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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

Apontamentos históricos

Alexandre Guerra, 31.03.14

 

"A 6 de Maio de 1941, o senador norte-americano Claude Pepper, num discurso marcante apelando a uma maior intervenção americana em assuntos europeus, defendeu a ocupação dos Açores e de Cabo Verde. Dois dias depois, uma nota oficiosa, redigida por Salazar, foi publicada na imprensa portuguesa declarando não existir qualquer razão para alarme, já que tal ocupação não constava dos propósitos da Administração Roosevelt."

 

in "Salazar" de Filipe Ribeiro de Meneses (D. Quixote, 2009)

 

No more turning way

Alexandre Guerra, 30.03.14

 

 

Os mais recentes números avançados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) são muito preocupantes no que à taxa do risco de pobreza em Portugal diz respeito. Está quase nos 19 por cento. Um valor que merece uma reflexão empenhada por parte das lideranças políticas, que parecem ter andado algo esquecidas deste importante tema.

 

As Nações Unidas, como há uns dias referia o professor Adriano Moreira, identificaram a miséria e também as armas de destruição maciça (WMD) como as grandes ameaças à existência da Humanidade nas próximas décadas. 

 

Ora, se no que diz respeito às WMD, Portugal pouco poderá fazer, já quanto à pobreza os governantes nacionais têm tudo a fazer. O importante é que não virem as costas a um problema que, aliás, deve ser de todos.

 

Quando em 1987 os Pink Floyd lançavam o segundo single do álbum "A Momentary Lapse of Reason" faziam precisamente um alerta nesse sentido. "On the Turning Way" aborda o tema da pobreza e a forma como a sociedade tende a afastar-se daqueles que mais sofrem.

 

Don't accept that what's happening

Is just a case of others suffering

Or you'll find that you're joining

In the turning away  

 

À semelhança de Pedro, também Putin sente que é "Imperador de toda a Rússia".

Alexandre Guerra, 26.03.14

 

Pedro, o Grande (1672-1725), Czar e depois "Imperador de toda a Rússia"

 

Pedro I, mais conhecido como o "Grande" (1672-1725), czar da Rússia, foi um líder que levou modernidade àquele país e provocou uma autêntica revolução cultural e científica, muito influenciado pelos ventos da modernidade que sopravam da Europa Ocidental (São Petersburgo é exemplo disso). Mas nem por isso, Pedro deixou de ser um líder autoritário, que reforçou o absolutismo no estilo de governação, crente na supremacia do poder monárquico indivisível, ao ponto de se auto-denominar de "Imperador de toda a Rússia". Aquilo que formalmente Vladimir Putin não é, mas que na prática sente que é.

 

Czares da Rússia, o primeiro e o actual

Alexandre Guerra, 20.03.14

 

Retrato de Ivan III, conhecido como Ivan, o "Grande" (esq.) e o actual Presidente da Rússia, Vladimir Putin

 

Para entender e compreender o espírito dos líderes russos, ou seja, a forma de como estes vêem a Rússia num contexto hostil e projectam o poder para dominar aquilo que consideram ser o seu “espaço vital” ou a sua área natural de influência, é necessário recuar até aos primórdios da formação daquele Estado enquanto tal.

 

Quando na primeira metade do século XV Moscovo era ainda uma espécie de principado, o grão-príncipe Ivan III (1440-1505) foi o primeiro líder russo a adoptar uma política clara de agregação de vários territórios no sentido de unificar um Estado grande e poderoso. Influenciado pela tradição política mongol, e à semelhança do que iria acontecer com todos os governantes russos até aos dias de hoje, Ivan III impôs um estilo autocrático na prossecução dos seus objectivos.

 

Embora não fosse propriamente um líder sanguinário, nunca deixou de recorrer à violência sempre que não conseguia alcançar os seus objectivos pela via negocial. É através de uma lógica agressiva que vai conquistando alguns territórios para a Rússia que estavam sob o jugo mongol-tártaro.

 

Para aquele líder, Moscovo tinha que se assumir cada vez mais como um pólo imperial. E, para isso, era preciso tornar aquele principado num centro metropolitano da Igreja, ou seja, a “Terceira Roma”. O estilo autocrático dos poderes de Roma e de Constantinopla foram uma inspiração para Ivan, inspiração essa que se tornou uma marca no estilo de liderança russa.

 

Para Ivan III, Moscovo passava a ser o centro da Igreja Ortodoxa e esta assumia-se como um instrumento fundamental para a sua legitimação junto do povo e como correia de transmissão entre o poder e a sociedade feudal. Basta ver a forma como todos os líderes russos, incluindo Vladimir Putin, se relacionam com os patriarcas ortodoxos e percebe-se a proximidade entre a Igreja e o Estado.

 

Quando morreu, Ivan III deixou um Estado russo independente, centralizado e poderoso, tendo Moscovo como capital e um vasto território. Introduziu a cerimónia da coroação e foi o primeiro a denominar-se czar da Rússia. Hoje, e apesar da tal título ter desaparecido do léxico russo com a Revolução de 1917, os líderes russos continuam a personificar o espírito dessa figura autoritária, poderosa e quase semi-divina.  

 

Em muitos aspectos, poucas diferenças há entre Ivan III e Vladimir Putin. Na verdade, ao longo dos séculos, os traços de autoritarismo e, por vezes, de algum totalitarismo aliado a uma violência extrema, estiveram sempre presentes na forma de governar dos líderes russos. Putin não é mais do que um czar dos tempos modernos.

 

Registos

Alexandre Guerra, 19.03.14

 

Se há coisa que não se pode dizer em matéria de comunicação governamental é a de que a medida para a atribuição de "golden visas" tenha tido pouca cobertura mediática em Portugal. No entanto, faltava-lhe ainda o reconhecimento internacional. Ora aí está, a BBC News publicou há horas uma reportagem sobre esta medida.

 

Poucos sabiam ler as Relações Internacionais como José Medeiros Ferreira o fazia

Alexandre Guerra, 18.03.14

 

José Medeiros Ferreira (1942-2014)/Foto: Tiago Miranda/Expresso 

 

Para quem foi sempre um apaixonado e estudioso das Relações Internacionais, José Medeiros Ferreira era um nome incontornável. Não apenas pelo seu conhecimento enciclopédico, sistémico e organizado, mas pela forma inteligente como olhava para o Sistema Internacional e pela astúcia que revelava na maneira como lia os bastidores da Política Internacional.

 

Aos 72 anos, José Medeiros Ferreira morreu esta manhã em Lisboa, deixando obra para ser estudada e revisitada. Deixa também um legado político de muita grandeza, nomeadamente, com o trabalho que desenvolveu enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo constitucional liderado por Mário Soares. Foi nesse período que José Medeiros Ferreira começou a trilhar o caminho da adesão de Portugal à União Europeia (na altura CEE). 

 

Para lá da sabedoria e sapiência política, a simpatia e educação eram traços da sua personalidade reconhecidos por todos. Por razões profissionais, cruzei-me algumas vezes com José Medeiros Ferreira e numa dessas agradáveis conversas de corredor, talvez há dois anos, lembro-me que se falou um pouco da blogosfera (onde era bastante activo). E foi com bastante orgulho que ouvi o professor Medeiros Ferreira referir-se em tom elogioso ao Diplomata. Palavras que vindas de quem vieram têm-se mantido bem vivas sempre que aqui deixo mais um post.

 

Sweet Home Alabama, em defesa da América sulista

Alexandre Guerra, 16.03.14

 

 

Se há música que desperta as sensibilidades da América sulista, essa canção chama-se "Sweet Home Alabama" da mítica e trágica banda, Lynyrd Skynyrd. Lançada em 1974, como single do segundo álbum da banda "Second Helping", foi vista por muitos como uma música que fazia a defesa do modelo de vida de alguns estados do Sul dos Estados Unidos, nomeadamente do Alabama.

 

Aliás, "Sweet Home Alabama" terá sido uma resposta crítica a duas músicas de Neil Young ("Southern Man" e "Alabama"), já que estas tratavam de temas como racismo e escravatura na América sulista. Note-se que os Lynyrd Skynyrd se tornaram numa espécie de repositório de valores e ideais dos estados do Sul, no qual músicas como "Sweet Home Alabama" ou  "Free Bird" se transformaram em autênticos hinos de uma certa América.

 

A própria música "Sweet Home Alabama" refere-se a determinada altura a Neil Young, num tom carregado de ironia, mas também ao governador do Alabama (em suposta sua defesa) e ao escândalo de Watergate. Neste último caso, a banda estaria a dirigir-se aos americanos do Norte com uma mensagem do estilo: "The band was speaking for the entire South, saying to northerners, we're not judging you as ordinary citizens for the failures of your leaders in Watergate; don't judge all of us as individuals for the racial problems of southern society."

 

Efectivamente, o vocalista Ronnie Van Zant, que viria a morrer em 1977, com 29 anos, no tristemente célebre desastre de avião com outros membros da banda, chegou a dizer que a música não pretendia fazer uma defesa do governador do Alabama, George Wallace, este um acérrimo defensor da segregação. "Wallace and I have very little in common. I don't like what he says about colored people", terá dito Van Zant. 

 

Apesar das diferentes leituras que a música possa ter, é inegável que está marcada pelos acontecimentos políticos e sociais da época e materializa o contraste que a América vivia naquela época entre o Sul e o Norte. Não é por isso de estranhar que em Maio de 2006, John J. Miller, ao enumerar na National Review as 50  músicas rock mais conservadoras em termos políticos, tenha colocado "Sweet Home Alabama" em quarto lugar.    

 

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