prince lançou o seu quinto álbum, “1999”, o então Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, que ainda nem sequer tinha chegado a metade do seu primeiro mandato, já tinha marcado bem o seu estilo de governação, elegendo a América como o farol da moralidade e da virtude no mundo ao mesmo tempo que via na União Soviética a concretização de um sistema perverso e maléfico.

 

Faltavam ainda quatro anos para a célebre cimeira de Reiquiavique, realizada a 11 e 12 de Outubro de 1986 entre Reagan e Mikhail Gorbachev, então Secretário Geral do Partido Comunista. Este seria o primeiro passo dado por aqueles dois dirigentes para abordarem a problemática do “controlo de armamentos”, nomeadamente, a questão dos arsenais nucleares das duas super potências.

 

O fantasma de um conflito nuclear mundial pairava nas sociedades ocidentais com particular insistência no início dos anos 80, sobretudo com a Guerra Fria a “aquecer” durante este período, para depois voltar a “desanuviar” a partir da segunda metade da década de 80.

 

Foi aliás para fazer face a esta ameaça que Reagan anuncia a intenção de lançar um projecto defensivo contra mísseis balísticos soviéticos chamado Iniciativa de Defesa Estratégica (IDE), mas que ficou vulgarmente conhecido como “Guerra das Estrelas”.

 

A opinião pública pressionava os governos da Europa e de Washington para que tomassem medidas concretas de modo a afastar o espectro de um conflito nuclear à escala global.

 

E é com este espírito de protesto, mas também de receio por uma guerra nuclear, que Prince compôs a música “1999” do álbum homónimo. Esta música foi o primeiro single a ser lançado. Em 1998 a música seria regravada, desta vez, com a banda The New Power Generation.

 

Quanto ao álbum, o primeiro que Prince fez com a banda Revolution, tornou-se no quinto mais vendido nos Estados Unidos em 1983, sendo um trabalho inspirador na forma como são utilizados os sintetizadores na mistura de estilos musicais como o R&B, o Funk, o Soul e até mesmo o Pop.

 

“1999” foi merecedor de inúmeras menções, tendo a revista Rolling Stone colocando-o na posição 163 dos 500 melhores álbuns de todos os tempos.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 21:58
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Sábado, 5 de Maio de 2012

As radiações de baixa intensidade no quotidiano das pessoas e o seu potencial risco

 

 

Uma das grandes questões em torno da problemática do nuclear é o facto de, muitas das vezes, centrar sobre si todo o debate, ofuscando outras matérias que, provavelmente, possam ser mais relevantes para o quotidiano das pessoas. 

 

Normalmente, existe uma tendência para se associar de imediato o potencial perigo de radiações à energia nuclear, mas a verdade é que esse problema praticamente não se coloca para às pessoas, uma vez que raramente estão em contacto com aquele tipo de tecnologia.

 

Já quanto às radiações de baixa intensidade, aqui a questão assume outros contornos, visto que diariamente as pessoas são sujeitas a inúmeros riscos, alguns deles podendo ser potencialmente cancerígenos.

 

É precisamente ao risco da radiação que cada pessoa enfrenta no seu dia a dia que a Bulletin of the Atomic Scientists dedicou um dossier especial na sua edição de Maio/Junho. São vários artigos que podem ser consultados gratuitamente durante o mês de Maio dos quais o Diplomata seleccionou alguns: 

 

Special issue on the risks of exposure to low-level radiation

 

The scientific jigsaw puzzle: Fitting the pieces of the low-level radiation debate

  

Unmasking the truth: The science and policy of low-dose ionizing radiation

 

The social amplification of risk and low-level radiation

 

The perception gap: Radiation and risk

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 15:32
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Pela primeira vez em mais de 40 anos o Japão está sem energia nuclear

 

Central nuclear de três reactores de Tomari, em Hokkaido. Foto/AFP 

 

Pela primeira vez em mais de 40 anos, o Japão não está a consumir electricidade proveniente da energia nuclear, depois do encerramento temporário do último dos três reactores da central de Tomari, em Hokkaido.

 

Este "switch off" para trabalhos de manutenção resulta do plano de segurança implementado pelo Governo após o acidente nuclear de Fukushima provocado pelo terramoto e tsunami que abalou o Japão em Março do ano passado.

 

Até então, 30 por cento da energia eléctrica provinha do nuclear, no entanto, após o acidente de Fukushima o Governo foi encerrando os vários reactores nucleares para realizar vários testes de segurança. 

