Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Terão razão aqueles que acusam Obama de ter defraudado as expectativas?

 

Foto: Samantha Appleton/White House

 

Ainda há poucos dias, no balanço do primeiro ano do Presidente Barack Obama na Casa Branca, foram muitas as vozes em todo o mundo que manifestaram o seu descontentamento pelo facto daquele líder ter defraudado as suas expectativas. O mesmo registo já se tinha verificado em Novembro, aquando do aniversário sobre a sua eleição. 
 
As sondagens de popularidade de há um ano são hoje apenas uma recordação para Obama, e reflectem um sentimento de desilusão instalado no seu eleitorado e apoiantes.
 
Perante esta flutuação acentuada da opinião pública face a um líder político num curto espaço de tempo, talvez seja um exercício interessante tentar perceber se essa mesma desilusão assenta em critérios racionais e objectivos ou, por outro lado, se é consequência de uma percepção (legítima, é certo) superficial, muito focada na agenda mediática e imediata.
 
Se se tiver em consideração esta última opção, compreende-se a “desilusão” das pessoas, pelo facto de não terem visto Obama a cumprir as suas promessas num espaço de um ano. Embora legítima, esta percepção resulta de um erro de análise sobre as especificidades do sistema político norte-americano e sobre as dinâmicas do sistema internacional.
 
A verdade é que Obama nunca poderia ter cumprido as suas promessas num espaço do ano. Teria sido materialmente impossível, fossem as que estivessem relacionadas com política interna, fossem as de política externa.
 
O que Obama fez nalgumas matérias foi marcar uma tendência ou quebrar com o paradigma reinante até então, invertendo uma dinâmica que não corresponderia aos interesses dos Estados Unidos e do mundo. Isso verificou-se sobretudo nas áreas do ambiente, financeira e da saúde. Nesta última, Obama terá inclusive superado as expectativas em termos processuais, já que poucos acreditariam que conseguisse chegar tão longe com o projecto da reforma da saúde.
 
Dirão muitos que na prática não se vêem resultados. Em parte é verdade, mas não seria intelectual nem politicamente honesto exigir-se ao chefe de Estado americano que num espaço de um ano conseguisse finalizar todo um projecto de reforma que durante décadas ninguém ousou fazer.
 
Também no ambiente, os agora desiludidos com Obama parecem estar já esquecidos do paradigma adoptado pela anterior administração republicana, liderada por George W. Bush. É incontestável que são praticamente inexistentes os resultados práticos, mas é inegável que Obama demonstrou um novo posicionamento dos Estados Unidos em relação à temática ambiental.
 
Mais curioso é que nem mesmo a “cruzada” que Obama tem feito contra o sistema financeiro norte-americano está a produzir frutos nas sondagens. O que é particularmente estranho, já que as mais recentes medidas anunciadas por Barack Obama para aplicar no sistema financeiro é um tipo de discurso que “dá votos”.
 
Por outro lado, e diga-se em abono da verdade, Obama é o único líder das grandes potências que tem estado a envidar esforços efectivos para introduzir medidas que possam, de alguma forma, compensar as perdas massivas de milhares de pessoas provocadas pelos excessos e irregularidades no seio do sistema financeiro e que foram postas a descoberta durante 2008 e 2009.
 
Aliás, neste capítulo, Obama tem sido bastante agressivo nas suas críticas e avisos aos principais actores do sistema financeiro, uma atitude que contrasta com a de quase todos os líderes mundiais, nomeadamente os portugueses, onde, após uma euforia inicial de “revolta” contra os “excessos”, voltaram a “alinhar” no sistema antigo.
 
Contrariando a tendência de opinião reinante nos últimos tempos, o Diplomata considera que ao fim de um ano não existem razões para defraudamentos nem para euforias, porque em Novembro de 2008, quando Obama foi eleito, qualquer interpretação realista do seu programa jamais conduziria a resultados imediatos.
 
Perante isto, ao fim de um ano de mandato Obama está simplesmente a fazer o seu trabalho e, de certa forma, tem sido estranhamente fiel (para um político) ao seu programa eleitoral. Aliás, para os poucos que se lembram, foi precisamente em Janeiro de 2008 que Obama assinou o seu primeiro decreto presidencial com base numa das promessas eleitorais: o levantamento das restrições ao financiamento federal à investigação em células estaminais embrionárias. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:11
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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