Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

Recordar o 9/11

 

Assinalam-se hoje 17 anos sobre os atentados terroristas a Nova Iorque e a Washington. É sem dúvida um dos momentos históricos mais trágicos de que tenho memória e, à excepção da queda do Muro de Berlim, é aquele que mais implicações sistémicas teve. Foi, por isso, para mim um privilégio, enquanto editor da secção de Internacional do SEMANÁRIO, ter deixado impresso o meu registo jornalístico, escrito ao longo dos dois dias que se seguiram aos atentados (uma Terça-feira), e que seria publicado na edição seguinte, na Sexta-feira (14). Depois do choque inicial, foi preciso afastar as emoções, perceber o que se estava a passar e perspectivar o que iria acontecer. Foram dias de muito trabalho e confusão, mas um desafio enorme para quem tinha as relações internacionais e o jornalismo como paixões.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 10:36
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Sábado, 1 de Setembro de 2018

Srebrenica

 

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Memorial/cemitério de Srebrenica no passado dia 27/Foto: Alexandre Guerra 

 

Embora há uns anos já estivesse estado num país dos Balcãs, ainda como jornalista numa visita a uma central nuclear na Bulgária, a verdade é que desde os anos 90, com o desmembramento da ex-Jugoslávia e o eclodir do conflito balcânico, o meu interesse por aquela região foi crescendo. Estudei na universidade com alguma intensidade o enquadramento histórico e político daquela zona, numa altura em que se começava a colocar em prática os Acordos de Dayton, celebrados no final de 1995. Há muito que tinha particular vontade de ir conhecer aquela realidade de perto, mais concretamente a Sérvia e a Bósnia, esta última composta por duas entidades: a Federação Bósnia (croata-muçulmana) e a República Srpska (sérvia ortodoxa). Perceber coisas que os livros não me diziam e tentar compreender alguns contornos na relação entre pessoas que outrora fizeram parte de um mesmo país evoluído cultural e industrialmente, mas que não foram capazes de evitar a maior barbaridade na Europa desde a IIGM. E nessa óptica, Srebrenica ficará para sempre com a maior vergonha europeia dos últimos 70 anos, como o maior falhanço da comunidade internacional em solo europeu.  

 

Por esta razão, das minhas andanças pela Sérvia e Bósnia na última semana, a visita a Srebrenica (que outrora tinha sido um enclave muçulmano) representou algo de especial. Não apenas pelo interesse histórico e político, mas sobretudo pelo lado humano. Muito teria para escrever, tanta foi a informação recolhida e que desconhecia (nada como ir aos sítios). Mas, vou deixar os factos de lado, porque o ímpeto para transmitir o que me perpassou pela alma, depois de tudo o que vi e ouvi, é mais forte. Das aulas da universidade, das leituras que tinha feito, das notícias que fui acompanhando ao longo dos anos, conhecia bem a história do genocídio de Srebrenica, uma localidade remota na parte sérvia (República Srpska) da Bósnia, onde há muito queria ir pelo que lá aconteceu e que jamais deve ser esquecido. Entre 11 e 16 de Julho de 1995, naquele enclave muçulmano em zona sérvia ortodoxa, foram assassinados mais de 8 mil bósnios muçulmanos (bosniaks), num massacre sistematizado, comandado militarmente por Ratko Mladic, sob as ordens políticas de Radovan Karadzic. Tudo aconteceu perante a impotência do tristemente célebre contigente holandês de capacetes azuis da ONU estacionado em Potacari, a poucos quilómetros de Srebrenica (para a história, o contingente holandês ficou associado negativamente a estes acontecimentos e ainda hoje, por um certo sentimento de culpa, muitos dos seus soldados acompanham a título pessoal as famílias das vítimas. O próprio Governo holandês apoia diversos projectos solidários. Mas vale a pena estudar com muita atenção tudo o que falhou ao nível da hierarquia de comando da ONU, para se perceber que muito podia ter sido feito para se evitar aquele genocídio, já para não falar que as "rules of engagement" dos soldados holandeses nem sequer lhes permitia disparar em legítima defesa).

 

Desde a II GM que o mundo não via imagens daquelas, uma campanha brutal de limpeza étnica em nome de um projecto nacionalista. Tenho bem presente aqueles terríveis acontecimentos e, por isso, o que mais me impressionou foi confrontar as imagens que tinha guardadas na memória com os locais aparentemente normais onde estive e pensar que tudo aconteceu só há 23 anos, bem perto do coração da Europa (Viena a Sarajevo não chega a 800 quilómetros). Por aqueles locais cometeu-se um extermínio em massa e é muito inquietante lidar com essa "normalidade". Até a empresa de autocarros que transportou sistematicamente centenas de bosniaks para os locais de extermínio ainda opera. Está lá! E perguntamo-nos: Como é possível? É difícil explicar essa "normalidade"... A verdade é que nada pode ser normal numa cidade quase fantasma, onde dantes viviam 40 a 50 mil pessoas e depois da limpeza étnica, através do extermínio ou de abandono forçado, ficaram apenas 12 mil.

 

Impressionou-me o que vi e emocionou-me o testemunho doloroso, ao longo de mais de uma hora, de um homem, na altura criança, que escapou à morte, mas perdeu o pai e o irmão no genocídio. E o mais tocante é que o mesmo surge de passagem num documentário, onde se mostram imagens da altura, com colunas de centenas de pessoas a fugirem de Srebrenica para localidades circundantes. E lá está ela, uma criança assustada, no meio de um conflito que servia apenas um propósito de Slobodan Milosevid: criar entre a Sérvia e a República Srpska uma homogeneidade étnica e religiosa. E o mais dramático é que comparando-se os mapas demográficos de antes de 1992 e depois de 1995, constata-se que a ideia de "grande" Sérvia protagonizada por Milosevic fez uma parte do caminho.

 

Hoje, com uma certa descontracção e ignorância, muito se fala de nacionalismos e de líderes nacionalistas e, por isso, é que trago aqui este texto, porque as pessoas esquecem rapidamente e, muitas vezes, pouco aprendem com a História. O memorial e cemitério das vítimas do genocídio de Srebrenica é impressionante e coloca-nos perante o resultado da mais vil e perversa obra de projectos políticos nacionalistas. Todos os anos, em Julho, são enterrados novos corpos identificados que, entretanto, vão sendo exumados das muitas valas comuns que circundam a área de Srebrenica. Depois de ver Srebrenica e em memória aos que morreram, é cada vez mais forte a minha convicção de que extremismos e nacionalismos devem ser combatidos com todas as nossas forças. Para que, como disse o imã de Potacari na inauguração do memorial/cemitério a 11 de Julho de 2001, "That Srebrenica never happen again, to no one and nowhere".

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:22
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018

Duas condições para "impeachment"

 

Os casos judiciais que envolveram Paul Manafort e Michael Cohen, outrora homens poderosos que fizeram parte do círculo mais próximo do Presidente Donald Trump, servem de “combustível” para manter vivo o “lume” até às eleições intercalares de Novembro. Um “lume” que os opositores de Trump esperam que se transforme nas “chamas do inferno”, com um processo de “impeachment” que, na actual configuração do Congresso (Câmara dos Representantes e Senado), é impossível de passar. É por isso que, provavelmente, nunca em tantos anos nos EUA, as eleições intercalares tiveram uma importância tão directa no destino do Presidente, porque se os republicanos perderem a maioria no Congresso e, consequentemente, a liderança de algumas comissões, poderão estar criadas as condições para o início formal de um processo de “impeachment”. Reconheça-se que, por menos, muito menos, Bill Clinton foi alvo de um processo destes, embora tenha sido absolvido e cumprido o seu segundo mandato até ao final, terminando com os mais altos índices de popularidade que um Presidente teve desde a II GM.  

 

Para um processo destes ter possibilidade de avançar, são sobretudo precisas duas condições: a primeira tem a ver com uma conjuntura política adversa contra Trump e um ambiente muito hostil instalado numa significativa franja da opinião pública; a segunda condição é partidária e prende-se com a composição do Congresso que, maioritariamente, tem que se opor ao Presidente.

 

Se polémicas com actrizes porno ou casos de polícia, como os do antigo director de campanha e o do ex-advogado de Trump, são excelentes para criar bases jurídicas e um sentimento cada vez mais adverso contra o Presidente, empolado diariamente pelos principais órgãos de comunicação social americanos, com a ajuda de muitos artistas e personalidades “activistas”, nada disto servirá se depois não houver correspondência no poder legislativo. Que é isso que acontece actualmente.

