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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

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Uma lição de jornalismo

Alexandre Guerra, 29.06.08


Num artigo do The Washington Post, assinado por Howard Kutz, e reproduzido hoje no Público, o autor destas linhas ficou a saber que Leonard Downie Jr. anunciou no passado dia 23 que vai abandonar o cargo de director-executivo daquele jornal norte-americano.



Aos 66 anos, e ao fim de 17 naquelas funções, Leonard Downie Jr. demonstrou inteligência e clarividência suficientes para perceber que a sua hora tinha chegado, depois de ter conseguido conduzir com muito sucesso os desígnios do The Washington Post nos conturbados tempos de adaptação às novas formas de comunicação.

 

Talento e mérito foi a fórmula encontrada por Leonard Downie Jr. para tornar o seu jornal numa leitura diária obrigatória em todo o mundo através da plataforma digital. Recentemente, começou também a ser possível comprar a versão em papel em Portugal, visto que o jornal está a ser impresso em Lisboa.



"Contratamos pessoas mais espertas e mais talentosas do que nós e deixamo-las fazer o seu trabalho da melhor maneira que sabem", foi desta forma que Leonard Downie Jr sintetizou o seu modelo de gestão do The Washington Post ao longo de quase duas décadas.  



Em Portugal, infelizmente, há muito que o talento e o mérito são variáveis ausentes nas contratações de novos jornalistas, sendo também praticamente inexistente essa "liberdade de trabalhar" de que Leonard fala.



Ao contrário de jornalitas como Leonard Downie Jr, as chefias dos jornais portugueses revelam pouca sensibilidade para a notícia e raramente têm critérios editoriais justos. Além destas características, Leonard Downie Jr tinha ainda uma outra muito importante no jornalismo e na vida: exerceu sempre a sua profissão com honestidade.



Não é por isso de estranhar que os jornais nacionais, sobretudo os de referência, estejam num estado pouco saudável, sem identidade, com pouca qualidade e vendas vergonhosas, mesmo para um país como Portugal onde os hábitos de leitura não abundam.



Exemplos como o de Leonard Downie Jr. há muitos anos que deixaram de existir em Portugal, e basta para isso observar o percurso de jornais como o Diário de Notícias ou o Público. O primeiro passou em poucos anos de uma "instituição" para mais um jornal sem identidade, enquanto que o segundo vai-se afundando perante a arrogância e interesses de uma direcção que pouco ou nada tem para oferecer ao jornalismo.



Actualmente, os principais jornais nacionais de referência têm chefias fracas, sem visão estratégica, estando a falhar claramente na sua missão de adaptar as suas publicações aos novos paradigmas da sociedade em geral e da comunicação em particular. Alexandre Guerra