Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

As "primaveras" árabes (3)

 

Campo de refugiados sírio em Yayladag, Turquia/Foto: Daniel Etter/The New York Times

 

A “Primavera” árabe em curso nalguns países do Médio Oriente suscitou, há dias, uma interessante e acesa conversa entre o autor destas linhas e uma jornalista, com experiência recente no terreno num daqueles cenários de revolta.

 

Basicamente estavam em confronto (pacífico) duas perspectivas sobre a tão proclamada e aclamada “Primavera” árabe. Não eram necessariamente inconciliáveis, mas pressuponham diferentes enquadramentos doutrinários em relação à forma de se ler as revoluções de rua que eclodiram ao longo dos últimos meses na Tunísia, no Egipto, na Líbia, no Iémen, no Bahrein e na Síria.

 

A interlocutora do Diplomata, entusiasta destes movimentos de insurreição, vê neles uma expressão legítima e sincera de emancipação popular, de libertação dos povos oprimidos face aos seus regimes despóticos.

 

Uma perspectiva válida de quem em plena praça Tahrir “sentiu” e “auscultou” as emoções, os dramas, a resistência pacífica das gentes, os cordões humanos de solidariedade e de protecção dos camaradas de luta. É por isso que, conta quem viu, foi algo especial.

 

Esta foi aliás uma ideia em que a imprensa internacional e a opinião pública embarcaram, a de uma “Primavera” revolucionária pacífica e ordeira, fruto da vontade comum e do interesse geral, que se fez sentir na Tunísia e no Egipto. Ora, na opinião do Diplomata esta é uma leitura enublada da realidade.

 

Veja-se o seguinte: Parece que aos olhos do mundo, nas revoluções destes dois países só há a lamentar a violação da repórter norte-americana da CBS, Lara Logan (uma lamentável situação que, na verdade, resulta da lógica de multidão em fúria que poderia acontecer em qualquer parte do mundo). Não fosse este episódio de drama, a Tunísia e o Egipto teriam vivido revoluções “limpas”, “arrumadinhas”, como a opinião pública internacional gosta hoje de olhar para este tipo de movimentos, esquecendo-se que, normalmente, estes fenómenos contam sempre com dinâmicas reaccionárias.

 

O Diplomata, mais perverso na sua análise, lembra que as revoluções implicam quase sempre rupturas, choques, e com isso a violência, o derrame de sangue e os mortos. O que se passou na Tunísia e no Egipto não fugiu a esta lógica, apesar do deslumbramento primaveril com que líderes políticos e comunidade internacional olharam para aquelas revoluções.

 

De acordo com um relatório das Nações Unidas, a revolução da Tunísia provocou 219 mortos e 510 feridos. Números pouco lembrados pela imprensa internacional e praticamente desconhecidos pela opinião pública. Também no Egipto, poucos citaram o relatório divulgado em Abril por uma comissão daquele país, no qual se falam em quase 900 mortos e cerca de 6500 feridos durante a “Primavera” egípcia.

 

O entusiasmo da opinião pública internacional e a ingenuidade dos líderes políticos ao acolherem imprudentemente as revoluções na Tunísia e no Egipto, sem pensarem realisticamente nas suas consequências internas e no sistema internacional, passou rapidamente ao embaraço quando as coisas começaram a correr mal na Líbia, no Iémen e na Síria.

 

As "primaveras" árabes (1)

 

As "primaveras" árabes (2)

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:10
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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