 

Não custa a acreditar que, daqui até Novembro, a primeira condição seja reforçada ainda mais, atendendo à habilidade de Trump para se meter em problemas criados por si próprio. A questão que se coloca é saber se os ventos de mudança chegarão ao Congresso. Para a segunda condição ser cumprida, tanto a Câmara dos Representantes como o Senado terão que mudar a sua composição (ou então, teria que haver uma alteração no pensamento de muitos republicanos, o que não parece verosímil). Na Câmara dos Representantes basta uma maioria simples para dar início ao processo de “impeachment”, já ao nível do Senado, a confirmação da queda do Presidente precisa sempre de uma maioria de dois terços. Ora, se em teoria, é possível que os democratas conquistem a maioria na Câmara dos Representantes, já que todos os seus 435 assentos irão a eleições, no Senado, dos seus 100 lugares, apenas 35 estarão em disputa, sendo que a maioria destes são actualmente ocupados por democratas. Mesmo admitindo que os democratas conquistem a maioria no Senado (perfeitamente possível), dificilmente chegariam a uma maioria de dois terços, porque pressuponha que, além de conquistarem lugares novos, teriam que convencer outros republicanos que já lá estão.

 

Do que se vai analisando, a estratégia de oposição a Trump passa por manter o Presidente debaixo de fogo até Novembro, explorando ao máximo todos os seus casos polémicos e, sempre que possível, abrindo novas “frentes de batalha”. Basta ver órgãos como o New Times e a CNN para se perceber que os próximos dois meses e meio vão ser de ataque constante a Trump e é por isso que casos como o de Manafort ou de Cohen são autênticas armas de destruição maciça contra o Presidente. O que a oposição a Trump está a tentar fazer é criar uma espécie de “casus belli”, na esperança de que em Novembro a maioria do Congresso mude de mãos e formalize o “impeachment”. E se isso vier a acontecer, é muito provável que muitos republicanos congressistas e senadores mais moderados se sintam tentados a dar o “empurrão” final a Donald Trump.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:24
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018

Afeganistão, o país esquecido

 

Quando os conflitos militares saem da agenda mediática, instala-se a sensação junto da opinião pública de que foram resolvidos ou atenuados. Se isso pode ser verdade em muitos casos, outros há em que o que acontece é puro esquecimento ou desinteresse da comunidade internacional face a realidades que perduram no terreno, por vezes, com mais intensidade. É isto precisamente que se está a passar no Afeganistão, uma guerra intestina mortífera, que continua a opor os taliban ao frágil Estado central.

 

Só nos últimos dias, os fundamentalistas islâmicos tentaram tomar de assalto a importante cidade de Ghazni, capital da província com o mesmo nome, envolvendo-se em confrontos com as forças de segurança, que provocaram, pelo menos, a morte de cerca de 100 polícias e 20 civis. Os combates continuam, embora as autoridades afegãs informem que a situação está controlada. Sabe-se também que na Sexta-feira (9) “conselheiros” americanos estacionados no Afeganistão foram para o local ajudar os militares afegãos e que aviões norte-americanos lançaram ataques aéreos, matando cerca de 140 insurgentes taliban. É importante lembrar que, formalmente, desde 2014, a intervenção bélica massiva dos EUA terminou no Afeganistão, tendo ficado para trás apenas cerca de nove mil soldados militares americanos para dar formação e apoio técnico às forças de segurança afegãs.

 

Seja como for, o New York Times, que tem um corresponde no Afeganistão, escrevia que quase todas as zonas suburbanas de Ghazni e as áreas rurais da província estão nas mãos dos taliban. Ghazni fica a 140 quilómetros a sudoeste de Cabul e a sua importância é estratégica, já que fica a meio da autoestrada que liga a capital afegã à segunda maior cidade do país, Kandahar. Entretanto, na Segunda-feira à noite (13), na mesma altura em que decorria a tentativa de ocupação de Ghazni, os taliban levavam a cabo uma outra operação no norte do Afeganistão, ao tomarem de assalto uma base militar na província de Faryab, matando 17 soldados. Os taliban informaram que muitos dos soldados da base Camp Chinaya se renderam, sendo que as autoridades desconhecem quantos foram feitos reféns.

 

Estes dois acontecimentos circunscrevem-se apenas nos últimos dias, mas, a verdade é que o Afeganistão continua a ser dilacerado quase diariamente pela violência taliban, mesmo depois de as forças nacionais terem assumido o comando militar das últimas regiões do país onde, até então, estavam os soldados internacionais. Estava-se em Junho de 2013 e um ano depois, o então Presidente Barack Obama retirava o grosso do contingente americano do Afeganistão, deixando apenas os tais nove mil soldados “conselheiros” no terreno. Chegava ao fim a presença internacional naquele país no âmbito da guerra declarada à al Qaeda e aos taliban, após os atentados de 11 de Setembro de 2001. No entanto, todos os aliados estavam cientes de que o fim da missão no Afeganistão não correspondia a qualquer sentimento de euforia. Pelo contrário, o conflito estava num impasse e se era verdade que o Governo central era agora pró-ocidental e “amigo”, o país permanecia a “ferro e fogo”, com os insurgentes a reconquistarem áreas significativas.

