Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Dossier iraniano expõe divergências entre as "secretas" de Londres e de Washington

 

Saeed  Jalili, chefe negociador iraniano, esta Quinta em Genebra/Ruben Sprich/Reuters

 

O reacendimento do chamado "dossier" nuclear iraniano nos últimos dias, após ter sido descoberta uma central secreta de enriquecimento de urânio instalada nas profundezas das montanhas próximas da cidade de Qum, veio expor algo muito interessante e até ao momento escondido, mas que é revelador das diferentes perspectivas que os aliados ocidentais têm em relação a esta questão, nomeadamente os Estados Unidos e o Reino Unido.

 

Perspectivas, essas, sustentadas pelas informações sobre o programa nuclear iraniano que os respectivos serviços de "intelligence" dos dois países têm fornecido aos seus governos ao longo dos últimos anos. E tem sido sobre esta informação que Londres e Washington têm construído a sua abordagem político-diplomática em relação a Teerão.

 

Se, durante os anos de mandato do ex-Presidente norte-americano, George W. Bush, pareceu existir um consenso entre Londres e Washington quanto àquilo que se pensava ser os reais intentos de Teerão face o seu programa nuclear, tendo inclusive a Casa Branca catalogado o Irão como membro do "eixo do mal", a verdade é que a eleição de Barack Obama veio alterar por completo essa harmonia. 

 

Londres e Washington, devidamente enquadrados pelos seus serviços secretos, não têm neste momento a mesma opinião quanto ao programa  nuclear iraniano. 

 

As secretas britânicas acreditam que o Irão tem estado a desenvolver um ogiva desde 2004/2005, num projecto impulsionado pelo próprio ayatollah Ali Khamenei, que terá ordenado o recomeço do programa nuclear após este ter sido aparentemente congelado em 2003. Esta informação foi avançada pelo Financial Times na Quarta-feira, mas tem sido igualmente veiculada por outros meios.

 

Os serviços secretos britânicos estão convencidos de que o Irão não estará muito distante de concluir a primeira arma atómica. Ora, esta posição entra em confronto com a tese da comunidade de "intelligence" norte-americana que há dois anos, através do National Intelligence Estimative, ao qual o Diplomata fez referência em Dezembro de 2007, afastou a possibilidade do Irão estar a desenvolver qualquer tipo de arma de destruição maciça, embora admitindo que o mesmo possa ter intenção de o fazer. 

 

Os britânicos nunca esconderam as suas reservas em relação ao National Intelligence Estimative que, entre outras coisas, revelava que o programa iraniano se manteve congelado a partir de 2003. Seja como for, esta questão nunca assumiu contornos particularmente divergentes durante o tempo de Bush, já que este teve sempre uma enorme desconfiança em relação ao regime de Teerão, independentemente das conclusões dos seus serviços de "intelligence". Uma posição que ia de encontro aos anseios de Londres. 

 

No entanto, Obama parece estar determinado fazer fé no National Intelligence Estimative e, como tal, querer privilegiar a via do diálogo com Teerão, afastando qualquer tipo de agravamento de sanções ou medidas mais duras. Londres não concorda com esta abordagem, uma vez que está convicta de que o programa nuclear iraniano está a avançar consideravelmente.

 

Uma ideia partilhada pelos serviços secretos alemães, embora estes considerem que o programa de construção de uma arma atómica terá sido descongelado apenas em 2007. A informação é avançada ao FT por David Albright, do Instituto para a Ciência e Segurança Internacional em Washington. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:55
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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