Sábado, 6 de Novembro de 2010

Portugal, mais um País a render-se à ofensiva económica da China

 

O Presidente chinês, Hu Jintao, está em Portugal para uma visita de Estado de dois dias dominada por uma agenda económica, expectável tendo em conta a grave conjuntura da economia portuguesa e o posicionamento do regime de Pequim relativamente a temas políticos.

 

Na verdade, nem Portugal e muito menos a China estão neste momento interessados em falar sobre assuntos de cariz político. Portugal, tal e qual um pobre de mão estendida ansiando por uma esmola, espera que Hu Jintao acene com os seus milhões e compre alguma da dívida nacional.

 

A China, por outro lado, espera conquistar o coração e as mentes dos portugueses numa estratégia de relações públicas que ajude a projectar uma imagem de modernidade e de aberta daquele país asiático.

 

Assuntos mais sensíveis como a desvalorização artificial do yuan promovida pelas autoridades chinesas ou a discussão da libertação do recente laureado com o Prémio Nobel da Paz, o chinês Liu Xiaobo, não serão sequer mencionados, com os líderes português e chinês a passarem ao lado desses temas.

 

A gravíssima situação económica interna portuguesa coloca o país numa situação de enorme fragilidade perante uma eventual intervenção chinesa ao nível da dívida pública nacional. Certamente, que o primeiro-ministro, José Sócrates, não quererá afrontar o Presidente Ju Hintao com temas que possam colocar em causa o espírito de harmonia entre os dois países e as potenciais parcerias económicas em vista, tais como a entrada de capital chinês no BCP ou no parque logístico de Sines.

 

A julgar pelas notícias veiculadas esta manhã na imprensa portuguesa, as perspectivas são boas para Sócrates, sendo, no entanto, necessário aguardar pelas próximas horas para se perceber as reais intenções do Governo chinês.

 

No imediato, Portugal poderá ter muito a ganhar com a concretização de todos estes negócios, porém, a médio e a longo prazo surgem muitas dúvidas quanto às implicações políticas da China ficar a deter dívida pública nacional.

 

Este é um debate que tem surgido intensamente nos Estados Unidos, País com grande parte da sua dívida nas “mãos” da China. Políticos, economistas, académicos e colunistas têm discutido as possíveis consequências da forte dependência financeira americana em relação aos “cofres” da China.

 

Teoricamente, existe um equilíbrio de interesses económicos entre os Estados Unidos e a China, que evita o colapso de um deles, mas há cada vez mais a convicção por parte de políticos e economistas americanos que se está perante um “jogo de soma-zero”, ou seja, para um país crescer, outro tem de ser afectado. Neste caso concreto, a perspectiva é de que a China está a crescer à custa dos Estados Unidos.

 

Perante este cenário, dramatizado com a intransigência chinesa em valorizar o yuan, economistas como o laureado Nobel da Economia, Paul Krugman, defendem a imposição de tarifas aduaneiras sobre os produtos vindos da China. Uma ideia que teve eco na classe política, tendo já sido aprovada na Câmara dos Representantes uma “bill” que abre portas a essa possibilidade. Nos próximos meses, o Senado deverá aprovar uma medida semelhante.

 

Como se não bastasse, a China está a restringir as exportações de matérias primas raras, usadas para a produção de produtos como o iPhone, prejudicando claramente as empresas norte-americanas, que começam a pagar mais caro por aqueles recursos essenciais para poderem manufacturar.   

 

Os Estados Unidos, que enfrentam uma conjuntura interna difícil, com uma dívida pública descontrolada, uma taxa elevada de desemprego, uma perspectiva de desvalorização do dólar, olham para a China e vêem um rival que está a crescer com taxas próximas dos 10 por cento e que se mantém inamovível nas suas posições.

 

Nesta conjuntura, a próxima Cimeira do G20, que se realizará em Seul nos dias 11 e 12 de Novembro, será muito importante e há quem já antecipe um combate feroz entre os Estados Unidos e a China.

 

Mas, os negociadores e diplomatas de ambos os países terão de ser moderados nas suas pretensões, sendo que a China terá que aprender a respeitar algumas regras do mercado internacional se quiser usufruir do mesmo, concomitantemente os Estados Unidos terão de perceber que o crescimento económico chinês não pode ser utilizado de forma demagógica para explicar os problemas internos do país.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:00
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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