Um pouco por toda a Europa têm surgido vozes de ruptura com o sistema instituído por tecnocratas e contabilistas. Para estas pessoas que se insurgem contra aquilo que consideram ser uma cegueira sistémica, que tem apenas como objectivo servir os "mercados" e os "interesses" financeiros, a desilusão com os seus líderes é total, dando mesmo lugar, nalguns casos, ao sentimento de revolta, perante governantes que se assemelham a uma "máquina" fiscal, fria e implacável.
Welcome to the Machine, música do grandioso álbum Wish You Were Here (1975), escrita pelos Pink Floyd como crítica ao sistema da indústria musical americana nos anos 70, marcado pela ganância e o lucro.
O Diplomata considera-a apropriada aos dias de hoje.
CIA agent trying to recruit Russian intelligence officer detained in Moscow - FSB é um artigo da televisão RT, que relata uma verdadeira história de espionagem entre o FSB e a CIA.
Há sensivelmente duas semanas, o Diplomata dava conta neste espaço de um artigo do The Guardian sobre a emergência de novas milícias islamitas na Líbia "empurradas" do Mali por causa da intervenção francesa neste país. Hoje, um atentado bombista perto de um hospital em Benghazi provocou a morte de nove pessoas e ferimentos noutras 17.
A situação na Líbia tem-se deteriorado nos últimos meses, levando mesmo a que Londres tenha reduzido todo o seu "staff" diplomático. A instabilidade política na Líbia, resultante da queda de Muammar Khadafi e, posteriormente, da intervenção francesa no Mali, deve ser contida quanto antes, por modo a não alastrar à Argélia e a Marrocos. Mas, para isso, é importante que a União Europeia, nomeadamente os países do Sul, desenvolvam uma estratégia preventiva de "containment", até porque, cada vez mais, se jogam interesses vitais para Portugal nalguns Estados do Magrebe, com Argélia à cabeça.
O Diplomata ficou a saber que o Kumamon (imagem) é "a" mascote de todas as mascotes no Japão, país com tradição naquele tipo de figuras.
Algo vai muito mal na política da África do Sul quando é o próprio Desmond Tutu a afirmar publicamente que não votaria hoje no ANC por discordar do "rumo que as coisas tomaram". Tutu: I will no be able to vote for the ANC, uma entrevista feita ao Nobel da Paz pelo jornal sul-africano, Mail&Guardian.
Desde a revolução egípcia em Janeiro de 2011 que a economia piorou, o tecido empresarial deteriorou-se e o desemprego aumentou, assim como o défice do país. A moeada desvalorizou e a insegurança acentuou-se dramaticamente. A falta de combustível é uma constante. Politicamente, não se pode dizer que o Egipto tenha obtido ganhos particularmente significativos, já que a lógica clientelar mantém-se e desta vez com a cobertura de eleições supostamente livres e justas.
Há quem diga que o Egipto está hoje muito pior do que no tempo de Hosni Mubarak. Uma afirmação compreensível, tendo em conta a forma precipitada como aquele país foi para a "rua" exigir reformas, com o apoio idealista e irrealista das chancelarias ocidentais, esquecendo-se que, num mundo que não é o ideal, por vezes, é preferível manter o status quo, assegurando a estabilidade e a previsibilidade, em vez de se acenar com um ideário democrático e liberal, muito bonito em tese, mas inconsequente na prática num país como o Egipto.
Forças da oposição síria/Foto:Reuters
A comunidade internacional, através dos seus líderes, tem uma tendência para polarizar guerras civis, identificando de imediato os “bons” e os “maus” de acordo com formatações político-ideológicas e conveniências geoestratégicas, mesmo que essa catalogação seja redutora e ignore a “grande área cinzenta” em que se movimentam forças contrárias.
A Síria, mergulhada numa guerra civil sangrenta, é o mais recente exemplo dessa abordagem maniqueísta que quase nunca corresponde à verdadeira realidade dos factos no terreno.
Com a eclosão do conflito sírio, há pouco mais de dois anos, a comunidade internacional ocidental não hesitou em classificar o Presidente Bashar al-Assad como o mais recente déspota opressor dos povos indefesos.
Em parte, esta assunção é correcta, já que o líder sírio não pensou duas vezes antes de avançar contra a sua própria população, por modo a manter o status quo que sustenta a minoria alauita no poder.
Mas esta é apenas uma perspectiva da realidade. O problema é que as principais chancelarias ocidentais têm ignorado a outra parte do problema trágico que afecta a Síria: o comportamento errante e criminoso dos rebeldes (que noutras alturas davam pelo nome de “freedom fighters”).
Já não é de agora que surgem relatos menos dignos do comportamento dos revoltosos na Síria. Além da sua desunião e incapacidade de forjar uma frente política comum, têm vindo a público relatos de abusos inqualificáveis por parte daqueles sobre a população.