 

Muitos japoneses anti-nuclear têm agora a esperança que as autoridades japoneses aproveitem esta momento para terminar, definitivamente, com o programa atómico no país, no entanto, dificilmente o Governo caminhará nesta direcção. Além de já ter dito que os reactores deverão ser reactivados para colmatar as necessidades energéticas imediatas, o Japão, assim como qualquer outro país desenvolvido, não está em condições de a curto prazo alterar o seu paradigma energético.    

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:10
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Alguns dados importantes

 

Numa leitura da imprensa internacional, o Diplomata reteve alguns dados importantes:

 

- O Rússia Unida, partido do primeiro-ministro Vladimir Putin, poderá emagrecer a sua maioria na câmara baixa do parlamento russo nas eleições legislativas do próximo dia 4 de Dezembro, a julgar pelas mais recentes sondagens (independentes) do Levada-Center. Sendo as últimas antes do escrutínio, o Rússia Unida poderá obter entre 252 a 253 assentos, no total de 450, descendo assim dos actuais 315. Apesar desta tendência, Putin não deverá ter dificuldades em regressar à presidência da Rússia nas eleições de Março do próximo ano.

 

-  Um estudo levado a cabo pela GlobeScan para a BBC News em países com programas nucleares revela que as populações estão pouco entusiasmadas com a utilização daquela tecnologia para a produção de energia eléctrica. De acordo com os dados obtidos, as pessoas daqueles países tornaram-se mais reticentes em relação à energia nuclear quando se compara com os indicadores de 2005. Apenas os Estados Unidos e o Reino Unido contrariam esta tendência. Em termos globais, os inquiridos acham que as energias renováveis podem colmatar o que é produzido pelo nuclear.

 

- O Governo britânico diz que todos os meses as suas redes informáticas são afectadas por mais de 20 mil e-mails nefastos, 1000 dos quais são deliberadamente enviados e com objectivos maliciosos.

 

- Dizia o New York Times em editorial que um em três norte-americanos (ou seja, 100 milhões) é pobre ou está no limiar da probreza. Os últimos censos revelam que 49,1 milhões de cidadãos nos Estados Unidos vivem abaixo da linha da probreza e 51 milhões estão pouco acima.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:21
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Sábado, 19 de Novembro de 2011

Mais um episódio da interminável novela do "dossier" nuclear iraniano

 

 

O "dossier" nuclear iraniano transformou-se numa longa novela, com um enredo repetitivo sem que conduza a lado algum. Além do actor principal, na pessoa do Presidente iraniano, existem alguns actores secundários a acompanhar, como os chefes de Estado americano (e já são dois) e francês ou ainda o primeiro-ministro britânico (que já vai no terceiro), sem esquecer os eternos inimigos hebraicos ou os históricos aliados russos e chineses. Há ainda a participação especial dessa entidade chamada Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA).  

 

A mesma AIEA que veio ontem, pela enésima vez, emitir uma resolução em que expressa uma "profunda e crescente preocupação" com o programa nuclear iraniano. Esta iniciativa vem no seguimento de um relatório divulgado há dias pela mesma AIEA em que sublinha, numa lógica algo monótona, que o Irão tem dado passos relevantes no sentido da construção de um engenho nuclear.

 

E perante tudo isto, o regime de Teerão, com toda a naturalidade, limita-se a dizer aquilo que sempre disse: que vai continuar a fazer o que tem feito até aqui. Desta vez foi o  próprio representante iraniano na AIEA, Ali Ashgar Soltanieh, a comunicá-lo aos jornalistas. Utilizando um argumento já requentado, Ali Ashgar Soltanieh reiterou a idea de que o enriquecimento de urânio que o Irão está a fazer tem unicamente o fim pacífico de alimentar as centrais nucleares para produção de energia eléctrica.  

 

A resolução aprovada esta Sexta-feira em Viena chega a ser cómica ao exigir ao Governo do Irão, mais uma vez, que demonstra que o seu programa tem fins pacíficos. E diz ainda que é essencial que o Irão intensifique o diálogo com a AIEA. 

 

Enfim, este é mais um episódio, com alguns momentos cómicos,  mas totalmente inócuo e inconsequente, desta longa novela, chamada "dossier" nuclear iraniano.

Publicado por Alexandre Guerra às 00:13
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Terça-feira, 5 de Julho de 2011

A estranha relação entre bikinis, testes nucleares e a UNESCO. Ou talvez não...

 

 

O “bikini”, essa grande invenção da Humanidade, foi apresentado pelo designer francês, Louis Reard, precisamente a 5 de Julho de 1946, perante os olhares de espanto quando Micheline Bernadini, uma rapariga parisiense, surgiu numa piscina em Paris, ostentando apenas duas peças de indumentária sobre o seu corpo.

 

Por esta altura, já estará o leitor a questionar-se a que propósito se fala de “bikinis” aqui neste espaço. O Diplomata admite tratar-se de uma história já em registo de silly season, mas vem agora a parte mais séria.

 

 

Sem qualquer ideia para o nome que atribuiria a tamanha criação, Reard baptizou espontaneamente aquela invenção de  “bikini”, inspirando-se nas notícias da altura sobre o Atol Bikini, um pequeno pedaço de território no meio do Pacífico que faz parte das Ilhas Marshall.

 

E perguntará a leitor a que propósito o Atol Bikini teria honras mediáticas? A resposta é simples.

 

Numa altura em que a Guerra Fria começava a “aquecer”, os Estados Unidos iniciaram em 1946 uma série de testes nucleares em Bikini, começando com a Operation Crossroads, duas explosões conduzidas na atmosfera a baixa altitude, sendo a primeira realizada a 1 de Julho daquele ano, poucos dias antes da apresentação do "bikini" de Reard.

 

Os testes prolongar-se-iam até 1958, perfazendo um total de 23, sendo que em 1954 os Estados Unidos levariam a cabo a operação Castle Bravo, a primeira detonação de uma bomba termonuclear, na altura a mais potente de sempre com 15 megatoneladas.

 

O Atol Bikini foi classificado em Agosto do ano passado Património Mundial, tendo a UNESCO destacado, além das suas belezas naturais, a importância que os seus locais de testes nucleares tiveram na formação de uma consciência colectiva do drama daquela tecnologia na segunda metade do século XX. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:02
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Segunda-feira, 14 de Março de 2011

O Diplomata descreve o que viu e ouviu numa visita rara ao interior de uma central nuclear

 

Ainda no âmbito do acidente nuclear de Fukushima e no seguimento dos dois posts anteriores, o Diplomata recupera um texto seu publicado originalmente na edição de Maio-Julho de 2007 da revista Segurança&Defesa, reportando aquilo que viu e ouviu no interior da central búlgara de Kozloduy.

 

A visita foi realizada em Maio de 2006, num grupo restrito de jornalistas internacionais, tendo o autor destas linhas sido uma das primeiras pessoas a ter o privilégio de vislumbrar as entranhas de um silo com os reactores e as respectivas salas de comando.

 

Actualmente, os reactores 5 e 6 continuam em funcionamento e ainda há poucos dias o Governo búlgaro anunciou um plano para prolongar a vida daquelas unidades. 

 

 

Texto publicado em Maio-Julho de 2007 na revista Segurança&Defesa

 

Que fazer com os reactores nucleares dos tempos soviéticos?

 

Por Alexandre Guerra

 

Sala de comando de dois reactores em Kozloduy/Fotos AG

 

Durante anos, as centrais nucleares dos países do antigo Bloco de Leste permaneceram longe dos olhares indiscretos, desconhecendo-se a forma como operavam ou o estado de conservação do seu equipamento. O acidente de Chernobyl, há sensivelmente 21 anos, alimentou os receios do Ocidente face à segurança das estruturas que albergavam (e albergam) dezenas de reactores nucleares.
 
Com a implosão da União Soviética, no início da década de 90, técnicos europeus e norte-americanos começaram a vistoriar as instalações nucleares das nações que tinham acabado de se libertar do jugo de Moscovo. O processo continua em curso, com os governos empenhados em aplicar as recomendações que lhes são sujeitas. Mas, volvidos mais de 15 anos sobre as primeiras inspecções, alguns Executivos consideram que preencheram todos os requisitos exigidos, não havendo justificação para se continuar com o encerramento de algumas unidades, nem com as constantes críticas de que são alvo.  
 
Precisamente numa altura em que a energia nuclear parece voltar a estar na “moda”, vários são os países da Europa de Leste que tentam demonstrar as virtudes de tal tecnologia e os progressos alcançados na sua modernização, envidando todos os esforços para que as suas unidades continuem a fornecer energia aos seus cidadãos. É esse o caso da central nuclear de Kozloduy, uma pequena localidade situada no noroeste da Bulgária, nas margens do rio Danúbio.
 
