Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O massacre que o Islão nunca esqueceu

Alexandre Guerra, 19.09.11

 

 

Há uns tempos, o autor destas linhas comprou um daqueles pequenos livros da Penguin, de sensivelmente 60 páginas, em que se podem ler extractos da extensa obra “A History of the Crusades” (Cambridge University Press, 1951) do conceituado historiador britânico “Sir” Steven Runciman, falecido em 2000, com 97 anos.

 

Tendo dedicado parte da sua vida ao estudo da Idade Média, Runciman teve em “A History of the Crusades” a sua grande criação, que ainda hoje é um farol para aqueles que pretendem debruçar-se sobre o conhecimento das incursões cristãs no Médio Oriente.

 

O tal pequeno livro da Penguin, de forma muito sucinta e clara, versa sobre os preparativos da Primeira Cruzada e o “assalto” a Jerusalém, sem esquecer os conturbados acontecimentos que se verificaram em Constantinopla e noutras cidades durante a jornada.

 

Começa por ler-se sobre o entusiasmo e o apelo às armas do Papa Urbano II, no final do Verão, início de Outono de 1095, altura em que começa o movimento inspirador das Cruzadas.

 

Da mobilização ao envio dos primeiros cruzados passaram poucos meses, para que se iniciasse um processo de violência desenfreada numa lógica da Cristandade contra todos (judeus, turcos, muçulmanos), incluindo contra os "irmãos" cristãos espalhados pelo Império Bizantino.

 

As atrocidades e a violência cometidas em nome da Fé durante a Primeira Cruzada, nomeadamente aquando do assalto e do massacre de Jerusalém em Julho de 1099, levaram Runciman a encontrar resposta para a questão primeira sobre a origem do conflito entre o Cristianismo e o Islão e que se perpetuou até aos dias hoje, afirmando que “o banho de sangue foi a prova do fanatismo cristão que recriou o fanatismo do Islão”.

 

O interessante nesta pequena passagem da obra de Runciman (uma obra que este autor confessa não conhecer) é ficar expressa a ideia de que a origem doutrinária da inimizade que persiste nos tempos modernos entre o Islão e o Cristianismo remonta à Primeira Cruzada, fazendo uma distinção com os séculos anteriores de expansão árabe.

 

Runciman centra-se, antes, em episódios concretos de uma política papal e europeia expansionista na qual os fins justificaram todos os meios de violência.

 

Aquilo que é hoje o ressentimento doutrinário e ideológico do Islão contra o estilo de vida das sociedades ocidentais de herança cristã pode ter origem nos acontecimentos dramáticos naqueles dias de Julho de 1099 que se seguiram à conquista de Jerusalém, quando no interior das muralhas daquela cidade os cruzados eufóricos com a sua vitória invadiram ruas, casas, mesquitas e sinagogas, não poupando homens, mulheres e crianças muçulmanas e judaicas.

 

Raymond of Aguilers, um dos cronistas da Primeira Cruzada e que na manhã a seguir ao massacre (15 de Julho) chegou ao Pátio das Mesquitas (principal local sagrado muçulmano na cidade histórica de Jerusalém), conta que viu o chão coberto de corpos e de sangue que chegava até aos seus joelhos.

 

O massacre de Jerusalém impressionou o mundo, desconhecendo-se o número de vítimas, falando-se em milhares. Certo foi que a cidade ficou sem muçulmanos e judeus. Mesmo entre alguns cristãos, aqueles acontecimentos causaram horror.

 

Perante estes acontecimentos, Runciman relembra que mais tarde, quando alguns sábios religiosos do quarteirão latino em Jerusalém “tentaram encontrar alguma base na qual cristãos ou muçulmanos pudessem trabalhar juntos, a memória do massacre estava sempre no seu caminho”.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.

