Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

Factores geopolíticos que influenciaram efectivamente o preço do petróleo

Alexandre Guerra, 22.05.08




Soldado iraquiano na Guerra Irão-Iraque, 1980



Numa altura em que o preço do barril de crude atinge novos máximos no mercado de Nova Iorque, é importante desconstruir uma ideia que se instalou nos últimos tempos e que tem sido veiculada para ajudar a explicar o actual cenário. Ao contrário do que tem sido referido, o factor geopolítico não pesa tanto como se quer fazer crer no actual crescimento galopante dos preços do petróleo.



Não obstante existirem variáveis políticas e geoestratégicas a influenciar a conjuntura que se vive, a sua influência tem sido muito sobrevalorizada. Ao contrário de outros momentos na história das últimas décadas, os altos preços do petróleo que se verificam hoje dificilmente são justificados com causas políticas e geoestratégicas. Nem mesmo o crescimento voraz de economias emergentes como a China ou como a Índia é suficiente para uma explicação convincente sobre a evolução abrupta do valor do "ouro negro" nos últimos cinco anos, particularmente acentuada nos últimos dois.



No entanto, esta tem sido uma teoria muito em voga para explicar o aumento do preço do petróleo (o mesmo já não se pode dizer em relação à procura de aço por parte da China, mas isso é outra história). Efectivamente, o "apetite"  chinês ou indiano por petróleo não provocou um desequilíbrio assim tão grande na dinâmica da oferta e da procura. O mesmo se pode dizer de cortes pontuais que se têm verificado em diferentes zonas produtoras do mundo. Destas, talvez o Iraque seja o caso mais sensível, com uma redução na sua produção diária depois da invasão norte-americana, mas pouco relevante se se tiver em conta os índices anteriores a Março de 2003.



Pelo contrário, os factores geopolíticos foram decisivos em crises petrolíferas nos anos 70, 80 e 90. Quando em 1973 rebenta a guerra isralo-árabe, a OPEP, numa iniciativa inédita e nunca mais repetida, utiliza o petróleo como arma política e decide de forma concertada boicotar a venda daquele recurso, fazendo o preço aumentar em 400 por cento num espaço de seis meses. 



Estava-se perante o "primeiro choque petrolífero", claramente associado a um factor geopolítico. Anos mais tarde, acontecimentos políticos no Irão, com a revolução islâmica e a consequente queda do Xá, seguidos de uma guerra Irão-Iraque provocaram o "segundo choque petrolífero". Em Novembro de 1980, a produção combinada dos dois países era apenas de um milhão de barris por dia, menos 6,5 milhões do que no ano anterior. Isto significou uma redução de 10 por cento na produção do crude mundial e, logicamente, um reflexo no preço do petróleo, que duplicou entre 1978 e 1981.



Já no início dos anos 90, a invasão do Kuwait por parte do Iraque e a consequente resposta da coligação aliada provocou um "pico" no preço do petróleo, sobretudo devido à destruição de alguns poços, mas que rapidamente foi corrigido, atingindo-se em 1994 um valor mínimo histórico em duas décadas.



A partir deste momento, acontecimentos como o 11 de Setembro (2001), a guerra no Iraque (2003) ou o conflito do Líbano (2006) foram apresentados como outros factores geopolíticos que afectaram o preço do petróleo. Mas, na realidade isto só faz sentido se enquadrar-se aquelas variáveis numa perspectiva especulativa e não numa lógica de causa-efeito. Alexandre Guerra