Interior dos silos, com capacidade para aguentar o embate de um avião, com dois reactores desactivados com a respectiva cápsula, mas ainda radioactivos
 
Com seis reactores – dois a funcionar e quatro desactivados (embora sob apertada vigilância por causa do arrefecimento dos respectivos núcleos e do combustível) –, a central de Kozloduy teve que passar por processos de encerramento e modernização nas suas infra-estruturas e componentes, sendo assim um bom modelo de referência para outros complexos de fabrico soviético espalhados por alguns países do Leste europeu. 
 
Num gesto raro e de “charme”, os responsáveis daquela central começaram, desde o ano passado, a “abrir as portas” das instalações a jornalistas e especialistas. Numa das primeiras visitas ao local realizada há uns meses, a Segurança & Defesa pôde constatar os progressos e as fragilidades de um complexo que começou a ser construído em 1970.
 
O controlo de entrada é rigoroso, “como se de uma fronteira tratasse”. Os passaportes são inspeccionados e nada é deixado ao acaso. Com um nível de radiação de 0,16 na zona exterior do complexo (perfeitamente normal), os portões abrem-se, dando acesso a uma estrada verdejante que conduz ao interior da central, uma das maiores do mundo e que tanto orgulha os búlgaros.
 
Uma das salas de comando em Kozloduy
 
Kozloduy é composta por três silos, imponentes estruturas de betão armado que, segundo disseram os técnicos, têm um duplo revestimento capaz de aguentar o impacto de um avião comercial. Sob cada silo encontram-se dois reactores. Actualmente, a central produz 2000 MW de energia, o que equivale ao fornecimento de 42 por cento da electricidade consumida na Bulgária.
 
500 milhões de euros para modernizar
 
No seu interior, o silêncio reina e o asseio impera. “Tudo é muito limpo”, disse uma intérprete, quase que obsessiva por sublinhar tal facto. Parece um ambiente emocionalmente estéril, relembrando aqueles que alimentam as utopias negativas, onde tudo tem uma lógica de funcionamento autoritário em prol de um bem comum, não havendo espaço para o improviso.
 
Apesar deste complexo albergar 4500 trabalhadores, fica-se com a sensação de que a gigantesca central nuclear funciona apenas com meia dúzia de pessoas. Não se vê ninguém, ou quase ninguém. A “máquina” parece controlar tudo. A comparação com os cenários cinematográficos da ficção científica é inevitável.
 
Interior da central
 
A componente humana dissemina-se discretamente pelas salas de comando dos reactores. A responsabilidade é enorme e todos têm o seu papel atribuído, o qual é seguido à risca. Ali, cada funcionário tem uma tarefa e cumpre-a com elevado grau de responsabilidade, seguindo as ordens da hierarquia. E nada mais. Todos estão cientes de que um pequeno erro pode atingir proporções dramáticas. Não é por isso de estranhar que os técnicos de monitorização aos reactores trabalhem três dias e folguem dois, à semelhança do que acontece com os controladores aéreos. A formação dura entre 5 a 7 anos.
 
A sua missão consiste em observar atentamente os monitores e os inúmeros painéis luminosos que se espalham por cada sala de comando. Em Kozloduy são três (uma para cada dois reactores), trabalhando em cada uma delas quatro técnicos em turnos de 8 horas. Depois de uma descida ao piso menos cinco chega-se à sala de comando dos reactores 5 e 6 (ambos de 1000 MW cada, do tipo PWR-WWER), os únicos operacionais. O ambiente parece desanuviado, ouvindo-se um jazz de fundo, interrompido de vez em quando por um toque arcaico de telefone, lembrando outros tempos. A visita dos jornalistas – algo raro naquelas paragens após tantos anos de secretismo em redor deste tipo de instalações – quebrou a rotina, mas nem por isso desconcentrou os técnicos.
 
O engenheiro chefe destas unidades, Dimitar Angelov, que trabalha há 29 em Kozloduy, relembra que no piso abaixo (- 6) existe uma sala de comando de emergência… que se espera nunca vir a ser utilizada. Com orgulho, Angelov fala no processo de modernização dos reactores imposto no princípio dos anos 90 pela comunidade internacional, especialmente pela União Europeia e pelo G7.
 
Núcleo de um dos reactores em actividade
 
Ao todo são cerca de 491 milhões de euros de investimento para a implementação de 212 medidas de modernização dos reactores 5 e 6. Desde 2001 que foram adoptadas 155 medidas, devendo o processo estar concluído este ano.   
 
