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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

A acção dos governantes e a questão da política em pandemias anunciadas (1)

Alexandre Guerra, 17.08.09

 

Enfermeiras a tratarem de doentes com Gripe Espanhola, Massachusetts, 1918

 

Quando há uns meses, de forma algo estranha, diga-se, a Gripe A saltou para o topo da agenda mediática e “agitou” a tão conservadora Organização Mundial de Saúde (OMS), o autor destas linhas lembrou-se de imediato de uma edição já antiga da Foreign Affairs, cujo tema de capa tinha o seguinte título: “The Next Pandemic?”

 

Na edição de Julho/Agosto de 2005 daquela revista, foram publicados vários textos que exploravam o cenário de uma possível pandemia nos anos seguintes e analisavam os casos que aconteceram desde a tristemente célebre Gripe Espanhola.

 

Laurie Garrett, uma das maiores especialistas em questões de saúde e investigadora no Council on Foreign Relations (CFR), foi uma das autoras que contribuiu para aquela edição, não sem antes se poder ler uma “nota” do editor da Foreign Affairs, na qual se alertava para o potencial perigo que a Humanidade corria provocado pela então muito em voga Gripe das Aves (H5N1), que apareceu em Hong Kong em 1997, provocando deste então a morte de milhões de galinhas e patos, sobretudo no sudoeste asiático. Até 2005, a Gripe das Aves foi responsável pela morte de 59 pessoas, depois de terem estado em contacto com animais infectados.

 

Nesse ano, os especialistas estimavam que 40 por cento da população mundial pudesse ser infectada com o H5N1, provocando a morte de um número inimaginável de pessoas. Na verdade, este cenário não se afasta em muito daquele que foi traçado para a actual pandemia da Gripe A, pelo menos no início, uma vez que já se começou a perceber que o número de mortes nunca será maior do que aquele que uma gripe normal provoca anualmente (nos Estados Unidos morrem por ano sensivelmente 38 mil pessoas, o que significa uma percentagem de 0,08 por cento daqueles que são infectados pela vírus da gripe sazonal).

 

Seja como for, tanto na Gripe das Aves como na Gripe A, os especialistas lançaram alertas de pandemia, explorando cenários catastrofistas, mas pouco sustentados cientificamente, com muitos “ses” pelo meio.

 

E tal como aconteceu no caso da Gripe das Aves, também no tema da Gripe A lá surgiu a inevitável comparação com a Gripe Espanhola de 1918-19.

 

Mas nem com a memória daquela Gripe, Laurie Garrett se coibiu de escrever em relação à Gripe das Aves que a Humanidade poderia testemunhar algo que nunca tivesse visto. Por outro lado, defendia-se ao admitir que se podia dar o caso de nada acontecer. O que aliás se confirmou.

 

O problema da afirmação da Garrett não está na sua segundo opção, mas sim na primeira, pressupondo que qualquer pandemia de gripe (seja que estirpe for) se torne pior que a Gripe Espanhola. Potencialmente, diziam os "especialsitas" e jornais, a Gripe das Aves seria mais mortal e, inicialmente, também a Gripe A o era.

 

Ora, tal assumpção é no mínimo pouco cautelosa, quando se está perante os seguintes números da Gripe Espanhola: 675 milhões de americanos, cerca de 6 por cento dos 105 milhões de habitantes de então nos Estados Unidos, morreram. Este número equivaleria hoje a sensivelmente 2 milhões. Por exemplo, o Gana perdeu 5 por cento da sua população em apenas dois meses e a Samoa Ocidental 20 por cento.

 

Enfim, a Gripe Espanhola matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo (estimativa conservadora, porque dizem alguns historiadores que 100 milhões de pessoas pereceram). Ora, estes números são de tal maneira impressionantes que não devem ser evocados de forma leviana, sobretudo se se tiver em consideração as diferenças abismais entre sociedades separadas quase por um século.

  

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