 

Quando Donald Trump chegou ao poder, não deixou de perceber essa evidente realidade, embora, primeiramente, a sua preocupação estivesse focada no Estado Islâmico (ISIS), tendo, por isso, lançado em Abril de 2017 a “mãe de todas as bombas” sobre um complexo de cavernas na província Nangarhar, no leste do Afeganistão. O objectivo não eram os taliban, mas sim os terroristas do ISIS, numa altura em que se falava que este grupo estava a ganhar espaço no Afeganistão e a concorrer directamente com os taliban pelo controlo e influência naquele país.

 

Os alarmes terão soado em Washington, mas rapidamente se percebeu que quem fazia valer a sua força no Afeganistão eram os taliban, como historicamente sempre tinha acontecido. Com o ISIS na mira, a Casa Branca tinha toda a estratégia focada para a Síria e Iraque, ficando o Afeganistão numa situação incerta, com Trump apenas a admitir que podia reforçar o número de soldados naquele país. Aliás, a 18 de Junho de 2017, o título de uma notícia do New York Times era revelador do desnorte face à estratégia a ser seguida: As US Adds Troops in Afghanistan, Trump’s Strategy Remains Undefined.

 

Trump não tem sido claro em relação ao Afeganistão, mas já disse que uma retirada total dependerá sempre das condições no terreno. Retirada, essa, que, para já, parece estar muito distante, já que Washington voltou a reforçar a sua presença militar no Afeganistão, intensificando o número de soldados americanos no terreno para dar “advise” às forças de segurança afegãs. Também os ataques aéreos norte-americanos aumentaram, especialmente contra as plantações de ópio, uma importante fonte de receita para os taliban. Convém sublinhar que, segundo o Office for Drugs and Crime’s das Nações Unidas (UNODC), a produção de ópio aumentou 87 por cento no ano passado. Um número impressionante, porque significa, por um lado, que a estratégia americana anti-narcóticos não está a resultar e, por outro, que os taliban vão tendo cada vez mais receitas para financiar a sua guerra.

 

Quem estiver atento às pequenas notícias que vão saindo na imprensa internacional, constatará que, dezassete anos depois do início da operação Enduring Freedom, não passa uma semana em que a insurreição taliban não faça mortes e feridos no Afeganistão. De acordo com os dados disponíveis, cerca de um terço do país está dominado pelos taliban, a produção de ópio aumenta e a corrupção está instalada no Governo central. Realisticamente, não há perspectivas de melhoria e muito menos um modelo que possa devolver estabilidade àquele país. Ironicamente, a última vez que o Afeganistão teve paz, era dominado pelos taliban do mullah Omar, onde a sharia imperava e um senhor chamado Osama bin Laden teve total liberdade para montar uma estrutura terrorista complexa e sofisticada.

 

Hoje, nenhum líder mundial o assume, mas o Afeganistão é uma causa perdida. Nada correu como se esperava e, numa determinada óptica, o país está pior do que, por exemplo, estava em 2000. É uma afirmação dura, mas é a realidade, que aliás se pode aplicar a outros países que foram alvo de intervenções militares desastrosas, como o Iraque, a Líbia ou a Síria. O Afeganistão é um assunto que convém ficar “esquecido” das agendas mediáticas e políticas, porque, simplesmente, não há solução à vista para resolver a trapalhada que ali foi feita. A revista The National Interest recuperava há semanas umas declarações de Obama, proferidas em 2010, onde este admitia que os EUA tanto podiam ficar no Afeganistão por mais cinco, oito ou dez anos, não por uma questão de estratégia, mas sim por “inércia”. 

 

É um impasse num conflito sangrento, destrutivo e dispendioso. Trump foi surpreendentemente lesto a percebê-lo e “adormeceu” o assunto, sem se comprometer com grandes medidas, mas ciente de que seria preciso fazer algo, nomeadamente, aquilo que nunca ninguém quis fazer… negociar com o inimigo. No dia 23 de Julho, no Qatar, uma alta responsável do Departamento de Estado esteve reunida com quatro líderes taliban. Foi o primeiro encontro entre as partes em sete anos. Também o Presidente afegão Ashraf Gani já percebeu o quadro todo, tendo no passado dia 27 de Junho publicado um artigo de opinião no New York Times onde, de forma peremptória e bem audível, dizia: “I Will Negotiate With Taliban Anywhere” (curiosamente, Mário Soares, animal político da escola realista, tinha há uns anos referido que qualquer solução minimamente credível para o Afeganistão teria que passar por uma negociação com os taliban. Na altura, não só não foi levado a sério, como chegou a ser gozado pelos “especialistas” e líderes da nossa praça).

