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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

A língua espanhola enquanto factor de poder

Alexandre Guerra, 04.02.08


Ao comprar hoje o El País, o autor destas linhas ficou algo surpreendido quando recebeu juntamente com o exemplar daquele jornal um livro de banda desenhada de capa dura (tratava-se de uma adaptação para o público juvenil da célebre obra de Alexandre Dumas, o Conde de Monte Cristo). A surpresa não estava na oferta em si, já que de há uns anos a esta parte tem sido prática comum na maioria das publicações portuguesas, mas sim no facto de um jornal espanhol estar a distribuir esse tipo de "brindes" em mercados estrangeiros.



E é aqui que reside a novidade, sendo a primeira vez que o Diplomata constata que uma publicação estrangeira adopta esta política. Por norma, os jornais ou revistas internacionais que recorrem à distribuição de "brindes" nunca os fazem acompanhar com os exemplares que são vendidos nos mercados externos. Os custos de distribuição são elevados e os ditos "brindes" não são motivo de atracção para quem compra, por exemplo, um Le Monde ou um The Guardian em Portugal. 



Mas, pelos vistos o El País passou a ter outra perspectiva do assunto. Em conversa com o senhor do quiosque, o Diplomata ficou a saber que Portugal é o primeiro país para onde o El País está a distribuir os chamados "brindes". Porém, esta questão merece uma leitura mais atenta e ampla, que não se fique pela mera análise comercial. Porque, dificilmente se prevê que o El País passe a vender mais exemplares em Portugal por causa dos brindes de forma a cobrir os custos de distribuição acrescidos.



Na verdade, a questão parece ser outra. Há já alguns anos que vários especialistas em relações internacionais (Samuel Huntington é um deles) identificaram a cultura em geral e a língua em particular como um factor de poder cada vez mais estratégico. Espanha tem sido um dos países que melhor tem interpretado esses sinais, sobretudo no que se refere à defesa e à promoção da sua língua além fronteiras.



Os investimentos massivos feitos pelo Estado espanhol no Instituto Cervantes, a promoção agressiva do ensino do espanhol nos Estados Unidos, ou o crescente número de prestigiadas publicações anglo-saxónicas com versões em espanhol, tais como a Foreign Policy ou a Foreign Affairs, são sinais evidentes de uma estratégia de médio e longo prazo na defesa e na afirmação de uma língua no mundo enquanto factor de poder. Já agora, refira-se que é possível encontrar em Lisboa aquelas duas publicações em espanhol ao lado das versões originais em inglês. Quanto ao El País, é talvez hoje um dos mais importantes títulos internacionais. Alexandre Guerra 
    

Leituras

Alexandre Guerra, 03.02.08

A sensivelmente 48 horas da "Super Terça-feira", a candidata democrata Hillary Clinton parece estar a utilizar argumentos mais hostis contra o seu mais directo rival, Barack Obama, na tentativa de travar a sua subida nas sondagens para as primárias e caucuses que se vão disputar em 24 estados. "Clinton goes no attack as Obama closes gap", no The Guardian, explica de que forma Hillary acusa Obama de estar a enganar os eleitores. 



De acordo com os analistas, os resultados das primárias e dos caucuses da "Super Terça-feira" no campo democrata vão depender em grande parte da análise que os eleitores fizeram do legado do ex-Presidente Bill Clinton, que tem estado muito interventivo nesta campanha. Sobre este assunto, leia-se "Bill Clinton's legacy", publicado hoje no The Washington Post

Ser diplomata

Alexandre Guerra, 03.02.08


Carlos Vara*



É com distinto prazer que registo o primeiro aniversário de O Diplomata. Um ano que não significa apenas 365 dias de calendário, representa imensa dedicação por causa única. Ser diplomata é desenvolver acções, é ter atitude, coisas que lamentavelmente todos temos vindo deixado escapar  - mas é também ter coragem para encontrar uma porta que se abre quando tudo parece definitivamente fechado.



*Foi com particular apreço que o Diplomata recebeu este texto do Carlos Vara, um dos mais destacados jornalistas de a A Bola e do panorama desportivo nacional. Curiosamente, ou nem tanto, a missiva enviada parece espelhar bem a sua personalidade: discreto, calmo, de poucas falas, tranquilo nas suas acções, mas sempre assertivo naquilo que diz e no que escreve. Os seus pares reconhecem-lhe de forma unânime o seu elevado profissionalismo e os amigos nutrem por ele grande admiração e respeito. Recentemente, o Vara deu um passo importante na sua vida. De forma discreta e num dia original.... Para o Vara, as maiores felicidades.
 

Uma distracção intolerável...

Alexandre Guerra, 02.02.08


Fernando Guerra*



Não tenho sido cliente assíduo da blogosfera, mas reconheço que é uma distracção intolerável. Aos poucos, de alguma forma influenciado pelo entusiasmo de Pedro Rolo Duarte, a quem  ouço  na Antena Um às horas em que habitualmente o rádio é o meu companheiro dilecto,  ao deitar-me a e ao levantar-me, verifico que emerge novo e poderoso meio de comunicação,  de discussão, de debate, de troca de ideias, de aproximação de pessoas, de culturas, de raças e de credos, do que se quiser, mas, repito, um meio poderoso e, como se diz em linguagem futebolística, com incalculável margem de progressão. Os blogues aparecem e tentam crescer. Este, O Diplomata, embora ainda muito jovem em idade, já dá ares de adulto. Amanhã, assinala-se o primeiro aniversário. Daqui um ano, o segundo, e por aí fora....



