Domingo, 23 de Outubro de 2011

O apelo às massas e a ruptura dos paradigmas de sociedade

 

 

Hoje, muitos são aqueles que, desiludidos, chocados ou revoltados com o paradigma de sociedade vigente, apregoam uma revolução (ou revoluções). Na maioria dos casos não se percebe muito bem o que move estas vozes de descontentamento: se é uma convicção ideológica, desespero, irreverência ou, simplesmente, a resposta ao apelo irreflectido para a contestação de “rua”.

 

Uma coisa é certa, as massas têm se feito ouvir de forma ruidosa e, nalguns casos, estrondosa, como a Grécia ilustra bem. Mas, por mais que se tente ouvir as pessoas, a falta de sofisticação ideológica (leia-se ideias) no suporte ao seu discurso torna difícil qualquer leitura coerente que permita a construção de um modelo de pensamento que possa servir de referência para as gerações vindouras.

 

Perante isto, poder-se-á dizer que o apelo à revolta (das ideias) é desprovido de consistência intelectual e de profundidade quanto ao seu alcance? Provavelmente, sim.

 

A ausência de pensamento e de reflexão em cada uma das pessoas que faz ouvir a sua voz cinge o seu protesto a um acto de descontentamento pelo seu quotidiano, provocado apenas pelo desconforto material (leia-se, falta de dinheiro) das suas vidas.

 

E já não é pouco, dirão muitos leitores (e com razão), mas não o suficiente para se proceder à tal revolução de paradigma mais abrangente. Porque, essa tem que ir além da “crise” dos mercados e da falta de emprego. Aqui, as pessoas terão que, obrigatoriamente, reflectir sobre elas próprias, sobre o seu papel enquanto “animal” inserido numa sociedade.

 

O problema é que este exercício torna-se de difícil execução, porque pressupõe racionalidade, intelecto, autocrítica, humildade (outros adjectivos haveria).

 

 

Quantas das milhares de pessoas que ainda recentemente desfilaram nas ruas de algumas cidades portuguesas ou estrangeiras chegariam à conclusão que, talvez, a sua forma de estar em sociedade possa já não estar adequada aos novos desafios que se impõem no sistema internacional e na realidade nacional?

 

Por isso, antes de erguerem a sua voz na crítica inócua, talvez fosse importante, primeiro, pensarem sobre a forma como educam os seus filhos, como abordam o seu trabalho, o que fazem para serem pessoas informadas, o que fazem para enriquecer intelectualmente, o que contribuem para a sustentabilidade do planeta, o que partilham com o próximo, e por aí diante.

 

E, desculpe o leitor, mas não há revolução de paradigma de sociedade que se faça sem um reflexão profunda sobre estas e outras questões, porque a “crise” da dívida e do desemprego são problemas sociais graves mas, apesar de tudo, circunscritos em termos de paradigma.

 

Ainda há uns dias, quando o autor destas linhas via o filme Simpathy For The Devil, de Jean-Luc Godard, de 1968, pensava sobre a grande diferença dos tempos contestatários de hoje e aqueles que se viveram nos anos 60, uma década de pensamento e de ideologia que alterou o modelo de se estar em sociedade no Ocidente.

 

E uma das conclusões a que chegou tem a ver com as motivações e os ideais que “chamaram” as pessoas para as ruas naquela altura. Partindo de fracturas concretas com que as sociedades se deparavam (guerra, discriminação, direitos cívicos, etc), o apelo à revolta das ideias foi sofisticado e consistente. O resultado: dinâmica com forte base ideológica (ideias), grupos organizados e focados, movimentos sociais poderosos, entre outros fenómenos consequentes (para o bem e para o mal).

 

Quando Godard decide centrar o seu filme na gravação em estúdio da música Simpathy For The Devil dos Rolling Stones, acaba por reforçar ainda mais esse apelo à revolta.

 

Além das várias citações de textos revolucionários, das referências ao marxismo, aos Black Panthers e às contradições de uma sociedade que precisava de mudança, que se podem ver ao longo do filme (espelhando o carácter activista e politicamente interventivo de Godard), a música Simpathy for the Devil dá um toque de sofisticação ao chamamento revolucionário.

 

As referências às guerras religiosas da Europa, à violência da Revolução Russa ou à morte dos Kennedy, que se podem ouvir na letra de Simpathy For The Devil fizeram desta música um tónico artístico ao apelo de Godard.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:25
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1 comentário:
De Fada do Bosque a 27 de Outubro de 2011 às 14:27
Nicolau Wurmood disse:

Facilmente posso virar esse discurso do avesso: “Uma coisa é certa, as elites têm se feito ouvir de forma ruidosa, e nalguns casos estrondosa, como a multiplicação de comentadores pseudoqualificados ilustra bem. Mas por mais que se tente ouvir os interesses, a falta de sofisticação ideológica (leia-se ideias separadas do patrono que dá emprego) no suporte do seu discurso torna difícil qualquer leitura coerente que permita a construção de um modelo de pensamento que possa servi de referência para as gerações vindouras. “

Fácil não é? Basta virar o preconceito antipopular de confundir tudo com uma turba desregrada e meia selvagem para termos uma imagem bem menos simpáticas para as “elites” e os frequentadores dos salões de embaixadas…

As mudanças radicais não são começadas, regra geral, por conceitos muito complexos. Porque como é óbvio a maioria das pessoas não são especialistas no assunto (seja o tema motivador a economia ou a teologia), nem têm que ser. São exigências simples e concretas que se vão acumulando e colando a alguns sectores ideológicos que por sua vez mais tarde (quando já são sólidos) dão alguma aparência de coerência às ideias que circulam – isto sem contar com a armadilha de ver o presente como se fossemos um historiador, ou seja, como se esperássemos uma narrativa completa e coerente coisa que muitas vezes só existe depois do historiador escolher que história quer contar.

Óbvio que isto não elimina o facto da maioria das pessoas não estar pronta a assumir responsabilidades pessoais sobre esfera nenhuma da sua vida. Mas isso deve-se a toda uma cultura cujo exemplo de topo é deplorável e devo dizer que vejo em muitos comentários deste tipo uma defesa encapotada de elites senis que são a causa de tudo isto. Eles são o paciente zero desta epidemia de instabilidade que varre o mundo. Não vou entrar em como se faz uma mudança de paradigma porque é demasiado variável mas o que posso dizer é que absolver e manter no poder (político, económico e social) quem criou o caos costuma ser má solução.
Agora digo eu:

Tenho pensado sim, qual será o vazio de ideias que existe se já tudo foi escrito ou expresso. Seria realmente necessária uma mudança de paradigma? Não bastaria apenas castigar os prevaricadores e fazer as leis funcionarem? Não seria necessário apenas seguir as Constituições e legislar com leis justas? Eliminar o neoliberalismo e o neoconservadorismo?
Onde se encaixará aqui a “ideia” que nós povo e grandes massas, temos falta de ideias? Será que somos menos inteligentes do que há um século atrás? ou será que nos querem fazer pensar que é isso que realmente acontece?

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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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