 

Quase dezassete depois dos atentados de 11 de Setembro, o Afeganistão voltou a ser um país esquecido. Deixou de estar no topo das prioridades da comunidade internacional e da agenda mediática. Obama, antes, e Trump, agora, resignaram-se ao “status quo” afegão, de autêntico falhanço na destruição dos taliban e na reconstrução de um país dilacerado. Neste momento, num gesto de quase desespero, mas ao mesmo tempo de algum realismo, resta a possibilidade de negociar com o inimigo. E por isso é que é importante que o Afeganistão continue a ser um tema “esquecido”, porque a humilhação é pesada.  

 

Publicado originalmente no site do Público.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:03
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2018

Leituras

 

The Man Who Captures Criminals for the D.E.A By Playing Them é uma reportagem emocionante sobre uma "confidential source" que trabalhou durante muitos anos para a D.E.A. A história vem na The New Yorker e no seu site é ainda possível ver um vídeo com o jornalista a descrever os contornos de toda a trama.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 12:08
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Domingo, 5 de Agosto de 2018

Um Presidente em calções

 

Nos anos 70, o sociólogo e politólogo Roger-Gérard Schwartzenberg publicou um livro muito importante no campo da sociologia e da ciência política chamado "O Estado Espetáculo" (trad. brasileira). Nesse livro, que me foi apresentado há uns anos pelo já falecido professor João Bettencourt da Câmara numa das aulas de mestrado, e que devia ser lido por quem, muitas vezes, se pronuncia no alto da sua sabedoria sobre os fenómenos da comunicação política dos dias de hoje, Schwartzenberg alerta para os perigos da teatralização da acção dos actores políticos, tornando-se, em muitos casos, espectáculos de "one man show", onde o cidadão é um mero observador passivo perante o exercício de poder egoísta e interesseiro de quem o detém. Espectáculos circenses nos quais os políticos pouco virtuosos colocam os seus interesses pessoais e fúteis acima dos outros. Como escreveu Adriano Moreira, em Maio de 2016, numa das suas crónicas no DN, precisamente em relação a este livro de Schwartzenberg, todo este "espectáculo" montado pelo político é feito "sem grandes preocupações sobre manter a integridade da relação entre o proclamado e a ação do poder alcançado".

 

Este era um dos perigos para os quais Schwartzenberg alertava, ou seja, o do eterno problema da ausência de verticalidade na política e na falta de palavra dos seus intervenientes, entre a promessa e a concretização. Ora, analisando bem aquilo que o autor queria transmitir, problema não se coloca no facto de um político aparecer ou não em cima de uma tartaruga algures numa ilha paradisíaca do Índico ou de surgir em directos nas televisões a mergulhar numa praia fluvial no interior de Portugal. A questão, sim, que deve ser tida em conta, é se esse mesmo político se preocupa em “manter a integridade da relação entre o proclamado e a acção do poder alcançado”. Esse é o exercício que se deve fazer num âmbito de uma análise política e é o que se deve ter em consideração no escrutínio que um cidadão faz ao seu líder, esteja ele de fato e gravata ou em calções. É sempre importante relembrar que Winston Churchill só não governou deitado, porque não dava muito jeito, tendo sido apanhado em situações perfeitamente disparatadas, mesmo para aquela época, no entanto, penso que ninguém duvidará da sua convicção e no seu compromisso com a causa maior e com o seu povo. E é isso o mais importante, é isso que deve ser julgado pelos cidadãos, porque é isso que faz com um líder seja virtuoso, que contribua para o bem-estar das pessoas.

 

O Presidente Marcelo, à sua maneira, abdicou de parte das suas férias para fazer aquilo que achava que era o seu compromisso com as populações, sobretudo com aquelas que sofreram directamente tamanhas tragédias com os incêndios do ano passado. Dirão os críticos que o podia fazer sem o aparato mediático. Podia, mas não era a mesma coisa. Porque o objectivo também é chamar a atenção, sensibilizar, e aí, um bom político, utiliza as ferramentas que tem ao seu dispor para executar a sua visão, a sua estratégia. A diferença é se o faz em prol dos seus interesses e projectos pessoais de poder ou se, por outro lado, o faz a pensar nas pessoas.

