Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

Xangai, a cidade que quase nunca dorme

 

Vista da "skyline" de Pudong a partir do The Bund/Fotos AG

 

Na última edição da revista The Spectator, Gideon Rachman ironizava com os valores do desemprego americano e do crescimento económico chinês: ambos são de 9,6 por cento para este ano. Isto significa que apesar da crise internacional, a China continua na sua senda de crescimento, uma realidade que se reflecte nos indicadores económicos e que se constata no quotidiano daquele país.

 

Xangai, a locomotora da economia chinesa e a capital financeira da China, é uma cidade em constante efervescência, que cresce literalmente de dia para dia, atraindo investidores, empreendedores e homens de negócios de todo o mundo.

 

Seja qual for a empresa, a marca ou a loja, tudo está instalado em Xangai, disponível para uma classe média de chineses que começa a ser cada vez mais numerosa e com um poder de compra em crescendo.

 

Claro está que para a elite económica e empresarial chinesa existem as lojas exclusivas de luxo, prontas a vender o que de melhor e de mais caro se faz na Europa ou nos Estados Unidos, desde carros, roupas ou jóias.

 

A Expo Xangai 2010 não foi mais do que o corolário de uma lógica de crescimento, de modernização e de atracção do investimento, numa cidade dominada pelos arranha-céus futuristas, pelas ruas largas, pelos neons e fachadas luminosas e pelos lugares sofisticados nos últimos andares dos hotéis de luxo.

 

No The Bund, uma zona recentemente recuperada ao longo do rio Huangpu que atravessa Xangai, tem-se uma fabulosa vista da “skyline” da outra margem, Pudong, onde se destaca a famosa torre de televisão e o novíssimo arranha céus do Shanghai World Financial Center.

 

Ainda no lado do The Bund é possível ver um conjunto de edifícios históricos bem conservados de antigos bancos e casas de comércio de países como França, Reino Unido, Estados Unidos, Japão, Rússia, Alemanha, Holanda ou Bélgica.   

 

Mas, a realidade em Xangai não reflecte necessariamente a realidade da China. Como dizia um empresário local, dono de uma fábrica de tecidos, “Xangai não é a China”. O seu dinamismo e liberdade que ali se verificam não encontram paralelo no resto das cidades chinesas. Pequim, por exemplo, além de ser a capital política, tem uma vertente mais histórica e turística, distanciando-se do dinamismo económico e de crescimento de Xangai.

 

Um dos muitos locais em Xangai onde se cruzam estradas com quatro a cinco faixas

 

Quanto à China profunda, está afastada do resto mundo, habitada por milhões de chineses que anseiam pelas cidades na busca de uma melhor vida. Já as cidades industriais são altamente poluídas e sem qualquer motivo de atracção.

 

Seja como for, o crescimento e investimento do Estado em obras públicas e infraestruturas é notório um pouco por todo o território, sobretudo junto à costa, com a construção de edifícios, autoestradas, viadutos ou comboios de alta velocidade (a linha Xangai-Pequim deverá estar concluída no próximo ano).

 

Aquele empresário ligado aos têxteis reconheceu que nos últimos anos registou-se um desenvolvimento considerável do país e talvez, por isso, seja importante manter o equilíbrio entre as necessidades de uma população imensa e as virtudes do capitalismo. A solução assenta no actual regime de partido único, admite o empresário, não se mostrando muito preocupado com eventuais restrições ou pelas políticas adoptadas pelos dirigentes do Partido Comunista Chinês.

 

Ao nível dos negócios tudo acontece em Xangai e é a partir daqui que tudo se desenvolve. Seja para uma multinacional que se queira instalar na China ou para um empresário à procura de fornecedor para tudo e mais alguma coisa, seja uma bandeirinha sejam componentes para maquinaria pesada.

 

Ao contrário de Pequim, Xangai não é uma cidade de turismo puro, pelo menos não é isso que se sente nas ruas. Sente-se, sim, o pulsar dos 18 milhões de habitantes, tornando-a numa cidade que quase nunca “dorme”. É uma cidade sobretudo de “business”.

 

Foi na companhia de empresários à procura de “business” que o autor destas linhas foi até a uma cidade a três horas a Sul de Xangai para visitar uma das muitas fábricas que estão instaladas na costa chinesa e que contribuem para a afirmação do País como a segunda maior economia do mundo.

 

Fábrica de têxteis a três horas do Sul de Xangai

 

É nestas fábricas, com mão de obra barata e a laborar a qualquer hora do dia, que começa o fenómeno chinês. É a origem de tudo. No caso da visita do autor destas linhas, está-se a falar de uma unidade industrial considerável, que aposta na produção de tecidos para chapéus de chuvas, bandeiras ou papel de forrar paredes, entre outros. Daqui exporta-se para todo o mundo, inclusive Portugal. Uma unidade bem equipada e que contou com o apoio do Estado, embora toda a produção seja gerida por “privados”.  

 

Tal como no resto do mundo, também aqui é possível encontrar diferentes produtos e qualidade, dependendo dos preços que se queira pagar. Nem tudo é muito mau, mas também dificilmente se encontrará produtos de excelente qualidade.

 

É na (boa) gestão deste equilíbrio que muitas das vezes se consegue o negócio mais vantajoso. Tudo dependerá do conhecimento, da experiência e da habilidade negocial do comprador junto do fornecedor. E obviamente que tudo será mais seguro com presença dos interlocutores no terreno. Neste processo em concreto não existem intermediários e o potencial comprador está directamente na fonte, podendo mais facilmente controlar a qualidade do produto final e assegurar o respeito pelos timings definidos.

 

Post publicado originalmente no Albergue Espanhol

 

tags:
Publicado por Alexandre Guerra às 17:38
link do post | comentar
partilhar

About

Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos