Se houve filme do James Bond que antecipou o papel das organizações criminosas internacionais contra a segurança dos Estados foi o "From Russia With Love", rodado em parte na bela cidade de Istambul. O segundo filme da saga colocou pela primeira vez 007 frente à perversa SPECTRE.
No seguimento do texto que o Diplomata aqui escreveu sobre "a cultura do desporto e o poder dos Estados", sugere-se a leitura do ponto de vista do jornalista somali em Inglaterra, Idil Osman, em Can the Mo Farah effect help Somalis and Somalia?, no site da BBC News.
No último texto colocado neste espaço, o Diplomata referia-se às "várias faces de uma classe média indiana citadina e de um sistema empresarial perverso e sem princípios éticos, longe de corresponder àquela imagem da Índia orientada pelas boas práticas e pelos valores mais elevados da espiritualidade". O artigo Viewpoint: How India's first Playboy model Sherlyn Chopra defied convention, da BBC News, dá um exemplo concreto da hipocrisia latente na sociedade indiana.
No seguimento de dois textos aqui escritos a propósito de duas obras literárias lidas recentemente que, através dos seus enredos, descreviam subtilmente as respectivas sociedades e períodos históricos em que se inseriam, o Diplomata escreve agora sobre o terceiro e último livro que tinha referido.
Assim, depois de “Quem Matou Palomino Molero?” (1986) de Mario Vargas Llosa e de “O Amor nos Tempos de Cólera” (1985), de Gabriel García Márquez, é a vez de o “O Último Homem na Torre” (2011) de Aravind Adiga.
É o segundo livro daquele escritor indiano depois de se ter estreado em grande estilo com o fabuloso e aclamado “O Tigre Branco”, vencedor do Man Booker Prize em 2008.
Voltando ao “O Último Homem na Torre”, o Washington Post descreveu-o da seguinte forma: “Funny, provocative and decadent: Aravind Adiga’s ‘Last Man in Tower’ is the kind of novel that’s so richly insightful about business and character that it’s hard to know where to begin singing its praises.”
Nesta obra, à semelhança da primeira, Aravind Adiga lança um olhar acutilante e incisivo sobre a sociedade indiana contemporânea, mais concretamente sobre o seu lado mais cosmopolita.
Os vários personagens que compõem a história, quase todos concentrados numa torre de habitação em vias de ser demolida para dar lugar a um empreendimento de luxo em Mumbai (Bombaim), representam as várias faces de uma classe média indiana citadina e de um sistema empresarial perverso e sem princípios éticos, longe de corresponder àquela imagem da Índia orientada pelas boas práticas e pelos valores mais elevados da espiritualidade.
Cartagena, Colômbia, provavelmente a cidade que inspirou Gabriel García Márquez para o cenário do romance entre Florentino e Firmina.
Há uns dias o Diplomata escrevia que “uma das melhores formas de se ir conhecendo as sociedades nos seus diferentes períodos históricos é através dos romances. Por vezes relegando os factos para um plano secundário (esse papel cabe aos historiadores), os escritores compensam com a riqueza literária para descrever as nuances sociais, tão importantes para caracterizar diferentes épocas, regimes e sistemas de Governo”.
O autor destas linhas tinha então mencionado três romances lidos recentemente e que se enquadravam naquela lógica. O primeiro já foi aqui referido: “Quem Matou Palomino Molero?” de Mario Vargas Llosa.
Outro dos livros lidos foi o “O Amor nos Tempos de Cólera” (1985), de Gabriel García Márquez. Uma obra que retrata, de forma sublime, os costumes da vida privada de uma certa elite das sociedades latino-americanas em finais do século XIX. Mas não só.
A história da devoção amorosa de Florentino Ariza por Firmina Daza, que se prolonga por mais de 50 anos e entre pelo século XX, é o fio condutor de um retrato realista do modelo de sociedade numa cidade algures próxima do Mar das Caraíbas, que nunca é identificada, embora muitos considerem ser Cartagena, onde García Márquez estudou.
Refira-se que o escritor colombiano se inspirou na história de amor verídica dos seus pais para o enredo do seu livro.
