Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

Uma tarde em Jericó

 

Vista de Jericó em 1890

 

Jericó é uma cidade única no mundo. Com cerca de 10 000 anos de existência, aquela cidade bíblica é uma das mais antigas do mundo, “afundada” no imenso deserto do Vale do Jordão abaixo do nível da água do mar, revela agora ao mundo uma preciosidade artística.

 

Trata-se de um mosaico com cerca de 900 metros quadrados que cobria o chão da principal área de banhos de um palácio islâmico do século VIII.

 

Esta revelação é chamada ao Diplomata não tanto pelo seu valor cultural (que o tem), mas por aquilo que representa na actual conjuntura política-militar que se vive na Cisjordânia.

 

Após anos de clausura imposta pelas Forças de Segurança Israelitas (IDF) por causa da intifada de al-Aqsa, Jericó parece hoje voltar a viver momentos de alguma abertura para o mundo exterior.

 

Quando a intifada de al-Aqsa espoletou em Setembro de 2000 os territórios da Cisjordânia sofreram restrições de movimentos intensas, tendo Jericó sido uma das cidades que mais sofreu com essa política. Aquela cidade ficou literalmente isolada de todo o território, com as patrulhas das IDF a controlarem todas as estradas de acesso.

 

Situada no meio do deserto, os movimentos de pessoas e de veículos de e para aquela cidade passaram a ser controlados. E qualquer residente de uma outra cidade da Cisjordânia ou cidadão estrangeiro precisava de uma autorização especial para entrar em Jericó.

 

Quando no Verão de 2001 (com atentados a ocorrerem nas ruas de Telavive e de Jerusalém quase semanalmente) o autor destas linhas tentou visitar Jericó num espírito mais aventureiro na companhia de alguns estudantes internacionais, de imediato se passou de um estado de euforia à desilusão.

 

Interceptado pelas IDF, o grupo que caminhava a pé depois de ter viajado em autocarro público até às redondezas recebeu de imediato um “bilhete” de regresso à base a bordo de um dos veículos militares sem ter tido sequer oportunidade de chegar às portas de Jericó.

 

Perante este episódio frustrante, e com o “paraíso” ali tão perto, o autor destas linhas voltou dias mais tarde a fazer uma incursão na cidade bíblica. Desta vez com uma entrevista marcada com Saeb Erekat, na altura o chefe negociador palestiniano.

 

Apanhado um táxi em Ramallah, o autor destas linhas conseguiu chegar às fronteiras de Jericó, uma cidade sitiada pelas IDF, onde ninguém entrava nem saía. Debaixo de um sol abrasador, este visitante entregou o passaporte e, após algum tempo de espera, entrou, finalmente, em Jericó.

 

Uma sensação estranha, de um autêntico forasteiro que tem sobre si todos os olhares dos locais que calmamente se encontram na rua. Visitantes eram raros na cidade e qualquer cara estranha era imediatamente detectada. Mas nem por isso se via qualquer reacção mais emotiva. Não se tratava de desprezo, mas apenas de um mero desinteresse.

 

A cidade estava parada no tempo, amorfa, estrangulada pelo cerco militar e sem qualquer perspectiva de “libertação”. Mesmo assim, “sentia-se” o peso da história e a herança bíblica, fazendo daquele um lugar especial.

 

A conversa com Saeb Erekat correu bem e este autor recorda-se dos lamentos de Erekat por causa do cerco israelita, mas também a simpatia com que aquele responsável se referiu aos portugueses. Depois deste encontro, voltou-se às ruas de Jericó, uma cidade que ficaria para trás minutos depois, isolada no deserto e pronta para resistir mais 10 000 anos às vicissitudes dos tempos.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:47
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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