 

Embora nem sempre tenha concordado com algumas opções e acções do Presidente, não tenho dúvidas de que Marcelo está de corpo e alma com estas gentes do interior. Basta vê-lo pessoalmente no local e percebe-se o seu envolvimento. Mas mais importante, é ver os olhos de felicidade e de conforto das pessoas do tal interior, historicamente sempre esquecido pelas elites de Lisboa. Marcelo não esqueceu o que tinha dito no ano passado depois da tragédia dos incêndios, de que iria passar férias na região, e isso é que é raro em política. Apelou também a outros políticos e aos portugueses para visitarem todos aqueles concelhos. Pois bem, o presidente cumpriu. E cumpriu genuinamente.

  

Marcelo, que ao longo da sua vida política nunca deixou de ser maquiavélico (no sentido científico da palavra) e alinhar em “jogos de bastidores”, parece ter deixado parte disso para trás quando alcançou o seu projecto de poder de uma vida, Belém. Um segundo mandato depende apenas de si. Com quase 70 anos, parece ser um homem em paz consigo próprio, que assumiu o registo presidencial virado para o povo, contrariando alguns vaticínios de caos e anarquia no Palácio de Belém. Marcelo é hoje um político que não precisa de qualquer reforço de reputação ou de notoriedade. Muito menos, precisaria de abdicar das suas férias no Algarve para executar uma manobra circense no interior do país de modo a subir nas sondagens. Pelo contrário, nunca nenhum político em Portugal foi tão acarinhado pelas pessoas e nunca teve sondagens tão favoráveis. 

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:06
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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2018

Leituras

 

Pela primeira vez, e quase dezassete anos depois dos atentados terroristas a Nova Iorque e a Washington, a mãe de Osama Bin Laden falou pela primeira vez sobre o seu filho. My son, Osama: the al-Qaeda leader's mother speaks for the first time é o testemunho directo de Alia Ghanem, na sua casa em Riade, ao jornalista Martin Chulov do The Guardian.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 17:06
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

Zimbabwe e Etiópia em mudança

 

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Crianças do Vale do Omo na Etiópia

 

Em termos políticos e sociais, África foi muitas vezes olhada como um “caso perdido”. Um Continente dilacerado pela corrupção e nepotismo, pelas doenças, pela seca, pela fome, pela violência étnica, pela exploração vil dos seus recursos naturais por parte das multinacionais e dos Estados desenvolvidos, pela violação constante dos Direitos Humanos mais fundamentais… Um Continente onde as histórias de evolução e sucesso são raras excepções e que, naturalmente, nunca podem ser analisadas à luz daquilo que são os padrões das sociedades desenvolvidas. Os eventuais “achievements” das nações africanas medem-se por uma escala diferente, na qual devem ser valorizados pequenos actos que, insignificantes para um qualquer país europeu, assumem um sinal de esperança para milhões de africanos que ao longo das suas vidas apenas têm sentido na pele as perversidades dos seus regimes.

 

É por isso importante notar neste dia em que se celebram as primeiras eleições pós-Robert Mugabe, o modo pacífico de como se processou a sua abdicação do poder, em Novembro último, após quase 40 anos de ter estado à frente da presidência do Zimbabwe. Até ao momento, esse processo de transição está a decorrer com uma admirável tranquilidade dentro daquilo que é o quadro dos sistemas políticos africanos. E em relação ao acto eleitoral, a BBC News sublinhava que, desta vez, se sentia um óptimismo no ar, sobretudo pela ausência de violência.

 

Para África, é uma história incomum ver um ditador ser afastado do poder, sem que isso se traduza em violência e sangue sobre as populações. Como também é pouco comum o que está a acontecer no Etiópia, com a chegada pacífica ao poder de um jovem que tem estado a implementar aceleradamente uma série de medidas e reformas, incluindo a libertação de presos políticos, a abertura do sistema político aos cidadãos, a liberalização da economia e a aceitação de um acordo de paz antigo com a Eritreia, país com o qual tinha um conflito fronteiriço há 20 anos.

 

Em poucos meses, Abiy Ahmed conseguiu dar um sinal de esperança aos etíopes que, durante anos, viveram sob um regime opressivo e violador dos Direitos Humanos. O novo primeiro-ministro, com 42 anos, parece encaixar-se naquele tipo de líder que devolve a esperança às pessoas, como o foi Barack Obama ou Emmanuel Macron. Para já, está a demonstrar no terreno que quer transformar a Etiópia e já anunciou que o caminho faz-se em direcção a uma verdadeira democracia multipartidária.