 

Registos

Alexandre Guerra, 15.09.11

 

Nuno Rogeiro, um dos mais esclarecidos e sabedores comentadores desta praça, escreveu no seu habitual comentário semanal na revista Sábado o seguinte: "O que precisamos, nesta hora de tormenta, não é de dramatização, e muito menos de enredos de ópera bufa, com cobradores de fraque alemães, protegidos por segurança privados, a ir às repartições de finanças gregas resgatar sacos de dinheiro, jóias, pedras preciosas e outros tesouros escondidos, no meio de multidões em fúria, irresponsáveis ou culpadas."

 

Sinais preocupantes para Obama vindos de Brooklyn e de Queens

Alexandre Guerra, 14.09.11

 

O republicano Bob Turner, ontem à noite, a festejar a conquista do seu lugar no Congresso/Foto:AP

 

O Presidente Barack Obama e toda a sua equipa de reflexão política deverão começar a analisar com muita atenção os sinais que estão a ser dados por algum eleitorado tradicionalmente democrata. Sobretudo quando alguns destes sinais representam viragens históricos no mapa político democrata dos Estados Unidos.

 

Aquela que seria uma corrida eleitoral ganha à partida pelo democrata David I. Weprin, para substituir o seu correligionário Anthony D. Weiner na Câmara dos Representantes do Congresso pelo estado de Nova Iorque, acabou por revelar-se uma desilusão para os democratas e para Obama.

 

De acordo com os resultados já conhecidos, Bob Turner, republicano pouco conhecido e homem de negócios de Queens, bateu Weprin nas urnas, galvanizando a liderança a nível nacional do Grand Old Party, que deverá fazer desta vitória mais um motivo de ataque às políticas seguidas por Obama.

 

Os republicanos deverão aproveitar ainda o facto da derrota Weprin ter acontecido num círculo eleitoral tradicionalmente democrata (com um rácio de três democratas para um republicano), que ocupa partes de Brooklyn e de Queens, e que desde os anos 20 nunca deu uma vitória ao GOP.

 

Obama tem muitas razões para estar preocupado, já que Weprin, além de ter partido para a campanha com mais fundos (500 mil) do que o seu adversário (200 mil), contou com o apoio de figuras de relevo do Partido Democrata, tais como o antigo Presidente Bill Clinton.

 

Estas eleições foram convocadas depois de Weiner se ter demitido no âmbito do escândalo em que se envolveu na sequência de mensagens eróticas trocadas no Twitter.

 

Recordar o que foi escrito nas primeiras horas a seguir ao 11 de Setembro

Alexandre Guerra, 11.09.11

 

Naquelas horas da manhã de Terça-feira de 11 de Setembro de 2001, sentado numa das secretárias da redacção do jornal Semanário, com a CNN (ou a BBC?) ligada, era impossível não assistir em directo à queda da segunda torre do World Trade Center.

 

O autor destas linhas sabia que nas 48 horas seguintes, até Quinta-feira à noite (fecho do jornal), lhe caberia a missão de escrever os primeiros capítulos de uma história cujo desfecho ainda está por concretizar.

 

Assim, no dia 14 de Setembro, na primeira edição do Semanário a seguir aos atentados, saíram estes três artigos da sua autoria:

 

 

 

 

Talvez por ingenuidade ou precaução, o autor destas linhas recorda-se que, na hora de fecho do jornal, chegou a falar com director Rui Teixeira Santos sobre a possibilidade de se colocar um ponto de interrogação no "Guerra Inevitável", manchete da edição do Semanário de 14 de Setembro de 2001.

 

 

Post publicado originalmente no Forte Apache.

