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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

“Nós precisamos de repensar o Governo europeu”, diz Passos Coelho

Alexandre Guerra, 15.05.11

 

Esta tarde, na Taverna dos Trovadores, Pedro Passos Coelho responde a várias questões dos bloggers

 

A União Europeia está “num período muito difícil”, numa “fase de ressaca”, disse este Domingo, Pedro Passos Coelho, respondendo a uma questão colocada pelo Diplomata, num encontro realizado com vários bloggers, na Taverna dos Trovadores, em Sintra.

 

Para o candidato do PSD às eleições legislativas do próximo dia 5 de Junho, a União Europeia verifica hoje vários “desequilíbrios”, resultante da falta de solidificação da união política do projecto comunitário.

 

Passos Coelho rejeita a ideia de uma Europa a várias velocidades, no entanto, refere que o “alargamento foi feito de uma forma muito rápida”, e que isso está a colocar em causa a própria construção europeia.

 

Os inúmeros desafios com que a Europa se depara actualmente, tais coma a crise do euro, os desafios da Dinamarca ao sistema de Schengen, os movimentos migratórios provenientes dos países do Norte de África (que Passos Coelho quer fazer “espaços naturais de cooperação europeia”), são reflexos de uma construção europeia demasiado acelerada sem que se tivesse consolidado a sua governação interna.

 

É por esta razão que Passos Coelho se mostra bastante prudente quanto à adesão de novos Estados, nomeadamente a Turquia, salientando que é preciso avançar “sem pressa de mais” no processo de alargamento. “Nós precisamos de repensar o Governo europeu”, alerta.

 

E como? Passos Coelho dá alguns exemplos, nomeadamente com a implementação de novos mecanismos, tais como a gestão conjunta da dívida europeia ou a criação de "um orçamento comunitário que sustente os choques assimétricos".

 

O candidato do PSD lembra, no entanto, que qualquer mudança desta natureza implica revisões ao nível dos tratados europeus.

 

Uma "Primavera" cada vez mais sangrenta

Alexandre Guerra, 15.05.11

 

 

Os líderes ocidentais, numa euforia cega e desmedida, abraçaram aquilo que consideravam ser uma espécie de "Primavera" árabe, esquecendo-se do realismo político e ignorando todos os ensinamentos da História dos povos.

 

De uma forma ingénua, a opinião pública na Europa e nos Estados Unidos foi atrás e pensou que tudo ia ser como na Tunísia, com as pessoas a virem pacificamente para a rua a exigir a queda dos seus "ditadores", e a clamarem, entusiasticamente, por democracia ao som de cânticos e de "vivas" ao Exército. 

 

Uma história bonita, mas longe da dura realidade do Médio Oriente e do Magrebe. A verdade é que no Egipto já tinham surgido alguns sinais preocupantes de que esta "febre" revolucionária repentina podia acabar mal para alguém.

 

É então na Líbia que estala um verdadeiro processo revolucionário e reaccionário e com tudo o que isso acarreta. Para quem ainda não tenha reparado, a NATO está com um verdadeiro problema em mãos e não sabe como resolvê-lo. Na Síria, os contornos ameaçam ser ainda mais sangrentos, começando a vislumbrar-se situações aterradoras.

 

Na Sexta-feira à noite, o Diplomata via na CNN estas imagens brutais. Imagens, essas, que devem fazer reflectir todos aqueles que irresponsavelmente apoiam e embarcam em aventuras revolucionárias sem tentar perceber quais são os melhores meios para atingir determinados fins. 

 

A lusofonia como factor de poder voltou a ser esquecida nos programas do PS e do PSD

Alexandre Guerra, 13.05.11

 

O Diplomata pede desculpa aos seus leitores por não ter escrito até ao momento uma única palavra sobre a campanha eleitoral que já está na estrada em Portugal.

 

Mas, por um qualquer fenómeno que o autor destas linhas desconhece, o mundo além fronteiras parece ter desaparecido, já que nenhum dos actores políticos que andam por aí em acessos debates e trocas diárias de argumentos inócuos se dignou a revelar uma qualquer ideia sobre o posicionamento de Portugal no sistema das relações internacionais.

 

Não se ouve uma única palavra sobre o projecto europeu, sobre o espaço da lusofonia, sobre a aliança transatlântica, sobre a plataforma continental, sobre a guerra ao terrorismo, sobre a revisão da OMC, sobre as medidas financeiras adoptadas nos EUA, sobre os BRIC, sobre pós-Quioto e por aí fora.

 

É ainda mais lamentável que nos debates televisivos e nas inúmeras páginas de jornais dedicadas às eleições, nenhum jornalista se lembre de perguntar qualquer coisinha sobre a visão que os candidatos têm de Portugal no Mundo.

 

Perante o silêncio perturbador de jornalistas e de políticos, o Diplomata lá foi ver os programas eleitorais dos dois principais partidos do sistema político português para tentar descortinar a sua suposta perspectiva em relação ao posicionamento de Portugal face ao resto do mundo.

 

Sem qualquer rasgo de criatividade, o programa do PS, Defender Portugal, Construir o Futuro 2011-2015, recorre quase sempre à palavra “internacional” para relacioná-la com a tão famigerada “crise”, e não tanto para explanar uma visão estratégica daquilo que deveriam ser as orientações de um futuro Governo relativas aos desafios globais.

 

Assim, ora se lê algo como “o progresso que o País fez, apesar da crise internacional”. Ou qualquer coisa como, “a crise das dívidas soberanas como nova fase da crise económica internacional”. Mas, há ainda mais: “A resposta à crise da dívida soberana: O papel de Portugal e o papel da União Europeia.”

 

Mais adiante, lá se vai lendo que “o reforço da União não deve ser entendido como uma perda das soberanias, mas como o aprofundamento necessário e desejado da integração económica na zona euro”, e que a “a Estratégia Europa 2020 deve, assim, ser o quadro de referência global perante os diversos instrumentos de política, da União e dos diferentes Estados-membros, de modo a garantir a articulação adequada e a assegurar o investimento estratégico na execução da EE 2020: um crescimento mais inteligente, mais verde e mais inclusivo”. Este é o pensamento do PS sobre a Europa.

 

Quanto ao resto do mundo, que cabe numa página (47), o programa diz que “Portugal tem uma política externa muito clara, assente em três pilares complementares: a plena integração na União Europeia; o laço transatlântico; e a cooperação estreita com os países de língua portuguesa. Neste quadro, o País cultiva a ligação com as suas comunidades espalhadas pelo mundo e valoriza-as no seu duplo papel de expressão da nossa inserção cosmopolita e de promoção da imagem e da identidade nacional em todas as regiões relevantes do mundo de hoje”.

 

O conjunto de generalidades e de banalidades envergonharia qualquer estudante de Relações Internacionais do primeiro ano, e está-se claramente perante um “copy/paste” vergonhoso de documentos anteriores. Trata-se da lei do menor esforço, que resulta numa secura de qualquer pensamento ou reflexão.

 

Por último, o Diplomata não deixa de achar estranho que no âmbito de “afirmar Portugal no Mundo”, o programa do PS defenda a “valorização
da contribuição das Forças Armadas portuguesas para a gestão de crises e a promoção da segurança cooperativa, através da participação de Forças Nacionais Destacadas em operações de paz”, quando, segundo se sabe, o Governo português assinou sem pestanejar uma redução de 10 por cento no financiamento para este sector imposta por três senhores estrangeiros.

 

O programa do PSD, Recuperar a Credibilidade e Desenvolver Portugal, revela mais cuidado na sua elaboração no que toca à visão de Portugal no Mundo.

 

Mas mesmo assim, ao pilar 5, dedicado à “política externa ao serviço do desenvolvimento”, ficou-lhe reservado o espaço entre as páginas 228 e 236.

 

Agora veja-se, por exemplo, o espaço dedicado aos restantes pilares: o pilar 1 vai da página 8 à 34; o pilar 2 da 38 à 133; o pilar 3 da 136 à 166; e o pilar 4 da 177 à 226.

 

Ora, a quantidade não é sinónimo de qualidade, mas dá para ter uma ideia das prioridades e das atenções que os estrategos partidários deram à relação de Portugal com o Mundo. O que não deixa de ser estranho, face ao facto de se viverem tempos cada vez mais dominados pelo conceito da interdependência complexa (apenas uma nota: homens como Mário Soares, Adriano Moreira e até mesmo Pacheco Pereira têm falado muito sobre esta questão).

 

Voltando ao pilar 5, as razões para preocupações encontram-se logo no início, quando se lê que “neste momento, a política externa deve orientar-se sobretudo para a recuperação da reputação financeira e do prestígio internacional e para o fomento da actividade económica com o exterior”. Além de ser uma visão provinciana e redutora daquilo que deve ser uma abordagem estratégica de Portugal na Europa e no Mundo, acaba por cair no mesmo erro do programa eleitoral do PS.

 

Uma subversão do táctico sobre o estratégico. Um erro claramente resultante da ausência de dimensão política nos autores de ambos os documentos.

 

Seja como for, o PSD estabelece “quatro eixos de acção para a mudança” de Portugal no Mundo: 1. Reforçar a diplomacia económica; 2. Aprofundar o espaço lusófono; 3. Valorizar as comunidades portuguesas; 4. Evoluir nas relações bilaterais e multilaterais.

 

Indo directamente ao ponto 2, algo que tem sido historicamente esquecido por governos sucessivos, o Diplomata não vilsumbrou nada de novo, apenas ideias vagas sem qualquer consequência prática e sempre focadas na componente empresarial (e não económica). Ou seja, não se encontra qualquer elemento que contribua, verdadeiramente, para cimentar os elos de ligação entre Portugal e os países da CPLP.

 

Lamentavelmente, em ambos os programas partidários é difícil encontrar uma referência à promoção da língua portuguesa enquanto factor de poder de um Estado. Também a cultura e o desporto ainda não são vistos como “armas” de projecção de uma certa ideia de Estado.

 

No caso europeu, o programa do PSD é mais substancial do que o do PS, deixando claro, por exemplo, que um futuro Governo do PSD será contra a ideia de uma Europa a “duas velocidades”. É também interessante constatar que há sensibilidade para olhar para o Magrebe como um espaço natural de “cooperação europeia”.

 

No âmbito das relações bilaterais, pode ler-se no programa que um Governo do PSD “irá desenvolver parcerias estratégicas com a China e com a Índia”. Muito bem, mas quais e em que moldes, questiona o Diplomata, já que não há mais informação sobre este assunto.

 

Já nas relações multilaterais, o Diplomata ficou curioso com a ideia de um futuro Executivo do PSD “valorizar o multilateralismo baseado na cultura, como plataforma para a internacionalização das empresas e comunidades locais”. O autor destas linhas gostaria de ver este assunto desenvolvido.

 

Loureiro dos Santos actualiza "apontamentos para militares" sobre a História da Guerra

Alexandre Guerra, 12.05.11

 

 

O Diplomata inicia com este texto uma nova rubrica de divulgação e de análise de livros lançados no mercado português que, de forma mais ou directa, possam estar relacionados com as temáticas abordadas neste espaço.

 

E, nesse sentido, as Publicações Europa-América, reputada e prestigiada editora, aceitaram o desafio lançado pelo Diplomata, tendo já feito chegar três novidades editoriais que serão aqui referidas durante os próximos dias.

 

O autor destas linhas informa ainda que a editora Caminho também já se disponibilizou para contribuir com novas obras que possam interessar aos leitores do Diplomata.

 

O primeiro livro aqui apresentado é da autoria do general Loureiro dos Santos e foi lançado pelas Publicações Europa-América, em Dezembro, com o apoio do Instituto de Estudos Superiores Militares (IESM).

 

Loureiro dos Santos, que já tem uma longa obra publicada, com destaque para as suas Reflexões Sobre Estratégia da Europa-América, voltou a publicar recentemente por aquela editora, a “História Concisa de Como Se Faz a Guerra”, uma reedição actualizada dos “Apontamento de História para Militares”.

 

Este livro tinha sido publicado em 1979 e reunia as aulas dadas por Loureiro dos Santos de 1976 a 1978 no então Instituto de Altos Estudos Militares (IAEM) do Exército.

 

Como o próprio autor escreve, “o tempo passou” e “trinta e um anos depois de sair a sua primeira edição (…) teve lugar uma autêntica revolução na forma de fazer a guerra”.

 

O livro agora publicado contém muito do material incluído na obra de 1979, visto “muitas das características da guerra actual já se verificarem no último período descrito”, no entanto, “surgiram aspectos novos, alguns dos quais verdadeiramente imprevisíveis naquela época”. O leitor vai poder assim encontrar uma capítulo totalmente novo dedicado à “era da informação”.

 

O antigo ministro da Defesa dos IV e V governos constitucionais e ex-Chefe do Estado Maior do Exército é um dos mais conceituados investigadores portugueses no âmbito da polemologia (estudo da guerra).

 

A “História Concisa de Como Se Faz a Guerra” é, assim, um excelente manual para estudantes, já que o livro original tinha sido escrito propositadamente para militares e para o apoio às suas aulas e estudo.

 

É igualmente uma excelente resposta para quem procura um enquadramento histórico e doutrinário sobre o fenómeno da guerra. Não é uma obra densa, mas é esclarecedora ao abordar os vários períodos da “história da guerra”, começando por relacionar o indivíduo e o ambiente e acabando na análise aos mais recentes conflitos.

 

Mas, um dos aspectos mais interessantes deste livro é proporcionar ao leitor uma narrativa coerente sobre o impacto da guerra nas diferentes sociedades ao longo da História da Humanidade.

 

Roswell, "the truth is always out there"

Alexandre Guerra, 09.05.11

 

 

Motivado por uma conversa sobre os incidentes de Roswell, no Novo México, em 1947, o Diplomata descobriu que um memorando do FBI, datado de 22 de Março de 1950, voltou a colocar recentemente o tema nas páginas dos jornais. O documento foi escrito pelo agente Guy Hottel e enviado para o director do FBI de então, J. Edgar Hoover, tendo sido revelado no mês passado no "The Vault", um site do FBI no qual são colocados vários tipos de documentos desclassificados.

 

Ora, isto bastou para que Roswell voltasse a alimentar a imaginação dos amantes das teorias alienígenas. No entanto, apesar da autenticidade do documento, o seu conteúdo é altamente duvidoso, e tudo leva crer que Hottel tenha involuntariamente relatado um embuste.

 

Curiosamente, o documento já tinha sito tornado público em 1977 ao abrigo do Fredoom of Information Act.    

 

Como tudo o que está relacionado com Roswell, também a história conspirativa do memorando é fascinante e a sua leitura é quase obrigatória.

 

ElBaradei relembra a “gestão da revolução” 25 de Abril para alertar os egípcios

Alexandre Guerra, 06.05.11

 

Mohamed ElBaradei, esta tarde, próximo do encerramento das Conferências do Estoril 2011

 

Mohamed ElBaradei, Prémio Nobel da Paz e antigo director da Agência Internacional de Energia Atómica, relembrou a Revolução 25 de Abril para dizer que, tal como aconteceu em Portugal, também no Egipto o grande desafio será o período pós-revolução.

 

Naquilo que considera ser a “gestão da revolução”, Elbaradei mostra-se cauteloso, porque está ciente das dificuldades que os egípcios têm pela frente.

 

Para o Nobel da Paz não basta “espoletar” a revolução, porque, provavelmente, o mais difícil será encontrar um caminho sólido para a democracia.

 

“As pessoas não se tornam democratas de um dia para a noite”, reconhece ElBaradei, que, no entanto, se congratula com o comportamento pacífico dos egípcios durante todo o processo de deposição do regime.

 

Regime esse que, na opinião de ElBaradei, geriu a situação de forma lamentável, tentando oprimir o movimento das ruas.

 

Para ElBaradei, um dos factores que podem ajudar o actual processo de transição tem a ver com o papel desempenhado pelo Exército, que se juntou à população, mantendo a ordem e evitando que as pessoas fossem reprimidas com violência, tal como aconteceu na Líbia.

 

 

Texto publicado originalmente em Cables from Estoril.

 

"It's not time for lone riders", diz o especialista em Napoleão

Alexandre Guerra, 06.05.11

Dominique de Villepin durante a sua apresentação

 

Dominique de Villepin, já referenciado nos Cables from Estoril, encerrou em grande nível as sessões desta manhã, demonstrando porque é que o seu arqui-inimigo, o Presidente Nicolas Sarkozy, tem razões para temer uma possível candidatura presidencial no próximo ano daquele especialista em Napoleão.

 

Villepin é o “diplomata” por excelência. Hábil, bem falante, uma figura irrepreensível, culto, com obra publicado, cativante e sofisticadamente maquiavélico. A tal ponto, que o autor destas linhas diria que Villepin aproveitou o palco do Estoril para ensaiar um possível discurso eleitoral, por modo a conquistar as mentes e os corações dos franceses, cada vez mais descontentes com a política.

 

Embora Villepin seja um político profissional, percebe que esta classe profissional é cada vez menos repeitada pelos cidadãos, por isso, foi com firmeza que apelou à emoção da audiência quando disse que “os políticos têm sido um desastre nestes últimos anos na Europa”.

 

O resultado foi imediato, arrancando aplausos à plateia e, quem sabe, perspectivando o tom que poderá utilizar para amealhar votos num eventual embate eleitoral em França.

 

Villepin veio ao Estoril para falar sobre os “desafios actuais da construção europeia” e não se desviou desse propósito, adoptando um registo bastante crítico ao posicionamento da Europa no mundo, sobretudo no que diz respeito à relação com África, um palco que outros países têm estado a aproveitar, tais como a China ou o Brasil.

 

“Nós somos completamente estúpidos”, disse Villepin, precisamente pelo facto de países como Portugal, França ou Itália conhecerem África como ninguém, mas não capitalizarem esse conhecimento em prol do reforço das relações entre aquele continente e a Europa.

 

Essa estupidez estende-se à forma de como os Estados europeus parecem lidar com os grandes desafios que têm pela frente, já que continuam a ter uma abordagem egoísta e isolada. Por isso avisa: “It’s not time for lone riders.”

 

 

Texto originalmente publicado em Cables from Estoril.