Programa nuclear é motivo de orgulho para os búlgaros
 
Uma das particularidades da central de Kozloduy, a única naquele país, é que aglomera seis reactores, algo que não é comum nas outras estruturas do género. Mas, actualmente só estão a funcionar duas unidades, depois do encerramento das restantes quatro (de 440 MW cada).
 
Os reactores 3 e 4 foram desactivados no passado dia 31 de Dezembro, após uma longa “batalha” que opôs o Governo de Sófia e Bruxelas. No entanto, perante a pressão da União Europeia e face ao interesse que a Bulgária tinha em aderir a 1 de Janeiro deste ano, o seu Executivo teve que ceder.
 
Indicador de radiação à entrada da central
 
As autoridades búlgaras empenharam-se até ao último momento para evitar o encerramento das unidades 3 e 4 por considerarem que aquelas foram devidamente modernizadas e que preenchiam os requisitos impostos pela AIEA e pela União Europeia. “Admito que no início dos anos 90 as condições de segurança não eram as melhores e, por isso, encerrámos os reactores 1 e 2”, observou Ivan Grizanov, deputado búlgaro. “Acho que não deixámos uma boa impressão na União Europeia.” Mas, volvidos alguns anos, Grizanov afirma que foi alcançado um “nível muito aceitável de segurança” na central de Kozloduy, “mas isso não passa para a opinião pública europeia”.
 
Uma ideia partilhada por Ivan Ivanov, director executivo da central, que frisou o facto do complexo de Kozloduy “ser um dos mais vigiados do mundo” e que, apesar de ser de fabrico soviético, tendo o primeiro reactor sido inaugurado em 1974, em nada se assemelha à central de Chernobyl. Tudo é diferente, desde o tipo de reactores aos sistemas de segurança. “No debate do nuclear, Chernobyl não é uma boa referência”, frisou Miko Kovachev, antigo ministro da Energia e presidente do comité búlgaro para o Conselho Mundial de Energia. “A tecnologia que estão a usar (em Kozloduy) não é uma tecnologia de Chernobyl.”
 
Central eléctica acoplada à central nuclear
 
Esta é uma ideia que as autoridades búlgaras têm tentado fazer passar para a opinião pública europeia, sobretudo numa altura em que aquele país acabou de se juntar à União Europeia. No entanto, Bruxelas não voltou atrás na sua decisão sobre o encerramento dos reactores 3 e 4, num gesto que o Governo considerou ser impelido por interesses económicos de modo a beneficiar determinadas empresas do sector, nomeadamente francesas e inglesas. “Assumo que existam interesses económicos por detrás da imposição da União Europeia para o encerramento de alguns reactores nos países do antigo bloco de leste”, de modo a beneficiar determinadas empresas do sector, revelou Ivanov.
 
“Uma das centrais mais vigiadas do mundo”
 
Quanto ao encerramento dos reactores 1 e 2, o processo foi menos conturbado, apesar de ter sido igualmente imposto pela União Europeia. Estes foram desactivadas a 31 Dezembro de 2002, uma data de contornos fúnebres para a população de Kozloduy (cerca de 11 mil pessoas), que directa ou indirectamente está ligada àquele central.
 
À entrada da sala de comando dos “defuntos” reactores 1 e 2 encontram-se dois quadros a assinalarem literalmente sua morte. Nem a cruz falta. A referência a este facto é feita com saudosismo e nostalgia. Mais do que uma questão energética, o programa nuclear é um factor de orgulho nacional. “Muitos búlgaros encaram o nuclear como se fosse o seu projecto nacional. Não têm um programa espacial, mas têm um programa nuclear”, tinha observado Ilin Stanen, um jornalista búlgaro. De facto, o programa nuclear tem taxas de aprovação nacional na ordem dos 75 por cento, subindo esse número para os 90 em Kozloduy. 
 
Uma das salas de comando dos reactores desactivados
 
Vladimir Uruchev, então engenheiro chefe dos reactores 1 a 4, manifestou desânimo ao falar nas unidades 1 e 2, estando em consonância com o ambiente que se vive na respectiva sala de comando, que continua a servir de base aos técnicos para vigiarem a temperatura dos núcleos dos reactores desactivados e o estado do combustível nuclear que ainda se encontra no local. Este é um processo que pode demorar anos, e é por isso que o impacto laboral do encerramento daqueles reactores não foi significativo, tendo em conta o acompanhamento que é preciso fazer.
 
“O calor residual tem que ser removido do núcleo”, informou Uruchev. “O fuel está armazenado numa piscina ao lado do núcleo, suficientemente afastado para não provocar uma reacção nuclear”, acrescentou. Quando inquirido sobre o que fazer a este combustível, Uruchev limitou-se a encolher os ombros, sem dar uma resposta conclusiva.  
 