Além da sua intensidade literária, “O Amor nos Tempos de Cólera” é particularmente revelador pela forma como dá a conhecer uma sociedade a precipitar-se para a modernidade, mas ainda amarrada aos seus preconceitos, aos seus hábitos conservadores, ao seu provincianismo, ao seu atraso civilizacional.
Uma sociedade que, apesar de estar a espreitar o progresso, ainda está muito afastada daquilo que é idealizado pelos personagens de Márquez como o expoente máximo da civilização: a Europa, nomeadamente, Paris.
Zho Lulu, atleta chinesa a bater um recorde mundial/Foto: Oficial/London2012
Que ninguém se iluda, em Portugal não existe uma cultura desportiva na sociedade e muito menos uma abordagem política ao desporto enquanto factor de poder de um Estado (tal como também não existe para a língua ou para a cultura).
E quando se menciona desporto convém referir que não se está a falar de passeatas de Domingo no paredão da marginal ou de algumas futeboladas entre amigos de semana a semana.
O desporto, que aqui interessa, é aquele que se insere numa lógica competitiva, que pressupõe a superação diária de dificuldades, um espírito de autossacrifício e a ambição pela perfeição e pelos resultados. O desporto, assim, glorifica os seus intervenientes e prestigia as suas bandeiras.
Muitas das vezes, os Estados tentam reflectir nos feitos desportivos (tal como noutras áreas) um certo modelo de sociedade, evoluída e sofisticada. Na verdade, um pouco à imagem do pensamento “platónico”, a integração do desporto no quotidiano dos cidadãos representa um estádio evolutivo da "cidade".
Todas as nações com ambições nas Relações Internacionais utilizam o desporto como forma de prestígio e de ascensão mundial. Muitas das vezes de forma perversa, como aconteceu na Alemanha do III Reich, no regime Soviético durante a Guerra Fria ou na China emergente no início dos anos 90. Nestes casos não se podia falar numa verdadeira cultura social pelo desporto, mas antes numa política autoritária/totalitária governamental de “produção” de campeões. Um modelo que, à semelhança do paradigma que regia as suas sociedades, era insustentável e tendia a desabar, como veio a acontecer. A própria China, em plena globalização, foi obrigada a repensar a sua política desportiva, caso quisesse integrar o “concerto” das nações "respeitadas" no sistema internacional.
Entre os países mais desenvolvidos o desporto também foi sempre visto como um factor de poder, altamente valorizado, no entanto, o seu enquadramento na sociedade foi feito de forma “democrática” e sustentável.
Os Estados Unidos, goste-se ou não, serão o expoente máximo dessa homenagem ao desporto. Paradoxalmente, é um país que cultiva o sedentarismo e o facilitismo, mas ao mesmo tempo existe um entusiasmo genuíno pelo desporto.
Um entusiasmo que nasce nas comunidades familiares ou de bairro e que depois amadurece no âmbito do desporto escolar (levado a sério e não como uma brincadeira como acontece em Portugal). Depois é nas universidades que se fazem os campeões.
Se nos Estados Unidos a valorização do desporto e das suas várias modalidades é uma realidade intrinsecamente ligada às grandes políticas governamentais, também países como o Reino Unido, a Espanha ou a China são sensíveis a esta matéria.
Embora com poucas medalhas nestes Jogos Olímpicos, a Espanha é um caso muito interessante pela forma como tem utilizado o desporto (mas também a sua língua e cultura) para se afirmar no mundo. Mas será a China o melhor exemplo dessa relação do desporto com a imagem do Estado, com os actuais Jogos Olímpicos a espelharem fielmente o poderio emergente do Império do Meio no sistema internacional.
Outros exemplos há. Veja-se o Cazaquistão. Herdeiro da predisposição soviética para a valorização do desporto, os seus líderes têm procurado potenciar determinadas modalidades como forma de afirmação daquele país, sobretudo num contexto regional. A sua equipa de ciclismo, a Astana (capital), será o expoente máximo dessa estratégia, com Alexandre Vinokurov à cabeça e que venceu a medalha de outro na prova de estrada destes Olímpicos.
