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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

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O mundo tem os olhos na Líbia, mas não deve esquecer o Iémen

Alexandre Guerra, 21.03.11

 

Manifestantes na passada Sexta-feira em Sanaa, Iémen, depois dos disparos das forças governamentais/Foto:AP

 

Enquanto a comunidade internacional está focada na Líbia, o Presidente do Iémen, Ali Abdullah Saleh, celebra esta Segunda-feira o seu 69º aniversário num ambiente de pré-guerra civil, como alguns dos mais respeitados militares daquele país sustentam.

 

No poder desde 1978, Saleh enfrenta o seu derradeiro momento político à frente dos desígnios iemenitas, com a população em fúria nas ruas, inspirada nas revoltas da Tunísia e do Egipto, à procura da sua “mudança de regime”.

 

Num país dominado pela pobreza, com um terço de desempregados, uma taxa de iliteracia acima dos 50 por cento e onde a população tem uma média de idade de 18 anos, estão criadas as condições para um conflito sangrento.

 

Manifestantes contra o Governo carregam os feridos/Foto:AP

 

Ainda na Sexta-feira passada, mais de 40 pessoas foram mortas quando participavam numa manifestação contra o Governo. Vários homens vestidos à civil, ao serviço do Governo, dispararam sobre os manifestantes, naquilo que a oposição classificou de massacre.

 

Na sequência destes acontecimentos, milhares de pessoas fizeram questão de estarem presentes nos funerais das vítimas, num claro sinal de protesto contra Saleh. Vários membros do Governo pediram a sua demissão.

 

Em termos políticos, Saleh viu ainda o General Ali Mohsen al-Ahmar, figura proeminente no Iémen e até agora próxima do Presidente, a dar o seu apoio público aos movimentos revoltosos. "The crisis is getting more complicated and it's pushing the country towards violence and civil war", disse aquele general em comunicado divulgado pela televisão al-Jazeera. "According to what I'm feeling, and according to the feelings of my partner commanders and soldiers... I announce our support and our peaceful backing to the youth revolution. We are going to fulfil our duties in preserving security and stability."

 

Uma criança dá apoio aos feridos após os disparos sobre a manifestação/Foto:AP 

 

A “deserção” al-Ahmar foi um rude gole na estrutura de poder de Saleh que, como dizia o correspondente da BBC em assuntos de Defesa, Frank Gardner, está cada vez mais frágil. Outras figuras do Estado, como governadores e embaixadores no estrangeiro, também estão a pedir as suas demissões depois dos acontecimentos de Sexta-feira.

 

Entretanto, o Presidente Saleh continua a desafiar o movimento revolucionário, impondo o “estado de emergência” e afirmando que travará qualquer tentativa de “golpe” em nome da estabilidade e segurança.    

 

Uma estabilidade e segurança cada vez mais difíceis de manter num país que há vários anos enfrenta diversos problemas, com tribos xiitas a Norte em guerra permanente com o Governo central em Sanaa e com o vespeiro dos militantes da al-Qaeda a Sul, os quais têm sido combatidos por Washington através de um massivo apoio militar ao regime de Saleh.

 

No entanto, os recentes acontecimentos estão a provocar alterações de alinhamentos entre Washington e Sana e é muito provável que os Estados Unidos comecem a distanciar-se de Saleh, reforçando uma aproximação ao general al-Ahmar.

 

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