Sala de comando
 
Depois de alguns minutos à conversa com os técnicos, Uruchev conduziu o grupo através de uma porta estanque que dá acesso a umas escadas ladeadas por paredes de betão com vários metros de espessura. Em poucos segundos, está-se no interior do silo, num posto de observação devidamente isolado com vidro, com vista privilegiada para os reactores 1 e 2. Note-se que caso estes estivessem a funcionar, a visita não teria passado da sala de comando, dado que nessas condições ninguém pode entrar num silo, a não ser em momentos de manutenção, nos quais os técnicos vão devidamente equipados com fatos anti-radiação, revezando-se em períodos de dois minutos. Cobertos com duas cúpulas de ferro, o reactor número dois estava apenas a sensivelmente 10 metros dos visitantes, enquanto que o outro se situava um pouco mais distante. Uma visão rara que até então nunca era captada por câmaras estranhas.
 
Esta “abertura” por parte das autoridades de Kozloduy é um sinal dos tempos e fruto da necessidade de alguns Governos manterem em actividade as suas centrais, vitais para o fornecimento de energia eléctrica a baixo custo para as suas populações. Devido à imposição da União Europeia e de organizações como a AIEA, o caso da central nuclear de Kozloduy é um bom exemplo das políticas que têm sido seguidas pelos países que herdaram este tipo de tecnologia do império soviético.
 
Publicado por Alexandre Guerra às 07:07
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Níveis de radiação aumentam em Fukushima e a prioridade é arrefecer os reactores

 

 

A explosão na central nuclear de Fukushima Daiichi (1), consequência do terramoto de Sexta-feira no Japão, o maior desde que há registo, e que afectou sobretudo o noroeste do País, fez acordar novamente os “fantasmas” sobre a problemática do nuclear.

 

Os receios, quase sempre adormecidos, despertam nestas alturas em que algo de anormal se passa numa central nuclear. Curiosamente, não há muito tempo, foi também no Japão que se verificaram alguns incidentes relativos a umas fugas de uma das outras centrais espalhadas naquele país.

 

Nestes momentos, são sempre recordados dois casos clássicos: Three Mile Island, Pensilvânia, em 1979, um acidente de nível 5, de acordo a escala da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), verificando-se a libertação limitada de material radioactivo; Já o trágico acidente de Chernobyl, Ucrânia, em 1986, é o pior desde que se começou a utilizar a fissão nuclear para produzir electricidade. Acidente de nível 7, com libertação de material radioactivo sem qualquer tipo de controlo.

 

 

Quando à explosão do reactor 1 da central de Fukushima Daiichi foi classificado pelas autoridades japonesas de nível 4, ou seja, “acidente com consequências locais”. Porém, convém referir que a explosão deu-se da parte fora do primeiro vaso de contenção, ou seja, não afectou o núcleo da unidade. Desta explosão resultaram quatro feridos.

 

A central de Fukushima Daiichi tem 6 reactores, três dos quais estão em “automatic shutdown”, incluindo o número 1, sendo que os restantes estavam parados, em trabalhos de manutenção. De acordo com o último comunicado da Nuclear and Industrial Safety Agency (NISA) japonesa, verifica-se um aumento dos níveis de radiações nas imediações do complexo de Fukushima Daiichi.

 

Neste momento, de acordo com as autoridades japonesas, está em curso o trabalho de arrefecimento dos três reactores em “automatic shutodwon”, através de diferentes sistemas, incluindo o bombeamento de água do mar.

 

Os quatro reactores (de 1100MW cada) da central de Fushima Daini (2) estão todos em “automatic shutdown”, com as autoridades a garantirem que o controlo da situação, à semelhança do que acontece com os restantes complexos nucleares do país.

 

Ainda chegou a ser dado o alerta na central nuclear de Onagawa, com os seus três reactores, devido aos níveis registados no exterior do complexo, mas as autoridades rapidamente afastaram qualquer perigo, visto tratar-se da radiação trazida pelos ventos de Fukushima Daiichi.

 

Actualmente, o Japão tem 17 centrais nucleares, com 55 reactores.

 

Apenas a título informativo, a International Nuclear and Radiological Scale (INES) da AIEA classifica de 0 a 7 o grau de gravidade dos acidentes nucleares. Até hoje, apenas Chernobyl ocupou o topo desta trágica tabela.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:06
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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