Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

O "zero" nuclear, uma tentação idealista ou uma ambição cada vez mais realista?

 

 

Shout/NYT

 

O desarmamento nuclear total é um tema recorrente nas agendas pacifistas e nalguns círculos políticos. Durante a Guerra Fria verificaram-se movimentos significativos a exigir uma abolição de todo o arsenal nuclear mundial.  

 

No entanto, esta posição nunca foi assumida de forma clara e inequívoca pelos líderes dos dois principais actores da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética. Pelo contrário, sob a doutrina da dissuasão, Washington e Moscovo nunca abdicaram dos seus gigantescos arsenais que, no pico, terão atingido no conjunto as 70 mil ogivas.

 

Com o desanuviamento em curso e a queda do bloco soviético em perspectiva, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev chegaram a abordar a possibilidade do desarmamento total, na histórica cimeira de Reykjavik de 1986, mas a verdade é que esta era uma ideia que interessava mais a Moscovo do que propriamente a Washington.

 

A União Soviética estava estrangulada financeiramente e a manutenção de todo o arsenal nuclear começava a ser um problema de proporções gigantescas para os cofres do Kremlin, que se juntava a tantos outros que se avolumavam nos anos 80.

 

Reagan não só rejeitou a ideia como se empenhou na sua "Guerra das Estrelas". Mas apesar de rejeitar o desarmamento, optou pelo "controlo" dos armamentos, numa abordagem realista. Ou seja, os Estados Unidos rejeitavam a eliminação total, mas defendiam a redução de arsenais devidamente negociada. E, após a implosão da União Soviética, foi isso que aconteceu, prevalecendo uma perspectiva mais realista.

 

Na verdade, a problemática do armamento nuclear inseriu-se sempre na dicotomoia do confronto dos dois paradigmas das relações internacionais, que se fizeram sobretudo sentir durante a Guerra Fria: o idealista e o realista. 

 

O paradigma idealista, claramente associado a uma visão mais idílica da sociedade, e que teve como uma das suas expressões máximas o pacifismo do Presidente americano Woodrow Wilson e a sua visão bondosa do mundo reflectida nos meritórios mas ingénuos Catorze Pontos, foi um catalisador para o mote de um mundo sem armas nucleares.

 

Porém, esta abordagem era demasiado ambiciosa e irracional, tendo estado sempre condenada ao fracasso. A história tem demonstrado precisamente essa realidade. Um dos principais erros ao abordar-se a questão do armamento nuclear é precisamente o "problema com o zero", como refere Philip Taubman, num artigo desde Sábado do New York Times, e actualmente a escrever um livro sobre ameaças nucleares.

 

O conceito de "desarmamento" era mais adequado para encher páginas de jornais, mas pouco relevante na arena da diplomacia dos Estados, preferindo estes falar em "controlo" de armamentos. E foi sob este modelo que Washington e Moscovo foram negociando a redução dos seus arsenais. Esta posição corresponde à escola realista das relações internacionais, mais esbatida após o fim da Guerra Fria, mas que continua a ter a validade em várias áreas.

 

No entanto, quase duas décadas após o fim da Guerra Fria, o sistema internacional sofreu profundas transformações e os paradigmas têm sido alvo de constantes reformulações.

 

Um dos sinais mais significativos, observado em Fevereiro de 2008 pelo Diplomata e também referido por Taubman, surgiu quando um dos símbolos do realismo da Guerra Fria veio a público, através de um artigo no Wall Street Journal, defender o desarmamento nuclear total e inequívoco.   

 

Henry Kissinger, uma espécide de Maquiavel do século XX, e antigo secretário de Estado de Richard Nixon e Gerald Ford, assinara um manifesto em prol de um mundo sem armas nucleares. Apelando claramente a um desarmamento, o texto foi também assinado por outras pessoas, como o senador democrata Sam Nunn ou o antigo secretário de Defesa democrata, William Perry.

 

Perante a posição de Kissinger, o Diplomata escreveu na altura: "Não obstante ser um objectivo nobre e que todos gostariam de ver alcançado, Kissinger revela no texto uma ingenuidade idealista ao exortar por um mundo livre de armas nucleares. Por definição, o pensamento realista nunca se refere à problemática do controlo de armamentos nestes moldes. O autor destas linhas não tem dúvidas em afirmar que este era um texto que Kissinger jamais ousaria subscrever se fosse confrontado com ele no auge da sua carreira política."
 

Face à evolução das relações internacionais e dos seus paradigmas, o Presidente Barack Obama parece querer voltar a colocar o assunto na agenda política, mas, desta vez, assumindo-se como o primeiro residente da Casa Branca a defender o desarmamento total dos arsenais nucleares.

 

Obama disse-o claramente recentemente em Praga, fazendo da erradicação total das armas nucleares uma política central da sua diplomacia. Obama está consciente de que não será uma tarefa fácil e, como o próprio reconhece, poderá não ser alcançada durante a sua vida. Por isso, e apesar desta tentação idealista, verifica-se uma evolução face ao conceito tradicional do "desarmamento".

 

Ao contrário de Reagan, Obama quer caminhar em direcção ao "zero" de armas nucleares, mas diferencia-se também da visão idealista, ao considerar que tal missão poderá ser um trabalho de uma vida inteira.

 

Nota: O Bulletin of The Atomic Scientists é, provavelmente, o think tank com informações mais detalhadas sobre os arsenais nucleares dos países. O Diplomata deixa aqui os dados da  Rússia e dos Estados Unidos, já devidamente actualizados com os valores de 2009.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 07:55
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1 comentário:
De Miguel N. Silva a 12 de Maio de 2009 às 11:03
Concordo, Kissinger nunca o teria feito enquanto StaSec.

Ainda que as grandes potências o queiram fazer, países vulneráveis como Israel nunca o aceitarão.

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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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