 

Pode ser que estas transições pacíficas no Zimbabwe e na Etiópia se venham a efectivar em casos de sucesso de mudanças de regime e que possam inspirar outras nações. Acima de tudo, é importante que os países europeus estejam atentos a estas realidades e ajudem a reforçar estes processos, porque, ao contrário das soluções de recurso que têm sido encontradas dentro do espaço europeu, é na origem que devem começar a ser resolvidos alguns dos problemas que impelem milhares de pessoas a procurarem uma melhor vida na Europa.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:08
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Segunda-feira, 23 de Julho de 2018

E se puder alterar geneticamente o seu futuro filho?

 

“Should we or shouldn't we be allowed to modify human DNA in future children?”

 

É com esta pergunta que a BBC News introduzia um artigo publicado há uns dias no seu site sobre as fronteiras morais e éticas ao exercício da engenharia genética na alteração de embriões humanos. No fundo, estamos a falar da edição do genoma humano para condicionar/alterar o ADN de uma futura criança, o que na prática significa que, pela primeira vez na história da Humanidade, um bebé poderia potencialmente nascer com características genéticas que não fossem fruto do livre arbítrio, mas da vontade dos seus progenitores. Ou seja, estaríamos perante um novo mundo, o tal mundo pós-Humano de que Francis Fukuyama e outros autores falaram, dando-se assim início a uma nova História. Uma história pós-Humana.

 

Acredito que esta problemática, com as suas diversas implicações éticas, políticas, sociais, morais e religiosas, será uma das questões mais fracturantes num futuro próximo e, por isso, me debrucei sobre o tema no livro “A Política e o Homem Pós-Humano”[1]. O livro acabou por ser a extensão da minha dissertação de mestrado em Ciência Política, coordenada por um dos mais ilustres sociólogos nacionais e internacionais, o já falecido Hermínio Martins (Maputo, 1934 – Oxford, 2015), que durante décadas se dedicou ao pensamento destas matérias. Praticamente um desconhecido em Portugal, gozava de uma reputação de excelência no estrangeiro, ao ponto de o The Independent escrever no seu obituário o seguinte: “The death of the Portuguese-British sociologist Hermínio Martins will be mourned by social scientists internationally, impressed by his extraordinary erudition and the subtlety of his irony.”

 

Hermínio Martins foi Professor Emérito do St. Anthony’s College, da Universidade de Oxford, onde desenvolveu parte da sua carreira, tendo anteriormente estudado com Karl Popper e Ernest Gellner e mais tarde trabalhado com nomes de referência da sociologia mundial, tais como John Rex, Talcott Parsons, Seymour Martin-Lipset ou David Riesman.

 

Motivado pelo estímulo intelectual do “mais filósofo dos cientistas sociais portugueses”, como escreveu António Guerreiro no PÚBLICO por altura da sua morte, comecei a compreender em toda a plenitude o alcance das repercussões futuras da bioengenharia e da biotecnologia nas sociedades vindouras. “Da reprodução de órgãos geneticamente iguais à possível criação de um ‘super-homem’, a sociedade encontra-se no centro de um debate que, embora ainda tímido nalguns Estados e até ausente noutros, ganha protagonismo na agenda política”.[2] Percebi também que “quando Francis Fukuyama falou no ‘Fim da História e no Último Homem’, apropriando-se de uma concepção determinista recorrente, admitiu mais tarde que a génese da destruição da sua tese se encontrava precisamente nas novas biotecnologias. A possibilidade de um ‘outro eu’, produto do Homem e não do livre arbítrio, faria emergir um mundo pós-humano, dando-se, assim, início a uma nova História”.[3]

 

É um possível cenário futuro sobre o qual devemos reflectir e estar atentos, até porque o passado tem demonstrado o princípio da inevitabilidade do progresso científico, não obstante a tentativa de forças conservadores se baterem pela manutenção do status quo em determinados períodos históricos de ruptura nos modelos de pensamento.

 

A notícia da BBC News aqui citada, que se junta a tantas outras, mas que para já não captam a atenção para os debates mais massificados, vem precisamente reforçar essa ideia, ao citar um estudo divulgado há dias pelo Nuffield Council on Bioethics, uma entidade independente britânica sobre políticas públicas no âmbito das questões éticas em biologia e medicina. Para aquele organismo, não há qualquer razão impeditiva para que a engenharia genética não possa ser aplicada nos embriões humanos, apesar das implicações para a sociedade serem “extensivas, profundas e a longo prazo”. É importante relembrar que no Reino Unido, à semelhança do que acontece noutros países, este tipo de investigação genética só é possível (quando o é) em embriões criados para fertilização in vitro que não foram utilizados, os chamados embriões excedentários. Nesse mesmo texto da BBC News fica evidente o confronto ideológico e ético das várias correntes, com os mais conservadores a criticarem aquilo que chamam de um “abrir portas” aos “designer babies” e os mais progressistas a enaltecerem as virtudes da ciência. É um debate que se tem feito desde há uns anos a esta parte, cada vez com mais intensidade sobretudo nos Estados Unidos.

