Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

O Diplomata na revista CAIS desde este mês



O autor deste espaço começou, a partir deste mês, a assinar uma coluna de comentário sobre assuntos internacionais na revista CAIS. Reproduz-se abaixo o primeiro texto referente à edição de Junho: 



Ocidente e China: dois olhares inconciliáveis sobre o Tibete

Alexandre Guerra



O Tibete foi um tema praticamente ausente das agendas internacionais desde que a China clamou para si aquele território, em 1950. Quando, um ano mais tarde, Mao Zedong propôs um acordo de autonomia às autoridades tibetanas, no qual estaria consagrado o respeito total pela religião budista, Pequim estava a ceifar potenciais ímpetos de independência. Mas, nessa altura, a China era apenas um actor menor num tabuleiro onde os Estados Unidos e a União Soviética dominavam, estando o Tibete longe de ser estratégico para qualquer destas partes.



Num primeiro momento, o Dalai Lama procurou, infrutiferamente, negociar, acabando em 1959 por eclodir a revolta tibetana, prontamente esmagada por Pequim (fala-se em milhares de mortos). O Dalai Lama foi obrigado a abandonar o Tibete. A partir desta altura, a situação foi-se deteriorando, sem que se ouvissem quaisquer vozes internacionais de protesto.




Politicamente, foi só em 1989 que surgiu o primeiro gesto relevante por parte da comunidade internacional, com a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Dalai Lama. Porém, o processo negocial pouco avançou e os esforços de “abertura” feitos pela China serviram mais os interesses de Pequim do que os dos próprios tibetanos.



Para os seus seguidores, o Dalai Lama personifica o que de mais puro e genuíno se encontra na religião e tradição budistas, sendo visto como um autêntico deus vivo na Terra. Perante a asfixia chinesa, os tibetanos foram também depositando nele os seus anseios políticos.



O mundo acordou agora de repente para a questão tibetana, mas apesar dos recentes esforços diplomáticos, o principal problema persiste: a forma inconciliável de como o Ocidente e a China olham para o Tibete.



Kenneth G. Lieberthal, professor na Universidade de Michigan, refere que a visão que o Ocidente tem do Tibete está moldada por uma noção romântica de Shangri La, enquanto que Pequim olha para aquele território como uma realidade feudal, supersticiosa e perversamente ansiosa pela modernização[1].



É por isso que para o proeminente historiador Paul Kagan, as manifestações dos monges budistas em Março foram interpretadas por Pequim como um desafio ao seu poder autoritário, tal como já tinha acontecido em 1989, com os estudantes da Praça de Tiananmen, ou com os activistas das Falun Gong há alguns anos[2]. Pelo contrário, o Ocidente viu estas situações como formas de expressão legítimas.






[1] Jayshree Bajoria, “Nationalism in China ” in www.cfr.org (23 de Abril 2008)

[2] Paul Krugman, The Washington Post, “Behind the ‘Modern’ China ” (23 de Março de 2008)




Publicado por Alexandre Guerra às 22:13
link do post | comentar
partilhar

About

Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos