Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019

A carta de Churchill à mulher

 

No dia 28 de Julho de 1914, a Áustria declara guerra à Sérvia, dando início à IGM. Nessa noite, Churchill escreve uma carta à sua mulher Clementine:

 

"Minha mais querida e bonita, tudo tende para a catástrofe e o colapso. Sinto-me interessado, empenhado e feliz. Não é horrível ser assim constituído? Os preparativos têm para mim um detestável fascínio. Rezo a Deus que me perdoe por tão terrível pendor de ligeireza. E, no entanto, daria o meu melhor pela paz, e nada me inclinaria ao malefício do primeiro golpe -- não consigo sentir que carreguemos, nesta ilha, algum grau sério de responsabilidade pela vaga de loucura que varreu a mente da Cristandade [...]. Interrogava-me se não poderiam esses estúpidos Reis e Imperadores reconstituir e reanimar o real bom senso, salvando as nações do inferno, mas seguimos afinal todos à deriva numa espécie de sombrio transe cataléptico. Como se tudo fosse dirigido por outrem."

 

"Churchill - Caminhando com o Destino" Andrew Roberts (Texto Editores/Out.2019)

 

Publicado por Alexandre Guerra às 09:58
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Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019

Trinta anos depois, esfriou o entusiasmo na UE para alargar as suas fronteiras

 

Os trinta anos volvidos após a queda do Muro de Berlim já nos permitem ter uma perspectiva histórica sobre a evolução do projecto europeu na realidade sistémica pós-Guerra Fria. De forma mais simplista e imediata, dir-se-ia que em três décadas se passou do entusiasmo contagiante ao esfriamento céptico. Embora seja uma ideia (ou talvez percepção) muito popular nos dias que correm, esta leitura deve ser feita com a devida contextualização.

 

Os ventos de mudança que se fizeram sentir na Europa entre 1989 e 1991 foram de tal maneira intensos que “empurraram” toda uma elite de líderes europeus e tecnocratas em Bruxelas para o caminho comum da celebração do ideal de “união” numa Europa atormentada durante décadas pela divisão dos seus povos. Dessa força política imparável resultaram dois dos momentos mais importantes daquilo que viria a ser a (re)definição e consolidação do conceito de projecto europeu: a entrada em vigor do Tratado de Maastricht, em Novembro de 1993, e o alargamento da União Europeia (UE) a Leste, em Maio de 2004. Não sendo o Tratado de Maastricht objecto de análise deste texto, foquemo-nos no maior alargamento de sempre e das implicações que teve na concepção da ideia de União Europeia e nas expectativas dos países do antigo Bloco de Leste e dos que saíram da ex-URSS.

 

Tal como tinha acontecido com Maastricht, também o alargamento em 2004 assumiu contornos inéditos na definição da natureza do projecto europeu. A 1 de Maio de 2004, de uma só vez, aderiram dez novos Estados à UE: Polónia, República Checa, Eslováquia, Eslovénia, Hungria, Lituânia, Letónia, Estónia, Malta e Chipre. Foi um momento particularmente importante no processo de construção europeia, sobretudo por duas razões: a primeira, por tratar-se da primeira vez que a União Europeia se alargava a países que tinham pertencido ao antigo Bloco de Leste; a segunda razão pelo facto de enviar um sinal de esperança a todos os Estados que outrora tinham estado sob o jugo comunista e que continuavam às “portas” do clube europeu.

 

O alargamento de 2004, pela sua expressão e alcance geográfico, representava um compromisso claro, por parte dos Estados-membros, da intenção de se fazer chegar as fronteiras do projeto europeu o mais longe possível. Foi esse o caminho escolhido, mas não sem antes ter havido um intenso confronto de visões. Não estava em causa mais um “simples” alargamento confinado a uma Europa ocidental desenvolvida, como já tinha acontecido várias vezes. Não, em 2004, era uma nova Europa que se (re)descobria.

 

Com a queda do Muro e a implosão da URSS dois anos depois, a União Europeia podia ter esperado, adiado ou abortado essa ideia de agigantar o projecto europeu e remeter-se ao aprofundamento das fundações e dos mecanismos de uma Europa ocidental e desenvolvida a 15 ou pouco mais do que isso. Mas a decisão política e estratégica foi a de seguir em frente, mais concretamente para Leste, com todos os riscos que daí adviriam para o que já fora conquistado em termos de construção europeia. Ao alargar a Leste, a União Europeia assumiu um compromisso de disponibilidade para com todos os países que estiveram debaixo da esfera soviética, criou expectativas e alimentou sonhos.

 

Perante a dimensão histórica do que estava em causa, o alargamento foi precedido de um longo e intenso debate – pelo menos entre os mais entusiastas e atentos aos assuntos europeus. Na altura, estiveram em confronto duas correntes de pensamento: aquela que sempre defendeu a política dos “pequenos passos” e uma União Europeia geográfica mais contida; e aquela que via no alargamento uma missão intrínseca ao espírito originário da ideia de Europa.

 

A segunda corrente acabou por prevalecer. A partir daqui, novos alargamentos seriam inevitáveis. A questão é que seriam alargamentos mais motivados pelo tal espírito de missão do que propriamente pela rigidez dos famosos “Critérios de Copenhaga”. E isso ficou bem evidente a 1 de Janeiro de 2007, quando a Bulgária e a Roménia aderiram à UE. As candidaturas daqueles dois países eram de tal forma frágeis – as quais pude constatar meses antes da adesão numa visita à Bulgária –, que Bruxelas impôs algumas condições extraordinárias de vigilância e controlo aos mais recentes membros. Esta medida foi adoptada na sequência do conturbado processo de adesão daqueles dois países, que não preencheram todos os requisitos da forma esperada. Em alguns dossiers, as autoridades de Sófia e de Bucareste não conseguiram adoptar as reformas necessárias, originando fortes avisos por parte da Comissão Europeia. As áreas da justiça e do combate à corrupção foram aquelas que mais preocupações geraram. Recorde-se que na altura, Paris e Londres pressionaram a Comissão para que endurecesse sua posição, perante aquilo que consideravam ser um caso “sério de corrupção” em dois países que começavam a estar fora de controlo. Também a Suécia e a Holanda partilharam desta opinião, ao acusarem a Comissão de não estar a cumprir com as suas obrigações, colocando assim em causa o processo de alargamento da União Europeia. Esta questão adensou-se depois de vários Estados-membros terem acusado Franco Fratini, o então comissário europeu da Segurança e Justiça, responsável pela aplicação de algumas reformas na Bulgária e Roménia, de estar a “fechar os olhos” ao que se passava nos dois países.

 

Bruxelas “fechou os olhos” a muita coisa, que era por demais evidente, tal como já tinha “fechado” em 2004, em nome de uma ideia virtuosa, é certo, mas que estava cada vez mais desprovida de realismo, criando desequilíbrios estruturais no seio do edifício da UE que ainda hoje se fazem sentir, nalguns casos até de forma bastante acentuada. A entrada da Croácia em 2013 acabou por ser um passo natural dentro desta linha estratégica. Tal como o início das negociações de adesão com o Montenegro (2012) e com a Sérvia (2014), a formalização da candidatura da rebaptizada República da Macedónia do Norte (2005) e da Albânia (2014), e os pedidos de adesão da Bósnia-Herzegovina (2016) e do Kosovo (2016). Estes últimos quatro países estão abrangidos pelo Acordo de Estabilização e Associação. Quanto à Turquia, iniciou formalmente as negociações de adesão em 2005, mas trata-se, sobretudo, de uma herança e “obrigação” histórica que remonta a 1963 e que em nada se enquadra no quadro do alargamento europeu aqui falado neste texto. Na verdade, nem Bruxelas nem os líderes europeus quiseram assumir frontalmente, nos últimos anos, a inviabilidade da adesão da Turquia à UE, optando, antes, por um “arrastar” interminável do processo negocial. Aliás, basta comparar os processos dos três países nessa condição de “negociações abertas” e constata-se que existem diferentes dinâmicas e motivações: Turquia, Sérvia e Montenegro.

 

Ancara começou a negociar em 2005, mas conseguiu abrir apenas 16 capítulos e encerrou provisoriamente um. Por seu lado, Belgrado iniciou negociações com Bruxelas quase dez anos depois, conseguindo abrir 17 capítulos e fechado provisoriamente dois. Mais expressivos são os números do processo negocial entre Bruxelas e Podgorica, iniciado em 2012, no qual foram abertos até ao momento 32 dos 35 capítulos de negociação, três dos quais foram já provisoriamente encerrados. De sublinhar ainda que a última vez que a União Europeia e a Turquia abriram um novo capítulo negocial foi em Junho de 2016, enquanto com Belgrado e Podgorica foi em Dezembro de ano passado.

 

Dos três processos negociais em curso, parece evidente que a longo prazo, a Turquia continuará de fora da UE. Porém, se poucos acreditam na concretização da adesão da Turquia, aceitando-se tacitamente o “congelamento” desse processo, as coisas mudam de figura quando se fala dos países dos Balcãs. As expectativas criadas depois do fim da Guerra Fria, do alargamento de 2004 – que incluiu um país balcânico pobre (a Bulgária) – e da entrada mais recente de uma nação da antiga Jugoslávia (Croácia), alimentam a esperança de outros Estados balcânicos entrarem na UE. Ainda recentemente, o primeiro-ministro do Montenegro, Dusko Markovic, dizia em entrevista à AP estar esperançoso que, após o “Brexit”, Bruxelas voltasse a dar mais atenção ao processo de alargamento.

 

Não obstante as fragilidades do seu sistema político, o Montenegro parece estar “moderadamente” bem encaminhado nos capítulos negociais, segundo o último relatório de acompanhamento. Para Bruxelas, o Montenegro, um país que nem chega a 700 mil habitantes, representa poucos desafios, um pouco à semelhança da Croácia quando aderiu, que acabou por se tornar uma espécie de estância tranquila de férias da Europa. É muito provável que o Montenegro seja o próximo a entrar na UE e até é previsível que o faça sozinho em 2025, como referido, de forma algo tímida, no compromisso da estratégia europeia para os Balcãs Ocidentais, aprovado pela Comissão em Fevereiro de 2018.

 

Mais complicado é o processo da Sérvia, apesar de este documento também apontar a data de 2025 para a sua adesão plena. Nos últimos anos, Bruxelas não tem tido particular entusiasmo nem empenho no processo de adesão da Sérvia, por razões que vão muito além das análises dos relatórios técnicos de acompanhamento, nomeadamente do mais recente. Há vontade por parte da Sérvia para aderir à UE, como aliás é referido pelos seus líderes e como pude confirmar no ano passado numa visita àquele país. E até existem condições de partida para isso, quando comparadas, por exemplo, com as da Bulgária em 2004. Belgrado é uma cidade cosmopolita, culta, vibrante e em crescimento acentuado. O resto do país é mais rural, mas nem por isso se deve descurar a sua importância estratégica enquanto placa giratório na região, que será potenciada com a conclusão do ambicioso projecto do Corridor X Highway, uma auto-estrada que atravessará o país e que será integrada na Rede Trans-Europeia Rodoviária (TERN).

 

É certo que a Sérvia apresenta grandes debilidades ao nível de infra-estruturas e de solidez nas suas instituições, mas tem todo o potencial para colmatar essas fragilidades, tendo vindo a crescer economicamente e a apresentar melhorias significativas em várias áreas. No entanto, há uma questão que parece ser inultrapassável no actual processo negocial, que tem a ver com o nacionalismo sérvio e com a herança trágica dos vários conflitos da ex-Jugoslávia. As feridas mantêm-se mais vivas do que se possa pensar e as lideranças políticas continuam a veicular um discurso ulta-nacionalista que escapa ao radar da imprensa de referência europeia, onde constantemente se enaltecem os actos criminosos praticados durante a guerra da Bósnia (1992-95), se endeusam as lideranças militares e se alimenta constantemente uma retórica de exortação étnica. Esta questão é particularmente exacerbada na República Srpska, Bósnia Herzegovina, onde Belgrado faz sentir diariamente a sua retórica política contra os vizinhos muçulmanos bósnios. Ao mesmo tempo, Belgrado recusa qualquer tipo de moderação política exigida por Bruxelas. Perante isto, como enquadrar um país na União Europeia onde uma parte da população considera Milosevic um herói? Onde se enaltecem líderes militares como Karadzic e Mladic, que praticaram crimes hediondos? Onde existe uma realidade alternativa dos acontecimentos de Srebrenica? Onde não se reconhece o Kosovo independente?

 

É sobretudo por estas razões que não se perspectiva a adesão da Sérvia à UE em 2025. Como ainda há uns meses referia Srdjan Majstorović, presidente do European Policy Centre, um think tank que tem como objectivo acompanhar o processo de adesão da Sérvia: “O ano de 2025 não é impossível, mas, neste momento, não é muito realista porque nenhum dos lados se está a esforçar para isso.”

 

O entusiasmo de outrora, manifestado por outros líderes noutros tempos, deu lugar à prudência e até mesmo ao cepticismo por parte de alguns Estados-membros. Bruxelas vai cumprindo o calendário dentro dos seus compromissos, sem mostrar muita vontade em acelerar processos. “Ninguém irá dizer em alto e bom som que está contra o alargamento, faz parte do jogo político, mas há uma forte resistência no seio dos Estados-membros da UE, para que o alargamento não aconteça até que haja uma reconfiguração das relações poder e que novos modelos sejam implementados”, disse há umas semanas o recém-eleito redactor do Parlamento Europeu para o processo de adesão do Montenegro.

 

Essa perda de entusiasmo ficou bem evidente com a decisão recente do Presidente francês, Emmanuel Macron, que, no Conselho Europeu de Outubro último, vetou a formalização do início das negociações com a Macedónia do Norte e a Albânia, sob os argumentos de que a UE deve, primeiro, reformar-se internamente, e que se deve rever o modelo das condições dos futuros novos Estados-membros antes de se avançar para um novo alargamento. Paris esteve sozinho no veto à Macedónia do Norte, mas contou com a companhia da Holanda e da Dinamarca no caso da Albânia, ficando, assim, inviabilizado o princípio da unanimidade no voto no Conselho Europeu pelo qual se rege o processo de alargamento.

 

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, falou num “erro histórico” e sublinhou que “a União Europeia deve respeitar os seus compromissos”. Também o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, não escondeu o seu desalento: “Fizemos promessas a esses países.” E acrescentou: “Hoje gostaria de enviar uma mensagem aos nossos amigos da Macedónia do Norte e da Albânia: por favor, não desistam! Compreendo perfeitamente a vossa frustração, porque vocês fizeram a vossa parte, e nós não. A UE é uma entidade política complexa e é verdade que, às vezes, demora muito tempo a decidir. Mas não tenho qualquer dúvida que um dia irão torna-se membros de pleno direito da União Europeia”.

 

Os vetos francês, holandês e dinamarquês foram de, certa maneira, inesperados, porque romperam com a tradição europeia desde o final da Guerra Fria e que culminou com os alargamentos de 2004, 2007 e 2013. Como dizia o FT em editorial, os argumentos de Macron têm validade, o problema é que criaram uma situação que poderá afectar a credibilidade da UE no seu relacionamento com os países limítrofes. Além disso, é importante notar que tanto a Macedónia do Norte como a Albânia não estão pior nem melhor do que estavam a Bulgária e a Roménia quando iniciaram as suas negociações. O veto isolado de Paris provocou uma autêntica desilusão na Macedónia do Norte, onde o primeiro-ministro reformista, Zoran Zaev, sentindo-se traído e fragilizado, convocou de imediato eleições antecipadas, abrindo espaço para instabilidade política naquele país. Na Albânia, que contou com o veto triplo de Paris, Haia e Copenhaga, a reacção foi menos dramática, mas nem por isso Tirana se coibiu de enviar vários “recados” para Bruxelas.

 

Não só os líderes europeus, em tempos idos, fizeram promessas, como também criaram expectativas e alimentaram esperanças. Legitimamente, a Macedónia do Norte e a Albânia esperavam ver agora os seus esforços compensados, tal como outros viram, e iniciar as negociações dos vários capítulos com vista à adesão. A França, a Holanda e a Dinamarca (estas duas parcialmente) frustraram abruptamente essas expectativas, surpreendendo vários líderes europeus, incluindo a alemã Angela Merkel, que não escondeu o seu desagrado pela atitude daqueles três parceiros. O discurso oficial neste momento em Bruxelas é de que foi apenas um revés temporário, perspectivando-se que a curto prazo se criem as condições para que na próxima cimeira de líderes da União Europeia, já com um novos líderes na Comissão Europeia e no Conselho Europeu, se possa reencaminhar a Macedónia do Norte e a Albânia para o trajecto da adesão. Resta saber se a França se voltará a entusiasmar com uma Europa mais alargada aos Balcãs.

 

Texto publicado originalmente no PÚBLICO.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:32
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Segunda-feira, 28 de Outubro de 2019

As primeiras notas sobre a biografia de Churchill

 

Da leitura que estou a fazer da biografia de Andrew Roberts, "Churchill - Caminhando com o Destino" (Texto Editores, Gupo Leya), acabada de ser lançada em Portugal, retiro algumas ideias:

 

- Os cinco "elementos" que Churchill considerou como alicerces da sua grande oratória: "a escolha certeira das palavras; as frases cuidadosamente tecidas; a acumulação dos argumentos; o recurso à analogia; o recurso às extravagâncias".

 

- A religião esteve sempre presente no discurso político conservador anglo-saxónico. Mas veja-se isto: "Do total de cinco milhões de palavras que [Churchill] pronunciou nos seus discursos, nunca disse a palavra 'Jesus' e só uma vez proferiu a palavra 'Cristo' (...)."

 

- "[Churchill] Era o correspondente de guerra mais bem pago do mundo. Com esses proventos, mais dos livros e palestras correspondentes, em 1901 já tinha amealhado uma fortuna correspondente a um milhão de libras de hoje (...)."

 

- Lê-se na biografia que Churchill só aos 73 anos terá marcado um número de telefone pela sua própria mão. Não surpreende, se tivermos em conta o ambiente elitista em que viveu. Surpreende, sim, é haver políticos no século. XXI com práticas distanciadas do mundo real.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:10
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A ilusão

 

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Brave New World (part two) by Marit Otto (2018)

 

A reler o "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley... "Oh, admirável mundo novo..." Disse o "selvagem" John quando reagiu ao convite do "civilizado" Bernard para regressar com este e sua companheira Lenina a Londres, capital da civilização, da utopia. John nunca tinha saído do pueblo Malpais, uma espécie de reserva indígena museológica de uma humanidade pré-civilizacional, localizada algures na região do Novo México e México. O "selvagem" nunca tinha visto nenhuma mulher como Lenina, para ele, um "anjo vestido de viscose verde garrafa, resplandecente de mocidade e de cremes de beleza, rechonchudo, sorrindo com meiguice", um ideal de perfeição e harmonia, um exemplo das "virtudes" da grande civilização de Ford, contrastando com o estádio primitivo do mundo renegado de Malpais. "Oh, admirável mundo novo, onde existem tais criaturas..." Dizia John deslumbrado com a civilização de Bernard e Lenina. Era um mundo novo, sim, mas desconhecia o jovem "selvagem" que em Londres o esperava uma sociedade sem alma nem humanismo, onde não havia vontade própria nem livre arbítrio. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:03
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Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019

Churchill - Caminhando com o Destino

 

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Churchill - Caminhando com o Destino, acabou de sair em Portugal pela mão da Texto Editores (Grupo LeYa), com a edição de Duarte Bárbara (com quem já tive o privilégio de trabalhar na edição de um livro de um antigo dirigente político português). Esta nova biografia do historiador Andrew Roberts foi lançada no ano passado e mereceu elogios internacionais. Com mais de mil biografias escritas sobre Churchill, o The Guardian revela que esta obra tem a virtude de apresentar novo material, que, entre outras coisas, destapa o sentimentalismo e as lágrimas literais da vida privada do antigo primeiro-ministro. E apesar da admiração que o autor tem por Churchill, isso não o impediu de abordar os muitos erros desastrosos do antigo líder britânico. Já o The New York Times questiona-se se esta não será a melhor biografia do antigo primeiro-ministro britânico alguma vez publicada e destaca a sua autoridade e elegância na escrita. Voltarei a este tema em breve aqui neste espaço.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:12
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Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019

Elijah E. Cummings (1951-2019), o adeus de um homem de "clarividência moral"

 

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De forma algo repentina, o congressista democrata Elijah E. Cummings morreu aos 68 anos. Eleito pelo círculo de Baltimore no estado de Maryland, Cummings foi um homem de consensos e que sempre teve um enorme respeito pelos seus adversários republicanos. Nos últimos tempos, travou duras batalhas com Donald Trump, que foi bastante agressivo com Cummings, mas nem isso impediu o Presidente de ser elogioso com o congressista depois de ter tido conhecimento da sua morte.

 

Dedicado à democracia e aos direitos civis, Cummings foi, como disse a “speaker” do Congresso Nancy Pelosi, uma “voz de clarividência moral” num país que atravessa um dos períodos políticos mais conturbados da sua história. Quando fez ouvir essa mesma voz contra a política da Casa Branca em relação aos centros de detenção de migrantes ilegais, Trump ripostou de forma rude e agressiva, acusando Cummings de ser um "bully brutal" e  da sua cidade Baltimore ser um "ninho infestado de roedores" onde "nenhum ser vivo quer viver". Na resposta, Cummings foi um senhor e explanou toda a sua maneira de estar na política : "Mr. President, I go home to my district daily. Each morning, I wake up, and I go and fight for my neighbors. It is my constitutional duty to conduct oversight of the Executive Branch. But, it is my moral duty to fight for my constituents."

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:25
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Terça-feira, 8 de Outubro de 2019

Lições da Guerra Fria para um combate realista às alterações climáticas

 

Em tempos escrevi que “uma Humanidade criada das cinzas de um conflito nuclear à escala global teria certamente que lutar pela sobrevivência da espécie, num mundo que estaria de regresso às origens do primitivismo social, eventualmente mergulhado num ‘estádio natureza’ hobbesiano, sem qualquer tipo de ordem ou contrato social”. E acrescentava: “O decisor político, que em última instância ordenaria a auto-destruição da Humanidade, num gesto calculado e analisado (ou não tivesse na sua posse a informação necessária para antecipar as consequências do seu acto), assumiria o papel de Deus, ao interferir com a existência das espécies, incluindo a única dotada com a faculdade do ‘entendimento’.” (1)

 

Recupera-se aqui estas palavras porque, de certa forma, há um paralelismo que pode ser estabelecido entre o potencial destruidor das armas nucleares e o das alterações climáticas: na sua versão pós-apocalíptica estas duas realidades – ironicamente resultantes da “inevitabilidade” do progresso científico – contêm na sua génese elementos perturbadores à vivência do Homem, não apenas enquanto ser social, mas como entidade biológica, podendo conduzir mesmo à sua destruição.

 

I am become Death, the destroyer of worlds”, desabafou J. Robert Oppenheimer, momentos após o Trinity Test a 16 de Julho de 1945, vendo confirmada a sua teoria sobre o potencial destrutivo da tecnologia de fissão nuclear. Semanas depois, as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki revelaram ao mundo uma força avassaladora até então desconhecida, potencialmente capaz de aniquilar a Humanidade.

 

Da literatura ao cinema, a cultura popular foi invadida pelo imaginário dantesco do cataclisma nuclear. Durante décadas, as sociedades viveram sob o medo de um conflito nuclear iminente à escala global. A natureza competitiva do sistema bipolar conduziu a uma disputa pelo domínio militar e a uma corrida aos armamentos (convencional e nuclear), gerando uma situação insustentável com potencial destrutivo da Humanidade. Era a primeira vez que a História do Homem estava confrontada com essa possibilidade. Como escreveu Aldous Huxley no seu prefácio à edição de 1946 da sua célebre obra Admirável Mundo Novo, “a libertação do atómico representou uma grande revolução na história humana”.

 

Quando os líderes ocidentais das duas superpotências nucleares tomaram consciência de que a escalada nuclear ilimitada poderia conduzir a um desastre de proporções bíblicas, Washington e Moscovo, sob forte pressão das suas opiniões públicas, construíram um regime internacional que permitiu “controlar” a problemática da “corrida” às armas nucleares. Além disso, este regime pretendia também conter a proliferação nuclear além dos Estados que já estivessem no “clube”. De certa forma, este regime tem funcionado durante décadas, embora tenha começado a revelar algumas brechas no pós-Guerra Fria, mais concretamente nos últimos anos, com o Irão e a Coreia do Norte.

 

Porém, é importante relembrar que nas ruas de algumas capitais ocidentais, o que se exigia na altura era uma solução irrealista e inalcançável, que apontava para o desarmamento total e global. Por mais mérito e virtude que essa ideia tivesse, jamais seria colocada em prática. Não havia condições objectivas para tal. Num mundo ideal, próximo da utopia, talvez. Mas nunca naquele sistema de Guerra Fria. Além disso, as receitas excessivamente idealistas já se tinham revelado no passado contraproducentes em termos sistémicos, bastando recordar as consequências desastrosas das políticas bem intencionadas, mas totalmente irrealistas, de Woodrow Wilson.

 

Idealismo à parte, foi o realismo político de então que permitiu viabilizar um modelo de entendimento na questão nuclear, concretizável e com resultados quantificáveis. Em vez de se falar de desarmamento total, algo que Washington e Moscovo nunca iriam aceitar, o objectivo passou a ser o “controlo” da corrida às armas e o combate à proliferação nuclear. Um feito mais modesto, mas realizável.

 

O debate público que actualmente se faz ouvir em torno da questão ambiental tem semelhanças com os movimentos pacifistas que se manifestaram no pico da crise nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. Além de estar carregado de hipocrisia e contradição, a retórica ambientalista mainstream contém os elementos do seu próprio falhanço, porque assenta numa abordagem ingénua e, muitas vezes, populista, distante de possíveis modelos racionais que possam contribuir, efectivamente, para uma resposta prática. As proclamações genéricas soam bem para quem as ouve e as manifestações imprimem uma sensação de obra para quem participa nelas, mas, realisticamente, estas acções em pouco ou nada se repercutem, eficazmente, no ataque ao problema.

 

O mundo tem continuado a fazer a sua caminhada imparável para a beira do precipício, com a cumplicidade de todos, seja por irresponsabilidade, negligência ou puro egoísmo, com as sociedades a entrarem numa espiral cada vez mais consumista, incapazes de abdicarem dos seus níveis crescentes de conforto, sejam gerações mais velhas ou mais novas. Não tem sido por falta de sensibilização e muito menos de conhecimento científico que se chegou ao ponto onde se chegou. Não é de agora que as questões ambientais agitam as opiniões públicas. Basta recuar até há quase 25 anos, quando a Humanidade despertou para a ameaça à sua existência com a descoberta do “buraco” na camada de ozono na região da Antártida. Perante o anúncio chocante, gerou-se um debate intenso, alimentado por um sentimento de alarme geral que obrigou os governos a subscreverem muito rapidamente o Protocolo de Montreal, em 1987. Este documento, à semelhança de tantos outros do género, poderia ter sido mais uma declaração vazia de princípios, sem qualquer foco. Continha a grandiosidade imensa de um acordo universal, tendo sido a primeira vez que todas as nações do mundo subscreveram um documento deste tipo. Ou seja, tinha tudo para dar em nada, no entanto, a grande diferença é que o Protocolo de Montreal se centrou num objectivo muito concreto e realista: acabar com a comercialização de produtos com compostos químicos gasosos de clorofluorcarbonetos (CFC). As metas ficaram muito bem definidas e especificadas.

 

Este protocolo revelou-se um dos mecanismos mais eficazes de sempre, conseguindo em pouco mais de duas décadas alcançar uma grande parte dos objectivos propostos, com resultados ambientais evidentes ao nível da redução do “buraco” na camada de ozono. E como foi possível tal feito? Através de um modelo mais realista. Embora estivesse assente numa base alargada a todas as nações, o Protocolo foi construído de modo a que todos os Estados, independentemente do seu estádio de desenvolvimento, pudessem alcançar as metas.

 

É preferível ter uma medida concretizada do que um enunciado delas que revelam ser não mais do que meras declarações de circunstância. Ainda recentemente na Cimeira da Acção Climática realizada em Nova Iorque, à margem da 74.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, 77 países, Portugal incluído, anunciaram a intenção de alcançar a meta de emissão zero de gases com efeito de estufa até 2050. Uma declaração que vai ao encontro da agenda mediática e das vozes que ecoam nas ruas, mas, na verdade, o que é que em termos práticos isso significa? Rigorosamente nada. Não há medidas concretas que acompanhem estas declarações e, provavelmente, nem todos os países estarão nas mesmas condições para porem em prática qualquer plano digno desse nome. É verdade que, por exemplo, o Protocolo de Quioto, que foi prorrogado para lá de 2012, previa algumas diferenças de tratamento na abordagem às reduções das emissões dos gases com efeito de estufa, porém, todo o seu conceito era de tal maneira genérico e abrangente que os resultados foram modestos para não dizer nulos. Se forem analisados os períodos dos primeiro e segundo compromissos (até 2020), o que se verifica é que em vez de uma diminuição, houve um aumento das emissões.

 

Estamos agora prestes a entrar na “era” do Acordo de Paris (pós-2020), mas os erros de sempre estão lá e basta ver o pressuposto basilar do documento: “O Acordo de Paris é ambicioso, dinâmico e universal. É um acordo que abrange as emissões de gases de todos os países.” Esta proclamação desmesurada é, por si só, reveladora da sua própria irrelevância, uma fórmula que se tem revelado inadequada à causa ambiental. Na verdade, o que é preciso é menos ambição e universalidade e mais realismo e pragmatismo no processo de construção de soluções, porque, à semelhança do que aconteceu na era nuclear, só assim se conseguem regimes consequentes.

 

A pergunta que os líderes mundiais devem fazer a si próprios é a seguinte: no âmbito de um quadro negocial (sim, porque é disso que estamos a falar), valerá a pena continuar a tentar forçar um compromisso global (mas artificial) com quase 200 nações? Forçar um acordo cheio de promessas pomposas e vãs, técnica e humanamente impraticáveis?

 

Ou, por outro lado, não será mais eficaz que alguns líderes promovam um fórum de trabalho permanente e exequível com as 15 nações responsáveis por mais de 70 por cento das emissões? Nações essas que estão em condições de adoptarem medidas concretas e realistas a curto e médio prazo. Uma espécie de G15 para o ambiente ou algo parecido, mas que contemple canais de diálogo abertos e formatos de negociação, quer multilateral ou bilateral. Seguramente que qualquer medida concretizada neste âmbito, por mais pequena que fosse, teria efeitos mais positivos do que as proclamações genéricas feitas nas grandes cimeiras. Basta sublinhar que só os EUA e a China são responsáveis por cerca de 40 por cento das emissões de gases com efeito de estufa. Qualquer acordo bilateral entre as duas partes terá implicações directas no ambiente.

 

Seria aconselhável que os líderes das principais potências mundiais regressassem a uma retórica mais realista e pragmática, assumindo uma solução que terá de ser negociada num círculo mais fechado de países: aqueles que mais poluem, mas também aqueles que estão em melhores condições para implementarem medidas imediatas e concretas. À primeira vista poderá parecer uma opção mais modesta, menos global e universal, mas é sem dúvida um caminho mais inteligente e concretizável. Ao contrário do que tem sido a tónica generalizada, este é o momento de sermos menos ambiciosos e sonhadores, para dar lugar ao racionalismo e à efectiva negociação. Há compromissos que têm de ser feitos, cedências acordadas e incentivos atribuídos. E isso não se faz com quase 200 nações sentadas à mesa, até porque a maioria delas tem pouco para oferecer em termos de capacidade de resposta na mudança de hábitos no seu tecido social e na transformação técnica do seu complexo industrial.

 

Não vem mal ao mundo que as vozes nas ruas se continuem a expressar entusiasticamente, mesmo que, muitas vezes, esse discurso esteja impregnado daquilo a que o investigador José Pedro Teixeira Fernandes, aqui no PÚBLICO, chamou de “populismo ambientalista dos perpetuamente ofendidos”. O importante para o futuro da Humanidade é que, para lá desses movimentos de massas, surjam uns quantos “wise men” com visão e capacidade de negociar acordos para serem cumpridos a curto e médio prazo. Conhecimento científico já o têm e tecnologia também. Faltam as decisões inteligentes e práticas.

 

 (1) GUERRA, Alexandre - A Política e o Homem Pós-Humano, prefácio de Viriato Soromenho-Marques, texto de contracapa de José Manuel Durão Barroso (Lisboa: Alêtheia, Outubro de 2016)

(2) Quando na universidade tirei uma cadeira específica sobre estas matérias, chamava-se precisamente “Problemática do Controlo de Armamentos”, sendo que um dos primeiros ensinamentos foi evitar a palavra “desarmamento”. Um conceito que ficava bem nos jornais, mas com pouca repercussão prática: o correcto era “redução” e “controlo” de armamentos.

 

Texto publicado originalmente no jornal PÚBLICO

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:56
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Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019

O Aladino

 

Esqueçamos por momentos a problemática de fundo associada às pinturas faciais em políticos (leia se “brownface” ou “blackface”) que, nalguns casos, tem assumido proporções absolutamente ridículas e patéticas, resultantes, em parte, de um certo histerismo que grassa nalguns circuitos da nossa sociedade e que, sejamos francos, em nada contribui para combater verdadeiramente os males que estão na origem do racismo ou de comportamentos racistas. A questão que aqui interessa neste texto é estritamente política, em concreto, na vertente da gestão de comunicação política. Pegando no caso de Justin Trudeau como exemplo, identifica-se de imediato um erro incompreensível para um líder que é actualmente primeiro-ministro do Canadá e que está em plena campanha eleitoral para uma recandidatura àquele cargo. É importante notar que as eleições se disputam a 21 de Outubro e mesmo antes do escândalo ter rebentado esta semana, Trudeau estava longe de ter a sua reeleição assegurada. As próximas sondagens dirão o quanto será afectado por este episódio, embora a oposição esteja a fazer um esforço tremendo para que isso aconteça, chegando mesmo a divulgar publicamente mais material comprometedor para Trudeau.

 

Tendo em conta a informação agora divulgada e o histórico recente deste tipo de casos na política norte-americana, seria previsível que um dia destes alguma fotografia incómoda viesse a lume, ainda para mais, contra um líder que se tem assumido como progressista e defensor acérrimo da igualdade de direitos.

 

Não me admiraria que assessores próximos de Trudeau desconhecessem a existência dessas fotos, até porque, muitas vezes, os líderes tendem a ocultar aos seus colaboradores mais próximos informação sensível do passado, abrindo apenas o “jogo” quando são confrontados com perguntas de jornalistas ou quando o assunto já está ao nível da gestão de crise e “damage control”.

 

Ao contrário da imagem que tem tentado passar, Trudeau, seguramente, tinha bem noção do que fez num passado não assim tão longínquo (num dos casos, pelo menos). Até porque, nos últimos tempos, este tem sido um tema recorrente nos Estados Unidos, sendo pouco verosímil que Trudeau nunca tivesse reflectido sobre os seus actos em jovem e já em adulto. Recorde-se que a primeira fotografia divulgada pela revista Time se reporta a um evento de 2001, onde ele tinha 29 anos. Além de já não ser assim tão jovem na altura, estamos a falar de um passado não muito distante, de um acontecimento que dificilmente alguém se esqueceria, sobretudo à luz de todos os escândalos que têm surgido envolvendo este tipo de atitude.

 

Este texto não se debruça sobre os comportamentos de Trudeau. Isso deixo para os moralistas e pregadores de serviço. O que aqui se aborda é a forma como geriu um assunto que tinha todo o potencial para se transformar numa “arma política “contra ele (como se veio a verificar).

 

Toda a gente erra e, como o próprio disse, Trudeau já não é mesmo homem que era na altura. É um princípio que se aceite e que qualquer pessoa de bom senso compreende. Aprender com os erros é uma evolução e a opinião pública, em muitos casos, compensa o líder político pela sua humildade. Acontece que esta fórmula pode ser poderosa quando parte de um pressuposto sincero e proactivo. Ou seja, quando o líder, de livre vontade, se sacrifica para assumir o seu erro. O problema é que Trudeau, assim como tantos outros, raramente optam por esta via, com a esperança de que o escândalo nunca rebente. E quando assim é, arriscam-se a que um dia a notícia caia que nem uma bomba em plena comitiva de jornalistas, como aconteceu com a divulgação por parte da Time da fotografia do “Aladino” num baile de máscadas das "Mil e Uma Noites", apanhando de surpresa todos, incluindo assessores e porta-vozes. Apostaria que Trudeau terá sido o único a não ser surpreendido.

 

Trudeau tem-se assumido convictamente como um farol de liberdade e igualdade, personificando valores éticos e morais em prol de um mundo melhor. Tem sido essa a sua mais-valia política e é por isso que ele nunca se poderia ter deixado colocar nesta posição, sabendo-se que, dificilmente, as fotos ficariam no esquecimento para a eternidade. Trudeau arriscou e está agora a pagar pelo jogo perigoso.

 

É por isso que há muito Trudeau deveria ter resolvido preventivamente (ou preemptivamente) este tema, falando aberta e sinceramente do seu passado. Seria um acto doloroso, sem dúvida, mas que dificilmente teria consequências eleitorais. Além disso, poderia prosseguir a sua carreira política liberto de um fardo deste peso. Mas não foi isso que aconteceu. Trudeau é hoje um líder fragilizado, debaixo de fogo, tendo-se já desculpado várias vezes perante os canadianos. A poucas semanas das eleições, a oposição vai tentar manter o assunto na agenda mediática e não é de excluir que surjam mais fotos comprometedoras. Trudeau está a sofrer consequências por actos que cometeu há vários anos, mas, politicamente, penso que ele deve ser julgado, não por aquilo que fez, mas por aquilo que não fez: enfrentado publicamente o seu passado no devido tempo, com toda a serenidade e firmeza.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:54
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Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019

Tempos excepcionais (mas não estes)

 

Numa das suas dissertações magistrais sobre Maquiavel, o Professor João Bettencourt da Câmara (1948-2017) relembrava que, entre aqueles que ao longo dos séculos da Civilização se têm dedicado ao pensamento filosófico e científico, houve sempre uma predisposição para julgarem os “seus” tempos de excepcionais na história das relações internacionais e dos povos. Há, efectivamente, períodos de absoluta anormalidade sistémica, sendo que todos os outros momentos, aqueles que compõem a linha de continuidade histórica, não são mais do que o comportamento natural do sistema internacional, em constante estado de tensão e conflito.


Considero que muitos daqueles que, constantemente, se apresentam à opinião pública como descodificadores dos tempos supostamente extraordinários que eles próprios dizem estar a viver, revelam um esquecimento comprometedor ou selectivo da História. Esses “intérpretes”, que em vários fóruns não se cansam de repetir, a cada ano que passa, aquilo que consideram ser momentos únicos e raros no percurso da história política da Humanidade, constroem um raciocínio baseado na omissão ou desconhecimento de acontecimentos, alguns deles recentes, resultante de formatações intelectuais ou de agendas ideológicas que em nada têm a ver com uma análise científica e rigorosa das dinâmicas sociais e políticas.


Por estes dias, há uma banalização do critério de excepcionalidade na classificação dos acontecimentos dos Estados e das lideranças, que ignora, parcial ou completamente, o pensamento criado, os debates gerados, a doutrina produzida, os sobressaltos sociais e conflitos políticos que determinadas épocas ou períodos provocaram no passado. Para estes novos “profetas”, tudo é perigosamente novo num mundo em constante confrontação, com fenómenos que só eles compreendem e sabem explicar. No tempo em que vivem e comentam, neste nosso tempo, portanto, tudo é absolutamente extraordinário, tudo é inequivocamente ameaçador.

 

Trump, as migrações, Johnson, os populismos, os extremismos, o Brexit e o fim da UE, os nacionalismos, as fake news, por diante… Tudo isto é inédito e único, porque, para estas pessoas, agora, sim, estamos próximos do Apocalipse. É como se fizessem tábua rasa dos dramáticos e sistémicos acontecimentos que ao longo dos séculos foram fazendo parte da evolução das comunidades e dos sistemas políticos. É como se ignorassem o facto de os nacionalismos se terem expressado com toda a sua força no século XIX ou que a História dos povos, desde a Antiguidade, tenha produzido todo o tipo de carniceiros e ditadores. Ou então, é como se menorizassem o apogeu da ascensão dos extremismos e fanatismos no século XX, provocando milhões de mortos e um rasto de destruição.


Veja-se, por exemplo, o caso europeu. Basta recuar alguns anos, até ao período de Guerra Fria, e perceber o que era a vivência por detrás da Cortina de Ferro e a ameaça constante da destruição nuclear. Ou, então, mais recentemente, relembrar as atrocidades que se viveram nos Balcãs no início dos anos 90. Por mais crises do euro, Brexits, Orbáns ou Salvinis que a Europa agora tenha, nunca o Velho Continente – dentro de um quadro de análise que tenha em consideração uma linha temporal considerável – viveu tamanha estabilidade e prosperidade numa área geográfica tão abrangente. Das Flores a Moscovo, nunca a Europa esteve tão perto daquilo que é o sonho da “paz perpétua”.


Na altura em que escrevia este texto, Rui Tavares, no seu habitual espaço de opinião no Público concretizava milimetricamente essa tal perspectiva da excepcionalidade do seu (meu) tempo. Numa abordagem legítima, diga-se, Rui Tavares escrevia o seguinte a 21 de Agosto:
O problema é que o nosso atual ‘aqui’ é bem mais complicado do que aquilo a que estávamos habituados. É, desde logo, mais complicado até do que a muito complexa crise de 2008, um evento económico de um tipo que só ocorreu por uma vez nos 80 anos anteriores. Outros acontecimentos que estamos a viver não são de ciclo curto, daqueles que ocorrem uma vez a cada quatro anos, de acordo com os calendários eleitorais. Nem sequer uma vez por geração, ou até uma vez por século. Estamos a ver acontecimentos de uma magnitude semimilenar — os 500 anos que marcam o refluxo da expansão europeia e da sua centralidade na economia global, ou os mesmos cinco séculos que nos separam da única revolução comunicacional comparável à que estamos a viver, a da invenção da imprensa. Ou estamos mesmo a ver ocorrências inéditas na história humana, como a dos efeitos que temos na alteração do clima do planeta.”


Além de considerar esta visão manifestamente exagerada, com excepção das alterações climáticas, aquilo que hoje é identificado por muitos como ameaças ao status quo sistémico terá, na verdade, pouco impacto para criar esse efeito. Há crises? Desafios? Conflitos? Ameaças? Seguramente. Tal como sempre houve ao longo da história das lideranças e das sociedades. A questão é se os tais fenómenos têm repercussões sistémicas de médio e longo prazo.


Ou seja, com será que, daqui a umas décadas, analistas ou estudantes de Relações Internacionais irão classificar estes tempos que muitos agora consideram absolutamente extraordinários e de ruptura. Serão tempos de anormal turbulência sistémica ou, por lado, acontecimentos que, simplesmente, decorrem daquilo que são as dinâmicas naturais da História, dos povos e das nações? Inclino-me para a segunda hipótese.


A revisão da matéria dada permite-nos manter tudo em perspectiva, não perder a linha de continuidade da História e não olhar para o “aqui” ou para o “agora” com qualquer presunção ou ampliação dos acontecimentos. Talvez por ser da área das Relações Internacionais, tenha bem a consciência da raridade histórica desses momentos em termos sistémicos. Normalmente, ao longo dos séculos, esses períodos de verdadeira anomalia sistémica estão associados a rupturas de paradigma nas Relações Internacionais. De tal maneira que houve mesmo pensadores que, perante aquilo que consideravam ser a grandiosidade dos seus acontecimentos contemporâneos, acreditaram estar a viver o “fim da História”. Políbio talvez tenha sido o primeiro. Francis Fukuyama foi seguramente o último.


Diga-se que ambos viveram tempos absolutamente extraordinários e até mesmo Fukuyama, autor de uma teoria “requentada", foi inspirado por um dos períodos mais fascinantes da história do século XX e que resulta numa transição sistémica, que ocorreu entre 1989-1991, mas cuja clarificação e consolidação ainda se faz sentir. É importante sublinhar que 20 ou 30 anos é um período curto em termos sistémicos.
Analisando-se alguns dos fenómenos políticos e sociais de hoje, e que muitos consideram ser únicos e até mesmo de “magnitude semimilenar” (recorrendo a uma expressão de Rui Tavares), recupero aqui alguns casos que poderão ajudar a desconstruir algumas das ideias ou percepções que vão sendo construídas.


Sobre a surpreendente eleição de Donald Trump (terá sido assim tão surpreendente?), seguramente um dos acontecimentos mais marcantes destes anos recentes, tanto já se escreveu e se disse, sendo que, para muitos, é o sintoma da decadência das virtudes e dos valores da República dos Estados Unidos. Trump, que nem sequer era uma novidade na cena interna americana, surge aos olhos do mundo como uma distorção, uma anomalia, um catalisador de rupturas sistémicas, um produto de uma suposta crise das democracias ocidentais que emergiu nestes anos e produziu personagens como Bolsonaro, Orbán, Salvini e até Johnson (quase toda a gente já se esquece que, durante oito anos, foi mayor de Londres, uma das cidades mais populosas, evoluídas e sofisticadas do mundo).


A leviandade com que se assume esta tese é, por vezes, desconcertante, porque desvaloriza os acontecimentos e ensinamentos da História. Além disso, por mais criticáveis e desprezíveis que alguns sejam, muitos destes novos “vilões” em nada se comparam com aquilo que o passado já infligiu à Humanidade e com as consequências sistémicas que daí advieram. Da mesma maneira que é bastante distorcida a forma como se olha para as eventuais ameaças que alguns Estados colocam hoje ao sistema internacional. Há uma tendência para hiperbolizar neste momento aquilo que, historicamente, tem sido uma evidência. Quando muitos analistas e comentadores falam dos perigos da Coreia do Norte, do Irão ou da China, como se estivéssemos num momento do “agora ou nunca”, essa posição é de tal forma ingénua, como irreflectida. Na verdade, há décadas que a tensão existe no sistema internacional por causa destas potências e basta recuar ao momento em que George W. Bush, na sequência dos atentados do 11 de Setembro, apresentou ao mundo o “Eixo do Mal”, composto pelo Irão, Iraque e Coreia do Norte.


Quanto à China, desde sempre que é um actor competidor no sistema internacional e, por definição, um rival dos Estados Unidos. Desde o fim da Guerra Fria e com o advento da globalização, era expectável que aquele país viesse a assumir um papel mais relevante no novo sistema multipolar. Há muita literatura sobre o assunto. Nada é novo, nem mesmo a questão da soberania de Taiwan ou de Hong Kong. Numa análise realista, dir-se-ia que a China é hoje um Estado reforçado militarmente, disputando com os Estados Unidos a influência na zona do Pacífico, mas Pequim também nunca esteve tão dependente dos mecanismos do sistema internacional como está hoje, nomeadamente em termos económicos e tecnológicos. É o corolário do conceito de “interdependência complexa” teorizado por Robert Keohane e Joseph Nye.