*Fernando Guerra é sub-director de A Bola, aquele que é considerado o mais prestigiado jornal português e o único com verdadeira dimensão internacional. O autor é uma referência incontornável do jornalismo desportivo. Com uma carreira imensa, a sua análise perspicaz, muitas vezes acutilante, aliada a um estilo de escrita requintado, eleva-o a um patamar onde, actualmente, se encontra um número restrito de jornalistas. O Diplomata, enquanto leitor atento e conhecedor íntimo de toda a imprensa nacional, encontra muito poucos jornalistas que tenham o seu virtuosismo de escrita e a sua experiência jornalística. Entre os editoriais e as habituais crónicas e reportagens desportivas, Fernando Guerra partilha às Terças-feiras as páginas de opinião de A Bola com Miguel Sousa Tavares, para escrever a sua rubrica "Vamos Conversar". Na SIC Notícias vai marcando igualmente presença.
 

Ser-se jornalista em cenários problemáticos

Alexandre Guerra, 02.02.08



Margarida Mota*

Se um jornalista se quer discreto, momentos há em que a sua presença basta para se tornar motivo de indiscrição. Constatei-o por experiência própria quando, ao serviço do Expresso, viajei até duas latitudes circunstancialmente sob grande tensão e onde senti – ou melhor, me fizeram sentir – que a palavra é de facto “uma arma”.

A primeira dessas situações aconteceu em Outubro de 2005, na cidade espanhola de Melilla, encrostada na costa mediterrânica de Marrocos, que, naquele final de Verão, era notícia em todo o mundo. Pela calada da noite, milhares de africanos lançavam escadas de paus contra a vedação metálica que servia de fronteira euro-africana e tentavam entrar clandestinamente no El Dorado europeu.

As forças da ordem espanhola e marroquina investiam contra os candidatos a imigrantes e do lado de Melilla a polícia tentava impedir que os jornalistas se aproximassem do "teatro de operações". Numa dessas madrugadas, o táxi que o Expresso contratara para fazer essas rondas nocturnas é mandado parar por uma dessas patrulhas. Enquanto um agente recolhe a nossa identificação e afasta-se para analisá-la, um outro, visivelmente nervoso, desdobra-se em argumentos para nos forçar a abandonar o local. Nunca mais esqueci a forma como ele olhava fixamente para o caderno de apontamentos que eu tinha na mão…

A segunda experiência aconteceu no Irão, em Junho de 2006, estava a antiga Pérsia nas bocas do mundo – e na mira dos Estados Unidos, escrevia-se – por causa do seu programa nuclear. Numa das minhas deambulações por Teerão, cruzei-me com Fatima. Eu tinha acabado de visitar o ateliê de um jovem pintor, situado numa zona pitoresca, junto a um riacho, quando aquela iraniana de meia-idade surge por entre a vegetação, carregando uma bandeja de "toot" – um fruto local parecido com uma amora branca –, acabados de apanhar. Eu não falava farsi, Fatima não falava qualquer outra língua para além de farsi, mas não precisamos de trocar palavras para interagir: ela ofereceu-me "toot" e eu agradeci-lhe com um sorriso. Mas quando alguém comentou que eu era jornalista, então Fatima não abdicou das palavras para me pedir: "Não escreva coisas más sobre o Irão…"

*A Margarida é jornalista do Expresso há vários anos e é uma profissional que merece toda a amizade e admiração do autor deste espaço. Com uma considerável experiência em cenários problemáticos, a Margarida deixa aqui um pequeno exemplo do privilégio que é "viver" in loco essas realidades. O Diplomata recorda-se bem da excelente reportagem que a Margarida fez sobre o Irão para a revista Única aquando da sua viagem àquele país....
 

Desenrascanço

Alexandre Guerra, 01.02.08



Rodrigo Saraiva*



O português tem o enorme defeito de se deitar abaixo! Somos maus, não produzimos, estamos atrasados 20 anos, entre muitas outras adjectivações, seguindo a lógica de que a “galinha vizinha é sempre melhor do que a minha”.




Não podemos colocar em causa que outros povos têm melhores ou diferentes características que nós. Uns serão mais organizados, metódicos, outros mais responsáveis, etc … Mas penso, aliás, acho, que no global estamos muito bem colocados no ranking.




Um país que organiza, com sucesso e elevados elogios, eventos como a Expo98, o Euro2004 e a Gymnaestrada, só para dar alguns exemplos, é porque reúne em si várias qualidades e virtudes que juntas nos colocam em alta.




Mas há uma capacidade, uma virtude, que nos portugueses salta à vista e se destaca: o desenrascanço!


Não me parece mal que esta virtude seja enaltecida e sirva de diferenciação positiva quando nos confrontamos com outros povos.




E até na diplomacia, esta qualidade serve para desbloquear crises. Ora veja-se a última Presidência da União Europeia!




Não fosse esta capacidade e ainda os líderes europeus estariam a discutir a tentativa de acordo e consenso para o Tratado baptizado de “Lisboa”.




Porquê? Mais alguém se lembraria da solução de tirar o voto ao Presidente do Parlamento e dá-lo ao deputado extra que Itália pedia?




Lá está, o desenrascanço lusitano! Podem-lhe chamar outra coisa, mas que resolveu, resolveu!



*O Rodrigo é consultor de comunicação, possuindo uma vasta experiência política, tendo, entre outras coisas, sido vereador na Câmara Municipal de Lisboa e Secretário-geral da JSD.
  

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