 

Poderá não ser para um futuro muito próximo, mas “as novas biotecnologias poderão ainda fazer chegar o dia em que nascerá o primeiro ’homem’ feito à medida da vontade de um seu semelhante. Da cor dos olhos e do cabelo, ao valor do QI, passando pelo sexo da criança ou pelo nível de agressividade das suas emoções, tudo será possível manusear como se fosse uma encomenda por catálogo”.[4]

 

Uma problemática que há muitos anos Hermínio Martins explorou nos seus estudos e reflexões no âmbito da “civilização tecnológica e condição humana”, antecipando claramente o futuro ao considerar “que “as biotecnológicas não buscam meramente facultar melhoramentos cosméticos e mais próteses para organismos humanos e não humanos, mas criar novas formas de vida. De todas as tecnologias contemporâneas é talvez a biotecnologia a que tem uma vocação mais decisivamente ontológica. O seu horizonte inclui a criação de novas formas de vida orgânica como resultado de modificações genéticas, englobando transferências genéticas entre espécies e potencialmente o derrubar das fronteiras entre espécies biológicas naturais – enquanto a evolução tanto orgânica como inorgânica tinha sido na generalidade adversa a mesoformas e, na verdade, um princípio geral de instabilidade das mesoformas foi enunciado por muitos filósofos naturais tais como Fraser (1982). As formas de vida artificiais iludem as fronteiras naturais e os limites da evolução biológica ‘normal’”.[5]

 

Pela primeira vez na sua História, o Homem detém tecnologia que poderá ter consequências “na definição e na concepção/adulteração do Homem biológico, tal e qual o conhecemos há milhares de anos, e, consequentemente, na forma de como a Humanidade olhará para ela própria. As novas biotecnologias abrem assim uma imensa porta para admiráveis mundos novos, que permitem vislumbrar sociedades mais próximas da utopia, onde as pessoas podem viver para lá dos 110 anos, auto-regenerando-se com os seus próprios órgãos geneticamente compatíveis, desafiando as leis naturais que têm imperado até hoje: a ausência de qualquer flagelo degenerativo ou a erradicação da dor e da doença. Tal modelo de sociedade será, à primeira vista, o procurado por todas as pessoas de bom senso, sobretudo quando nos dias que correm tantos desafios há a vencer, mas como as utopias positivas e negativas têm revelado através do trabalho intelectual de muitos autores, a busca da perfeição pressupõe quase sempre alterações drásticas de comportamentos sociais e humanos”.[6]

 

A pergunta com que iniciámos este texto deve merecer uma reflexão séria, porque algo de novo se começa a vislumbrar no percurso da Humanidade, já que estão a ser criadas condições para a ruptura entre os mundos Humano e pós-Humano.

 

[1] GUERRA, Alexandre – A Política e o Homem Pós-Humano, com prefácio do Viriato Soromenho-Marques e texto de contra capa de José Manuel Durão Barroso (Lisboa: Alêtheia, Novembro de 2016)

[2] Idem. pág. 16

[3] Idem, ibidem

[4] Idem, pág. 174

[5] MARTINS, Hermínio – Experimentum Humanum (Lisboa: Relógio D’Agua, Maio de 2011), pág.28 págs. 165 e 166

[6] Ob. Cit. – A Política e o Homem Pós-Humano, pág. 173

 

Publicado originalmente no Observador

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:42
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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

Em dia de Nelson Mandela, o Diplomata relembra o hino "I Wonder"

 

 

No dia em que Nelson Mandela faria 100 anos, nunca é demais relembrar "I Wonder", que se transformou num hino para milhões de sul-africanos, que viram nas suas letras um autêntico grito de revolta contra o apartheid. O aclamado documentário "À Procura de Sugar Man" de 2013 foi à descoberta do seu autor, Rodriguez, um obscuro músico de ascendência mexicana da década de 70, totalmente desconhecido nos Estados Unidos, onde permaneceu "desaparecido" durante longos anos (tendo sido mesmo dado como morto), mas que, por circunstâncias extraordinárias, teve uma forte influência cultural e social no movimento de emancipação e de contra-corrente ao regime de apartheid que se vivia na África do Sul.

  

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:48
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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