O princípio do relativismo absoluto é perigoso, mas perder a noção de perspetiva histórica é irresponsável e contraproducente. Porque é essa perspectiva que nos permite enquadrar muitos dos acontecimentos que hoje vivemos. Quando comummente se fala na crise das democracias ou na fragilização das lideranças tradicionais, é interessante perceber que estas temáticas há muito que são analisadas e estudadas. Há anos que são uma realidade e que preocupam. Em 1975, por exemplo, o cientista político Samuel P. Huntington – que, anos mais tarde, se viria notabilizar internacionalmente com a sua tese do “Choque das Civilizações” (Foreign Affairs/Verão de 1993) – foi co-autor de um relatório que ficou célebre: “The Crisis of Democracy: On the Governability of Democracies”. Neste relatório foram levantadas questões muito pertinentes, entre as quais, a autoridade e a força dos Governos ou a incapacidade das burocracias estatais darem respostas eficazes nas sociedades.


Também ao nível das relações entre os Estados Unidos e a Europa, e ao contrário do que é veiculado e percepcionado, a eleição de Donald Trump não parece ter trazido novidades significativas à dinâmica que já era uma realidade desde o final da Guerra Fria, ou seja, a do distanciamento geoestratégico e geopolítico crescente entre os dois aliados. É muito revelador quando se relê o que o historiador e comentador Robert Kagan escreveu em 2003 no seu célebre “Of Paradise and Power”: “It is time to stop pretending that Europeans and Americans share a common view of the world, or even that they occupy the same world.” E acrescentava: “Europe is turning away from power, or to put it a little differently, it is moving beyond power into a self-contained world of laws and rules and transnational negotiation and cooperation. […] Meanwhile, the United States remains mired in history, exercising power in an anarchic Hobbesian world where international laws and rules are unreliable […] That is why on major strategies and international questions today, Americans from Mars and Europeans are form Venus.”


Veja-se outro exemplo da distorção analítica que reina por estes dias nas nossas sociedades, com a mais recente “moda” das fake news, um conceito que passou a fazer parte do léxico de jornalistas, comentadores, políticos e da opinião pública em geral. É todo um admirável mundo novo, mas o extraordinário é que, provavelmente, nenhuma das milhares de fake news que circularam nos últimos tempos teve consequências tão dramáticas como aquelas que conduziram à guerra no Iraque em Março de 2003. Sim, as fake news sempre existiram. Toda a construção do casus belli feito por Washington foi um embuste deliberado de proporções gigantescas, alimentado pela administração americana, nomeadamente Pentágono e Casa Branca, dominada por “falcões” como Dick Cheney, Richard Perle, Paul Wolfowitz, George Tenet ou Ahmed Chalabi.


A imprensa de referência americana não hesitou em propagar e legitimar toda a informação falsa relacionada com as tristemente célebres armas de destruição maciça no Iraque, sem qualquer espírito crítico ou escrutínio. A então reputada jornalista do New York Times, Judith Miller, foi uma das fakers de serviço. Mais tarde viria a cair em desgraça, tendo o New York Times que pedir desculpa aos leitores. Curiosamente, apenas dois jornalistas, que na altura trabalhavam para o publisher Knight Ridder, fizeram o seu trabalho e não “compraram” aquilo que a Casa Branca e o Pentágono lhes tentou “vender”.

 

Texto publicado originalmente no Público.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 23:31
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Segunda-feira, 12 de Agosto de 2019

Um modelo falível

 

Tentar prever o comportamento de um governante no âmbito de um tema fracturante, atendendo ao seu perfil político-ideológico, pode e deve ser um exercício válido, mas nem por isso infalível. Partindo de um determinado modelo de pensamento previamente conhecido, poder-se-á antecipar a decisão de um líder perante uma problemática sócio-política instalada na comunidade. Em tese, e dando um exemplo clássico, poder-se-á presumir que alguém ideologicamente de “esquerda” seja mais favorável à intervenção do Estado nos assuntos da “polis” do que alguém de “direita”, ou vice-versa.

 

Tendo como base este paradigma, consegue-se vislumbrar potenciais decisões de governantes em matérias relacionadas com o papel do Estado na esfera comunitária, seja na saúde, na educação ou nos transportes. Ou antever a sua relação política com temáticas culturais ou religiosas. Da mesma maneira que se poderão tornar previsíveis as decisões de um decisor, à luz de um registo mais conservador ou progressista, mais tradicionalista ou liberal, face a temas como o aborto, a eutanásia ou a engenharia genética.

 

O conhecimento e estudo das ideologias dá-nos um certo grau de previsibilidade no processo de decisão no âmbito do sistema político. Quando um candidato se apresenta a eleições assumidamente debaixo de um manto ideológico, é natural que o eleitor crie expectativas quando ao desfecho legislativo de determinadas matérias.

 

Mas esta fórmula está longe de ser exacta, até porque muitas das vezes os políticos estão desprovidos dessa carga ideológica, regendo-se exclusivamente pelo pragmatismo técnico-burocrático, podendo tomar decisões circunstanciais, de acordo com as necessidades (ou sondagens) do momento. E, mesmo aqueles decisores que, convictamente, se entreguem a uma determinada ideologia, podem ver-se confrontados perante uma realidade impositiva que se sobreponha aos seus princípios políticos originários.

 

Tome-se como exemplo o caso prático que por estes dias tem ocupado horas de telejornais e páginas de jornais: a greve dos motoristas de pesados de mercadorias, nomeadamente de matérias perigosas. Não são aqui chamados os contornos ou os efeitos da greve em si, mas sim o seu enquadramento político-ideológico feito por diferentes intervenientes. E se este caso é aqui referido, é porque é um bom exemplo da falibilidade da “fórmula” acima apresentada.

 

Na óptica do tal quadro de análise “esquerda-direita”, não seria descabido prognosticar, há umas semanas, que, perante um cenário extremado de greve, o Governo (esquerda) assumisse uma posição suavizada perante aquilo que tem historicamente considerado um princípio constitucional intocável ainda herdeiro da boa e velha tradição sindicalista dos tempos do “proletariado” marxista. Partindo dessa “fórmula”, dir-se-ia também que a oposição (direita) seria menos conivente com o tom radicalizado dos grevistas e viesse defender uma acção mais “musculada” por parte das autoridades no garante da normalidade da sociedade.

 

Porém, os últimos dias vieram demonstrar o contrário, assistindo-se a uma inversão de papéis, pelo menos à luz daquilo que seria o cenário expectável: a esquerda fortemente empenhada na limitação aos direitos “excessivos” dos grevistas; a direita bastante permissiva perante o discurso extremado dos grevistas. Ideologicamente, será abusivo extrapolar estas posições para uma realidade mais definitiva, onde a esquerda e a direita alteraram os seus princípios face ao instrumento da greve.

 

Em Portugal ainda é bastante clara a fronteira doutrinária entre a esquerda e a direita em relação a algumas matérias, verificando-se algum conservadorismo ideológico em ambos os campos. A questão é que as circunstâncias políticas que se vivem acabaram por empurrar o Governo e a oposição para terrenos que não são habitualmente os seus. E quando assim é, rapidamente as ideologias são “metidas na gaveta” e os discursos mudam.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:39
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Da autoria de Alexandre Guerra, o blogue O Diplomata foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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