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O Diplomata

Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais

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O desporto como factor de poder

Alexandre Guerra, 28.08.07

Hoje, mais do que nunca, o desporto assume-se com um factor de poder dos Estados nas relações internacionais. Trata-se de um aspecto particular daquilo que pode ser enquadrado, num plano mais geral, como "soft power". Este tipo de poder confunde-se com a "Public Diplomacy" e esta, por sua vez, assenta na capacidade dos governos exportarem de forma não bélica as suas potencialidades técnicas, científicas, políticas, económicas, culturais, entre outras.


O Miguel Abrantes, na Câmara Corporativa, observa bem quando refere que a modernização de um país também passa pelo desporto, nomeadamente, pela evolução nas disciplinas técnicas que, normalmente, estão associadas a países desenvolvidos. De facto, constata-se a tendência das grandes potências dominarem provas como o triplo salto, na qual Nelson Évora conquistou o ouro em Osaka, ou como os 100 e 200 metros, nos quais Francis Obikwelu tem demonstrado grandes resultados. E, normalmente, quando surgem atletas de países menos avançados a darem cartas em provas técnicas convém não esquecer que o seu treino é feito em potências. 


Sublinhe-se também a prestação do jovem Arnaldo Abrantes que, com apenas 20 anos, estabeleceu esta madrugada o seu novo recorde pessoal nos 200 metros, passando aos quartos de final. Algo impensável há alguns anos, ver um português naquela fase de uma prova de velocidade em pleno campeonato do mundo. Efectivamente, o tempo de Arnaldo Abrantes (20.48) é de classe mundial. Bons indicadores para um jovem que se estreou em grandes palcos internacionais.


Terá sido um acaso? Claro que não, assim como não tem sido Nelson Évora ou Naide Gomes que, apesar de se ter ficado pela quarta posição em Osaka, não deixa de ser uma das melhores do mundo no salto em comprimento feminino. Imagine-se, quem diria isto há uns tempos. E se em relação ao Obikwelu se pode afirmar que os seus resultados são fruto da capacidade técnica de países estrangeiros, como a Espanha, onde ele se treina, este argumento cai por terra quando se fala de Nelson Évora ou de Arnaldo Abrantes, atletas que se têm treinado em Portugal.


Porém, mesmo no caso de Obikwelu, houve quem tivesse a inteligência e a sensibilidade de perceber (o professor Moniz Pereira foi uma dessas pessoas) que o nigeriano tinha potencial para "oferecer" prestígio e glória a Portugal. E é este prestígio e glória que também dão poder e autoridade aos Estados e, consequentemente, influência no sistema internacional. Relembre-se a disputa entre os Estados Unidos e a então União Soviética na área do desporto durante a Guerra Fria: tratavam-se de autênticas "guerras" dentro dos recintos desportivos, claro está, com fortes implicações políticas.


Não obstante os bons sinais evidenciados por alguns atletas nos últimos anos, Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer, não só no desporto em geral mas também em todas as outras áreas da sociedade. A modernização não se esgota na entrega de uns computadores portáteis ou no aumento do número de licenciados, é preciso sofisticar as mentalidades e compreender que a afirmação dos Estados num mundo globalizado se faz através de novos factores de poder. A cultura, o desporto ou a ciência são apenas algumas das "armas" do chamado "soft power" dos Estados, que pode ser tão ou mais influente que o tradicional "hard power", assente basicamente numa relação político-militar. Alexande Guerra 

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