A poucos meses de deixar o número 10 de Downing Street, Tony Blair parece estranhamente determinado a criar problemas na fase final da sua governação. E, desta vez, arrisca-se a ter milhares de pessoas nas ruas a protestarem contra si.
Isto a propósito das conversações entre Londres e Washington, conhecidas ontem, relativamente ao sistema antimíssil norte-americano que está em fase de construção. Trata-se de uma nova versão da famosa Iniciativa de Defesa Estratégica dos anos 80, na altura patrocinada pelo Presidente Ronald Reagan e que ficou conhecida como "Guerra das Estrelas", mas que nunca chegou a passar do papel.
O que não acontece com este novo sistema, que efectivamente já se encontra numa fase bem mais avançada, apesar de não existir um consenso quanto à sua eficácia. Os testes realizados até ao momento apresentaram resultados contraditórios, havendo apenas duas certezas: trata-se de um projecto muito dispendioso e implica a colaboração de países terceiros.
Este novo sistema (que em termos técnicos é bastante diferente do da "Guerra das Estrelas", uma vez que este visava a construção de um autêntico escudo sobre o território americano) pretende interceptar mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) em plena trajectória.
De acordo com o actual projecto, sistemas satélite de infravermelhos com a ajuda de radares (terrestres e espaciais) detectam o lançamento de um determinado vector. Posteriormente, vários sistemas de radares identificam a trajectória do míssil, assim como o seu modelo e velocidade. Toda esta informação é transmitida para um comando central militar.
É a partir desta fase que se começam a estudar as opções mais viáveis para efectuar um lançamento contra-ofensivo. O que pode acontecer fora de território americano, tendo assim os Estados Unidos de recorrer às plataformas supostamente colocadas em países aliados. Finalmente, um míssil defensivo de intercepção será lançado sob a orientação do comando central.
A República Checa e a Polónia já anunciaram que, em princípio, vão aceder ao pedido de Washington, permitindo assim que sejam colocadas plataformas de lançamento e radares nos seus territórios.
Segundo as informações veiculadas, os Estados Unidos andam agora à procura de um país na parte ocidental da Europa para colocar mais rampas de lançamento e sistemas de detecção. A Inglaterra é, neste momento, uma parte interessada em acolher esta fase do projecto.
A porta-voz do chefe do Executivo britânico informou ontem (23-02-2007) que as conversações entre Londres e Washington foram uma boa ideia. "Pensamos que [as negociações] é um passo importante para providenciar à Europa uma cobertura antimíssil", disse à BBC. O Primeiro Secretário da Embaixada dos EUA em Londres, David Johnson, confirmou as conversações mas, para já, o seu país não tem interesse em avançar com o sistema em território britânico.
E por que não Portugal?
David Johnson, porém, admitiu a possibilidade de discutir este assunto com outros países.
Ora, não será esta uma oportunidade para Portugal voltar à ribalta da política internacional? Talvez...
Tudo depende das correntes ideológicas que, por estes dias, se movimentam com mais facilidade nas Necessidades.
Mas, uma coisa parece ser certa... Daquilo que se conhece do primeiro-ministro José Sócrates, esta poderá ser uma oportunidade que ele não queira perder para brilhar na arena internacional.
Aliás, se Sócrates olhar para o passado só tem motivos para avançar no compromisso com os Estados Unidos. Se não, repare-se: Bastou José Manuel Durão Barroso aparecer na "fotografia" dos Açores para ter uma "passagem" directa para Bruxelas (uma visão simplista, é certo).
Agora imagine-se a recompensa, caso Sócrates decidisse integrar Portugal no sistema antimíssil dos Estados Unidos. Além de que evitaria problemas a Blair e voltaria a colocar Portugal entre os "crescidos". Alexandre Guerra
