Terça-feira, 17 de Maio de 2011

Nos Montes Golã fez-se história, mas o mundo estava distraído

 

 

Talvez distraído pelos devaneios sexuais de Dominique Strauss-Khan em Nova Iorque, o Diplomata não deu grande importância aos confrontos que ocorreram no Domingo no Médio Oriente, que provocaram 12 mortos palestinianos. Julgou tratar-se de um “Nakba” ligeiramente mais mortífero que em anos anteriores, provavelmente, inspirado pelas revoltas de rua nalguns países muçulmanos daquela região e do Magrebe.

 

De facto, as notícias falavam em agitações nalgumas zonas da fronteira israelita com o Líbano, com a Síria e com a Jordânia, países com grandes comunidades de palestinianos.

 

Numa sucinta explicação para o leitor menos atento ao que se vai passando naquela região, daqueles três países, tem sido o Líbano o que mais problemas tem suscitado a Israel no que concerne à questão dos refugiados palestinianos, sobretudo os que residem nos campos de refugiados no sul libanês.

 

Esta zona é potencialmente explosiva e o historial de violência de há muitos anos tem sido prova disso. Mesmo em períodos de maior acalmia basta ir à fronteira, do lado israelita (foi aquela que o Diplomata conheceu), para se sentir a tensão no ar, ao olhar para o outro lado da vedação, e a poucos metros já se verem as bandeiras do Hezbollah, numa clara demarcação de território. A troca de tiros e de morteiros é recorrente.

 

Do lado jordano, a questão é bem menos problemática, sendo que o único ponto de fricção é a passagem fronteiriça para a Cisjordânia através da famosa “Allenby Bridge”.

 

 

A ponte atravessa o Rio Jordão e é a principal porta de entrada dos palestinianos jordanos para a Cisjordânia, já que a alternativa seria descerem para sul através do deserto da Jordânia, entrarem por Israel na fronteira de Aqaba/Eilat, e subirem novamente para a Cisjordânia já por território hebraico (o que está completamente fora de causa).  

 

Nos anos mais “quentes” da intifada de al Aqsa, “Allenby Bridge” viveu momentos bastante tensos, sendo muitas vezes encerrada pelas forças de segurança israelitas (IDF), uma situação que em determinadas alturas se prolongava durante dias, provocando situações de grande drama naquela fronteira. De qualquer forma, Israel teve sempre o controlo da situação e já há algum tempo que não se ouvem notícias daqueles lados.

 

Ainda mais calma, pelo menos até este Domingo, era a fronteira de Israel com a Síria, demarcada em pleno coração dos Montes Golã, anexados pelo Exército hebraico na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

 

A última vez que se registou grande agitação naquela zona foi em 1973, aquando da investida dos soldados sírios na Guerra de Yom Kippur para recuperar os Montes Golã e que permitiu, durante algumas horas, vários sírios celebrarem a sua “libertação”. No entanto, foi uma alegria momentânea, já que a resposta hebraica foi quase imediata, tendo reconquistado o território e reforçado ali a sua presença.

 

Desde então que os habitantes dos Monte Golã, sírios, drusos e também colonos israelitas, têm vivido em tranquilidade, numa região de grande beleza, mas igualmente fortemente vigiada e separada por uma “no man´s land”, vedada em ambos os lados e com torres de vigia dos dois lados da fronteira.

 

 

Ousar atravessar aquela fronteira, eventualmente algum palestiniano sírio que queira chegar até á Cisjordânia, é arriscar a própria vida. Na verdade, o autor destas linhas não tinha conhecimento, até este Domingo, de grandes “aventuras” por aqueles lados.

 

Por exemplo, e para o leitor ter uma ideia de como se vive naquelas bandas, sempre que palestinianos no lado israelita querem comunicar com familiares ou amigos no lado sírio, ou vice-versa, existem vários pontos geograficamente mais próximos, onde é possível falar (gritar, melhor dizendo) através de megafone para o outro lado da fronteira.

 

A linha de fronteira dos Montes Golã, embora altamente militarizada e vigiada, é, nalguns pontos, envolvida num ambiente inóspito, montanhoso e sem vivalma. O visitante, que por ali anda, tal com o autor destas linhas já lá andou, encosta-se a uma das devações que limita uma velha estrada de alcatrão, "terra de ninguém", vendo-se apenas uma velha tableta afixada a proibir a passagem. Um cenário em que o “status quo” tem sido respeitado religiosamente.

 

É por isso que as imagens agora divulgadas, e aqui colocadas, são verdadeiramente surpreendentes e históricas, uma vez que as pessoas vindas da Síria (o Diplomata confirma) conseguem atravessar a “No Man’s Land” e entrar em Israel sem que alguém das IDF se oponha. De acordo com as autoridades israelitas, terão entrado cerca de 150 palestinianos que, entretanto, foram reconduzidos para a Síria ou detidos. 

 

Perante este cenário não é de estranhar os alarmes tenham soado em Israel.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:52
link do post
partilhar
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

About

Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos