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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

Momentos com história

Alexandre Guerra, 13.03.11

 

 Foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters

 

Assustada, mas sem perder a compostura, é assim que esta criança japonesa, certamente ignorando o potencial perigo da situação que estava a viver, se submete à inspecção do técnico nuclear para medir eventuais níveis de radiação, depois da explosão ocorrida num dos reactores da central de Fukushima, na sequência do terrível terramoto, seguido de tsunami, que assolou o Japão na Sexta-feira.

 

Os portugueses precisavam de inspiração, mas o que tiveram foi uma aula de Economia

Alexandre Guerra, 10.03.11

 

 

 

A 9 de Março de 2011, por ocasião da tomada de posse do segundo mandato do Presidente da República, Cavaco Silva, o País precisava de uma mensagem proferida por um verdadeiro líder, mas o que teve foi, sobretudo, uma aula de Economia e de Finanças (o que já não é mau), dada por um Professor de 71 anos, sem qualquer tipo de entusiasmo e carisma.

 

Nestes tempos particularmente difíceis, de crise como dizem quase todos, o que os portugueses precisavam era de um momento inspirador, de esperança, uma espécie de “antes e depois” do discurso do Presidente, para quando acordassem na manhã desta Quinta-feira para irem para os seus empregos e trabalhos, aulas, filas do centro de desemprego, salas de espera nos hospitais, etc, o pudessem fazer com uma nova centelha

de esperança, revigorados nas suas forças e com a certeza que tinham em Belém um “aliado” nesta batalha diária.

 

Porém, o patriarca do regime não emocionou o povo, suscitando apenas alguns aplausos clientelares das bancadas mais à direita do hemiciclo. Ou seja, o impacto do discurso de Cavaco Silva, devido à sua forma e conteúdo, fica-se pelo sistema política e elites (supostamente pensantes) na blogosfera, redes sociais e jornais. Aliás, basta ver o principal tema das análises ao discurso de Cavaco que se centrava na dureza do texto para com o Governo.

 

Os portugueses têm razões para acreditar que continuam sozinhos, e motivos para se questionar por onde andou Cavaco Silva nestes últimos cinco anos. Porque, se Cavaco Silva quer ser demolidor para o Governo, alertar a sociedade para a situação de “emergência” e dizer que há limites para os sacrifícios, então que o tivesse feito antes e que o faça nas habituais reuniões que tem com o chefe do Governo e, eventualmente, pressionando e pressionando até obter resultados. É desta forma que se passam eficazmente as mensagens. Ontem, o dia era para outro tipo de mensagem.

 

Tendo em conta aquilo que este autor viu e ouviu em directo e depois releu no site da Presidência da República, o “staff” de Cavaco limitou-se a elencar um conjunto de factos (correctos, é certo) que são sobejamente conhecidos, reiterados nos últimos meses por televisões, jornais, blogues, publicações especializadas, instituições nacionais e internacionais. Nalgumas partes, o discurso foi mesmo demasiado técnico para um texto de tomada de posse e, para isso, basta ler ou ouvir alguns dos que têm sido proferidos por líderes internacionais. Portugal teve, assim, mais uma lição do Professor. Com informação cuidada, correcta, mas nada mais do que isso. Infelizmente, os tempos vividos exigiam um outro tipo de comunicação.

 

É certo que pedir a Cavaco Silva que seja aquilo que não é, será, porventura, injusto, mas desta vez o Presidente devia ter-se esforçado mais para apelar directamente às pessoas, às mentes e aos corações do seu povo. Em vez disso, o que ficou foi um discurso para dentro das paredes da Assembleia, para alimentar o sistema político, blogues, redes sociais e editoriais de jornais.

 

Cavaco, consciente da difícil situação do País, devia ter sido mais perspicaz, e aqui teria entrado "à seria" a figura de “speechwriter”, à qual deveria ter-lhe sido dada liberdade criativa e inspirado-se nos grandes momentos históricos de liderança. Porém, do “staff” de Belém nada de novo, embora se verifique uma melhoria significativa em relação aos dois desastrosos discursos na noite das eleições proferidos no CCB pelo Presidente recém-eleito.

 

O discurso foi muito longo e mal estruturado, pouco rico, apelativo, e sem chama. De construção confusa nalgumas passagens, desequilibrado nalguns temas, como, por exemplo, na excessiva atenção dada à Economia e Finanças (mas sem sequer se referir à conjuntura internacional) e na ausência inacreditável de assuntos como a Política Externa, as Forças Armadas, a Justiça ou Saúde.

 

Na verdade, é revelador quando um chefe de Estado no seu discurso de tomada de posse não explana um pouco da sua visão que tem dos problemas da Europa e do Mundo e do papel de Portugal na Lusofonia. É igualmente lamentável a ausência de uma referência digna às Forças Armadas portuguesas, nomeadamente, quando tem tropas estacionadas no estrangeiro. Isto é uma exigência em qualquer país com soldados em missão.  

 

Mas, um dos momentos menos conseguidos deste discurso e, eventualmente, bastante infeliz, é quando a determinado momento Cavaco Silva diz que “é necessário que um sobressalto cívico faça despertar os portugueses para a necessidade de uma sociedade civil forte, dinâmica e, sobretudo, mais autónoma perante os poderes públicos”. Mais adiante, Cavaco reforça a ideia, e diz mesmo que “é altura dos portugueses despertarem da letargia em que têm vivido”. Bem, por menos já se espoletaram verdadeiras revoltas de rua.

 

O problema é que a tal sociedade civil de que Cavaco Silva fala tem desempenhado, dentro dos seus limites, o seu papel, ao acatar as decisões políticas, ao pagar os seus impostos, ao respeitar lei, ao votar…

 

E quanto à “letargia” cívica a que Cavaco Silva se refere, provavelmente o Presidente já se deverá ter esquecido das várias manifestações que nos últimos anos bateram recordes de presença nas ruas de Lisboa, assim como as inúmeras greves que têm assolado o País. Ou seja, instrumentos legais que os cidadãos têm ao seu dispor para se “sobressaltarem civicamente”.

 

Mas, muitos outros canais tem sido utilizados para esse despertar cívico, e para isso basta ler jornais, blogues, redes sociais, ou então estar atento a movimentos sociais e culturais de diferente índole. Além do mais, diariamente são muitos (velhos, novos, homens, mulheres, empregados, desempregados, estudantes) aqueles que tentam remar contra a corrente, mesmo que isso signifique grandes sacrifícios.

 

Aliás, é essa mesma sociedade civil que está a mobilizar uma manifestação para Sábado e que tem colocado na agenda o tema dos “jovens”, que Cavaco Silva abraçou no seu discurso de forma algo desproporcional, quase que apanhando a “boleia” de um movimento surgido totalmente à parte do sistema político.

 

Cavaco sacou da cartola o tema da “juventude” ao exortar uma geração a fazer ouvir a sua “voz” e a sonhar “mais alto”.  O que Cavaco não se aperceberá é que é difícil passar a sua mensagem quando nem sequer estas palavras chegarão à maior parte dos jovens.

 

Por mais apelos e exortações presidenciais, a questão é que o cidadão comum, por mais activo que seja, sente-se impotente e frustrado parente a falência do sistema político, as injustiças do Estado, a degradação da Justiça, a impunidade dos prevaricadores, a cultura de clientela, os desperdícios de dinheiros públicos, a ausência de coerência nas políticas adoptadas, e por aí diante.    

 

É por isso que, neste momento, os portugueses não precisam que um professor lhes diga o que devem fazer, mas sim que um Presidente lhes diga o que vai fazer para ajudar o povo nesta missão hercúlea para vencer os grandes desafios que o País tem pela frente.

 

Getz/Gilberto e The Imagine Project, duas "armas" da public diplomacy americana

Alexandre Guerra, 08.03.11

 

Charlie Byrd Trio, cidade do México, 2 de Junho de 1961, durante uma tournée patrocinada pelo Departamento de Estado norte-americano

 

Eventualmente, pouco gente saberá, mas o Departamento de Estado norte-americano, no âmbito da sua estratégia de public diplomacy, é um forte apoiante da “exportação” da sua cultura erudita e “pop”, seja em que formato for. Não é algo novo, e remonta, pelo menos, aos primeiros

anos da Guerra Fria.

 

De uma forma muito sintética, pode-se dizer que a public diplomacy é a estratégia governamental de Washington para projectar o seu soft power no mundo, com vista a sensibilizar e aproximar outros povos aos valores, virtudes e estilo de vida americanos. O Public Diplomacy Council define a public diplomacy como uma “ferramenta” da política externa dos Estados, um “instrumento” de poder nacional, tal como o militar, o económico e outros.

 

Existem diversas formas de efectivar a public diplomacy com vista ao engagement de comunidades e nações estrangeiras, mas tem sido a vertente cultural uma das mais activas no Departamento de Estado.

 

Na verdade, artistas, mais concretamente músicos, são alguns dos “embaixadores” culturais que ao longo dos anos têm sido apoiados por Washington para promoverem os seus trabalhos um pouco por todo o mundo.

 

E não pense o leitor que se trata de algo camuflado, em que os artistas agem como uma espécie de espiões. Pelo contrário, são iniciativas que se querem bastante amplificadas, nas quais o Departamento de Estado assume o seu apoio e os artistas encaram com bastante profissionalismo. Porque, em muitos casos, estas plataformas de apoio por parte da diplomacia americana materializaram-se em autênticas tournées de bandas e de músicos mundialmente reconhecidas e das quais resultam autênticas preciosidades culturais.

 

Existem muitos exemplos que poderiam ser dados, mas uma das histórias mais interessantes relaciona o Departamento de Estado com o surgimento do fenómeno da bossa nova na cena cultural americana e ao nível internacional na década de 60. E foi também importante porque ajudou a criar "pontes" culturais entre o Brasil e os Estados Unidos.

 

Talvez o leitor considere isto uma nota de rodapé na história dos Estados, mas é importante não esquecer que daqui resultaria um dos álbuns mais famosos da história musical contemporânea. “Getz/Gilberto” foi lançado em 1964, tornando-se um dos discos de jazz mais vendidos de sempre, para um ano depois vir a ganhar o Grammy de álbum do ano, um feito para um trabalho deste género musical. Só em 2008, um outro álbum de jazz, com “River: The Joni Letters”, viria conquistar aquele Grammy e, curiosamente, da autoria de um músico muito activo no campo da public diplomacy, Herbie Hancock.

 

Mas, vale a pena voltar à bossa nova de Stan Getz (1927-1991) e de João Gilberto, acompanhados ao piano e na composição pelo gigante Tom Jobim (1927-1994). Foi o guitarrista Charlie Byrd (1925-1999) que, ao regressar de uma tournée na América do Sul apoiada pelo Departamento de Estado, no início dos anos 60, deu a conhecer a Stan Getz essa grande descoberta chamada de bossa nova. Getz, fascinado pelo som do Brasil, gravou com Byrd o álbum Jazz Samba, que se tornou em 1962 um sucesso nos Estados Unidos. Foi o primeiro álbum de bossa nova/jazz no cenário musical americano e mundial. Dois anos mais tarde, era lançado o álbum “Getz/Gilberto”, no qual estava a estrondosa Garota de Ipanema.

 

Uma vez que já foi aqui referido Hancock, o Diplomata dá outro exemplo, bem recente, do exercício de public diplomacy por parte de Washington. O álbum The Imagine Project, lançado no ano passado, é um autêntico apelo de Hancock à “colaboração global”, “um apelo à imaginação, mas também à sensibilização das sociedades pós-modernas para a necessidade de trilharem um caminho comum”, como o autor destas linhas já escreveu há uns tempos.

 

Sendo um projecto que contempla “diferentes culturas e línguas, povos e nações, tradições e raízes”, Hancock contou com o apoio do Departamento de Estado para ir à procura dessas diferentes realidades, percorrendo vários continentes, e gravando o álbum em 6 países, com artistas de origens e de estilos diversos.

 

*Mais um texto no âmbito da rubrica iniciada há umas semanas pelo Diplomata.

 

De pouco servem as Public Relations na criação de líderes carismáticos

Alexandre Guerra, 06.03.11

 

Nestes tempos em que muito se discute a ausência de líderes fortes e carismáticos, que entusiasmem e mobilizem os povos e nações, a comparação com a História é sempre inevitável. Olhar para trás e procurar as referências do passado torna-se um exercício meramente académico e, quanto muito, inspirador.

 

Mas, nem por isso deixa de ser importante para se perceber a lógica comunicacional que permitiu a determinados líderes suscitar emoções junto dos seus povos, mesmo que muitas vezes não houvesse uma concordância entra as duas partes em relação às ideias ou aos projectos políticos.

 

Essa capacidade de gerar emoções e paixões pouco ou nada tem a ver com técnicas de public relations e, na maioria dos exemplos históricos, constata-se que resultou mais das características intrínsecas dos próprios líderes, do que propriamente de nuances comunicacionais.

 

De pouco servem consultores de comunicação ou assessores para “construir” um líder carismático quando não existe uma substância inata que seja reconhecida pelas pessoas como genuína. Porque, de outra maneira, é mais um governante que passa pela História perante a passividade e o desinteresse dos cidadãos. O que de certa maneira é algo que se sente nos dias de hoje, verificando-se uma ausência de lideranças carismáticas que possam entusiasmar e mobilizar.

 

Uma realidade bem evidente na Europa, onde há muito deixou de haver referências para seguir. O antigo Presidente português, Mário Soares, tem chamada a atenção para esse facto, lamentando a ausência de governantes com visão e paixão pela construção europeia. E desenganem-se os senhores das public relations se pensam que conseguem criar líderes deste tipo, como quem formata um gestor ou um CEO de uma empresa, normalmente pessoas desinteressantes e sem grande capacidade de mobilização (voluntária).

 

Não é por isso de estranhar que se fala com admiração de homens como Helmut Kohl, François Mitterrand ou Jacques Delors, líderes que nunca tiveram grandes preocupações na construção de uma imagem. Pelo contrário, no bom e velho estilo do político romântico, tiveram os seus defeitos, pecados, muitas das vezes omitiram e mentiram, alinharam em jogos de traições, mas foram sempre fiéis às suas ideias e a um rumo, apaixonados por um projecto em prol de um ideal comum.

 

Noutro estilo, John F. Kennedy, vivia da imagem, mas curiosamente, era uma imagem que as pessoas viam como genuína. Tudo era carisma e emoção, mesmo sendo um Presidente que tenha cometido alguns dos maiores disparates da diplomacia americana. Pouco interessa, visto que as pessoas sentiam que Kennedy era o seu líder. É por isso que é preciso sempre ter algum cuidado quando se analisa a verdadeira dimensão de um líder e a sua dinâmica comunicacional com os povos.

 

Goste-se ou não, homens como Vladimir Putin (basta ver os estudos de opinião) ou Silvio Berlusconi (o primeiro-ministro há mais tempo à frente do Governo italiano desde a II GM) são mais do que meros governantes, são personagens que geram emoções, e se há quem os deteste, também há quem os adore e esteja disposto a segui-los. E nesta equação, os mecanismos das public relations de pouco ou nada servem.

 

A propósito, o autor destas linhas recorda uma história vivida no Verão de 2001, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em plena intifada de al-Aqsa. Ao ser convidado por uma família local para tomar uma bebida fresca em sua casa, atendendo ao calor abrasador que se fazia sentir, foi interessante constatar que numa das paredes estava uma fotografia do antigo líder palestiniano, Yasser Arafat.

 

Personagem de grande carisma e elemento de agregação de um povo, mas longe de ser um exemplo de bom “aluno” dos dogmas das public relations.

 

Porém, o mais importante aqui é sublinhar que toda a família, que vivia numa casa literalmente esburacada por balas israelitas, se queixava da situação e das autoridades palestinianas, mas, apesar desses lamentos constantes, continuavam a olhar para Arafat com deferência e emoção.

 

Num dos poucos exemplos recentes, Barack Obama venceu, em grande parte, devido à sua genuidade e capacidade de entusiasmar o povo. Aliás, só um homem com carisma conseguiria que uma simples frase como “Yes, We Can!” resultasse tão bem e fosse interiorizada por milhões de americanos. De outra forma, não haveria estratégia de public relations que valesse.

 

Na verdade, foi o homem político que esteve na base de tudo. As ferramentas das public relations, desde a comunicação digital à assessoria mediática, serviram apenas (e já é muito) para amplificar e aproximar o líder do povo.

 

Tal como a Ágora, na Antiguidade Clássica, servia para amplificar o entusiasmo do político grego junto dos cidadãos.

 

*Texto publicado originalmente no PiaR.

 

Cultivo de coca desce quase 60 por cento na última década na Colômbia

Alexandre Guerra, 02.03.11

 

 

O International Narcotics Control Board (INCB), o órgão subsidiário das Nações Unidas responsável pelo controlo e acompanhamento à aplicação das convenções internacionais em matéria de narcotráfico, apresentou hoje o seu relatório anual, no qual elogia o trabalho desenvolvido pela Colômbia na última década, retirando-a da categoria dos países sob observação especial. 

 

De acordo com o World Drug Report 2010, o cultivo da folha de coca na Colômbia decresceu 58 por cento entre 2000 e 2009, sobretudo devido à erradicação daquela actividade em larga escala. O mesmo relatório informa que as autoridades colombianas efectuaram mais apreensões de droga que qualquer outro estado nos últimos dez anos.

 

No entanto, nem tudo são boas notícias, já que o relatório revela que a plantação de coca está a ser transferida para outros países da América Latina, nomeadamente, o Peru, onde o cultivo aumentou 55 por cento na última década.

 

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