Carla del Ponte, alta funcionária da ONU e antiga procuradora-geral do ICTY, vem agora corroborar esses mesmos relatos, sublinhando que há “fortes” indícios e “suspeitas concretas” da utilização de gás sarin por parte dos rebeldes. Del Ponte não exclui também o uso daquela arma química por parte de forças do Governo.
Embora a comissão internacional de inquérito, criada em Agosto de 2011, ainda não tenha provas conclusivas, del Ponte ficou “estupefacta” pelo facto das primeiras indicações apontarem para a culpabilidade dos rebeldes na utilização de gás sarin.
Um golpe brutal na credibilidade da oposição síria e nos esforços de criar uma alternativa política séria ao regime de Bashar al-Assad, até porque poucos terão coragem para colocar em causa o relatório da comissão liderada pela conceituada e respeitada Carla del Ponte.
Como escrevia Bridget Kendall, correspondente diplomática da BBC News, uma coisa são as suspeitas que têm vindo a público de fontes pouco credíveis, outra coisa são indícios levantados por uma alta funcionária da ONU.
Outro ponto a favor da credibilização dos resultados da comissão independente tem a ver com o método utilizado, baseado na recolha de testemunhos directos no terreno.
Este cenário levanta o que restava do véu que ainda cobria parte da crueldade de um conflito interno entre duas forças que não hesitam em sacrificar a população inocente para avançar nas suas posições.
Com o regime de Damasco condenado (e com razão) pela opinião pública internacional e com a oposição síria cada vez mais descredibilizada, é improvável que Washington tenha algum interesse em envolver-se na Síria.
Sem um interlocutor viável e sério para apoiar na Síria, o Presidente Barack Obama, de forma mais ou menos directa, já deixou bem claro a sua mensagem de que não tem intenção de se “meter” nos assuntos internos da Síria. Moscovo e Pequim não parecem também muito interessados em alterar qualquer relação de forças naquele país do Médio Oriente.
Perante esta acomodação de interesses geopolíticos, a Síria tende a médio prazo tornar-se palco de um conflito crónico que poderá baixar de intensidade com o passar do tempo, mas nem por isso menos trágico para a sua população.
Texto publicado originalmente no Forte Apache.
Obama, na Situation Room, no dia 2 de Maio de 2011, a acompanhar via teleconferência a operação dos Navy Seals para a captura de bin Laden/Foto: Souza/Casa Branca
É muito interessante analisar-se todo o processo de decisão que sustentou a ordem presidencial de Barack Obama para a operação dos Navy Seals que culminou na eliminação de Osama bin Laden, a 2 de Maio de 2011, na cidade paquistanesa de Abbottabad, a poucos quilómetros de Islamabad.
Num esclarecedor documentário Panorama BBC, o último emitido esta semana na SIC N, são os próprios intervenientes, incluindo Obama, a explicar todos os passos do processo político que antecedeu a operação militar.
Uma das revelações mais interessantes tem a ver com a contratação de uma equipa de consultores externos, especialistas em análise de informação sensível, por modo a providenciar um olhar mais neutro sobre todo o processo de "intelligence" que a CIA e outras agências levaram a cabo.
Para a administração Obama era importante ter uma análise crítica de alguém que não tivesse estado envolvido no processo de recolha de informação, nomeadamente, aquela que colocou bin Laden num complexo em Abbottabad, numa determinada hora no dia 2 de Maio de 2011.
Perante a ausência de certezas, Obama teve que basear a sua decisão em probabilidades e, num último momento, no seu "feeling" político. Perante um impasse, já que os assessores da Casa Branca davam mais de 60 por cento de probabilidades de bin Laden se encontrar no complexo identificado pela CIA, e os consultores externos ficavam-se no máximo pelos 40 por cento, o Presidente recorreu à aritmética pura.
Obama chegou à conclusão que fazendo a média existiam 50 por cento de probabilidades de bin Laden estar, ou não estar, naquele complexo. Ou seja, havia 50 por cento de possibilidade do Presidente tomar uma decisão acertada ou uma decisão desastrosa. Com este cenário qualquer opção seria racionalmente válida, no entanto, uma decisão errada teria custos enormes. Uma escolha acertada traria um novo fôlego político ao Presidente.
Com uma decisão dessas para tomar, e sem indicadores peremptórios que apontem num ou noutro sentido, é aqui que entra o "feeling político". Obama disse mesmo aos seus conselheiros, depois de colocados todos os cenários em cima da mesa, que "ia dormir sobre o assunto" e na "manhã seguinte" teria uma decisão. E assim foi. A ordem foi dada e tornou-se numa das operações de forças especiais mais bem sucedidas da história militar dos Estados Unidos.
Obama, esse, pode orgulhar-se de ter sido o responsável pela eliminação de um fantasma que há uma década pairava sobre os Estados Unidos.