Também países como o Quénia ou a Etiópia, com os seus inúmeros campeões de atletismo nas disciplinas de fundo e meio fundo, ou ainda a Jamaica, com os seus velocistas, assumem-se com um alto perfil na cena internacional no que diz respeito ao desporto.
O mais interessante nestes Estados é que parece haver uma orientação para os resultados nas disciplinas potencialmente vencedoras, numa estratégia em que os Governos e as respectivas federações nacionais desempenham um papel muito importante.
Um dos pontos comuns entre estes países menos avançados e nações como os Estados Unidos ou a Espanha é a focagem concertada e estratégica que passa por uma cultura colectiva permanente de respeito e de gosto pelo desporto e pelas modalidades que são mais acarinhadas nas sociedades.
Ora, em Portugal, à semelhança do que tem acontecido com a língua e a cultura, não se pensa o desporto como recurso nacional. À falta de cultura desportiva dos cidadãos, associa-se a ausência de um pensamento estratégico sobre a política do desporto.
Os portugueses lá despertam para o “desporto” de quatro em quatro anos. Pelo meio, é futebol, futebol e futebol. Na verdade, Portugal é dos poucos países desenvolvidos onde uma modalidade se sobrepõe de forma tão desequilibrada sobre as outras.
Os cidadãos, pouco cultos (desportivamente falando, claro está), não têm predisposição para, regularmente, irem acompanhando o mundo do desporto (com excepção do futebol). E muito menos sensibilidade têm para passar e incutir aos seus filhos os valores do desporto.
Dos líderes políticos não se ouve uma palavra sobre o assunto e a imprensa só revela ignorância (com uma ou outra excepção). Veja-se a pobreza do discurso no sequência da falta de medalhas da comitiva portuguesa nos Jogos... Lá veio a mais que previsível discussão sobre as bolsas dadas aos atletas. Hoje, infelizmente, tudo se parece resumir a contas de merceeiro.
Mas o problema é que o tema dos apoios só faz sentido ser discutido se primeiro forem feitas as perguntas certas, tais como: “Que desporto Portugal quer ter?”; “Faz sentido levar mais de 70 atletas aos Olímpicos, quando alguns deles não têm argumentos competitivos aceitáveis?”; “Quais são os atletas que estiveram em consonância com as suas marcas do ano e aqueles que estiveram muito abaixo?”; “Que tipo de projecto olímpico faz sentido para Portugal?”.
Nem uma destas perguntas foi feita pela imprensa ou pelos decisores. Mais, são poucos os que têm tido a perspicácia de analisar os resultados nacionais verdadeiramente inéditos e importantes que se têm estado a alcançar nestes Jogos Olímpicos. Resultados, esses, (nomeadamente, com algumas meias-finais e finais), que são sustentáveis no tempo e que resultam de um esforço continuado ao longo dos últimos anos.
O problema é que à nossa sociedade portuguesa falta-lhe a tal cultura do desporto, inviabilizando qualquer debate profícuo e sério sobre o assunto, assim como a criação de bases sólidas para uma abordagem estruturada ao desporto. O que se vê é antes uma psicose contemporânea obsessiva pelo “saudável” (onde impera a lógica dos ginásios, do “light”, das dietas) que nada tem a ver com desporto nem com os seus valores.
Numa declaração de interesses, o autor destas linhas confessa-se um apaixonado e desde sempre um praticante de desporto. Começou cedo e muito jovem já tinha três a quatro treinos por semana. Antigo competidor de judo nos escalões de infantil, juvenil e de júnior, chegou a ser internacional, com um segundo lugar em França. Para um jovem, são momentos que nunca mais se esquecem e que ajudam a moldar o carácter e a forma de estar em sociedade.
Desde então que o desporto é parte integrante da vida. Hoje, e de há 15 a 20 anos a esta parte, o prazer de correr ou de pedalar em BTT (seja em Cross Country ou Enduro/Freeride) faz parte do quotidiano.
Para este autor, a paixão pelo desporto não surge de quatro em quatro anos, ela está lá diariamente e faz parte da sua vida. De quatro em quatro anos é, sim, a hora da festa olímpica e da glorificação daqueles semideuses.
Texto publicado originalmente no Forte Apache.
Foto:Studio Total
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