 

A nova "arma" da política externa russa já está operacional

Alexandre Guerra, 07.09.11

 

Uma das componentes do pipeline a bordo do navio Castoro Sei no Mar Báltico/Foto: Nord Stream

 

No meio de tanto "entusiasmo" no que respeita ao debate sobre a crise dos mercados e das dívidas soberanas e respectivas fórmulas milagrosas de salvação europeia, talvez seja importante sublinhar que a Alemanha e a Rússia acabam de concretizar um dos projectos estratégicos mais importantes para os próximos anos no âmbito da política energética, não apenas daqueles dois países, mas também da Europa. O tão esperado Nord Stream já está operacional, devendo em Outubro começar a fornecer gás natural proveniente da Rússia directamente para a Alemanha, através do gasoduto de pipeline duplo colocado no Mar Báltico.

 

Ainda numa fase técnica inicial, visando o aumento da pressão no pipeline, a cerimónia de arranque foi levada a cabo esta terça-feira pelo primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, um dos mentores deste projecto, que também teve o apoio fervoroso da chanceler alemã, Angela Merkel. A inauguração oficial, no entanto, será só em Novembro com uma visita do Presidente Dimitri Medvedev à Alemanha.

 

 

Atendendo às necessidades energéticas europeias crescentes e às consequentes políticas de conflito daí resultantes, o Nord Stream é mais do que um mero gasoduto. É sobretudo uma arma de política externa da Rússia que se jogará no tabuleiro da geoestratégia e da geopolítica da Europa. Isto não quer dizer que este projecto seja hostil aos interesses da Europa. Na verdade, alguns países da União Europeia serão beneficiados, já que receberão o gás natural russo de uma forma mais segura, rápida e eficaz. Convém não esquecer as várias “crises” energéticas que a Europa tem assistido em invernos recentes, como em 2006 e 2009, provocando nalguns países situações de autêntica ruptura no fornecimento de energia.

 

Mas dentro do espaço comunitário é sem dúvida a Alemanha a principal beneficiária, tendo o privilégio de ter um gasoduto directamente ligado à “fonte”, poupando-se às dores de cabeça provocadas pelas passagens turbulentas em países como a Ucrânia. Há muito que Merkel tinha percebido a importância estratégica deste projecto para a Alemanha, não sendo por isso de estranhar que o mesmo tenha despertado a “realpolitik” pura e dura do Estado alemão.

 

Quando em Outubro de 2008 a chanceler alemã e Dimitri Medvedev se encontraram em São Petersburgo, tinham passado poucas semanas sobre a “invasão” russa na Ossétia do Sul, que tinha gerado a indignação da Europa, incluindo a alemã. Ora, indignação à parte, a ofensiva militar russa e os supostos crimes de guerra cometidos durante os cinco dias de conflito com os soldados da Geórgia não foram suficientes para travar os ímpetos negociais de Merkel em São Petersburgo na defesa dos seus interesses.

 

Na altura, Merkel assegurou para a Alemanha uma importante participação (25 por cento) na exploração do campo de gás natural de Yuzhno-Russkoye na Sibéria. Em troca, o Estado alemão abdicara de metade dos 6,5 por cento que detinha na Gazprom, a empresa russa de gás natural. Com aquele negócio, a E.On, empresa alemã de energia, passou a ter acesso a um vasto campo de gás natural e a Gazprom abdicou das suas pretensões de adquirir uma parte do capital daquela companhia. Como contrapartidas, a Gazprom enfraqueceu a presença alemã no capital da empresa e obteve por parte daquele país um impulso para a construção do projecto Nord Stream.

 

Mas é sem dúvida Moscovo o principal interessado ao ver no Nord Stream uma ferramenta económica poderosa e uma "arma" de política externa eficaz para lidar com alguns Estados vizinhos com quem o relacionamento tem sido mais conturbado. Com este gasoduto a Rússia coloca directamente no mercado europeu (através da Alemanha) o gás natural proveniente das suas imensas reservas, sem que tenha que recorrer a outros gasodutos que transitam por vários países, como a Ucrânia ou a Polónia. Não é por acaso que a Polónia e a Ucrânia foram as vozes mais críticas ao projecto Nord Stream, vendo os seus territórios serem secundarizados no âmbito da estratégia energética europeia.

 

Mas é sobretudo em relação a Kiev que a rota do Nord Stream vai permitir que Moscovo se liberte das tensões e chantagens político-diplomáticas exercidas pelo Governo ucraniano. O  Nord Stream, orçado em 8,8 mil milhões de euros, é composto por um pipeline duplo, estando a primeira linha totalmente construída, com os seus 1224 quilómetros, devendo a segunda linha estar operacional em 2013, tendo até ao momento sido construídos 663 quilómetros.

 

Texto originalmente publicado no Forte Apache.

 

O Cisne Negro (1)

Alexandre Guerra, 01.09.11

 

 

De tudo o que se tem escrito sobre a crise financeira internacional e as revoluções árabes que nos últimos meses eclodiram no Médio Oriente e no Magrebe, não deixa de ser irónico que um dos artigos mais interessantes que o Diplomata leu sobre esta matéria tenha vindo da pena de um professor em Engenharia de Risco no Instituto Politécnico da Universidade de Nova Iorque, com a colaboração, é certo, de um outro professor em Economia Política da Universidade de Brown.

 

A abordagem que os dois autores fazem àquela problemática é verdadeiramente refrescante e ao ler-se o seu artigo (Foreign Affairs, Maio/Junho) fica se com uma perspectiva sólida e científica relativa ao enquadramento que ajuda a explicar o surgimento de fenómenos repentinos, tais como as revoltas das ruas árabes ou, até mesmo, a emergência inesperada da crise financeira internacional em 2008.

 

Para isso, os autores recorrem sobretudo ao paradigma da engenharia de risco, como forma de antecipar comportamentos de estruturas ou sistemas.

 

Nassim Nicholas Taleb e Mark Blyth evitaram seguir os modelos comuns de análise que têm sido utilizados e optaram por aplicar os princípios da engenharia, partindo do pressuposto que a crise financeira internacional ou as revoltas dos países árabes apresentavam indícios de risco semelhantes àqueles que podem ser detectados antecipadamente em estruturas ou sistemas.

 

Dizem os autores que um dos pontos comuns em ambas as “crises” é a assumpção (errada) à posterior de uma certa impotência perante algo que era desconhecido e imparável.

 

Ora, para os autores do artigo este é um dos maiores mitos que tem estado por detrás de muitas análises feitas a estes casos. A verdade é que em ambas as situações os sinais de fractura estavam lá, embora esbatidos por uma normalidade artificial.

 

A tentação política de suprimir artificialmente a volatilidade de sistemas, com o objecto de forçosamente de se manter um determinado status quo, conduz a situações potencialmente explosivas.

 

O que aconteceu com a crise financeira internacional e agora mais recentemente com as revoltas nas ruas árabes são consequências da contenção em alta pressão feita sobre esses mesmos sistemas.

 

Como escrevem Taleb e Blyth, “sistemas complexos aos quais foram suprimidos artificialmente a volatilidade tendem a tornar-se extremamente frágeis, ao mesmo tempo que não exibem riscos visíveis”.

 

Na realidade, estes sistemas tendem a ter um comportamento calmo e a não exibir variações significativas, à medida que os riscos se vão acumulando silenciosamente.

 

Uma tendência que a médio e a longo prazo pode ter efeitos devastadores, como agora se comprova, mas que o poder político teima em manter, pensando que está a promover uma maior estabilidade nas suas comunidades. Porém, ao interferir-se artificialmente nestes sistemas, o mundo torna-se menos previsível e mais perigoso.

 

Estes sistemas ficam potencialmente propensos àquilo que Taleb chama de “cisnes negros”, acontecimentos de grande escala, que podem ser negativos ou positivos, e que fogem à normalidade estatística, sendo largamente imprevisíveis para o observador. Aliás, Taleb notabilizou-se precisamente pelo desenvolvimento da teoria do "cisne negro", com o livro The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable.  

 

Pág. 2/2