Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

As pessoas mudam...





A frase não é original, mas nem por isso deixa de constatar uma realidade inequívoca: as pessoas mudam ao longo de uma vida. Uma mudança que se pode verificar a vários níveis, seja no comportamento humano, nas convicções políticas e sociais, nas ideologias, no relacionamento com o próximo, entre outros...



Este pequeno apontamento refere-se, no entanto, apenas àqueles que política e ideologicamente foram-se metaforseando. Em Portugal, existem dois exemplos interessantes e, curiosamente, ambos implicaram um desvio mais à esquerda, relativamente às posições originais.



Freitas do Amaral, outrora um histórico e uma referência da Direita portuguesa, veio a integrar um Governo socialista (quem diria há uns anos), enquanto que Mários Soares deixou a via socialista moderada para adoptar um discurso mais esquerdista e, por vezes, radical.



As explicações para estes fenómenos não são simples nem evidentes. Porém, poderá ter-se a certeza de que muitas destas mudanças não estão condicionadas por factores externos, assumindo-se, assim, tratarem-se de atitudes sinceras, independentemente de serem válidas ou não. Efectivamente, Freitas do Amaral e Mário Soares parecem estar numa fase da vida em que agem mais por impulsos e convicções do que propriamente com base em modelos calculistas. 



Mas, tudo isto veio a propósito de um texto que o Diplomata leu na edição de 20 de Janeiro do Público, originalmente publicado no Wall Street Journal: "Manifesto, por um mundo livre de armas nucleares". O interesse não estava tanto no conteúdo do texto em si, já que pouco ou nada acrescentava, mas sim no facto daquele ser subscrito por Henry Kissinger, antigo secretário de Estado de Richard Nixon e Gerald Ford, e tido como um dos expoentes máximos do realismo político nas relações internacionais durante a Guerra Fria - uma espécie de Maquiavel do século XX. 



De facto, Kissinger foi sempre mencionado nos cursos de relações internacionais como uma das referências do pensamento realista. A sua obra de referência, "Diplomacia", é precisamente um exercício intelectual de elevada qualidade, com uma abordagem claramente realista à interpretação do sistema internacional dos séculos XIX e XX.



Não obstante ser um objectivo nobre e que todos gostariam de ver alcançado, Kissinger revela no texto uma ingenuidade idealista ao exortar por um mundo livre de armas nucleares. Por definição, o pensamento realista nunca se refere à problemática do controlo de armamentos nestes moldes. O autor destas linhas não tem dúvidas em afirmar que este era um texto que Kissinger jamais ousaria subscrever se fosse confrontado com ele no auge da sua carreira política.



Hoje, Kissinger surge ao lado de nomes como o senador democrata, Sam Nunn, ou como o antigo secretário de Defesa democrata, William J. Perry, defendendo ideias que, em muitos casos, estão mais próximas do paradigma idealista do que do realista. Alexandre Guerra


Publicado por Alexandre Guerra às 23:02
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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