Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

Chineses pouco interessados nas questões de regime e a sonhar com a classe média

 

Chineses numa das ruas de Xangai/Fotos AG

 

Quando o líder chinês Deng Xiaoping concebeu nos anos 80 o conceito de “um país, dois sistemas” estaria longe de imaginar que o seu modelo iria um dia ser uma realidade bem concreta em pleno território da China.

 

Inicialmente pensado para ser aplicado apenas em Hong Kong e Macau, Deng Xiaoping tinha como objectivo a manutenção do sistema capitalista naqueles territórios quando estes fossem transferidos para Pequim, coexistindo assim com o modelo socialista no resto da China.

 

O Partido Comunista Chinês (PCC) mantinha-se assim fiel aos seus princípios na China e criava um enquadramento de excepção para territórios capitalistas, justificado pelas contingências impostas pela própria História.

 

Ironicamente, e graças ao crescimento astronómico da China, sobretudo a partir dos anos 90, a liderança do regime chinês acabou por ver-lhe imposta um modelo de economia de mercado, mas desta vez no coração do País, dominado até então pela doutrina comunista e maoista.

 

Chineses andam pelas ruas de Xangai num dia de semana

 

De certa maneira, os principais centros urbanos da China, com destaque para Xangai, o centro económico e financeiro do país, têm caminhado nos últimos anos em direcção ao modo de vida ocidental, remetendo cada vez mais para o passado a influência socialista no quotidiano dos milhões de habitantes daquela cidade.

 

Hoje, Xangai é um autêntico bastião da economia de mercado, com um nível de crescimento e de sofisticação surpreendente, rivalizando com cidades como Nova Iorque, Londres ou Paris, e nalguns pontos estando já num patamar superior.

 

A cúpula política chinesa vai gerindo a coabitação deste modelo de economia de mercado com a manutenção do status quo político. Um equilíbrio que até ao momento parece estar a resultar.

 

Uma das pequenas ruas em Xangai com um estilo de vida mais tradicional

 

A ausência da uma democracia na acepção ocidental da palavra é algo que neste momento não parece incomodar muitos os chineses, que estão mais empenhados na ascensão à tão ambicionada classe média e ao que isso implica, como a compra de um carro, das roupas de marca, da ida ao Starbucks para beber um café, da aquisição de um iPhone ou da saída à noite para um bar ou discoteca da moda para tomar um copo.

 

Um dos exercícios mais interessantes para qualquer visitante ou residente estrangeiro em Xangai é identificar sinais que reflictam a presença do regime chinês ou do “comunismo” no quotidiano dos milhões de habitantes daquela cidade.

 

À parte da herança cultural e sociológica que ainda é bem viva no que diz respeito aos hábitos dos chineses enquanto povo, o Diplomata só se lembra que está num regime politicamente mais fechado quando esbarra na mensagem “O Internet Explorar não consegue mostrar a página Web” ao tentar aceder a sites como o Twitter, o Facebook, o Youtube ou outras plataformas digitais potencialmente virais.

 

A casa onde se realizou o Primeiro Congresso Nacional do PCC, em Julho de 1921

 

É claro que a detenção do Nobel da Paz, Liu Xiaobao, ou a prisão domiciliária do artista e activista Ai Weiwei não podem nem devem ser ignoradas, e representam graves violações dos direitos mais fundamentais das pessoas, assim como os inúmeros presos políticos ou a situação que se vive no Tibete ou em Xinjiang. Porém, estes temas parece que mais interessam aos meios de comunicação social internacionais e a alguns activistas do que propriamente aos milhões de chineses que vivem agora os primeiros anos de acesso a um novo estilo de vida.  

 

A presença do regime político ou a influência do Partido Comunista Chinês no dia a dia das pessoas em Xangai parece verificar-se mais ao nível do seu subconsciente, resultado de uma formatação ideológica e cultural ao longo de décadas, e não tanto pela imposição de linhas orientadoras concretas nos tempos que correm.

 

A pequena sala onde os 13 delegados proclamaram a criação do PCC

 

Tempos de efectivamente mudança em Xangai e que remeteram literalmente o Partido Comunista Chinês (PCC) para um museu, localizado no local onde se realizou o Primeiro Congresso Nacional do PCC, em 23 de Julho de 1921.

 

Um espaço que o Diplomata visitou e com bastante interesse, diga-se, já que foi a casa que reuniu os 13 delegados, incluindo Mao Zedong, pertencentes a 53 partidos vindos de toda a China, que proclamaram a fundação do PCC, que delinearam o seu Programa e elegeram os órgãos directivos. Nessa reunião, que se prolongou até ao dia 30, interrompida entretanto pela polícia, estiveram também presentes dois representantes do Comintern.

 

A casa que reuniu o Primeiro Congresso Nacional do PCC foi construída em 1920

 

O encontro foi feito em segredo, sob influência da Revolução de Outubro, e era o culminar do Movimento de 4 de Maio de 1919, iniciado com uma manifestação levada cabo por jovens e trabalhadores na Praça de Tiananmen insatisfeitos com o regime chinês imperialista e burguês.

 

Quanto à casa, tipicamente chinesa, tinha sido construída no Outono de 1920, e era a residência de um dos delegados, tendo em 1961 sido classificada como monumento de interesse nacional.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 07:36
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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